A INSUSTENTVEL LEVEZA DO SER


MIlan KunDERa

MIlan KunDERa nasceu em 1929 em Brno, na
Checoslovquia. Em 1975, fixou residncia em
Paris, tendo entretanto adoptado a nacionalidade
francesa. Toda a sua obra ficcional (A
Insustentvel Leveza do Ser, A Brincadeira, A
Valsa do Adeus, A Vida >zo  Aqui e a
Imortalidade), bem como o ensaio A Arte do
Romance, se encontram editados em Portugal.
Principais prmios que obteve: Prmio da Unio
dos Escritores Checoslovacos (1968); Prmio
Mdicis (1973); Prmio Mondello (1978); Prmio
Commonwealth (1981); Prmio Literrio
Americano do Los Angeles Times (1984); Prmio
Jerusalm (1985).

PRIMEIRA PARTE

O PESO E A LEVEZA

  O eterno retorno  uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com
ela, conseguiu dificultar a vida a no poucos filsofos: pensar que,
um dia, tudo o que se viveu se h-de repetir outra vez e que essa
repetio se h-de repetir ainda uma e outra vez, at ao infinito!
Que significado ter este mito insensato?
  O mito do eterno retorno diz-nos, pela negativa, que esta vida,
que h-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais
voltar,  semelhante a uma sombra,  desprovida de peso, que, de
hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por
muito atroz, por muito bela, por muito esplndida que seja, essa
beleza, esse horror, esse esplendor no tm qualquer sentido. No
vale mais do que uma guerra qualquer do sculo xIv entre dois
reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros
entre suplcios indescritveis.
  Mas algo se alterar nessa guerra do sculo xIv entre dois reinos
africanos se, no eterno retorno, se vier a repetir um nmero incalculvel de 
vezes?
  Sem dvida que sim: passar a erguer-se como um bloco perdurvel cuja 
estupidez no ter remisso.
  Se a Revoluo Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa 
orgulhar-se-ia com certeza menos do seu Robespierre.
Mas, como se refere a algo que nunca mais voltar, esses anos sangrentos 
reduzem-se hoje apenas a palavras, teorias, discusses, mais
leves do que penas, algo que j no aterroriza ningum. H uma
enorme diferena entre um Robespierre que apareceu uma nica vez
na histria e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a
cabea aos franceses.
  Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma
perspectiva em que as coisas no nos aparecem como  costume,
porque nos aparecem sem a circunstncia atenuante da sua fugacidade. Essa 
circunstncia atenuante impede-nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. 
Poder condenar-se o que  efmero? As nuvens
alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia;
mesmo a guilhotina.

  No h muito, eu prprio me defrontei com o facto: parece incrvel mas, ao 
folhear um livro sobre Hitler, comovi-me com algumas das suas fotografias; 
faziam-me lembrar a minha infncia passada durante  guerra; diversas pessoas da 
minha famlia morreram
nos campos de concentrao dos nazis; mas o que eram essas mortes
comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um
tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais h-de
voltar?
  Esta minha reconciliao com Hitler deixa entrever a profunda
perverso inerente a ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistncia de 
retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo , 
portanto, cinicamente permitido.

2

  Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um nmero
infinito de vezes, ficamos pregados  eternidade como Jesus Cristo 
cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos
tm o peso de uma insustentvel responsabilidade. Era o que fazia
Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno  o fardo mais pesado
(das schwerste Gewicht).
  Se o eterno retorno  o fardo mais pesado, ento, sobre tal pano
de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplndida leveza.
  Mas, na verdade, ser o peso atroz e a leveza bela?
  O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na 
poesia amorosa de todos os sculos, a mulher
sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o
fardo mais pesado  tambm, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de 
realizao de uma vida. Quanto mais pesado
for o fardo, mais prxima da terra se encontra a nossa vida e mais
real e verdadeira .
  Em contrapartida, a ausncia total de fardo faz com que o ser
humano se torne mais leve do que o ar, f-lo voar, afastar-se da
terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos to
livres quanto insignificantes.
  Que escolher, ento? O peso ou a leveza?
  Foi a questo com que se debateu Parmnides, no sculo VI antes de Cristo. 
Para ele, o universo estava dividido em pares de contrrios: luz-sombra; 
espesso-fino; quente-frio; ser-no ser. Considerava que um dos plos da 
contradio era positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. 
Esta diviso em plos positivos e negativos pode parecer de uma facilidade 
pueril. Excepto num caso: o que  positivo: o peso ou a leveza?
  Parmnides respondia que o leve  positivo e o pesado, negativo.
Tinha razo ou no? O problema  esse. Mas uma coisa  certa: a
contradio pesado-leve  a mais misteriosa e ambgua de todas as
contradies.

3

  H vrios anos que ando a pensar em Tomas, mas s  luz
destas reflexes  que o vi pela primeira vez com toda a nitidez.
Vejo-o de p, a uma janela da sua casa, a olhar fixamente para o
prdio em frente do outro lado do ptio. Sem saber o que fazer.
  Conhecera Tereza mais ou menos h trs semanas numa cidadezinha da Bomia. S 
tinham passado pouco mais de uma hora
juntos. Ela acompanhara-o  estao e tinha esperado at ele entrar
no comboio. Dez dias mais tarde, veio v-lo a Praga. Fizeram amor
logo no prprio dia da sua chegada. Durante a noite, Tereza ficou
cheia de febre e passou uma semana inteira com gripe em casa dele.

  Sentiu ento um amor inexplicvel por essa rapariga que mal
conhecia. Parecia-lhe uma criana que algum pusera numa cesta
untada com pez e abandonara s guas de um rio para ele recolher
na margem da sua cama.
  Ficou uma semana em casa dele e, depois, uma vez curada,
voltou para a cidade onde morava, a duzentos quilmetros de Praga.
E  aqui que se situa o momento de que falei h pouco e onde vejo
a chave da vida de Tomas: est de p  janela a olhar fixamente
para o prdio em frente do outro lado do ptio, e reflecte:
  Deve-lhe propor que venha instalar-se em Praga?  uma responsabilidade que o 
apavora. Se a convida agora a vir passar uns dias a
sua casa, ela vir imediatamente oferecer-lhe a vida inteira.
  Ou deve renunciar? Nesse caso, Tereza continuar a ser criada
numa cervejaria daquele buraco de provncia e nunca mais a ver.
  Quer que ela venha ter consigo ou no?
  Olha para o ptio, tem os olhos fixos no prdio em frente e
procura uma resposta.
  Volta, ainda e sempre,  imagem daquela mulher deitada no
seu div; nunca conhecera ningum assim. No era nem uma
amante nem uma esposa. Era uma criana que tirara de uma cesta
untada com pez e que poisara na margem da sua cama. Ela adormecera. Ajoelhou-se 
ao seu lado. O hlito febril acelerou-se e ouviu um leve gemido. Encostou o 
rosto ao dela e soprou algumas
palavras de repouso para dentro do seu sono. Um instante depois,
pareceu-lhe que a respirao de Tereza se acalmava e que o seu
rosto se levantava maquinalmente em direco ao dele. Cheirava-lhe nos lbios o 
cheiro um pouco acre da febre e aspirava-o como
se se quisesse impregnar da intimidade do seu corpo. Ps-se ento
a pensar que Tereza j l morava em casa h muitos anos e que
estava moribunda. De repente, tornou-se-lhe evidente que no
sobreviveria  sua morte. Deitar-se-ia a seu lado para morrer
tambm. Escondeu o rosto contra o dela na almofada e assim ficou
por longo tempo.
  Neste momento, est de p  janela e invoca esse instante.
O que seria que assim se dava a conhecer seno o amor?
  Mas o amor era isso? Tinha-se convencido de que queria morrer
ao lado dela, e este sentimento era manifestamente excessivo: se era
s a segunda vez que a via! No seria antes a reaco histrica de
um homem que, ao aperceber-se, no seu foro ntimo, da sua incapacidade para 
amar, comeava a representar para si prprio a comdia
do amor? Ao mesmo tempo, o seu subconsciente era de tal modo
cobarde que escolhia para essa comdia uma pobre criada de provncia que no 
tinha praticamente hiptese nenhuma de entrar na
sua vida!
  Olhava para as paredes sujas do ptio e percebia que no sabia
se aquilo era histeria ou amor.
  E, numa situao em que qualquer homem a srio saberia
imediatamente como agir, censurava-se intimamente por hesitar e
por assim privar o momento mais belo da sua vida (ajoelhado 
cabeceira da rapariga, convencido de que no sobreviveria  sua
morte) de todo e qualquer significado.
  Censurava-se intimamente, mas acabou por pensar que, no
fundo, no se saber o que se deve querer  normal:
  Nunca se pode saber o que se deve querer porque s se tem
uma vida que no pode ser comparada com vidas anteriores nem
rectificada em vidas posteriores.
   melhor ficar com Tereza ou ficar sozinho?
  No h forma nenhuma de se verificar qual das decises 

melhor porque no h comparao possvel. Tudo se vive imediatamente pela 
primeira vez sem preparao. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter 
ensaiado. Mas o que vale a vida se o
primeiro ensaio da vida j  a prpria vida?  o que faz com que a
vida parea sempre um esquisso. Mas nem mesmo ?esquisso??  a
palavra certa, porque um esquisso  sempre o esboo de alguma
coisa, a preparao de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa
vida , no  esquisso de nada,  um esboo sem quadro.
  Tomas repete em silncio o provrbio alemo, einmal isr keinmal,
uma vez no conta, uma vez  nunca. No poder viver seno uma
vida  pura e simplesmente como no viver.

4

  Um dia, porm, num intervalo entre duas operaes, uma enfermeira chamou-o ao 
telefone. Era Tereza. Estava a telefonar-lhe da
estao. Ficou contente. Infelizmente, tinha um compromisso para
essa noite e s no dia seguinte  que podia estar com ela. Mal
desligou, arrependeu-se de no lhe ter dito para vir imediatamente.
Ainda estava a tempo de desmarcar o outro encontro! Ficou a
pensar no que faria Tereza durante as longas trinta e seis horas que
faltavam at estarem um com o outro e s tinha vontade de pegar
no automvel e de pr-se  procura dela pelas ruas da cidade.
  Tereza apareceu no dia seguinte  noite. Trazia uma carteira
presa a tiracolo com uma fita muito comprida e achou-a mais elegante do que da 
ltima vez. Tinha um livro na mo. Ana Karenina
de Tolstoi. Falava com jovialidade, talvez mesmo um pouco alto de
mais e esforava-se por mostrar que tinha vindo perfeitamente por
acaso, devido a uma circunstncia precisa: viera a Praga por motivos
profissionais, talvez (dizia-o de uma forma muito vaga)  procura de
outro emprego.
  Em seguida, encontraram-se, nus e cansados, deitados lado a lado no div. J 
era de noite. Perguntou-lhe onde  que estava
porque podia lev-la de carro. Com um ar aflito, Tereza respondeu
que ia procurar um hotel e que deixara a mala depositada na estao.
  Ainda na vspera receava que, se a convidasse a vir a Praga, ela
viesse oferecer-lhe a vida inteira. Agora, ao ouvi-la dizer que a mala
estava depositada na estao, pensou que Tereza metera a vida
nessa mala e que a tinha deixado depositada na estao antes de lha
oferecer.

  Entrou com ela para o carro, estacionado  frente do prdio, foi
 estao, levantou a mala (que era grande e pesadssima) e levou-a
para casa juntamente com Tereza.
  Como conseguiu decidir-se to depressa, depois de ter hesitado
durante quase quinze dias sem lhe dar o mais pequeno sinal de vida?
  O prprio Tomas se sentia admirado. Estava a ir contra todos os
seus princpios. H dez anos, quando se divorciara da primeira
mulher, tinha vivido o divrcio com a mesma euforia com que outros celebram o 
casamento. Compreendera nessa altura que no fora
feito para viver com uma mulher, fosse ela qual fosse, e que s
poderia ser verdadeiramente ele prprio se vivesse sozinho. Assim,
protegia a sua vida at ao mais nfimo pormenor para que nenhuma
mulher munida de uma mala pudesse um dia vir instalar-se em sua
casa. Era por isso que s tinha um div. Embora o div fosse
bastante largo, dizia sempre s amigas que era incapaz de adormecer
ao lado de outra pessoa e, depois da meia-noite, levava-as sempre a
casa. Alis, da primeira vez, quando Tereza l ficou em casa com

gripe, no dormiu com ela. Passou a primeira noite num sof e, nas
seguintes, dormiu no consultrio do hospital onde tinha uma chaise
longue para quando estava de servio.
  Desta vez, porm, adormeceu ao lado dela. De manh, ao acordar, constatou que 
Tereza, ainda a dormir, lhe agarrava na mo.
Teriam dormido toda a noite de mo dada? Custava-lhe a acreditar.
Com uma respirao muito funda, Tereza continuava a dormir, sempre agarrada  
sua mo (com tanta fora que no conseguia
desprender-se). Ao lado da cama, a pesadssima mala.
  No se atrevia a tirar a mo com medo de a acordar. Com mil
cautelas, voltou-se de lado para poder observ-la melhor.
  Mais uma vez, pensou que Tereza era uma criana que algum
pusera numa cesta untada com pez e abandonara s guas do rio.
Pode l deixar-se  deriva das guas furiosas de um rio a cesta onde
se abriga uma criana? Se a filha do fara no tivesse retirado das
guas a cesta de Moiss, nem o Antigo Testamento nem a nossa
civilizao existiriam! No comeo de inmeros mitos antigos, h
sempre algum que salva uma criana abandonada. Se Polbio no
tivesse recolhido dipo, Sfocles no teria escrito a sua tragdia
mais bela!
  Tomas ainda no sabia que as metforas so uma coisa perigosa.
Com as metforas no se brinca. O amor pode nascer de uma nica
metfora.

5

  Vivera pouco mais de dois anos com a primeira mulher. Tinham
tido um filho. O juiz confiou a criana  me e condenou Tomas a
dar-lhes um tero do ordenado. Ao mesmo tempo, concedeu-lhe o
direito de ver o filho duas vezes por ms.
  Mas sempre que o ia ver, a me adiava o encontro. Com certeza
que se lhes tivesse comprado prendas caras, teria podido v-lo com
mais facilidade. Percebeu que tinha de pagar o amor do filho  me,
e pag-lo antecipadamente. Via-se mais tarde a querer ingenuamente inculcar no 
filho as suas ideias, diametralmente opostas s da
me. S de pensar nisso, ficava cansado. Num domingo em que,
como de costume, a me desmarcara o encontro  ltima da hora,
decidiu nunca mais ver o filho em dias da sua vida.
   evidente que ningum estava preparado para aceitar tal raciocnio. Os seus 
prprios pais condenaram a atitude que tomara e
declararam que se Tomas no se interessava pelo filho, tambm
eles, pais de Tomas, deixariam de interessar-se pelo seu. Continuaram portanto a 
manter com a nora relaes de uma ostensiva cordialidade, gabando-se a amigos e 
conhecidos da sua atitude exemplar e do seu alto sentido de justia.
  Num curto espao de tempo, conseguiu, portanto, desembaraar-se de uma mulher, 
de um filho, de uma me e de um pai. S lhe ficara
o medo das mulheres. Desejava-as, mas elas atemorizavam-no. Entre o
medo e o desejo, arranjara um compromisso; era aquilo a que chamava
amizade ertica. Dizia peremptoriamente s amantes: s uma relao expurgada de 
todo e qualquer sentimentalismo, s uma relao em
que nenhum dos parceiros se arrogue qualquer direito especial sobre a
vida e a liberdade do outro, pode faz-los felizes a ambos.

  Para se assegurar de que a amizade ertica nunca se deixaria
vencer pela agressividade do amor, espaava intencionalmente os encontros com as 
suas amantes permanentes. Tinha o mtodo por
perfeito e costumava apontar-lhe as vantagens, dizendo aos amigos:

  H que observar a regra dos trs. A mesma mulher, num espao
de tempo muito curto, nunca mais de trs vezes. Anos e anos, s se
deixarmos passar pelo menos trs semanas entre cada encontro.??
  Este sistema dava-lhe a possibilidade de nunca romper com as
amantes e de t-las em abundncia. Nem sempre era bem entendido. De todas as 
suas amigas, quem o entendia melhor era Sabina,
uma pintora. Esta dizia-lhe:   Gosto muito de ti porque s precisamente o 
contrrio do kitsch. No reino de kitsch, tu eras um monstro.
Num filme americano ou num filme russo nunca passarias de um caso
repugnante. ??
  Foi portanto a Sabina que pediu ajuda para arranjar trabalho em
Praga para Tereza. Como exigiam as regras no escritas da amizade
ertica, Sabina prometeu-lhe fazer o melhor que pudesse e, efectivamente, no 
tardou a descobrir um lugar no laboratrio de fotografia
de um semanrio. Era um trabalho que no exigia qualquer espcie
de qualificao mas, de qualquer forma, Tereza abandonava a cervejaria para se 
integrar na corporao do pessoal da imprensa. A prpria Sabina foi, em pessoa, 
apresent-la  redaco e Tomas ficou a
pensar que nunca tivera melhor amiga.

6

  A conveno no escrita da amizade ertica implicava que Tomas exclusse o 
amor da sua vida. Se transgredisse esta condio, as
suas outras amantes, a partir da numa posio subalterna, revoltar-se-iam 
imediatamente.
  Arranjou portanto um quarto para onde Tereza teve de levar a
sua pesadssima mala. Queria tomar conta dela, proteg-la, gozar a
sua presena, mas no sentia necessidade nenhuma de mudar de vida. Por isso no 
queria que se soubesse que ela dormia em sua casa.
A partilha do sono era o corpo de delito do amor.
  Com as outras mulheres nunca dormia. Quando ia a casa delas,
era fcil, porque podia sair quando lhe apetecia. O caso era mais
delicado quando eram elas que vinham a sua casa e lhes explicava
que, depois da meia-noite, tinha de lev-las porque sofria de insnias e no 
conseguia dormir ao lado de outra pessoa. Esta explicao no andava longe da 
verdade, mas a razo principal era menos
nobre e Tomas no se atrevia a confessar s companheiras que, nos
momentos que se seguem ao amor, sentia um desejo imperioso de
ficar sozinho. Era-lhe profundamente desagradvel acordar a meio
da noite ao lado de uma criatura estranha; o despertar matinal do
casal causava-lhe repugnncia; no tinha vontade nenhuma que o
ouvissem a lavar os dentes na casa de banho e a intimidade do
pequeno-almoo a dois no lhe dizia nada.
  Qual no foi, pois, a sua surpresa quando, ao acordar, percebeu
que Tereza lhe agarrava a mo com toda a fora! Olhava para ela
sem conseguir perceber o que lhe tinha acontecido. Recordando as
ltimas horas, parecia-lhe que se desprendia delas o perfume de
uma felicidade desconhecida.
  A partir de ento, ambos sentiam antecipadamente um grande
prazer na partilha do sono. Sinto-me quase tentado a dizer que o
que procuravam no acto sexual no era a volpia mas o sono que se
lhe segue. ?Sobretudo Tereza no podia dormir sem Tomas. Se ficava
sozinha no estdio (que era cada vez mais um mero libi), no
conseguia pregar olho toda a noite. Mesmo presa da maior agitao,
nos braos dele, a calma acabava sempre por chegar. Tomas contava-lhe em voz 
baixa contos que inventava s para ela, pequenos
nadas, coisas tranquilizantes ou divertidas que ia repetindo num tom

monocrdico. Na cabea de Tereza as palavras transmutavam-se em
vises confusas que a transportavam ao primeiro sonho. Tomas tinha
um poder absoluto sobre o seu sono e Tereza adormecia sempre no
exacto segundo que ele escolhera para isso.
  Quando estavam a dormir, ela agarrava-o como na primeira noite: segurava-lhe 
com toda a fora no pulso, num dedo ou no tornozelo. Quando Tomas queria 
afastar-se sem que ela acordasse, tinha
de valer-se de uma artimanha. Desprendia o dedo (o pulso, o tornozelo), o que a 
fazia ficar meio acordada porque mesmo a dormir o
vigiava atentamente. Para a acalmar, em vez do pulso, metia-lhe na
mo um objecto qualquer (um pijama enrolado, uma pantufa, um
livro) que ela passava a segurar com toda a fora como se fosse
uma parte do seu corpo.
  Uma noite, acabara de a adormecer e Tereza encontrava-se naquela antecmara do 
primeiro sono de onde ainda lhe podia dar
resposta. Disse-lhe: ?? Bom! Agora vou-me embora. - Para onde?,
perguntou ela. - Vou sair, respondeu com uma voz severa. - Vou
contigo!, disse ela, pondo-se de p em cima da cama. - No, eu no
quero. Vou-me embora e nunca mais volto??, disse ele, saindo do
quarto e passando para a entrada. 'Tereza levantou-se e seguiu-o at
 entrada com os olhos a piscar. S tinha vestida uma camisa muito
curta. Tinha o rosto imvel, sem expresso, mas o corpo movimentava-se 
energicamente. Saiu de casa e fechou-lhe a porta na cara. Tereza abriu-a com um 
gesto brusco e seguiu-o, ainda meio a dormir,
convencida que Tomas queria ir-se embora para no voltar e que
tinha de ret-lo. Desceu um andar, parou no patamar e esperou por
ela. Tereza foi ter com ele, agarrou-o pela mo e levou-o para a
cama, para o p dela.
  Tomas pensava consigo prprio que ir para a cama com uma
mulher e dormir com ela so duas paixes no s diferentes como
quase contraditrias. O amor no se manifesta atravs do desejo de
fazer amor (desejo que se aplica a um nmero incontvel de mulheres), mas 
atravs do desejo de partilhar o sono (desejo que s se
sente por uma nica mulher).

7

  A meio da noite, Tereza comeou a gemer. Tomas acordou-a,
mas, ao ver a sua cara, ela disse com dio: ?Vai-te embora! Vai-te
embora!? Depois, contou-lhe o sonho que tivera: Estavam ambos
algures com Sabina. Num quarto enorme. Havia uma cama no meio,
s parecia o palco de um teatro. Tomas mandou-a ficar num canto e
ps-se a fazer amor com Sabina  frente dela. Ela olhava e o espectculo 
causava-lhe um sofrimento insuportvel. Para abafar a dor da
alma com a dor fsica, ps-se a enfiar agulhas por baixo das unhas.
?<Doa-me horrivelmente!??, disse, com os punhos fechados como se
realmente tivesse as mos magoadas.
  Abraou-a e assim, muito devagar (porque Tereza no parava de
tremer), ela voltou a adormecer.
  No dia seguinte, ao pensar no sonho, lembrou-se de uma coisa.
Abriu a secretria e tirou um mao de cartas de Sabina. Pouco depois, deparou 
com a seguinte passagem: "?Queria fazer amor contigo
no meu atelier como se fosse o palco de um teatro. Estaria gente em
toda a volta e ningum teria o direito de se aproximar. Mas no
conseguiriam despregar os olhos de ns...?
  O pior era que a carta tinha data. Era uma carta recente, escrita
numa altura em que Tereza vivia com Tomas j h bastante tempo.
  Ralhou-lhe: ?Andaste a vasculhar nas minhas cartas!??

  Sem procurar desmenti-lo, ela disse: ??Pois andei! Ento porque
 que no me pes na rua???
  Mas Tomas no a ps na rua. Via-a era a enfiar as agulhas debaixo das unhas, 
encostada  parede do atelier de Sabina. Pegou-lhe
nos dedos, fez-lhes festas, levou-os aos lbios e beijou-os como se
tivessem marcas de sangue.

  A partir desse momento, tudo parecia conspirar contra ele. No
se passava praticamente um dia sem que lhe chegasse mais uma novidade sobre os 
seus amores clandestinos.
  Primeiro, negava tudo. Quando as provas eram evidentes de mais,
tentava demonstrar que no havia contradio nenhuma entre a sua
vida de polgamo e o seu amor por ela. No era nada coerente:
umas vezes, negava as infidelidades, outras, justificava-as.
  Um dia, estava a marcar um encontro pelo telefone com uma
amiga e quando desligou pareceu-lhe ouvir um barulho esquisito na
outra diviso, o barulho de dentes a bater.
  Tereza viera a casa por acaso e ele no dera por isso. Tinha um
frasco de calmante na mo e, como estava a beber pelo gargalo e a
mo lhe tremia, o vidro batia-lhe contra os dentes.
  Correu para ela como se fosse salv-la de morrer afogada.
O frasco de valeriana caiu, fazendo uma grande ndoa na carpete.
Tereza debatia-se, queria escapar-lhe. Teve de mant-la durante um
quarto de hora numa espcie de colete-de-foras at que se acalmou.
  Sabia que se encontrava numa situao injustificvel porque baseada numa 
desigualdade absoluta.
  Muito antes de Tereza ter descoberto a sua correspondncia com
Sabina, tinham ido a um cabar com alguns amigos festejar o novo
emprego de Tereza. Deixara o laboratrio de fotografia porque a
revista a aceitara como fotgrafa: Como Tomas no gostava de
danar, um dos seus colegas mais novos do hospital convidara Tereza. Deslizavam 
ambos sobre a pista e Tereza estava mais bonita do
que nunca. Estupefacto, via com que preciso e com que docilidade
ela adivinhava uma fraco de segundo antes a vontade do seu par.
Tal forma de danar parecia proclamar que a sua devoo, aquele seu
ardente desejo de fazer o que lhe lia nos olhos, no estava necessariamente 
ligado  pessoa de Tomas e que podia perfeitamente ter respondido ao apelo de 
outro homem qualquer que lhe tivesse aparecido em
seu lugar. Nada mais fcil do que imaginar Tereza e o seu jovem
colega como amantes. Era mesmo a facilidade com que o imaginava
que mais o feria. O corpo de Tereza era perfeitamente imaginvel
unido a qualquer outro corpo masculino. A ideia p-lo maldisposto.
Noite dentro, quando voltaram, confessou-lhe que tinha cimes.
  Estes cimes absurdos, causados por uma possibilidade absolutamente terica, 
eram a prova de que a fidelidade dela era para ele um
princpio intangvel. Como censur-la ento por ter cimes das suas
amantes mais do que reais?

8

  De dia esforava-se (mas, de facto, no conseguia) por acreditar
no que Tomas dizia e por mostrar-se alegre como sempre fora. Mas
os cimes, contidos durante o dia, manifestavam-se ainda mais violentamente nos 
sonhos que tinha e que acabavam sempre num gemido que Tomas s conseguia 
interromper se a acordasse.
  Os sonhos repetiam-se como temas com variaes ou como episdios de uma 
telenovela. Sonhava, por exemplo, muitas vezes, com
gatos a saltarem-lhe para a cara e a cravarem-lhe as garras na pele. Na

verdade, este sonho tem uma explicao bvia:  que em calo checo,
quando se quer falar de uma rapariga jeitosa, diz-se   gato??. Tereza
sentia-se ameaada pelas mulheres, por todas as mulheres. Todas as
mulheres eram amantes potenciais de Tomas e ela tinha medo delas.
  Nu?n outro ciclo de sonhos, era condenada  morte. Numa noite
em que acordara a gritar de terror, contou-lhe o seguinte sonho:
"Havia uma grande piscina coberta. ramos mais ou menos vinte.
S mulheres. Estvamos todas completamente nuas e tnhamos de
marchar a passo  volta da gua. Havia uma cesta pendurada no
tecto e estava um homem l dentro. Tinha um chapu de abas
largas que lhe escondiam a cara, mas eu sabia que eras tu. Davas-nos ordens. 
Gritavas. Tnhamos que desfilar a cantar e a flectir os
joelhos. Quando uma das mulheres no fazia bem a flexo, tu disparavas a pistola 
e ela caa morta na gua. Nesse momento, as outras
desatavam todas a rir e punham-se a cantar ainda mais alto. E tu,
tu no tiravas os olhos de ns; se alguma fazia um movimento de
travs, abatia-la imediatamente. A gua estava cheia de cadveres a
flutuar. E eu, eu sabia que j no tinha foras para fazer a flexo
seguinte e que tu me ias matar! ??

  O terceiro ciclo de sonhos contava o que lhe acontecia depois de
morrer.
  Estava deitada num carro funerrio to grande como um camio
de mudanas.  sua volta, s cadveres de mulheres. Havia tantos
que era preciso deixar a porta de trs aberta e algumas pernas de
fora.
  Tereza ps-se a gritar: ??Olhem para mim! Eu no estou morta!
Ainda sinto tudo!
  - Tambm ns sentimos tudo??, diziam os cadveres, entre risinhos.
  Tinham exactamente a mesma maneira de rir que as mulheres
vivas que dantes se divertiam a dizer-lhe que era perfeitamente
normal que um dia tambm tivesse os dentes estragados, doenas
nos ovrios e rugas, visto que elas tambm tinham os dentes estragados, doenas 
nos ovrios e rugas. E agora, com o mesmo riso,
explicavam-lhe que estava morta e que isso era a ordem natural das
coisas!
  De repente, teve vontade de fazer chichi. Gritou: "Mas se eu
tenho vontade de fazer chichi! Isso  a prova de que no estou
morta! ??
  Desataram outra vez a rir s gargalhadas: ?"Ter vontade de fazer
chichi  normal! Ainda vais sentir tudo durante muito tempo.  como
as pessoas a quem amputaram uma mo e que ainda a sentem muito
tempo depois. Ns, ns j no temos urina mas continuamos a ter
vontade de mijar.??
  Deitada na cama, Tereza chegava-se para junto de Tomas, dizendo: ?"E 
tratavam-me todas por tu, como se me conhecessem desde
sempre, como se fossem minhas amigas, e eu tinha medo de ser
obrigada a ficar com elas para sempre!??

9

  Em todas as lnguas derivadas do latim, a palavra compaixo
forma-se com o prefixo   com?? e a raiz   passio?? que, na sua origem,
significa sofrimento. Noutras lnguas, como, por exemplo, em checo,
em polaco, em alemo, em sueco, a palavra traduz-se por um
substantivo formado por um prefixo equivalente seguido da palavra
  sentimento?? (em checo: sou-cir: em polaco: wspol-czucie: em alemo:
Mit-gefhl: em sueco: med-knsla).

  Nas lnguas derivadas do latim, a palavra compaixo significa que
ningum pode ficar indiferente ao sofrimento de outrem; ou, de outra maneira: 
sente-se sempre simpatia por quem sofre. Outra palavra que tem mais ou menos o 
mesmo sentido, e que  piedade (em
ingls pitv, em italiano pier, etc.), chega at a sugerir uma espcie
de indulgncia para com o ser que sofre. Ter piedade de uma
mulher  sermos mais favorecidos do que ela,  inclinarmo-nos, baixarmo-nos at 
ela.
  Por isso  que a palavra compaixo inspira geralmente uma certa
desconfiana; designa um sentimento considerado como de segunda
ordem e que no tem grande coisa a ver com o amor. Amar algum
por compaixo  de facto no amar essa pessoa.
  Nas lnguas em que a palavra compaixo no se forma com a
raiz   passio = sofrimento?? mas com o substantivo   sentimento??, a
palavra  empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode 
dizer que designa um sentimento mau ou medocre.
A fora secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz
e d-lhe um sentido mais lato: ter compaixo (co-sentimento)  poder viver com o 
outro no s a sua infelicidade mas sentir tambm
todos os seus outros sentimentos: alegria, angstia, felicidade, dor.

Esta compaixo (no sentido de soucit, wspolrzurie, Mitgefhl, medknsla) 
designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginao afectiva, ou seja, a 
arte da telepatia das emoes. Na hierarquia dos sentimentos,  o sentimento 
supremo.
  Sonhando que estava a enfiar agulhas por baixo das unhas, Tereza traa-se a si 
prpria porque revelava a Tomas que mexia s escondidas nas suas gavetas. Se 
fosse outra mulher, nunca mais lhe
dirigiria palavra. Consciente disso, Tereza dissera-lhe:   Pe-me na
rua!?? Ora, ele no s no a tinha posto na rua como lhe pegara na
mo e lhe beijara a ponta dos dedos, j que, nesse momento, sentia
a mesma dor que ela por baixo das unhas, como se os dedos de
Tereza estivessem directamente ligados ao seu crebro.
  Aquele que no possui o dom diablico da compaixo (co-sentimento) no pode 
seno condenar friamente o comportamento de
Tereza, porque a vida privada do outro  sagrada e no se devem
abrir as gavetas onde ele guarda a sua correspondncia pessoal. Mas
como a compaixo se tornara o destino (ou a maldio) de Tomas,
parecia-lhe que fora ele que se ajoelhara em frente da gaveta da
secretria e ficara hipnotizado pelas frases escritas pela mo de Sabina. 
Compreendia Tereza e no s era incapaz de querer-lhe mal
como o seu gesto o fazia am-la ainda mais.

10

  Os gestos de Tereza eram cada vez mais bruscos e incoerentes.
H j dois anos que descobrira as infidelidades de Tomas e tudo ia
de mal a pior. Era um caso insolvel.
  Mas como? Tomas no podia acabar de vez com as suas amizades erticas? No, 
isso seria o seu fim. No tinha fora suficiente
para refrear o seu apetite por outras mulheres. E depois, parecia-lhe
uma coisa suprflua. Ningum melhor do que ele sabia que essas
aventuras no punham Tereza minimamente em questo. Privar-se
delas, porqu? Era uma eventualidade que lhe parecia to absurda
como renunciar a ir ao futebol.
  Mas ainda poderia falar-se em alegria? Mal a deixava para ir ao
encontro de uma das amantes, esta tornava-se-lhe indiferente e jurava a si 
prprio que era a ltima vez. A imagem de Tereza estava

sempre a bailar-lhe diante dos olhos e tinha que se embebedar imediatamente para 
deixar de pensar nela. Desde que a conhecia, era
incapaz de ir para a cama com outras sem a ajuda do lcool! Mas o
cheiro a lcool era precisamente o indcio atravs do qual Tereza
ainda descobria com mais facilidade as suas infidelidades.
  A armadilha fechara-se sobre Tomas: mal a deixava para ir ao
encontro delas, o seu desejo desvanecia-se, mas se passava um dia
sem elas punha-se logo a telefonar para marcar um encontro.
  Ainda era em casa de Sabina que se sentia melhor porque sabia
que ela era discreta e que no havia razo para temer ser descoberto. No 
atelier, pairava como uma recordao a sua vida passada, a
sua vida idlica de celibatrio.
  Talvez ele no se desse conta de como mudara: tinha medo de
voltar tarde para casa porque Tereza estava  espera. Uma vez, enquanto faziam 
amor, Sabina viu-o espreitar para o relgio e percebeu que ele se esforava por 
apressar a concluso.
  Em seguida, pusera-se toda nua a passear negligentemente pelo
atelier e fora-se postar diante de um cavalete onde estava um quadro inacabado, 
enquanto espiava Tomas a enfiar a roupa a toda a
velocidade.
  Em breve este se encontrava outra vez vestido, mas com um p
descalo. Olhou em redor de si e depois ps-se de gatas debaixo da
mesa com se estivesse  procura de qualquer coisa.
  Sabina disse: ?"Quando olho para ti, s sinto que ests a ficar
cada vez mais parecido com o eterno tema dos meus quadros: o
encontro de dois mundos. Uma dupla exposio. Por detrs da
silhueta de Tomas, o libertino, transparece o incrvel rosto do apaixonado 
romntico. Ou ento,  precisamente o contrrio: atravs da
silhueta do Tristo que no pensa seno na sua Tereza, apercebe-se
o belo universo trado do libertino.??
  Tomas pusera-se de p e no prestava grande ateno ao que
Sabina dizia.
  "De que  que andas  procura?; perguntou ela.
  - De uma pega.?
  Inspeccionou o quarto com ele e depois Tomas voltou a pr-se
de gatas debaixo da mesa.
  ?cAqui no h pega nenhuma, disse Sabina. J no a trazias,
com certeza.
  - No a trazia, o qu?!, exclamou Tomas, olhando para o relgio. No posso ter 
vindo s com uma pega!
  - No  de todo impossvel. Andas to distrado ultimamente...
Ests sempre com pressa, passas a vida a olhar para o relgio... No
 de admirar que te esqueas de calar uma pega...??
  Decidira-se j a calar o outro sapato sem pega.
  ?"Est frio l fora, disse Sabina. Vou emprestar-te uma meia!??
  E estendeu-lhe uma meia enorme de rede branca  ltima moda.
  Tomas sabia perfeitamente que aquilo era uma vingana. Sabina
escondera-lhe a pega para o castigar de ter olhado para o relgio
enquanto estavam a fazer amor. Mas com o frio que estava, no
podia seno submeter-se a ela. Entrou em casa com uma pega numa
perna e, na outra, uma meia branca de mulher enrolada no tornozelo.
  Estava numa situao de onde no havia sada: aos olhos das
amantes, marcado pelo selo infamnte do seu amor por Tereza; aos
olhos de Tereza, pelos estigmas das suas aventuras com as amantes.

11


  Para lhe minorar o sofrimento, casou-se com ela (puderam finalmente desistir 
do estdio alugado onde Tereza j no vivia h muito) e arranjou-lhe um 
cachorrinho.
  Era filho de uma cadela so-bernardo de um colega de Tomas e
do pastor-alemo do vizinho. Ningum queria os rafeiros e o seu
colega sentia as entranhas revolverem-se-lhe s de pensar em mat
-los.
  Tomas tinha de escolher um cachorro e sabia que os que no
escolhesse seriam abatidos. Estava na mesma situao que um presidente da 
Repblica quando h quatro condenados  morte e s pode
agraciar um. Acabou por escolher um cachorro, uma fmea, que parecia ter o corpo 
do pastor-alemo e cuja cabea fazia lembrar a do
so-bernardo. Levou-o a Tereza. Esta pegou nele ao colo, apertou-o
contra os seios e o bicho fez-lhe imediatamente chichi na blusa.
  Depois, tiveram de baptiz-lo. Tomas queria que, pelo nome, se
ficasse logo a saber que o co era de Tereza e lembrou-se do livro
que ela trazia debaixo do brao no dia em que viera a Praga sem
prevenir. Props que lhe chamassem Tolstoi.
  ??No lhe podemos chamar Tolstoi, replicou Tereza, porque 
uma menina. Vamos mas  chamar-lhe Ana Karenina.
  - No lhe podemos chamar Ana Karenina, uma fuazinha assim
to engraada no  de mulher, disse Tomas. Karenine, sim.  isso
mesmo. Foi sempre assim que o imaginei.
  - Mas no achas que se se chamar Karenine pode ficar com a
vida sexual perturbada?
  - No  de todo impossvel que uma cadela que se habitue a
responder por um nome de co venha a ter tendncias lsbicas...??

  O mais curioso  que a previso de Tomas veio a confirmar-se.
As cadelas gostam normalmente mais do dono que da dona, mas,
com Karenine, passava-se precisamente o contrrio. Resolveu
apaixonar-se por Tereza e Tomas estava-lhe reconhecido por isso.
Fazia-lhe festas na cabea e dizia-lhe: ??Tens razo, Karenine, era
exactamente isso que eu esperava de ti. J que no consigo sozinho,
tu? tens de me ajudar.??
  Mas, mesmo com a ajuda de Karenine, no conseguiu faz-la
feliz. Foi o que percebeu uns dez dias depois da ocupao do pas
pelos tanques russos. Estava-se em Agosto de 1969 e o director de
uma clnica de Zurique, que conhecera num colquio internacional,
todos os dias lhe telefonava da Sua. Temia que lhe acontecesse
qualquer coisa de mal e punha um lugar  sua disposio.

12

  Se Tomas no hesitara sequer um minuto em recusar a oferta do
mdico suo fora por causa de Tereza. Pensava que ela no devia
querer ir-se embora. Alis, Tereza passou os sete primeiros dias da
ocupao numa espcie de transe que quase se assemelhava  felicidade. Andava 
sempre na rua com a mquina fotogrfica e distribua
os seus negativos por jornalistas estrangeiros que se disputavam entre si para 
os obter. Num dia em que fora um pouco longe de mais
e fotografara de perto um oficial a apontar a pistola s pessoas que
iam numa manifestao, apreenderam-lhe a mquina e obrigaram-na
a passar a noite no quartel-general russo. Ameaaram-na com o peloto de 
fuzilamento, mas, assim que se viu em liberdade, voltou a
ir para a rua tirar fotografias.
  Assim, qual no foi a surpresa de Tomas quando, no dcimo dia
da ocupao, ela lhe perguntou:   Ora diz-me, no fundo, porque 
que tu no queres ir para a Sua???

  - E porque  que havia de ir?
  - Aqui tm contas a ajustar contigo...
  - Com quem  que no tm?, replicou Tomas, fazendo um
gesto de resignao. Mas, e tu: eras capaz de viver no estrangeiro?
  - E porque no?
  - Depois de te ter visto pronta a dar a vida por este pas, no
percebo como  que agora te podias ir embora?!
  - Desde que Dubcek voltou, tudo mudou??, disse Tereza.
  Era verdade: a euforia geral s durara os sete primeiros dias de
ocupao. Os homens de Estado checos tinham sido levados como
criminosos pelas tropas russas, ningum sabia do seu paradeiro, todos temiam 
pelas suas vidas e o dio aos russos era inebriante como
vinho. Era a exaltante festa do dio. As cidades da Bomia
cobriam-se de cartazes pintados  mo recheados de inscries
sarcsticas, epigramas, poemas, caricaturas de Brejnev e da sua tropa, de que 
todos faziam pouco como se ela no passasse de uma
companhia de palhaos analfabetos. Mas no h festa que dure eternamente. 
Entretanto, os russos tinham forado os representantes do
povo checo, sequestrados a assinar um compromisso com Moscovo.
Dubcek voltou para Praga com esse compromisso e fez um discurso
pela rdio. Os seis dias de crcere tinham-no diminudo a tal ponto
que mal podia falar: gaguejava e parava para tentar tomar flego,
fazendo pausas interminveis de quase meio minuto no meio das
frases.
  O compromisso salvou o pas do pior: das execues e das deportaes em massa 
para a Sibria que todos receavam. Uma coisa,
porm, se tornou imediatamente clara: a Bomia tinha de baixar-se
perante o conquistador. Da em diante, e para todo o sempre, ia
gaguejar, tartamudear, parar para tentar tomar flego como Alexandre Dubcek. A 
festa acabara. Passava-se  banalidade da humilhao.
  Tereza explicava tudo isto a Tomas e .Tomas sabia que era
verdade mas que, sob essa verdade, se escondia uma razo que explicava melhor a 
sua vontade de deixar Praga:  que, at a, ela no
fora feliz.
  Vivera os dias mais belos da sua vida quando andara a fotografar soldados 
russos pelas ruas de Praga e se expusera a todos os
perigos. Fora o nico perodo em que a telenove(a dos seus sonhos
se interrompera e em que tinha tido noites serenas. Montados nos
seus tanques, os russos tinham-lhe trazido a harmonia. Agora, que a
festa acabara, voltava a ter medo das suas noites e queria fugir antes que 
regressassem. Descobrira que havia circunstncias em que
podia sentir-se forte e satisfeita e era na esperana de tornar a
encontr-las que queria ir-se embora para o estrangeiro.
    E no te importas que Sabina tenha emigrado para a Sua?,
perguntou Tomas.
  - Genebra no  Zurique. disse Tereza. Deve incomodar-me
menos na Sua do que em Praga.??
  Quem quer deixar o lugar onde vive  porque no  feliz.
O facto de Tereza querer emigrar foi como que um veredicto para
Tomas. Submeteu-se a ele e, pouco tempo depois, encontrava-se, na
companhia de Tereza e de Karenine, na maior cidade da Sua.

13

  Comprou uma cama para se poderem instalar numa casa vazia
(ainda no tinham com que comprar mais mveis) e atirou-se ao
trabalho com toda a fria possvel num homem obrigado a encetar
vida nova depois dos quarenta anos.

  Falou vrias vezes ao telefone com Sabina, que agora vivia em
Genebra. Tinha tido tanta sorte que, oito dias antes da invaso
russa, inaugurara-se uma exposio sua naquela cidade e os apreciadores de 
pintura suos, num movimento de simpatia para com o seu
pequeno pas, tinham-lhe comprado os quadros todos.
  "Enriqueci graas aos russos!?, disse-lhe ao telefone, soltando
uma gargalhada. Convidou-o a ir ter com ela ao seu novo atelier,
garantindo-lhe que era igualzinho ao que Tomas conhecia em Praga.
  Gostaria de ir v-la mas no conseguia arranjar pretexto nenhum
para explicar a viagem a Tereza. Portanto, foi Sabina que veio a
Zurique. Ficou num hotel. Tomas foi ter com ela quando saiu do
hospital; fez-se anunciar na recepo e subiu ao quarto. Sabina veio
abrir a porta e, com as suas longas e belas pernas, postou-se frente
dele, quase despida, s de cuecas e soutien. Tinha um chapu de
coco encarrapitado na cabea. Em silncio e perfeitamente imvel,
olhou demoradamente para Tomas que tambm se conservava calado, sem fazer um 
gesto. De sbito, percebeu que estava comovido.
Tirou-lhe o chapu de coco da cabea e poisou-o na mesinha-de-cabeceira. Depois, 
sempre sem dizer palavra, fizeram amor.
  Ao voltar para casa (que j se encontrava guarnecida h bastante
tempo de uma mesa, de cadeiras, de sofs e de uma carpete) ia a
pensar, o que lhe dava uma grande sensao de bem-estar, que andava sempre com o 
seu modo de vida atrs como o caracol anda com a sua casota. Tereza e Sabina 
representavam os dois pontos da
sua vida, dois plos afastados, inconciliveis, mas igualmente belos.
  Mas como, fosse para onde fosse, levava sempre atrs de si o
seu sistema de vida como um apndice do corpo, Tereza continuava
a ter os mesmos sonhos.
  J estavam em Zurique h seis ou sete meses quando, numa noite em que chegara 
bastante tarde a casa, encontrou uma carta em
cima da mesa. Tereza anunciava-lhe que voltara para Praga. Fora-se
embora por no ter fora suficiente para viver no estrangeiro. Cabia
que devia t-lo apoiado melhor em Zurique, mas tambm sabia que
no fora capaz. Pensara ingenuamente que a vida no estrangeiro poderia 
modific-la. Depois do que tinha vivido durante a invaso,
pensara que nunca mais voltaria a ser mesquinha, que havia de ser
adulta, ajuizada, corajosa. Mas sobrestimara-se. Na realidade,
tornara-se um peso e era precisamente isso que no queria. Queria
tirar todas as consequncias disso, antes que fosse tarde de mais.
E pedia-lhe desculpa por levar Karenine.
  Tomas tomou um sonfero fortssimo mas s adormeceu de madrugada. Felizmente 
era sbado e podia ficar em casa. Pela centsima quinquagsima vez ps-se a 
recapitular a situao: as fronteiras
que separavam a Bomia do resto do mundo j no estavam abertas
como na poca em que se tinham vindo embora. Nem o telgrafo
nem o telefone poderiam trazer Tereza de volta. As autoridades j
no a deixariam sair. Embora lhe parecesse incrvel, Tereza fora-se
mesmo embora para no voltar.

14

  Pensar que no podia fazer absolutamente nada mergulhou-o
num estado de grande estupor, mas, ao mesmo tempo, era uma ideia
que o tranquilizava. No havia ningum que o obrigasse a tomar
uma deciso. No era obrigado a contemplar a parede do prdio em
frente e pensar se queria viver com Tereza ou no. Quem decidira
fora ela.

  Foi almoar fora. Sentia-se triste, mas, durante a refeio, o desespero 
inicial pareceu atenuar-se, como se tivesse perdido o vigor e
dele no restasse seno a melancolia. Pensava nos anos que passara
com Tereza e parecia-lhe que aquela histria no podia ter acabado
melhor. Se fosse inventada, no podia acabar seno assim:
  Um belo dia, de surpresa, Tereza viera para casa dele. Um belo
dia, tambm de surpresa, partira. Chegara com uma mala pesadssima. Com uma mala 
pesadssima partira.
  Pagou a conta, saiu do restaurante e foi dar uma volta, repleto
de uma melancolia cada vez mais radiosa. Atrs de si, sete anos de
vida em comum com Tereza para agora constatar que esses anos
eram mais belos na memria do que no instante em que os vivera...
  Belo, o amor deles certamente que o era - mas tambm to
penoso: sempre a esconder qualquer coisa, sempre a dissimular, a
fingir, a reparar, a levantar-lhe o moral, a consol-la, continuamente
a provar-lhe que a amava, a ouvi-la queixar-se dos seus cimes, do
seu sofrimento, dos seus sonhos, a sentir-se culpado, a justificar-se,
a desculpar-se. Agora, o esforo desaparecera e no ficara seno a
beleza.
  A noite de sbado estava a comear. Era a primeira vez que
passeava sozinho a p em Zurique. Ps-se a respirar fundo o perfume da 
liberdade. A aventura espreitava em cada esquina. O futuro
tornava a estar envolto em mistrio. Voltava  sua vida de celibatrio, quela 
vida a que, noutros tempos, sabia estar destinado porque
era a nica em que podia ser tal e qual como era.
  Vivera sete anos acorrentado a Tereza que seguira constantemente com os olhos 
o seu mais nfimo movimento. Era como arrastar as grilhetas que ela lhe pusera 
nos tornozelos. Agora, de sbito,
o seu andar tornava-se mais ligeiro. Quase voava. Estava no espao
mgico de Parmnides: saboreava a doce leveza do ser.
  (Sentia alguma vontade de telefonar para casa de Sabina, em
Genebra, ou de entrar em contacto com uma das mulheres que
conhecera em Zurique nos ltimos meses? No, nenhuma. Bem sabia que a partir do 
momento em que estivesse com outra, a memria de Tereza lhe faria sentir uma dor 
insuportvel).

15

  O seu estranho e melanclico encantamento durou at domingo
 noite. Na segunda-feira tudo mudou. Tereza irrompeu no seu
pensamento: sentia agora o que ela sentira enquanto lhe escrevia a
carta de despedida; sentia como as mos lhe tremiam; via-a, arrastando com uma 
mo aquela mala pesadssima e com a trela de Karenine na outra; imaginava-a a 
meter a chave na fechadura da casa
de Praga e sentia no fundo de si prprio a desolao que lhe varrera o rosto 
quando abrira a porta.
  Durante aqueles dois belos dias de melancolia, a sua compaixo
(essa maldio da telepatia sentimental) estivera a descansar.
A compaixo dormira como o mineiro dorme ao domingo, depois de
uma rdua semana de trabalho, para poder voltar ao fundo na segunda-feira.
  Estava a observar um doente e quem via era Tereza. Ordenava a
si prprio: No penses nisso! No penses nisso! Dizia para si
mesmo: Estou doente de compaixo e por isso  bom que ela se
tenha ido embora e que eu nunca mais a veja. No  dela que
tenho de me libertar, mas da minha compaixo, desta doena que
dantes eu no sabia que existia e que ela me inoculou!
  No sbado e no domingo sentira a doce leveza do ser vir-lhe do
fundo do futuro. Segunda-feira sentiu-se esmagado por um peso que
at a nunca tinha conhecido. As imensas toneladas de ferro dos

tanques russos no eram nada comparadas com esse peso. No h
nada mais pesado do que a compaixo. Mesmo a nossa prpria dor
no  to pesada como a dor co-sentida com outro, por outro, no
lugar de outro, multiplicada pela imaginao, prolongada em centenas de ecos.
  Admoestava-se a si prprio, intimava-se a no ceder  compaixo e a compaixo 
ouvia-o de cabea baixa como um culpado.
A compaixo sabia que estava a abusar dos seus direitos mas continuava 
discretamente a obstinar-se, o que fez com que, cinco dias
depois da partida de Tereza, Tomas anunciasse ao director da clnica
(precisamente aquele que lhe telefonava todos os dias para Praga
depois da invaso russa) que tinha de voltar imediatamente para o
seu pas. Sentia-se envergonhado. Sabia que o director acharia a sua
conduta irresponsvel e imperdovel. Teve mil e uma vezes a tentao de 
contar-lhe tudo e de falar-lhe de Tereza e da carta que lhe
deixara em cima da mesa. Mas acabou por no fazer nada disso.
O mdico no poderia encarar o procedimento de Tereza seno como um odioso 
comportamento de mulher histrica. E Tomas no
queria que ningum pensasse mal de Tereza.
  O director ficou seriamente magoado.
  Encolhendo os ombros, Tomas disse:   Es muss sein. Es muss
sein.??
  Era uma aluso. O ltimo andamento do ltimo quarteto de
Beethoven  composto a partir dos dois temas seguintes:

  Muss es sein'
  (Tem de ser'?)

  Es muss sein! Es muss sein!
  (Tem de ser!) (Tem de ser?)

  Para tornar o sentido destas palavras perfeitamente claro, Beethoven inscreveu 
no incio do ltimo andamento:   Der schwer gefasste Entschluss?? - a deciso 
gravemente pesada.
  Para Tomas, a aluso a Beethoven era, na realidade, uma forma
de referir-se mais uma vez a Tereza, porque fora ela que o obrigara
a comprar os discos com os quartetos e as sonatas de Beethoven.
  Era uma aluso mais oportuna do que podia pensar porque o
director da clnica era melmano. Com um sorriso sereno, disse suavemente, 
imitando com a voz a melodia de Beethoven:   Muss es
sein? Tem de ser?"
  Tomas repetiu uma vez mais:   Sim, tem de ser! Ja, es muss
sein!??.

16

  Ao contrrio de Parmnides, parece que Beethoven considerava o
peso como algo de positivo. Der schwer gefasste Entschluss, a deciso
gravemente pesada est associada  voz do destino (Es muss sein!); o
peso, a necessidade e o valor so trs noes ntima e profundamente
ligadas: s  grave o que  necessrio, s tem valor o que pesa.
  A origem desta convico situa-se na msica de Beethoven e,
sendo embora possvel (seno provvel) que seja mais da responsabilidade dos 
seus exegetas do que do prprio compositor, hoje quase
todos ns a partilhamos: para ns, a grandeza de um homem reside
no facto de carregar com o seu destino como Atlas carregava aos
ombros a abbada dos cus. O heri beethoveniano  um halterofilista de pesos 
metafsicos.
  Tomas guiava em direco  fronteira sua e eu imagino um

Beethoven carrancudo e com a cabeleira em desordem a dirigir em
pessoa a fanfarra dos bombeiros e a tocar, em homenagem ao seu
adeus  emigrao, uma marcha intitulada Es muss sein!
  Mais tarde, j depois de ter atravessado a fronteira checa,
deparou-se-lhe uma coluna de tanques russos. Parou o carro num
cruzamento e esperou meia hora at eles acabarem de passar. Um
soldado russo, com um ar terrvel e de uniforme preto, postara-se
no meio do cruzamento a dirigir o trnsito como se as estradas da
Bomia fossem todas propriedade sua.
    Es muss sein! Tem de ser!??, continuava Tomas a repetir de si
para si, mas, dentro em pouco, comeou a ter dvidas: tinha mesmo
de ser?
  Tinha. Seria insuportvel ficar em Zurique e imaginar Tereza sozinha em Praga. 
Mas durante quanto tempo mais  que a compaixo
havia de atorment-lo? Toda a vida? Um ano'? Um ms? Ou s
uma semana?
  Como sab-lo? Como verific-lo?
  Numa aula de trabalhos prticos de fsica, qualquer aluno pode
fazer uma experincia para confirmar uma dada hiptese cientfica.
Mas o homem, porque s tem uma vida, no tem qualquer possibilidade de verificar 
as hipteses atravs da experincia e nunca poder
saber se teve ou no razo em obedecer aos seus sentimentos.
  Estava neste ponto das suas meditaes quando abriu a porta do
apartamento. Karenine saltou-lhe para a cara, o que facilitou o
reencontro. A vontade de atirar-se para os braos de Tereza (que
ainda sentia quando se metera no automvel em Zurique) tinha pura e simplesmente 
desaparecido. Estava  sua frente no meio de
uma plancie nevada e ambos tremiam de frio.

17

  Desde o primeiro dia de ocupao que os avies russos se cruzavam durante toda 
a noite no cu de Praga. Tomas desabituara-se do
barulho e no conseguia adormecer.
  Virava-se na cama, ao lado de Tereza j a dormir, pensando no
que ela lhe dissera h vrios anos no meio de uma conversa banal.
Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ??Se
no te tivesse encontrado, tinha-me apaixonado por ele.??
  J na altura, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha 
melancolia. Com efeito, compreendera de sbito que Tereza se
apaixonara por ele e no por Z. perfeitamente por acaso. Que, para
l do seu amor por Tomas, j realizado, havia no reino dos possveis
um nmero infinito de amores no realizados por outros .homens.
  Achamos todos que  impensvel que o grande amor da nossa
vida seja algo de leve, algo que no pesa nada; supomos que j
estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que ; que a nossa
vida no era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o
prprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos
em desordem, toca o seu Es muss sein! em homenagem ao grande
amor da nossa vida.
  Ao lembrar-se do que Tereza dissera de Z., Tomas constatava
que a histria do grande amor da sua vida no estava marcada por
um ??Es muss sein??, mas antes por um ??Es konnte auch anders
sein??: podia muito bem ser de outra maneira...
  Sete anos antes, declarara-se por acaso um surto muito grave de
meningite no hospital da cidade de Tereza e o chefe do servio onde Tomas 
trabalhava fora chamado de urgncia. Mas, por acaso, o
chefe do servio estava com citica e, como no se podia mexer,

Tomas fora em seu lugar a esse hospital de provncia. Havia cinco
hotis na cidade mas, por acaso, Tomas instalara-se no hotel onde
Tereza trabalhava. Por acaso, ficara com uns momentos livres antes
de ir para o comboio e fora sentar-se na cervejaria. Tereza estava,
por acaso, de servio e, por acaso, estava de servio  mesa de Tomas. Fora 
portanto necessria toda uma srie de seis acasos para
fazer chegar Tomas at Tereza, como se, entregue a si prprio,
nunca tivesse podido encontr-la.
  Regressara  Bomia por causa dela. Uma deciso to fatal tinha
a sua raiz num amor a tal ponto fortuito que nem sequer existiria
se, h sete anos, o chefe do servio no estivesse com citica. E essa mulher, 
essa encarnao do acaso absoluto, estava agora deitada
a seu lado a dormir e a respirar profundamente.
  Era muito tarde. Tomas sentiu que o estmago lhe comeava
a doer como lhe acontecia sempre nos momentos de grande tenso.
  A respirao de Tereza transformou-se por duas ou trs vezes
num leve ressonar. Tomas no sentia a mnima compaixo. No
sentia seno uma coisa: aquela presso na boca do estmago e o
desespero de ter voltado.

O CORPO E A ALMA

   perfeitamente intil o autor tentar convencer seja quem for de
que as suas personagens alguma vez tiveram uma existncia real. Na
verdade, elas no nasceram de um corpo materno, mas do poder de
evocao de algumas palavras ou de uma situao-chave. Tomas, de
um provrbio (einmal ist keinmal). Tereza, dos seus borborsrnos.
  Da primeira vez que foi a casa de Tomas, as suas vsceras
puseram-se a gorgolejar. No era de admirar, pois no almoara
nem jantara, tendo-se contentado com a sanduche que engolira ao
fim da manh, j no cais, antes de entrar para o comboio. Estava
to concentrada na sua audaciosa viagem que se esquecera de comer. Mas, quanto 
menos nos preocupamos com o nosso corpo, mais
depressa somos vtimas dele. S a tortura de perceber que, no momento em que 
voltava a ver Tomas, eram as suas tripas que usavam
da palavra! Sentia-se  beira das lgrimas. Felizmente que alguns
segundos depois j se encontrava nos braos de Tomas e pde esquecer-se das 
vozes da sua barriga!...

2

  Tereza nasceu, pois, de uma situao onde essa experincia humana fundamental 
que  a inconcilivel dualidade do corpo e da
alma se revela em toda a sua brutalidade.
  Noutras eras, h muito, muito tempo, o homem estranhava o
martelar cadenciado que lhe vinha do fundo do peito e interrogava-se sobre o seu 
significado. No conseguia identificar-se com essa
coisa inquietante e desconhecida que era um corpo. O corpo era
uma jaula dentro da qual se dissimulava algo que via, ouvia, se assustava, 
pensava e se espantava; essa coisa, esse relicrio que, deduzindo o corpo, 
subsistia, era a alma.
   claro que, hoje em dia, o corpo j no  um mistrio. Todos
sabemos que aquilo que nos bate no peito  o corao e que o nariz
no  seno a extremidade de um tubo que sai c de dentro para ir
buscar oxignio para os pulmes. O rosto no  seno o quadro de
comando onde os mecanismos fsicos vo dar: a digesto, a vista, o
ouvido, a respirao, a reflexo.
  Desde que pode nomear todas as partes do seu corpo, o homem

inquieta-se muito menos com ele. Hoje em dia, todos sabemos
tambm que a alma no  seno a actividade da matria cinzenta do
crebro. Dantes, a dualidade da alma e do corpo ocultava-se por
detrs de termos cientficos; hoje, no passa de uma crendice francamente 
ridcula.
  Mas basta algum estar loucamente apaixonado e ouvir os seus
prprios intestinos gorgolejar para que a unidade da alma e do
corpo, essa iluso lrica da era cientfica, se dissipe imediatamente.

3

  Tereza tentava ver-se atravs do corpo. Por isso passava horas 
frente do espelho. E, como tinha medo de ser apanhada pela me,
os olhares que ia lanando traziam a marca de um vcio secreto.
  No era a vaidade que a atraa para o espelho, mas o espanto de
l descobrir o seu eu. Esquecia-se de que o que tinha diante dos
olhos era o quadro de comando dos mecanismos fsicos. Parecia-lhe
que o que se lhe revelava sob os traos do rosto era a sua prpria
alma. Esquecia-se de que o nariz  a extremidade do tubo que leva
ar aos pulmes. O que nele via era a fiel expresso da sua natureza.
  Contemplava-se longamente ao espelho e, por vezes, reconhecia,
contrariada, os traos da me no seu prprio rosto. Quando isso
acontecia, concentrava-se melhor e fazia um grande esforo de
vontade para se abstrair, para fazer tbua rasa da fisionomia da me
e s deixar subsistir o que era verdadeiramente ela prpria. Quando
conseguia, era um momento inebriante: a alma voltava a subir 
superfcie do corpo como a tripulao a sair do ventre de um navio,
a invadir a ponte, a levantar os braos para os cus e a cantar.

4

  Tereza no s se parecia fisicamente com a me como, por vezes, chego mesmo a 
ter a impresso de que a sua vida no foi seno
o prolongamento da vida da me, um pouco como a trajectria de
uma bola de bilhar  o prolongamento do gesto executado pelo brao de um 
jogador.
  Onde e quando nascera esse gesto que viria mais tarde a transformar-se na vida 
de Tereza?
  Sem dvida que no instante em que a me ouvira pela primeira
vez o pai, um comerciante de Praga, elogiar a sua beleza. A me
tinha trs ou quatro anos e o pai dissera-lhe que s parecia uma
madona de Rafael. Tinha apenas quatro anos, mas fixara bem aquelas palavras. 
Mais tarde, quando andava no colgio, em vez de ouvir
o professor, entretinha-se a pensar com que pintura  que se pareceria agora.
  Quando se tornou casadoira, teve nove pretendentes. Punham-se
todos de joelhos  volta dela. Ela ficava no meio, como uma princesa, sem 
conseguir decidir-se por nenhum: o primeiro era mais bonito, o segundo mais 
espirituoso, o terceiro mais rico, o quarto mais
desportivo, o quinto de melhores famlias, o sexto recitava-lhe
versos, o stimo viajava pelo mundo inteiro, o oitavo tocava violino
e o nono era o homem mais viril de todos. Mas ajoelhavam-se todos
da mesma maneira e todos ficavam com as mesmas bolhas nos joelhos.
  Acabou por escolher o nono, no por ser o mais viril, mas
porque nos momentos em que, na cama, lhe segredava baixinho ao
ouvido ?"tem cuidado! tem muito cuidado!??, ele fazia de propsito e
no lhe ligava, de forma que tiveram de casar  pressa: no encontrara a tempo 
um mdico que lhe fizesse um aborto. Assim nascera
Tereza. A infindvel famlia aflura de todos os cantos do pas,

debruara-se sobre o bero e ceceara. A me de Tereza no ceceava. S pensava 
nos outros oito pretendentes e achava-os a todos
melhores do que o nono.
  Tal como a filha, a me de Tereza tambm gostava de se mirar
ao espelho. Um belo dia, constatou que tinha rugas  volta dos
olhos e, pensou que o seu casamento fora um erro. Encontrou um
homem nada viril, com vrias falcatruas e dois divrcios no activo.
A me de Tereza detestava amantes com joelhos cheios de bolhas.
Queria era ser ela a ajoelhar-se. Caiu de joelhos aos ps do escroque e deixou o 
marido e a filha.
  O homem mais viril de todos tornou-se no homem mais triste de
todos. To triste que tudo passou a ser-lhe indiferente. Dizia alto e
bom som e em qualquer lado tudo o que pensava e a polcia comunista, indignada 
com as suas reflexes pouco ortodoxas, intimou-o,
condenou-o e enfiou-o na cadeia. Tereza, expulsa do apartamento
selado, foi viver com a me.
  Ao fim de algum tempo, o homem mais triste de todos morreu
na priso e a me, acompanhada por Tereza, foi instalar-se com o
escroque numa pequena cidade do sop de uma montanha. O padrasto era empregado 
de escritrio, a me, empregada de balco.
Teve mais trs filhos. Depois, um belo dia, quando uma vez mais se
mirava ao espelho, percebeu que tinha envelhecido e se tornara feia.

5

  Ao constatar que tinha perdido tudo, ps-se  procura de um
culpado. Culpados eram todos. Culpado era o primeiro marido, viril
e mal-amado, que lhe desobedecera quando ela lhe sussurrava ao
ouvido para ter cuidado. Culpado era o segundo marido, pouco viril
e bem-amado, que a arrastara para fora de Praga, para uma cidadezinha 
provinciana onde andava atrs de tudo quanto era saia, no
lhe deixando a ela nem aos seus cimes um minuto de sossego.
Sentia-se desarmada perante os seus dois maridos. O nico ser humano que lhe 
pertencia e no podia escapar-lhe, o refm que podia
pagar pelos outros, era Tereza.
  Alis, talvez Tereza fosse mesmo responsvel pelo destino da
me. Tereza: essa absurda unio de um espermatozide do homem
mais viril de todos com um vulo da mulher mais bonita de todas.
Nesse segundo fatdico chamado Tereza, a me comeara a maratona da sua vida em 
runas.
  Explicava e tornava a explicar a Tereza que ser me  sacrificar
tudo. Eram palavras convincentes porque exprimiam a experincia
de uma mulher que perdera tudo por causa da filha. Tereza ouvia-a
e ia-se convencendo que o valor mais alto da vida  a maternidade
e que a maternidade  um grande sacrifcio. Se ser me  o Sacrifcio por 
excelncia, o destino de uma filha  a Culpa que nada nem
ningum poder resgatar nunca.

6

  Tereza desconhecia, evidentemente, o episdio da noite em que
a me dissera ao ouvido do homem mais viril de todos para ter
cuidado. Sentia-se culpada, mas de uma culpabilidade indefinvel como o pecado 
original. Fazia tudo para expi-la. Como a me a tirara do colgio, desde os 
quinze anos que era criada e lhe dava tudo
quanto ganhava. Estava disposta a tudo para merecer o seu amor.
Tomava conta da casa, tratava dos irmos e das irms, passava os
domingos a esfregar e a lavar. Era pena, porque no liceu era a

melhor aluna da turma. Queria elevar-se, mas onde, naquela cidadezinha? Enquanto 
lavava a roupa tinha sempre um livro aberto ao
lado da banheira. Quando virava as pginas, o livro ficava todo
cheio de gotas de gua.
  Em casa no havia pudor de espcie nenhuma. A me passeava-se por todo o 
apartamento em roupa interior, s vezes sem soutien
e at, outras vezes, no Vero, completamente nua. O padrasto no
se passeava nu, mas esperava sempre que Tereza estivesse na banheira para ir  
casa de banho. Por isso, um dia, fechou-s  chave, mas a
me fez-lhe logo uma cena: ?Quem  que tu pensas que s? Quem 
que te julgas? Olha que ele no ta come, essa tua beleza!?
  (No pode querer-se situao mais clara para mostrar que o dio
que a me tinha  filha era mais forte do que os cimes que o
marido lhe inspirava. A culpa da filha era imensa, to imensa que as
prprias infidelidades do marido estavam l contidas. Que o marido
trouxesse Tereza debaixo de olho, ainda era admissvel, mas o que
no podia permitir era que a filha quisesse emancipar-se e ousasse
reivindicar alguns direitos, nem que fosse o de fechar-se  chave na
casa de banho!)
  Num certo dia de Inverno, a me ps-se a passear nua numa
sala que tinha a luz acesa. Tereza apressou-se a correr o estore para
que os vizinhos da frente no vissem a me toda nua. Esta desatou
a rir nas suas costas. No dia seguinte, a me teve visitas. Uma vizinha, uma 
colega da loja, uma professora primria do bairro e mais
duas ou trs mulheres que se encontravam regularmente. Tereza
veio passar um bocadinho com elas, acompanhada por um rapaz de
dezasseis anos, filho de uma das senhoras. A me aproveitou imediatamente para 
contar como Tereza quisera proteger o seu pudor.
Ps-se a rir e todas as mulheres a imitaram. Depois, observou: ??A
'Tereza nunca mais se convence que o corpo humano  uma coisa
que se mija e se peida!?? Tereza ficou coradssima, mas a me continuou: c?Sim, 
que mal  que h nisso?...?? Em seguida, respondendo
ela prpria  pergunta, deu dois ou trs peidos bem sonoros. As
mulheres desataram todas a rir.

7

  A me assoa-se ruidosamente, descreve pormenorizadamente a
sua vida sexual, exibe a dentadura postia. Solta-a com a lngua com
uma agilidade surpreendente, deixa cair a parte de cima sobre os
dentes de baixo e ela abre-se sozinha num largo sorriso; fica, de
repente, com uma cara to arrepiante que as pessoas tm um calafrio.
  No  seno uma maneira de renegar brutalmente a sua juventude e a sua beleza. 
No tempo em que os nove pretendentes se ajoelhavam  volta dela, era 
extremamente ciosa da sua nudez. O preo
do seu corpo era proporcional ao pudor que tinha dele. Se agora 
impudica, -o radicalmente; com o seu despudor, passa um risco solene por cima 
da vida e grita bem alto que a juventude e a beleza,
que tanto sobrestimou, no valem realmente nada.
  Tereza parece-me ser o prolongamento desse gesto, desse gesto
da me a expulsar para bem longe um passado de mulher jovem e
bela.
  (E no  de admirar que Tereza tambm tenha modos nervosos
e que aos seus gestos falte a graa da lentido. Esse grande gesto da
me, autodestruidor e violento,  ela,  a prpria Tereza.)

8


  A me quer que lhe faam justia e que o culpado seja castigado. Insiste para 
que a filha fique com ela no mundo impudico onde
a beleza e a juventude no tm sentido, onde o universo no passa
de um gigantesco campo de concentrao de corpos idnticos com
uma alma invisvel.
  Podemos agora perceber melhor o sentido do vcio secreto de
Tereza, dos seus longos e frequentes momentos em frente ao espelho. Era um 
combate contra a me. Era o desejo de no ser um
corpo como os outros corpos e de ver subir  superfcie do rosto a
tripulao da alma vinda do ventre do navio. E isso no era fcil
porque a alma, triste, receosa, amedrontada, escondia-se bem l no
fundo das suas vsceras e tinha vergonha de se mostrar.
  Tambm foi assim no dia em que conheceu Tomas. Esgueirava-se como podia por 
entre os bbedos do restaurante, com o corpo
vergado pelo peso das canecas de cerveja que levava num tabuleiro
e tinha a alma na boca do estmago ou no pncreas. Foi nessa altura que Tomas 
chamou por ela. Era um acontecimento importante
porque quem estava a chamar por ela no conhecia nem a me nem
os bbados, que todos os dias a martirizavam com ditos obscenos e
gastos. O seu estatuto de desconhecido elevava-o acima dos outros.
  Mas havia mais uma coisa: um? livro aberto em cima da mesa.
Nunca ningum abrira um livro numa mesa daquele caf. Para Tereza, o livro era o 
santo e a senha de uma rmandade secreta. Para
enfrentar o mundo grosseiro que a rodeava no tinha, com efeito,
seno uma arma: os livros que ia buscar  biblioteca municipal e
que eram sobretudo romances; lia-os aos montes, de Fielding a Thomas Mann. 
Davam-lhe uma oportunidade de evaso imaginria,
arrancando-a a uma vida que no lhe oferecia satisfao de espcie
nenhuma, mas, enquanto simples objectos, tambm tinham um sentido. Gostava de 
andar na rua com livros debaixo do brao. Eram
para ela o que a bengala era para os dandies do sculo passado.
Distinguiam-na dos outros.
  (A comparao entre o livro e a bengala elegante do dandy no
 totalmente exacta. A bengala era o distintivo do dandy, e tornava-o uma 
personagem moderna e  ltima moda. O livro fazia Tereza
distinguir-se das outras raparigas, mas tornava-a um ser antiquado.
Tambm  certo que era nova de mais para perceber o que  que
estava fora de moda na sua pessoa. Aos adolescentes que passeavam
 sua volta com transstores tonitruantes, achava-os idiotas. No
percebia que eram modernos.)
  Em concluso: o homem que acabara de chamar por ela era ao
mesmo tempo desconhecido e membro de uma irmandade secreta.
Falava de um modo delicado e Tereza sentiu a alma a lanar-se-lhe
para a superfcie atravs de todas as veias, de todos os capilares e
de todos os poros para que ele a visse.
A partir de ento, Beethoven tornara-se para ela a imagem do
mundo ??do outro lado??, a imagem do mundo a que aspirava. Agora, enquanto se 
afastava do balco com a aguardente de Tomas,
esforava-se por ler nesse acaso: como explicar que, no preciso momento em que 
estava a servir uma aguardente quele desconhecido
que lhe agradava tanto, tivesse comeado a ouvir Beethoven?
  O acaso tem destes sortilgios, a necessidade, no. Para um
amor se tornar inesquecvel  preciso que, desde o primeiro momento, os acasos 
se renam nele como os pssaros nos ombros de So
Francisco de ?Assis.

9


  Durante a viagem de regresso de Zurique para Praga, Tomas
sentiu-se invadir pelo mal-estar quando pensou que o seu encontro
com Tereza fora o resuLtado de seis acasos improvveis.
  Mas um encontro no  precisamente tanto mais importante e
cheio de significao quanto mais depende de um grande nmero de
circunstncias fortuitas?
  S o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. O que
acontece por necessidade, o que j era esperado e se repete todos
os dias  perfeitamente mudo. S o acaso fala. Nele  que deve
tentar-se ler, como as ciganas fazem com as figuras deixadas no
fundo de uma chvena pela borra do caf.
  Para Tereza, a presena de Tomas no restaurante foi a manifestao do acaso 
absoluto. Estava sentado sozinho a uma mesa com
um livro aberto  frente. Levantou os olhos para ela e sorriu: ??Uma
aguardente! ??
  Nesse momento, a rdio estava a transmitir um programa de msica. Tereza foi 
buscar a aguardente ao balco e fez girar o boto do
aparelho para ouvir melhor. Tinha percebido que era Beethoven.
Ouvira pela primeira vez a sua msica quando um quarteto de Praga
que andava em digresso pelo pas viera quela cidadezinha. Tereza
(que, como sabemos, aspirava a ??elevar-se??) foi ao concerto. Sala
vazia. S ela, o farmacutico e a mulher. Havia, portanto, um quarteto
de msicos no palco e um trio de espectadores na sala, mas os msicos
foram to simpticos que no anularam o concerto e tocaram s para
eles durante uma noite inteira os trs ltimos quartetos de Beethoven.
  Em seguida, o farmacutico convidara os msicos para jantar e
pedira quela espectadora desconhecida que os acompanhasse.
(os pssaros do acaso reuniam-se-lhe nos ombros) que o desconhecido lhe estava 
predestinado. Ele chamou-a e convidou-a a sentar-se
ao seu lado. (Tereza sentiu a tripulao da alma a lanar-se para a
ponte do corpo.) Pouco depois, acompanhou-o  estao e, no momento em que 
estava a despedir-se dela, estendeu-lhe um carto-de-visita com um nmero de 
telefone: c?Se, por acaso, for um dia destes a
Praga... ??

10

  Chamou-a porque queria pagar. Fechou o livro (o santo e a senha de uma 
irmandade secreta) e Tereza ficou com curiosidade de
saber o que  que ele estava a ler.
  ?"Pode juntar isto  minha conta?, perguntou o desconhecido.
  - Com certeza. Que nmero  o seu quarto???
  Ele mostrou-lhe uma chave presa a uma placa de madeira com
um seis pintado a vermelho.
  ??Que engraado! Est no nmero seis!, disse ela.
  - Engraado, porqu???, perguntou ele.
  Viera-lhe  cabea que, quando morava em Praga na casa dos
pais, antes do divrcio deles, o prdio era o nmero seis. Mas disse
uma coisa completamente diferente (e no podemos seno tirar-lhe
o chapu): ??Est no quarto nmero seis e eu acabo de trabalhar s
seis!
  - Pois eu vou apanhar o comboio das sete?>, disse o desconhecido.
  No sabendo o que acrescentar, deu-lhe a conta para ele assinar
e levou-a para a recepo. Quando acabou o trabalho, o homem j
tinha sado da sala. Teria compreendido a sua discreta mensagem?
Saiu toda nervosa do restaurante.
  Em frente, no meio daquela cidadezinha suja, havia um largo
ajardinado, triste e ralo, que sempre fora uma ilha de beleza para

ela: era um relvado com quatro lamos, bancos, um choro e forstias.
  O desconhecido estava sentado num banco amarelo de onde se
via a entrada do restaurante. Era precisamente o banco onde estivera sentada na 
vspera com um livro ao colo! Compreendeu ento

11

  Muito mais do que aquele carto-de-visita dado  ltima da hora,
foi o apelo dos acasos (o livro, a msica de Beethoven, o nmero seis,' o banco 
amarelo do largo) que encorajou Tereza a sair de
casa e a mudar de vida. Foram talvez esses poucos acasos (alis bem
modestos e banais, realmente dignos de uma cidadezinha insignificante) que 
puseram o seu amor em movimento e se tornaram a
fonte da energia onde, at ao fim, h-de ir beber.
  A nossa vida quotidiana est sempre a ser bombardeada pelos
acasos, mais exactamente por encontros fortuitos entre as pessoas e
os acontecimentos, ou seja, por aquilo a que costuma chamar-se
coincidncias. H uma coincidncia quando dois acontecimentos
inesperados se produzem ao mesmo tempo, quando se encontram
um com o outro: por exemplo, Tomas aparece no restaurante precisamente no 
momento em que a rdio est a dar Beethoven. Na sua
imensa maioria, este tipo de coincidncias passa totalmente despercebido. Se o 
homem do talho tivesse vindo sentar-se a uma mesa do
restaurante em vez de Tomas, Tereza no teria reparado que a rdio estava a dar 
Beethoven (embora o encontro de Beethoven com
um homem do talho tambm no deixe de ser uma coincidncia
interessante). Mas o amor a nascer aguou-lhe o sentido da beleza
e, por isso, nunca mais esquecer essa msica. Sempre que a ouvir,
h-de sentir-se comovida. Tudo o que se passar  sua volta nesse
instante ficar aureolado com o brilho dessa msica e ser belo.
  No comeo do grosso volume que Tereza trazia debaixo do brao no dia em que 
veio a casa de Tomas, Ana v pela primeira vez
Vronsky em circunstncias bastante estranhas. Esto ambos no cais
de uma estao onde algum acabara de cair para debaixo de um
comboio. No fim do romance,  Ana que se atira para debaixo de
um comboio. Esta composio simtrica, em que o mesmo tema
aparece no princpio e no fim, pode parecer demasiado   romanesca??. E?tou 
disposto a admiti-lo, mas s se romanesco no significar
para os que me esto a ler algo de   inventado??,   artificial??,   sem
semelhana com a vida??. Porque a vida humana tambm  assim
que  composta.
   composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado
pelo sentido da beleza, transpe o acontecimento fortuito (uma msica de 
Beethoven, uma morte numa estao) e faz dele um tema
que, em seguida, inserever na partitura da sua vida. Como o
compositor faz com os temas de uma sonata, est sempre a voltar a
ele, a repeti-lo, a modific-lo, a desenvolv-lo, a transp-lo. Ana
poderia ter posto termo  vida de outra maneira qualquer. Mas, no
momento do desespero, foi atrada pela sombria beleza do tema da
estao e da morte, desse tema inesquecvel associado ao nascimento
do amor. Mesmo nos momentos da mais profunda desordem,  segundo as leis da 
beleza que, secretamente, o homem vai compondo
a sua vida.
  No h, portanto, razo nenhuma para censurar aos romances o
seu fascnio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (por exemplo
o encontro de Vronsky, de Ana, do cais e da morte, ou o encontro
de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de aguardente), mas
h boas razes para censurar o homem por ser cego a esses acasos

na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimenso de
beleza.


porte que tinha era essa miservel senha e isso dava-lhe vontade de
chorar. Para evitar chorar, mostrou-se volvel, ps-se a falar alto e
a rir. Mas, como da outra vez, mal passou o limiar da porta, Tomas
tomou-a nos braos e foram fazer amor. Deslizou para dentro de
um nevoeiro onde no havia nada para ver, nada para ouvir, a no
ser o seu grito.

12

  Incitada pelos pssaros dos acasos que se tinham reunido nos
seus ombros, tirou uma semana de licena sem dizer nada  me e
meteu-se no comboio. Passou grande parte da viagem a ir aos lavabos ver-se ao 
espelho e suplicar  alma que no abandonasse um s
segundo que fosse a ponte do seu corpo nesse dia decisivo da sua
vida. De repente, enquanto se olhava, encheu-se de pnico: tinha a
garganta irritada. Iria adoecer logo nesse dia fatdico?
  Mas j no podia recuar. Telefonou-lhe da estao e, no momento em que a porta 
se abriu, inesperadamente, a sua barriga ps-se a emitir uns gorgolejos 
horrveis. Ficou cheia de vergonha. Era
como ter a me na barriga e ouvi-la a rir-se maldosamente para lhe
estragar o encontro.
  Primeiro, pensou que ele ia p-la na rua por causa desses barulhos to 
despropositados, mas, em vez disso, ele tomou-a nos braos. Reconhecida pela 
indiferena com que encarara os seus borborismos, com os olhos velados de bruma, 
beijou-o ainda mais apaixonadamente. Um minuto depois, estavam a fazer amor. E 
enquanto
fazia amor, Tereza gritava. J tinha febre. Estava com gripe. Tinha
a extremidade do tubo de passagem do ar para os pulmes encaroada e tapada. 
Tempos depois, voltou com uma mala pesadssima onde amontoara tudo o que 
possua, resolvida a nunca mais regressar
 sua cidadezinha provinciana. Tomas convidou-a a ir no dia seguinte  noite a 
casa dele. Dormiu numa penso barata. De manh,
depositou a pesadssma mala na estao e passou o dia inteiro pelas
ruas de Praga com Ana Karenina debaixo do brao.  noite, tocou
 porta e ele veio abrir; o livro, no o largava. Como se fosse o seu
bilhete para entrar no universo de Tomas. Sabia que o nico passa
13

  No era o sopro de uma respirao ofegante, no era o sopro de
uma respirao difcil, era mesmo um grito. Gritava to alto que
Tomas teve de afastar a cabea da cara dela como se, perto dos
ouvidos, o grito lhe furasse os tmpanos. No era uma expresso de
sensualidade. A sensualidade  a mobilizao mxima dos sentidos:
observa-se o outro intensamente e escutam-se todos os seus rudos,
mesmo os mais imperceptveis. O grito de Tereza, pelo contrrio,
era para anestesiar os sentidos, para impedi-los de ver e de ouvir.
O que gritava nela era o idealismo ingnuo do seu amor que pretendia ser a 
abolio de todas as contradies, a abolio da dualidade do corpo e da alma e 
talvez mesmo a abolio do tempo.
  Tinha os olhos fechados? No, mas os seus olhos no olhavam
para lado nenhum, estavam pregados no vazio do tecto e, por breves momentos, a 
sua cabea virou-se convulsivamente de um lado
para o outro.

  Quando o grito se acalmou, adormeceu junto a Tomas, agarrando-lhe na mo 
durante toda a noite.
  J aos oito anos adormecia com as mos uma na outra, imaginando que se 
agarrava ao homem que amava, ao homem da sua
vida. Portanto,  perfeitamente compreensvel que segure to afincadamente a mo 
de Tomas sempre que est a dormir: foi par isso
que se preparou, foi para isso que se treinou desde a infncia.

14

*/*
  Uma rapariga que, em vez de se ?celevarN,  obrigada a servir
cerveja a bbados e a passar os domingos a lavar a roupa suja dos
irmos e das irms, acumula dentro de si uma imensa reserva de
vitalidade, inconcebvel para os jovens que andam na faculdade e
bocejam com um livro aberto  frente. Tereza lera mais do que eles,
sabia mais da vida, mas nunca se aperceberia disso. O que distingue
as pessoas que estudaram dos autodidactas no  o seu nvel de
conhecimento mas o grau de vitalidade e de confiana que tm em
si prprios. O fervor com que Tereza, uma vez em Praga, se lanou
na vida, era ao mesmo tempo voraz e frgil. Parecia ter medo que
algum lhe dissesse um dia:   0 teu lugar no  aqui! Volta para
donde vieste!? Toda a sua fome de viver estava suspensa de um fio:
a voz de Tomas, que fizera subir s alturas a alma timidamente escondida nas 
vsceras de Tereza.
  Arranjou um lugar num laboratrio de fotografia de uma revista,
mas no podia contentar-se com isso. Queria era ser fotgrafa.
Sabina, uma amiga de Tomas, emprestou-lhe algumas monografias
de fotgrafos clebres, encontrou-se com ela num caf e, com os
livros abertos  frente, explicou-lhe porque  que aquelas fotografias eram 
originais. Tereza ouvia-a em silncio e com uma ateno que s muito raramente 
um professor consegue ver na cara dos
alunos.
  Graas a Sabina, Tereza apercebeu-se do parentesco existente
entre a fotografia e a pintura e passou a obrigar Tomas a acompanh-la a todas 
as exposies. Em breve conseguiu publicar fotografias suas na revista e deixou 
o laboratrio para se tornar fotgrafa
profissional.
  Nessa noite, foram a um cabar festejar com alguns amigos a
promoo de Tereza; danaram. Tomas foi ficando com um ar cada
vez mais carrancudo e, como Tereza insistisse para lhe dizer o que
tinha, quando chegaram a casa, confessou-lhe que ficara com cimes
por t-la visto a danar com o colega.
    Fiz-te mesmo ter cimes de mim?" Repetiu esta frase uma boa
dzia de vezes, como se Tomas lhe tivesse anunciado que tinha ganho o Prmio 
Nobel e se recusasse a acreditar nisso.
  Agarrou-o pela cintura e ps-se a danar com ele no meio do
quarto. Era muito diferente da dana mundana de h pouco, no bar.
Era uma espcie de dana alde, era uma srie de pulos extravagantes. Levantava 
as pernas muito alto, dava saltos enormes e desajeitados, arrastando-o atrs 
d?la para os quatro cantos do quarto.
  Mas, ai! Dentro de pouco tempo, quem tinha cimes era ela!
E os seus cimes no foram o Prmio Nobel para Tomas, mas um
fardo de que s se libertaria um ou dois anos antes de morrer.






64

15


  Desfilava nua  volta da piscina no meio de uma multido de
outras mulheres, Tomas estava l em cima, de p, dentro de uma
cesto pendurada na abbada, a gritar, a obrig-las a cantar e a flectir os 
joelhos. Quando uma mulher fazia um movimento em falso,
abatia-a com um tiro de pistola.
  Gostava de voltar mais uma vez a este sonho: o horror no comeava s no 
momento em que Tomas disparava pela primeira vez.
Era um sonho atroz logo desde o princpio. Marchar nua, a passo
militar, no meio de outras mulheres, era para Tereza a imagem-tipo
do horror. Quando morava com a me, estava proibida de se fechar
 chave na casa de banho. Para a me, era uma maneira de lhe
dizer: o teu corpo  igual a todos os outros corpos; no tens direito
ao pudor; no tens nada que esconder uma coisa que existe de uma
forma idntica em milhes de exemplares. No universo da me, os
corpos eram todos iguais e marchavam a passo uns atrs dos outros
num interminvel desfile. Desde a infncia que a nudez era para
Tereza a marca da uniformidade obrigatria do campo de concentrao; a marca da 
humilhao.
  Ainda havia outra coisa horrvel- logo no comeo do sonho: as
mulheres tinham todas que cantar! Com os corpos todos iguais uns
aos outros, todos igualmente desvalorizados como simples mecanismos sonoros e 
sem alma, as mulheres ainda se regozijavam com
isso! Era a jubilante solidariedade das desalmadas. Sentiam-se felizes
por estarem libertas do fardo da alma, dessa iluso da diferena,

desse orgulho ridculo, e por serem todas iguais. Tereza acompanhava-as no seu 
canto, mas sem qualquer alegria. Cantava porque tinha
medo que as mulheres a matassem se no cantasse.
  Mas o que significava o facto de Tomas as abater com tiros de
pistola e elas carem mortas umas atrs das outras na piscina?
  Na realidade, aquelas mulheres que se regozijavam por serem
exactamente iguais e indiferenciadas estavam era a celebrar a sua
morte futura, que tornaria a sua semelhana ainda mais absoluta.
O disparo no era, portanto, seno a feliz concluso do seu macabro desfile. 
Desatavam alegremente a rir a cada tiro de pistola e,
enquanto os cadveres se iam afundando, cantavam ainda mais alto.
  E porque  que quem disparava era Tomas? E porque  que ele
tambm queria abater Tereza?
  Porque tinha sido ele quem a mandara para o meio das mulheres. Era o que o 
sonho estava encarregado de revelar a Tomas, j
que Tereza no sabia como dizer-lho directamente. Tinha vindo viver com ele para 
o seu corpo se tomar nico e insubstituvel. Mas
ele tinha traado um sinal de igualdade entre ela e as outras:
beijava-as a todas da mesma maneira, prodigalizava-lhes as mesmas
carcias, no diferenciava em nada, mas em nada de nada, o corpo
de Tereza dos outros corpos. Remetera-a para o universo donde tinha pensado que 
se escapara. Mandara-a desfilar nua para o meio
de outras mulheres nuas.





66

16


  Tinha trs sries sucessivas de sonhos. A primeira, onde havia
gatos a serem torturados, dizia o que sofrera ao longo da vida. Outra mostrava, 
em mltiplas variantes, imagens da sua execuo.
A ltima falava da sua vida no alm, onde a sua humilhao se
tornara um estado eterno.
  Nos sonhos de Tereza no havia nada para decifrar. A acusao
que faziam a Tomas era to evidente que este no podia seno
calar-se e afagar, de cabea baixa, a mo de Tereza.
  Para alm da sua evidente eloquncia, os sonhos ainda por cima
eram belos. Foi um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos
sonhos. O sonho no  apenas uma comunicao (e eventualmente
uma comunicao cifrada),  tambm uma actividade esttica, um
jogo da imaginao que tem um valor prprio. O sonho  a prova
de que imaginar, sonhar com o que nunca existiu,  uma das necessidades mais 
profundas do homem. Essa  a razo do prfido perigo
que se oculta no sonho. Se o sonho no fosse belo, podamos
esquec-lo depressa. Mas Tereza estava constantemente a lembrar-se
deles, a reviv-los em pensamento, a transform-los em lendas. Tomas vivia sob o 
encanto hipntico da angustiante beleza dos sonhos
de Tereza.
    Tereza, minha querida Tereza, s parece que ests a afastar-te
de mim. Para onde queres ir? Sonhas todas as noites com a morte,
como se quisesses mesmo ir-te embora...??, disse-lhe um dia em que
estavam sentados  mesa de um bar.

  Era em pleno dia, a razo e a vontade tinham voltado aos comandos. Enquanto 
uma gota de vinho tinto deslizava lentamente pela superfcie do copo, Tereza 
disse:   No posso fazer nada, Tomas.

  E natural que quem quer ?elevar-seu sempre mais, um dia, acabe por ter 
vertigens. O y??e so vertigens? Medo de cair? Mas ento
porque  que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As 
vertigens no so o medo de cair.  a voz do vazio por
debaixo de ns que nos enfeitia e atrai, o desejo de cair do qual,
logo a seguir, nos protegemos com pavor.
  O cortejo de mulheres nuas em torno da piscina, os cadveres no
carro funerrio a manifestarem o seu contentamento por Tereza
tambm estar morta, so o ?por baixo?? que a apavora, de onde j
fugiu uma vez, mas que tambm a atrai misteriosamente. As suas
vertigens: ouvir um suave (e quase alegre) apelo que a incita a renunciar ao 
destino e  alma.  o apelo  solidariedade das desalmadas. Nos momentos de 
desespero, tem vontade de lhe responder e
de voltar para a me. Tem vontade de fazer retirar da ponte do seu
corpo a tripulao da alma; de descer e de se sentar com as amigas
da me a rir quando uma delas se peida ruidosamente; de desfilar
nua com elas em torno da piscina e de cantar.

18

   certo que, antes de deixar a famlia, Tereza j estava em guerra com a me, 
mas no nos esqueamos que, ao mesmo tempo,
tinha um amor bem infeliz por ela. Estava disposta a fazer tudo pela
me, desde que ela lho pedisse com um tom de ternura. Foi por
nunca ter ouvido esse tom que teve foras para se ir embora.
  Quando a me percebeu que a sua agressividade tinha perdido
toda e qualquer influncia sobre Tereza, passou a escrever-lhe cartas
lacrimejantes para Praga. Queixava-se do marido, do patro, da sade, dos filhos 
e dizia que Tereza era o nico ser que possua  face da
terra. Tereza julgou estar finalmente a ouvir a voz do amor materno
de que, durante vinte anos, sentira saudades, e teve vontade de
voltar. Tanto mais porque se sentia fraca. As infidelidades de Tomas
tinham-lhe revelado bruscamente a sua impotncia e desse sentimento de 
impotncia nasciam as vertigens, um imenso desejo de cair.
  A me telefonou-lhe. Disse-lhe que tinha um cancro. Que s lhe
restavam alguns meses de vida. Ao ouvir isto, o desespero em que
ficara com as infidelidades de Tomas transformou-se em revolta.
Censurava-se por ter trado a me com um homem que no gostava
dela. Estava pronta a esquecer o que a me lhe fizera. Agora j
podia compreend-la. Estavam ambas atoladas na mesma misria.
A me amava o marido como Tereza amava Tomas, e as infidelidades do padrasto 
torturavam a me exactamente como as de Tomas
atormentavam Tereza. A me s tinha sido m para ela por ser muito
infeliz.
  Falou a Tomas da doena da me e anunciou-lhe que ia tirar
uma semana de licena para poder ir v-la. Disse-o com um certo
tom de desafio na voz.

  Adivinhando que deviam ser as vertigens que estavam a atra-la
para a me, Tomas desaconselhou a viagem a Tereza. Telefonou
para o posto clnico da cidadezinha. Como na Bomia os dossiers
dos diagnsticos de cancro so extremamente minuciosos, facilmente
pde verificar que a me de Tereza no tinha o mnimo sintoma de
cancro e, at, que h mais de um ano no ia ao mdico.
  Tereza obedeceu-lhe e no foi ver a me. Mas, nesse mesmo dia,
deu uma queda na rua; passou a ter um andar hesitante; caa quase

todos os dias, tropeava nas coisas ou, na melhor das hipteses, deixava cair os 
objectos que tinha na mo.
  Sentia um desejo imperioso de cair. Vivia numa vertigem contnua.
  Quem cai, quer dizer: ??Levanta-me!?? Com toda a pacincia, Tomas 
levantava-a.



    Queria fazer amor contigo no meu arelier como se fosse o
palco de um teatro. Haveria gente em toda a volta e ningum teria
o direito de se aproximar, mas no conseguiriam despregar os olhos
de ns... ??
   medida que o tempo ia passando, a imagem perdia a crueldade inicial e 
comeava a excit-la. Vrias vezes evocou a situao ao
ouvido de Tomas enquanto faziam amor.
  Decidiu que havia uma maneira de se livrar da condenao que
lia nas suas infidelidades: era lev-la com ele! Era lev-la a casa das
amantes! Talvez assim, atravs desse desvio, o seu corpo voltasse a
ser nico e primeiro entre todos. O seu corpo seria o alrer ego de
Tomas, o seu ajudante e assistente.
  Enlaados, Tereza sussurra-lhe ao ouvido: ?"Despia-tas, lavava-tas na 
banheira e levava-tas...?? Queria que se transformassem os
dois em hermafroditas e que os corpos das outras mulheres se
tornassem no seu brinquedo comum.

20


  Seryir-lhe de alrer ego na sua poligamia. Tomas no queria
entend-lo, mas Tereza no conseguia deixar de pensar nisso e
tentava aproximar-se de Sabina. Disse-lhe que queria fotograf-la.
  Sabina convidou-a a ir ao atelier. Tereza acabou finalmente por
ver com os seus prprios olhos aquele diviso imensa, com o enorme div quadrado 
ao meio, armado como um estrado.
    Que vergonha nunca teres c vindo!??, disse Sabina, enquanto
lhe mostrava os quadros arrumados de encontro  parede. Chegou
mesmo a ir buscar uma tela muito antiga, pintada no seu tempo de
estudante. Era uma pintura de altos-fornos em construo. Tinha-a
feito numa poca em que, na escola de Belas-Artes, se exigia o
realismo mais rigoroso (porque a arte no realista era ento considerada como 
uma tentativa de subverso do socialismo) e Sabina,
que gostava de levar as apostas at ao fim, esforava-se por ser
ainda mais rigorosa do que os professores. Nessa altura, pintava de
maneira a que o trao do seu pincel fosse perfeitamente imperceptvel e os seus 
quadros pareciam autnticas fotografias a cor.
    Olha, este quadro, tinha-o estragado. Caiu-lhe tinta encarnada
por cima. Ao princpio, fiquei furiosa, mas, a partir de certa altura,
comecei a gostar da mancha porque parecia uma fissura, como se os
fornos no fossem fornos verdadeiros, mas um velho cenrio rasgado
onde os fornos tivessem sido pintados em rrompe l'oeil. Comecei
a brincar com a greta, a aument-la, a imaginar o que estaria l
atrs. Foi assim que comeou o meu primeiro ciclo de quadros.
Chamei-lhes cenrios.  evidente que no podia mostr-los a
ningum. Expulsavam-me logo da escola. Em primeiro plano, havia
sempre um mundo perfeitamente realista, mas, um pouco mais longe,

corro por detrs de um cenrio de teatro rasgado, aparecia uma
coisa diferente, uma coisa misteriosa ou abstracta.??

  Calou-se por um momento e, depois, acrescentou: ??Em primeiro
plano, era a mentira inteligvel. Atrs, a incompreensvel verdade.??
  Tereza ouvia-a com aquela incrvel ateno que s raramente um
professor consegue ver na cara de um aluno, enquanto constatava
que, de facto, todos os quadros de Sabina, tanto os antigos como os
de agora, falavam sempre da mesma coisa, todos eram o encontro
simultneo de dois mundos, como fotografias que tivessem sido
submetidas a uma dupla exposio. Uma paisagem e, ao fundo, 
transparncia, um candeeiro de mesa-de-cabeceira aceso. Uma mo
a rasgar por detrs uma idlica natureza-morta com mas, nozes e
rvore de Natal iluminada.
  Sentiu subitamente uma grande admirao por Sabina e, como a
pintora se mostrava extremamente amigvel, nenhum receio ou desconfiana se 
juntavam  sua admirao que, dentro em pouco, se
tinha transformado em simpatia.
  Quase se esquecia que viera para lhe tirar fotografias. Sabina
teve de lho lembrar. Ao desviar o olhar dos quadros, deparou-se-lhe, no meio da 
sala, o div armado como um estrado.

21


  Havia uma mesa-de-cabeceira ao lado do div e, em cima dela,
um suporte em forma de cabea, um expositor daqueles que os cabeleireiros usam 
para pr perucas. Em casa de Sabina, a cabea
postia no tinha uma peruca, mas um chapu de coco. Com um
sorriso, Sabina disse: ??Herdei este chapu de coco do meu av.??
  Chapus como aquele, pretos, redondos, rgidos, Tereza nunca
tinha visto seno no cinema. Charlie Chaplin usava sempre um.
Sorriu por seu turno, pegou no chapu de coco e examinou-o demoradamente. 
Depois, disse: ??Queres ficar com ele nas fotografias???
  A resposta de Sabina foi uma grande gargalhada. Tereza poisou
o chapu de coco, pegou na mquina e comeou a tirar fotografias.
  Ao fim de uma curta hora, disse: ??E se eu te tirasse fotografias
nua?
  - Nua?, perguntou Sabina.
  - Sim, nua, disse Tereza, repetindo heroicamente a sua proposta.
  - Para isso, primeiro  preciso beber??, disse Sabina, indo abrir
uma garrafa de vinho.
  Tereza sentia uma espcie de torpor e deixava-se estar calada,
enquanto Sabina passeava para trs e para diante, com um copo de
vinho na mo, falando do av que era presidente da cmara de
uma cidadezinha de provncia; no chegara a conhec-lo. Tudo o
que restava dele era o chapu e uma fotografia onde se viam as
pessoas importantes da terra numa tribuna; um deles era o av de
Sabina; no se sabia muito bem o que l estava aquela gente a
fazer, mas talvez estivessem a inaugurar um monumento  memria
de outra pessoa importante que, com certeza, tambm usava chapu
de coco nas ocasies solenes.
  Sabina falou demoradamente do chapu de coco e do av. Depois do terceiro 
copo, disse:   Espera um instante!?? e enfiou-se na
casa de banho.
  Voltou em roupo. Tereza pegou na mquina e ajustou-a ao
olho. Sabina abriu o roupo.





22


  A mquina servia a Tereza tanto de olho mecnico para observar a amante de 
Tomas como de vu para se esconder dela.
  S depois de passado um bom momento  que Sabina se resolveu a tirar o roupo. 
A situao era mais complicada do que imaginara. Depois de posar alguns minutos, 
aproximou-se de Tereza e
disse-lhe:   Agora,  a minha vez! Despe-te!??
  Este   despe-te!??, -que Sabina tantas vezes ouvira da boca de Tomas, 
tinha-se gravado na sua memria. Era portanto a ordem de
Tomas que a amante dava agora  mulher dele. As duas mulheres
estavam assim unidas pela mesma frase mgica. Era o processo que
Tomas usava para transformar uma conversa andina numa situao
ertica: fazia-o no com carcias, toques, elogios ou splicas, mas
com uma ordem que proferia bruscamente, de improviso, com uma
voz suave, embora enrgica e autoritria, e  distncia. Nesse momento, nunca 
tocava na mulher a quem a dirigia. Mesmo  prpria
Tereza dizia, exactamente no mesmo tom:   Despe-te!??. E embora
falasse com suavidade, embora sussurrasse, tratava-se realmente de
uma ordem. S por lhe obedecer, ela ficava logo excitada. Ora, acabara 
precisamente de ouvir essas mesmas palavras e desejava tanto
mais submeter-se a elas quanto  loucura obedecer a um estranho e,
neste caso, loucura ainda mais bela por no terem sido proferidas
por um homem mas por uma mulher.
  Sabina tirou-lhe a mquina das mos para ela se poder despir.
Tereza ficou de p, nua e desarmada  sua frente. Literalmente desarmada porque 
privada da mquina de q?e se servira para esconder
a cara e que, momentos atrs, apontava a Sabina. Encontrava-se 
merc da amante de Tomas. Essa docilidade enebriava-a. Se os segundos em que 
est nua em frente de Sabina pudessem nunca mais
acabar!
  Penso que tambm Sabina foi tocada pelo encanto inslito daquela situao em 
que,  sua frente, estranhamente dcil e tmida,
se encontrava a mulher do amante. Disparou duas ou trs vezes e,
depois, como que assustada com a magia daquele encantamento e
para dissip-la o mais depressa possvel, desatou a rir muito alto.
  Tereza imitou-a e ambas se foram vestir.




23


  Os crimes do Imprio Russo foram sempre perpetrados ao abrigo de uma discreta 
penumbra. Tanto da deportao de meio milho
de litunios e da morte de centenas de milhares de polacos, como da
liquidao dos trtaros da Crimeia no restaram provas fotogrficas
nenhumas, ficando tais acontecimentos gravados apenas na memria
como algo de indemonstrvel que, mais cedo ou mais tarde, se faria
passar como uma mistificao. A invaso da Checoslovquia em
1968 foi, pelo contrrio, fotografada, filmada e arrumada nos arquivos do mundo 
inteiro.
  Os fotgrafos e operadores de cmara checos souberam aproveitar a oportunidade 
que se lhes oferecia de fazer a nica coisa que
ainda podia ser feita: preservar para o futuro longnquo a imagem

da violao. Tereza. passou esses sete dias na rua a fotografar soldados e 
oficiais russos nas mais diversas situaes, todas comprometedoras. Os russos 
foram apanhados desprevenidos. Tinham recebido
instrues precisas quanto  atitude a adoptar no caso de serem atacados com 
armas ou com pedras, mas ningum lhes indicara como
reagir perante a objectiva de uma mquina fotogrfica.
  Gastou centenas de negativos a tirar fotografias. Deu mais ou
menos metade dos rolos a jornalistas estrangeiros (as fronteiras
continuavam abertas, os jornalistas estrangeiros estavam sempre a
chegar, pelo menos para uma curta estada quase s de ida e volta,
e aceitavam reconhecidamente o menor documento). Muitas das fotografias de 
Tereza apareceram no estrangeiro, nos mais variados
jornais: eram fotografias de tanques, de punhos ameaadores, de
prdios destrudos, de mortos cobertos com bandeiras tricolores, de
jovens a andar de moto a toda a velocidade  volta dos carros de assalto, 
agitando grandes paus com bandeiras checas na ponta, e de
rapariguinhas muito novas com minissaias incrivelmente curtas que
provocavam os infelizes soldados russos sexualmente esfaimados,
b?ijando, sob os seus narizes, o primeiro desconhecido que passasse.
A invaso russa, voltamos a insistir, no foi apenas uma tragdia;
foi tambm uma festa do dio cuja estranha euforia nunca ningum
poder compreender.





24


  Levara para a Sua umas cinquenta fotografias, que ela prpria
revelou com toda a arte e todo o engenho de que era capaz. Foi
oferec-las a uma revista de grande tiragem. O chefe de redaco
recebeu-a amavelmente (em torno da fronte de cada checo brilhava
a aurola da desgraa colectiva de um povo, coisa a que os suos
eram extremamente sensveis), convidou-a a sentar-se num sof,
examinou as fotografias, elogiou-as, para depois explicar que no
tinham qualquer hiptese de publicao (??por muito bonitas que sejam!??). J 
se passara tempo de mais sobre os acontecimentos.
  ??Mas em Praga tudo continua na mesma!??, exclamou Tereza,
com indignao, tentando explicar, no seu pssimo alemo, que, naquele preciso 
instante, no seu pas ocupado, contra tudo e contra
todos, se constituam conselhos operrios nas fbricas, os estudantes
continuavam em greve e toda a populao continuava a viver como
muito bem entendia. Isso  que era incrvel! E era precisamente isso
que j no interessava ningum!
  O chefe de redaco sentiu um certo alvio quando, interrompendo a conversa, 
entrou na sala uma mulher enrgica. Estendeu-lhe
um dossier, dizendo: "Trago-te uma reportagem sobre uma praia de
nudistas. ??
  O chefe de redaco tinha a subtileza suficiente para temer que
aquela checa que tirava fotografias a tanques achasse as imagens de
gente nua na praia um pouco frvolas de mais. Afastou o dossier para
a borda da secretria e apressou-se a dizer  recm-chegada:
??Deixa-me apresentar-te esta tua colega de Praga. Trouxe-me umas
fotografias esplndidas.??
  A mulher apertou a mo a Tereza e pegou nas fotografias.
  "Enquanto eu vejo as suas, veja voc tambm as minhas!??
  Tereza debruou-se sobre o dossier e tirou as fotografias.

  Como que a desculpar-se, o chefe de redaco disse a Tereza:
   exactamente o contrrio daquilo que voc fotografou!??
  Tereza respondeu-lhe:   De forma nenhuma!  precisamente a
mesma coisa!??
  Ningum compreendeu estas palavras, e eu prprio sinto alguma
dificuldade em entender que semelhanas podiam ter para Tereza
uma praia de nudistas e a invaso russa. Ps-se a observar atentamente as 
provas, particularmente uma, onde se via uma famlia de
quatro pessoas disposta em crculo: a me, toda nua, debruada
sobre os filhos, com umas grandes mamas pendentes como as de
uma cabra ou de uma vaca e, de costas, tambm debruado para a
frente, o marido, cujos testculos pareciam tetas em miniatura.
    No gosta???, perguntou o chefe de redaco.
  - Est muito bem tirada.
  - Parece-me que voc a acha chocante, disse a fotgrafa. S de
olhar para si, adivinha-se logo que nunca h-de pr os ps numa
praia de nudistas.
  -Ai, de certeza que no!??, disse Tereza.
  O chefe de redaco sorriu:   V-se imediatamente de onde 
que voc vem.  incrvel como os pases socialistas so puritanos!??
  A fotgrafa acrescentou, com uma amabilidade maternal:
  Corpos nus. E ento?  normal! Tudo o que  normal  belo!??
  Tereza lembrou-se da me a passear nua pela casa. Ainda tinha
nos ouvidos o riso que a acompanhara quando fora a correr baixar
o estore para as pessoas no verem a me toda nua.

25


  A fotgrafa convidou Tereza a ir tomar um caf ao bar.
    As suas fotografias so muito interessantes. Reparei que tem
um jeito fantstico para tratar o corpo feminino. Sabe com certeza
no que estou a pensar! Naquelas raparigas em poses to provocantes!
  - Nos casais a beijarem-se  frente dos tanques russos?
  - Isso mesmo. Voc dava uma fotgrafa de moda notvel. 
evidente que, primeiro, tinha de trabalhar com um modelo. De preferncia, com 
uma jovem estreante como voc. Depois, podia fazer
algumas fotografias e apresent-las a. uma agncia. Mas uma carreira
demora forosamente um certo tempo a comear. Entretanto, talvez
eu possa fazer alguma coisa por si. Vou apresent-la ao jornalista
que dirige a rubrica   0 Seu Jardim??. Talvez precise de fotografias.
De cactos, de rosas, de coisas desse gnero.
  - Fico-lhe muito agradecida??, disse Tereza com toda a sinceridade, vendo que 
a mulher sentada  sua frente estava cheia de boa
vontade.
  Mas, depois, perguntou a si prpria: porque  que hei-de tirar
fotografias a cactos? Sentia uma espcie de enjoo ao pensar em
voltar a fazer o mesmo que j fizera em Praga: bater-se por um
lugar, por uma carreira, por cada fotografia publicada. Nunca fora
ambiciosa por vaidade. Tudo quanto queria era escapar ao mundo
da me. Sim, via-o agora de repente com toda a nitidez: tinha exercido a sua 
profisso de fotgrafa com grande fervor, mas teria posto
exactamente o mesmo fervor noutra actividade qualquer, porque a
fotografia no fora seno uma maneira de   elevar-se?? e de viver
com Tomas.

  Disse:   Sabe, o meu marido  mdico e pode sustentar-me. No
tenho necessidade nenhuma de trabalhar.??

  A fotgrafa respondeu-lhe:   No consigo perceber como  que
pode renunciar  sua profisso depois de ter tirado fotografias to
bonitas!??
  Era verdade. As fotografias dos dias da invaso eram outra coisa. Essas, no 
as tirara para Tomas. Tirara-as por paixo. No por
paixo pela fotografia, mas por paixo pelo dio. Essa situao
nunca mais se repetiria. Alis, essas fotografias que tirara por paixo, tambm 
j ningum as queria: tinham perdido a actualidade. S
um cacto  que  eternamente actual. Mas os cactos no lhe interessavam 
absolutamente nada.
  Disse: "Isso  muito simptico da sua parte. Mas prefiro ficar
em casa. No tenho necessidade nenhuma de trabalhar.??
  A fotgrafa disse:   E ficar em casa, satsf-la???
  Tereza respondeu: aMais do que tirar fotografias a cactos."
  A fotgrafa disse:   Mas apesar de tirar fotografias a cactos tem
uma vida sua. Se viver s para o seu marido, no tem uma vida
sua. ?i
  De sbito, Tereza sentiu-se irritada: c?A minha vida  o meu
marido, e no os cactos.??
  A fotgrafa tambm j falava com uma certa irritao:   Ento
quer dizer que voc  feliz assim???
  Tereza (sempre irritada) respondeu:    claro que sou feliz!??
  A fotgrafa disse:   Uma muther que diz uma coisa dessas 
forosamente muito...?? Preferiu no continuar.
  Tereza completou :    Voc quer dizer com certeza: forosamente
muito limitada.??
  A fotgrafa conteve-se e disse:   No, limitada no. Anacrnica.??
  Com um ar sonhador, Tereza disse:   Tem razo.  exactamente
o que o meu marido diz de mim. ??

26


  Mas Tomas passava dias inteiros fechado na clnica e ela ficava
sozinha em casa. Felizmente que ainda tinham Karenine para ela o
levar a passear! Quando voltava para casa, sentava-se diante de um
manual de alemo ou de francs. Mas dava-lhe uma grande tristeza
e no conseguia concentrar-se. Muitas vezes, punha-se a pensar no
discurso que Dubcek fizera na rdio depois de vir de Moscovo. No
se lembrava j de nada do que ele dissera, mas ainda tinha nos
ouvidos aquela sua voz to trmula. Pensava nele: soldados estrangeiros 
tinham-no feito prisioneiro no seu prprio pas, a ele,
chefe de um Estado soberano, tinham-no levado, tinham-no mantido
sequestrado durante quatro dias algures nas montanhas. da Ucrnia,
tinham-lhe dado a entender que iam fuzl-lo como tinham fuzilado
doze anos antes o seu precursor hngaro Imre Nagy, depois tinham-no transferido 
para Moscovo, tinham-no mandado tomar banho, fazer a barba, vestir-se, pr uma 
gravata, tinham-lhe anunciado que j
no o destinavam ao peloto de fuzilamento, tinham-lhe ordenado
que voltasse a considerar-se como um chefe de Estado, tinham-no
feito sentar a uma secretria  frente de Brejnev e tinham-no obrigado a 
negociar.
  Voltara humilhado e fizera o seu discurso a um povo humilhado.
Estava to humilhado que quase no conseguia falar. Tereza nunca
mais h-de esquecer as pausas atrozes que ele fazia no meio das
frases. Estaria no limite das suas foras? Estaria doente? T-lo-iam
drogado? Ou no era seno o desespero? Se no restasse mais nada
de Dubcek, restavam pelo menos esses longos e atrozes silncios

durante os quais no era capaz de respirar, durante os quais tentava
tomar flego perante um povo inteiro grudado aos aparelhos de rdio. Nesses 
silncios, estava todo o horror que se abatera sobre o
pas.
  No stimo dia de ocupao, ouvira aquele discurso na sala de
redaco de um jornal dirio que se tornara durante esses dias no
porta-voz da resistncia. Todos os que estavam naquela sala a ouvir
Dubcek o odiavam nesse momento. Reprovavam-lhe o mau compromisso ao qual dera o 
seu consentimento, sentiam-se humilhados com
a sua humilhao, e a sua fraqueza ofendia-os.
  Mas agora, em Zurique, ao pensar nesses momentos, no sentia
qualquer desprezo por Dubcek. A palavra fraqueza deixara de soar
como um veredicto. Mesmo com um corpo de atleta como Dubcek,
somos sempre fracos quando confrontados com uma fora superior.
Sentia-se subitamente atrada por essa fraqueza que ento lhe parecera 
insuportvel, repugnante, e que a fizera deixar o seu pas.
Compreendia que fazia parte dos fracos, do campo dos fracos, do
pas dos fracos e que lhes devia fidelidade precisamente por serem
fracos e tentarem tomar flego no meio das frases.
  Sentia-se atrada por essa fraqueza como se tivesse vertigens.
Sentia-se atrada porque tambm ela se sentia fraca. Tinha outra vez
cimes e as mos a tremer. Apercebendo-se disso, Tomas fez o
gesto do costume: pegou-lhe nas mos para acalm-la com a presso
dos seus dedos. Ela escapou-se-lhe.
  ?"O que tens?

  - Nada.
  - O que queres que eu faa por ti?
  - Quero que sejas velho. Que tenhas mais dez anos. Mais vinte
anos! ??
  Queria dizer com isso: quero que sejas fraco. Que sejas to fraco
como eu.

27


  Karenine nunca vira com bons olhos aquela ida para a Sua.
Karenine detestava as mudanas. Para os ces, o tempo no anda
em linha recta, o curso do tempo no  um movimento contnuo
sempre a direito, cada vez mais para diante, de uma coisa para a
coisa seguinte. Para eles, o tempo descreve um movimento circular
como o tempo dos ponteiros do relgio, porque os ponteiros
tambm no andam sempre estupidamente a direito, mas  volta do
mostrador, dia aps dia, na mesma trajectria. Em Praga, bastava
comprarem um sof ou mudarem uma jarra de flores de stio para
Karenine se indignar. Ficava com o sentido do tempo perturbado.
Um pouco como aconteceria aos ponteiros se lhes mudssemos os
nmeros do mostrador.
  No entanto, conseguiu em pouco tempo restabelecer no apartamento de Zurique a 
maneira como costumava empregar o tempo e
os seus antigos rituais. De manh, como em Praga, reunia-se-lhes de
um salto na cama para inaugurar o dia, a seguir ia com Tereza fazer
as primeiras compras da manh e, como em. Praga, tambm passara
a exigir que o levassem regularmente a passear.
  Karenine era o relgio da vida deles. Nos piores momentos de
desespero, Tereza esforava-se por se convencer a si prpria que
tinha de aguentar por causa desse co ainda mais fraco do que ela e
talvez ainda mais fraco do que Dubcek e do que a sua ptria abandonada.

  Um dia, quando voltavam de um passeio, o telefone estava a
tocar. Tereza levantou o auscultador.
  Era uma mulher que perguntou em alemo se Tomas estava.
Mostrava-se impaciente e Tereza pensou adivinhar-lhe uma ponta de desprezo na 
voz. Quando respondeu que Tomas tinha sado e no
sabia quando voltava, a mulher desatou a rir do outro lado e desligou sem se 
despedir.
  Tereza sabia que no devia dar qualquer importncia ao caso.
Era provavelmente uma enfermeira do hospital, uma doente, uma
secretria ou outra pessoa qualquer. Mas sentia-se to perturbada
que no conseguia concentrar-se. Percebeu que perdera a pouca
fora que ainda tinha em Praga e que era absolutamente incapaz de
suportar um incidente, afinal de contas, bem ftil.
  Quem vive no estrangeiro deixa de ter por debaixo de si a rede
de segurana que ; para todo o ser humano, o pas natal, o pas
onde se tem a famlia, os colegas, os amigos e onde  fcil fazermo-nos entender 
na lngua que ?onhecemos desde crianas.  certo que
em Praga dependia de Tomas - mas s pelo corao. Aqui, dependia dele para tudo. 
Se ele a deixasse, o que lhe aconteceria a ela?
Estava condenada a passar a vida inteira no terror de o perder?
  Punha-se a pensar que aquela relao repousava num erro desde
o princpio. Ana Karenina, o livro que levava bem apertado debaixo
do brao naquele dia, era o bilhete de identidade falso de que se
servira para enganar Tomas. Tinham feito a vida num inferno um ao
outro embora se amassem muito. E era bem verdade que se amavam. Isso era a prova 
de que a culpa no era destes, dos seus
comportamentos ou do seu sentimento lbil. A culpa era da incompatibilidade que 
havia entre eles por ele ser forte e ela fraca. Ela
era como Dubcek a fazer pausas de meio minuto no meio das frases, era como a sua 
ptria a gaguejar, a tentar tomar flego sem
conseguir falar.
  Mas era precisamente o fraco quem devia saber ser forte e partir
quando o forte se encontrava demasiado fraco para poder sequer
ofender o fraco.
  Era nisto que Tereza estava a pensar. Depois, apertando a cara
contra a cabea felpuda de Karenine, murmurou: ??No te zangues,
Karenine, mas acho que temos de mudar de casa outra vez.??

28


  Com a sua pesadssima mala por cima da cabea e Karenine enroscado aos ps, 
Tereza seguia encolhida a um canto do comparti  mento. Ps-se a pensar no 
cozinheiro do restaurante onde trabalhava quando vivia com a me. Nunca perdia 
uma ocasio de lhe dar
  uma palmada no rabo e dissera-lhe por mais de uma vez  frente de
  toda a gente para ir para a cama com ele. Estranho era estar agora
  a pensar nele! Era a encarnao de tudo o que lhe causava repugnncia. Mas 
agora s tinha uma ideia fixa, que era ir ter com ele para
  lhe dizer: "Dantes querias ir para a cama comigo. Pois aqui me tens!??
  Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedis  se de voltar 
atrs. Tinha vontade de anular brutalmente os ltimos
  sete anos da sua vida. Eram as vertigens. Um inebriante, um incontrolvel 
desejo de cair.
  Poderia talvez dizer que ter vertigens  embriagarmo-nos com a
, nossa prpria fraqueza. Temos conscincia da nossa fraqueza, mas,

  em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo  -nos com a 
nossa prpria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em 
plena rua  frente de toda a gente, ficar por
' terra, ainda mais abaixo do que a terra.
  Estava convencida de que no ficaria em Praga e que deixaria de
  ser fotgrafa. Voltaria para a cidadezinha de onde a voz de Tomas a
  arrancara.
  Mas, uma vez chegada, tinha de ficar uns tempos em Praga para tratar
  de algumas coisas prticas. E, assim, ia adiando o momento da partida.
  De forma que, ao fim de cinco dias, Tomas apareceu inesperada  mente em casa. 
Karenine saltou-lhe para a cara, poupando-os durante algum tempo  necessidade 
de falar.
  - Foste ao jornal?
  - No, telefonei para l.
  - E ento?
  - Ainda no sei nada. E

  - De qu???
  Tereza no respondeu. No
estava  espera.


  Voltemos quele momento j nosso conhecido. Tomas estava desesperado e com dor 
de estmago. S adormeceu muito tarde.
  Alguns instantes depois, Tereza acordou. (Os avies russos continuavam a 
cruzar-se no cu de Praga e era difcil dormir com a barulheira.) O primeiro 
pensamento que teve foi: ele voltara por causa
dela. Por causa dela, mudara de destino. Agora, j no era ele que
era responsvel por ela; da em diante, ela  que era responsvel


  Parecia-lhe uma responsabilidade superior s suas foras.
  Depois, lembrou-se? ontem, Tomas aparecera  porta de casa e,
alguns instantes depois, tinham dado seis horas numa igreja de Praga. Quando se 
encontraram pela primeira vez, ela tinha acabado de
trabalhar s seis. Via-o  sua frente, sentado num banco amarelo, e

  No, no era superstio, era o sentido da beleza que a libertava
subitamente da angstia e lhe trazia um desejo renovado de viver.
Uma vez mais, os pssaros do acaso tinham poisado nos seus ombros. Tinha os 
olhos marejados de lgrimas e a sua respirao to
prxima dava-lhe uma sensao de infinita felicidade.



l?RCEIRA PARTE

AS PALAVRAS MAL ENTENDIDAS





  Genebra  uma cidade de fontes e fontanrios. Ainda hoje os
seus jardins conservam os velhos coretos onde outrora as bandas de
msica tocavam. A prpria universidade se encontra no meio de um
parque. Franz, que acabara as aulas da manh, saiu do edifcio. Dos
torniquetes das mangueiras jorrava uma poeira de gua que se espalhava em gotas 
minsculas pelo relvado. Sentia-se extremamente
bem-disposto. Foi directamente da universidade a casa da amiga que
morava apenas a algumas ruas de distncia.
  Ia frequentemente a casa dela, sempre como amigo e nunca como amante. Se 
fizesse amor com ela no arelier, passaria no mesmo
dia de uma mulher para outra, isto , da esposa para a amante e
vice-versa. Como em Genebra marido e mulher dormem  francesa,
na mesma cama, passaria portanto, num intervalo de? poucas horas,
da cama de uma mulher para a de outra. Na sua opinio, isso era
humilhar tanto a mulher como a amante e, em ltima anlise, era
humilhar-se a si prprio.
  O amor que sentia pela mulher por quem se apaixonara h uns
meses era algo de to precioso que lhe arranjara engenhosamente
um espao autnomo, um territrio inacessvel de pureza. As universidades 
estrangeiras convidavam-no frequentemente para proferir
conferncias; agora aceitava pressurosamente todos os convites. Como no eram 
suficientes para justificar aos olhos da mulher as suas
inmeras viagens, completava-as com imaginrios congressos e colquios. A amiga, 
que era dona e senhora do seu tempo, acompanhava-o. Fizera-lhe assim descobrir 
num espao de tempo recorde vrias cidades europeis e uma cidade americana.
  c?Se no tiveres nada em contrrio, daqui por uns dez dias podamos ir a 
Palermo, disse.

  - Prefiro Genebra.>> De p, diante de um cavalete, ela examinava um quadro 
inacabado.
  Franz tentou gracejar: ??Como  que se pode viver sem conhecer
Palermo?
  - J conheo Palermo, disse ela.
  - Como?, perguntou-lhe, num tom quase ciumento.
  - Uma amiga minha mandou-me um postal de l. Colei-o com
fita-cola na casa de banho. No reparaste???
  Depois, acrescentou: ?? Vou contar-te a histria de um poeta do
comeo do sculo. Estava muito velho e era o secretrio que o levava a passear. 
Um dia, este disse-lhe: "Levante a cabea, Mestre, e
veja! Olhe o primeiro aeroplano a passar por cima da cidade! - Posso muito bem 
imagin-lo", replicou o Mestre, sem levantar os
olhos. Ora muito bem! Tambm eu posso imaginar Palermo. H l
exactamente os mesmos hotis e os mesmos automveis que nas outras cidades. Ao 
menos, no meu atelier, os quadros so sempre diferentes. ??
  Franz ficou contrariado. Estava to habituado  ligao que havia entre a sua 
vida amorosa e as viagens que aquele seu ??Vamos a
Palermo!?? continha uma inequvoca mensagem ertica. Responder
?"Prefiro Genebra!?? no podia querer dizer seno que  amiga j
no lhe apetecia dormir com ele.
  Como explicar esta falta de segurana perante a amante? No
tinha razo nenhuma para duvidar a tal ponto de si prprio! Quem
dera os primeiros passos fora ela e no ele. Era um homem interessante; estava 
no auge da sua carreira cientfica e os colegas chegavam a tem-lo pela altivez 
e obstinao com que se engalfinhava nas
polmicas da especialidade. Ento porque  que pensava todos os
dias que a amiga ia deix-lo?
  S posso explic-lo dizendo que o amor estava para ele, no no
prolongamento, mas nos antpodas da sua vida pblica. O amor era
para ele o desejo de abandonar-se ao arbtrio e  merc do outro.
Quem se entrega ao outro como um soldado se deixa fazer prisioneiro tem de 
despojar-se previamente de todas as armas. Vendo-se
sem defesas, no pode coibir-se de estar sempre a pensar no momento em que o 
golpe fatal ser dado. Posso portanto dizer que,
para Franz, amar era estar constantemente  espera do golpe que
iria atingi-lo a qualquer minuto.
  Enquanto assim se deixara invadir pela angstia, a amiga poisara
os pincis e sara da sala. Voltou trazendo uma garrafa de vinho.
Abriu-a em silncio e encheu dois copos.

  Franz sentiu um peso enorme a sair-lhe do peito e achou-se ridculo. As 
palavras ?<Prefiro Genebra!?? no significavam que ela j
no queria fazer amor com ele mas, muito pelo contrrio, que estava farta de 
confinar os momentos de intimidade a breves estadas em
cidades estrangeiras.
  A amiga ergueu o copo e esvaziou-o de um trago. Franz imitou-a. Embora tivesse 
ficado extremamente satisfeito por constatar que
a recusa de ir a Palermo era, na realidade, um convite ao amor,
sentiu, pouco depois, uma certa pena; a sua amiga decidira infringir
a regra de pureza que ele introduzira na relao; no entendia o
significado dos angustiados esforos que fazia para proteger o amor
da banalidade e separ-lo radicalmente do lar conjugal.
  Abster-se de ir para a cama com a amante em Genebra era, de
facto, uma punio que se infligia a si prprio para se castigar de
ter casado com outra. Vivia esta situao como uma culpa ou uma
tara. Da sua vida amorosa com a mulher no havia praticamente
nada a dizer mas, apesar de tudo, sempre dormiam na mesma cama.

O ressonar de um acordava o outro e os miasmas do corpo de um
eram aspirados pelo nariz do outro.  evidente que teria preferido
dormir sozinho, mas o leito conjugal continuava a ser o smbolo do
casamento e, como  sabido, nos smbolos no se toca.
  Sempre que se deitava ao lado da mulher, pensava na sua amiga
a imagin-lo a deitar-se ao lado da mulher. Sempre que o pensava
sentia-se envergonhado com a ideia: era por isso que queria criar a
maior distncia possvel entre a cama onde dormia com a mulher e
a cama onde dormia com a amante.
  Esta serviu-se de outro copo, bebeu um golo e depois, sem dizer
palavra, com uma estranha indiferena, como se Franz no estivesse
l, despiu lentamente a blusa. Comportava-se como um aluno de
arte dramtica se comporta quando tem de fazer um exerccio de
improviso para mostrar-se tal e qual como  quando est sozinho e
sem ningum a ver.
  Ficou de saia e de soutien. Depois (como se se lembrasse de
repente que havia algum na sala), olhou demoradamente para
Franz.
  Era um olhar que o incomodava porque no o compreendia. Entre todos os amantes 
estabelecem-se rapidamente regras de jogo inconscientes mas com fora de lei que 
no devem, portanto, ser
transgredidas. Este olhar escapava a essas regras; no tinha nada de
parecido com os olhares e os gestos que ela costumava fazer antes
de irem para a cama. Neste olhar no havia nem provocao nem
coquetterie, mas antes uma espcie de interrogao. S que Franz
no fazia a mnima ideia da pergunta de que se tratava.
  Ela despiu a saia. Agarrou-o pela mo e f-lo rodopiar at junto
de um grande espelho que, um pouco mais adiante, se encontrava
encostado  parede. Sem lhe largar a mo, observava-o no espelho
com o mesmo olhar interrogativo de h pouco, que ia poisando ora
nele, ora nela.
  No cho, ao p do espelho, havia um velho chapu de coco enfiado numa cabea 
postia. Baixou-se, apanhou-o e p-lo na cabea.
A imagem do espelho transformou-se imediatamente: agora, era a
imagem de uma mulher em ?roupa interior, bela, inacessvel, fria,
com um chapu de coco completamente despropositado na cabea.
Estava de mo dada com um senhor de fato cinzento e de gravata.
  Mais uma vez, sentiu-se admirado por conhecer to mal a sua
amante. No se tinha despido para convoc-lo ao amor, mas para
lhe representar uma farsa bizarra, um happening ntimo s para
dois. Fez um sorriso de compreenso e de assentimento.
  Pensara que ela tambm lhe ia sorrir, mas enganou-se. Continuou de mo dada 
com ele a olhar ora para a imagem de um, ora
para a imagem de outro.
  A durao do happening estava a ultrapassar os limites do razovel. Franz 
sentia que a farsa (embora, tinha que admiti-lo, encantadora) se prolongava um 
pouco de mais. Pegou delicadamente com
dois dedos no chapu de coco, tirou-o a sorrir da cabea de Sabina
e voltou a p-lo no suporte. Era como apagar os bigodes feitos por
um mido rabino na imagem da Virgem Maria.
  Sabina ainda continuou imvel a olhar-se ao espelho durante
mais alguns segundos. Depois, Franz cobriu-a ternamente de beijos.
Pediu-lhe mais uma vez que o acompanhasse a Palerroo da a uns
dez dias. Desta vez, ela anuiu sem rodeios e Franz foi-se embora.
  Recuperara o bom humor. Genebra, que toda a vida apelidara
de metrpole do tdio, parecia-lhe bela e cheia de aventuras. Voltou-se para 
trs e olhou para cima, para a varanda envidraada do
atelier. Eram as ltimas semanas da Primavera, estava calor, todas

as janelas tinham toldos s riscas. Franz chegou a um jardim; ao
longe, por cima das rvores, pairavam as cpulas douradas da igreja
ortodoxa, como balas de canho rutilantes imobilizadas nas alturas
por uma fora invisvel que as tivesse retido antes do impacto. Era
muito bonito. Franz dirigiu-se ao cais para apanhar um barco que o
levaria  margem direita onde a sua casa ficava.

2


  Sabina ficou s. Voltou a instalar-se  frente do espelho. Continuava em roupa 
interior. Tornou a pr o chapu de coco e passou
um bom bocado a examinar-se ao espelho. Era espantoso que, ao
fim de tanto tempo, ainda se sentisse perseguida pelo mesmo instante perdido!
  H vrios anos, uma vez que Tomas viera a sua casa, ficara cativado com o 
chapu de coco. Pusera-o na cabea e postara-se  frente do grande espelho que, 
no estdio de Praga, tambm estava encostado  parede. Queria ver a figura que 
faria se tivesse sido presidente da cmara de uma cidadezinha no sculo passado. 
Depois,
quando Sabina comeou vagarosamente a despir-s, ps-lhe o chapu de coco na 
cabea. Encontravam-se de p  frente do espelho.
Era sempre a que se despiam e espiavam as suas imagens. Sabina
estava em roupa interior com o chapu de coco na cabea. De repente, percebeu 
que estavam ambos excitados com o quadro.
  Como era isso possvel, se apenas alguns momentos antes o nico efeito que o 
chapu de coco tinha na sua cabea era o de uma
simples brincadeira'? Do cmico ao excitante, no haveria ento seno um passo?
  Sim, era isso mesmo. Quando olhou para o espelho, primeiro
no viu seno uma situao burlesca; mas, depois, o cmico foi afogado pela 
excitao: o chapu de coco deixara de funcionar como
um gag e passara a significar violncia; violncia sobre Sabina, sobre
a sua dignidade de mulher. Via-se a si prpria com as pernas nuas e
as cuecas quase transparentes atravs das quais o tringulo do sexo
se lhe apercebia. A roupa interior sublinhava o encanto da sua feminilidade; o 
chapu, masculino, de feltro rgido, negava-a, violava-a, ridicularizava-a. 
Tomas encontrava-se a seu lado, todo vestido, o
que contribua para que a cena que se lhes ia descobrindo aos dois
no espelho no se revelasse, afinal, como um gag (para isso ele
tambm teria de estar em roupa interior e de chapu), mas como
uma cena de humilhao. Em vez de rejeit-la, Sabina representava-a, provocante 
e orgulhosa, como se se deixasse violar em pblico;
por fim, quando j no podia mais, empurrou Tomas e arrastou-o
consigo para o cho. O chapu de coco rolou para baixo da mesa
enquanto os seus corpos se contorciam na carpete aos ps do espelho.
  Voltemos uma vez mais a esse chapu de coco.
  Em primeiro lugar, era uma vaga recordao deixada por um
antepassado esquecido que fora presidente da cmara de uma cidadezinha da Bomia 
no sculo passado.
  Em segundo lugar, o chapu pertencera ao pai de Sabina. Depois do enterro, o 
irmo apropriara-se de tudo quanto era dos pais
e, por orgulho, ela recusara-se obstinadamente a lutar pelos seus
direitos. Tinha declarado em tom sarcstico que ficava com o chapu de coco, a 
nica coisa que queria herdar do pai.
  Em terceiro lugar, era o acessrio dos seus jogos erticos com
Tomas.
  Em quarto lugar, era o smbolo de uma originalidade que cultivava 
deliberadamente. Quando emigrara, no pudera trazer grande

coisa e, para transportar esse objecto incmodo e sem utilidade
nenhuma, tivera de renunciar a outras coisas bem mais teis.
  Em quinto lugar, o chapu de coco tornara-se um objecto sentimental desde que 
vivia no estrangeiro. Quando fora ver Tomas a
Zurique, levara-o e pusera-o na cabea para lhe abrir a porta do
quarto do hotel. Algo de inesperado acontecera ento. O chapu de
coco j no lhes pareceu nem cmico nem excitante; tornara-se um
vestgio do passado. Ficaram ambos comovidos. Fizeram amor como
nunca tinham feito: no havia lugar para qualquer jogo obsceno,
porque aquele encontro no era o prolongamento dos jogos erticos
de outrora, onde havia sempre mais um vcio a inventar, mas uma
recapitulao do tempo, um hino  memria do passado dos dois, a
recapitulao sentimental de uma histria nada sentimental que se
perdia na noite dos tempos.
  O chapu de coco tornara-se o tema da partitura musical que a
vida de Sabina era. Um tema que estava constantemente a repetir-se, mas sempre 
com uma significao diferente; todas passavam pelo chapu de coco como a gua 
pelo leito de um rio. E, posso diz-lo, era bem o leito do rio de Heraclito: 
c?No nos banhamos duas
vezes nas guas do mesmo rio!?? O chapu de coco era o leito de
um rio e o que Sabina via correr era sempre outro rio, outro rio
semntico: o mesmo objecto suscitava sempre outra significao, mas
nessa significao repercutiam-se (como um eco, como um cortejo
de ecos) todas as significaes anteriores. O vivido ia ressoando com
uma harmonia cada vez mais rica. Em Zurique, no quarto do hotel,
comoveram-se com o chapu de coco e fizeram amor quase  beira
das lgrimas porque aquela coisa preta no era apenas uma recordao dos seus 
jogos amorosos, era tambm um rasto do pai de Sabina
e do seu av, que vivera no tempo em que no havia nem automveis nem avies.
  Sem dvida que se percebe agora melhor o abismo que separava
Sabins de Franz: enquanto falavam das suas vidas um ao outro,
escutavam-se com uma grande avidez. Compreendiam com toda a
exactido o sentido lgico das palavras do outro, mas no ouviam o
murmrio do rio semntico que corria atravs dessas palavras.
  Por isso Franz se sentiu incomodado como se estivessem a falar-lhe numa lngua 
desconhecida quando Sabina ps o chapu de coco
na cabea  sua frente. No via nada de obsceno nem de sentimental no gesto, era 
apenas um gesto incompreensvel que o desconcertava pela sua falta de 
significao.
  Enquanto as pessoas so novas e as partituras musicais das suas
vidas ainda s vo nos primeiros compassos, podem comp-las em
conjunto e at trocarem temas (como Tomas e Sabina trocaram o
tema do chapu de coco). Porm, quando se conhecem numa idade
mais madura, as suas partituras musicais j esto mais ou menos
acabadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente
na partitura de cada uma.
  Se eu recapitulasse todas as conversas que Sabina e Franz tiveram, a lista dos 
seus mal-entendidos dava um dicionrio bem volumoso. Mas contentemo-nos com um 
pequeno lxico.

3

Pequeno lxico de palavras mal entendidas (primeira parte)

MULHER



  Para Sabina, o facto de ser mulher  uma condio que no escolheu. O que no 
 efeito de uma escolha no pode ser considerado como mrito ou como fracasso. 
Sabina pensa que, face a um
estado que nos  imposto, temos de saber adoptar a melhor atitude
possvel. Parece-lhe to absurdo insurgir-se contra o facto de ter
nascido mulher como glorificar-se com ele.
  Numa das primeiras vezes em que estiveram juntos, Franz disse-lhe, com uma 
estranha entoao: "Sabina, voc  uma mulher. ??
No percebeu por que  que ele lhe estava a dar essa notcia com
tanta solenidade como um Cristvo Colombo que acabasse de divisar a costa da 
Amrica. S mais tarde veio a compreender que a
palavra mulher, que Franz pronunciava com um nfase especial, no
era para ele a designao de um dos dois sexos da espcie humana,
mas um valor. Nem todas as mulheres mereciam ser chamadas
mulheres.
  Mas se, para Franz, Sabina  a mulher, o que ser ento Marie-Claude, a sua 
esposa legtima? Uns vinte anos antes (conheciam-se
na altura h alguns meses), esta ameaara suicidar-se se ele a deixasse. Franz 
ficara maravilhado com a ameaa. No gostava por a
alm de Marie-Claude, mas o amor dela pareceu-lhe sublime.
Achava-se indigno de um to grande amor e sentiu que devia curvar-se 
humildemente perante ele.

  Curvara-se, portanto, at ao cho, e casara-se com ela. E embora Marie-Claude 
nunca mais lhe tivesse manifestado a mesma intensidade de sentimentos que 
mostrara quando ameaara suicidar-se,
continuava a sentir, bem l no fundo, o imperativo de nunca fazer
mal a Marie-Claude e respeitar sempre a mulher que havia nela.
  Esta frase  curiosa. No pensava: respeitar Marie-Claude, mas:
respeitar a mulher que havia em Marie-Claude.
  S que, sendo Marie-Claude uma mulher, quem ser essa outra
mulher que se oculta dentro dela e que ele tem de respeitar? No
ser a ideia platnica de mulher?
  No. Essa mulher  a sua me. Nunca lhe passaria pela cabea
dizer que o que respeitava na me era a mulher. Adorava a me,
no uma mulher qualquer que se ocultasse dentro dela. A ideia platnica de 
mulher e a sua me so uma e a mesma coisa.
  Franz tinha mais ou menos doze anos quando a me ficara sozinha com ele, 
porque um dia, inesperadamente, o pai tinha-se ido
embora. Franz suspeitou que estava a passar-se qualquer coisa de
grave, mas a me disfarou o drama com uma conversa neutra e
ponderada para no traumatizar o filho. Foi nesse dia que, ao sarem de casa 
para dar uma volta pela cidade, Franz percebeu que a
me tinha dois sapatos desemparceirados. Ficou aflito e quis preveni-la, mas 
teve medo de mago-la. Passou duas horas com ela na
rua sem conseguir despregar os olhos dos seus ps. Foi ento que
comeou a fazer uma ideia do que devia ser o sofrimento.



A EIDELIDADE E A TRAlO


  Amara-a desde a infncia at ao dia em que a acompanhara ao
cemitrio, e ainda continuava a am-la em recordaes. Por isso
pensava que a fidelidade  a virtude mais importante, que  a fidelidade que d 
unidade  nossa vida, que, sem ela, se dispersaria em
mil e uma impresses fugidias.
  Talvez por um clculo inconsciente, Franz falava frequentemente

da me a Sabina: supunha que ela ficaria seduzida com a sua aptido para a 
fidelidade, o que era uma boa maneira de guard-la ao
p de si.
  S que o que seduzia Sabina era a traio e no a fidelidade.
A palavra fidelidade fazia-lhe lembrar o pai, provinciano puritano e
pintor de domingo; os seus temas predilectos eram os pores do Sol
atrs da floresta e as jarras com ramos de rosas. Graas a ele, comeou a 
desenhar muito cedo. Aos catorze anos, apaixonou-se por
um rapaz da sua idade. O pai teve medo e proibiu-a de sair sozinha
durante um ano. Um dia mostrou-lhe algumas reprodues de pinturas de Picasso e 
fez muita troa delas. Sabina ento pensou que, j
que no podia amar um rapaz da sua idade, ao menos podia apaixonar-se pelo 
cubismo. Depois de acabar o liceu, foi estudar para
Praga com a reconfortante impresso de poder finalmente comear a
trair a famlia.
  A traio. Desde crianas que ouvimos os nossos pais e os
nossos professores repetir que  a coisa mais abominvel que pode
ser concebida. Mas o que  trair? Trair  sair da fila e partir em
direco ao desconhecido. Para Sabina no h nada mais belo do
que partir para o desconhecido.
  Inscreveu-se na escola de Belas-Artes, mas l no lhe era permitido pintar  
maneira de Picasso. Nessa altura, era obrigatrio praticar aquilo a que chamavam 
realismo socialista e as Belas-Artes
eram uma fbrica de produzir retratos dos chefes de Estado comunistas em srie. 
No podia satisfazer o seu desejo de trair o pai
porque o comunismo no era seno outro pai, igualmente severo e
limitado, que lhe proibia no s o amor (era uma poca de puritanismo) como 
tambm Picasso. Casou-se com um actor medocre de
Praga, unicamente pela sua reputao de excntrico e por ser totalmente 
inaceitvel aos olhos dos seus dois pais.
  Depois, a me morreu. No dia seguinte, ao voltar a Praga depois
do enterro, recebeu um telegrama: o pai matara-se com o desgosto.
  Ficou cheia de remorsos: era assim to mau o pai pintar jarras
com rosas e no gostar de Picasso? Era assim to censurvel ter
medo que a filha engravidasse aos catorze anos? Era assim to ridculo no ter 
conseguido viver sem a mulher?
  Encontrava-se de novo prisioneira do desejo de trair: tratava-se
agora de trair a sua traio original. Anunciou ao marido (tinha deixado de ver 
o excntrico para s se sentir incomodada pelo bbado)
que ia deix-lo.
  Mas no se trai B., por causa de quem se traiu A., para nos
irmos reconciliar com A. Depois do divrcio, a vida da pintora no
passou a assemelhar-se em nada  vida dos pais que trara. A primeira traio  
irreparvel. Por reaco em cadeia, provoca outras
reaces que fazem a pessoa afastar-se cada vez mais do ponto da
traio inicial.

A MSICA


  Para Franz,  a arte que se encontra mais perto da beleza dionisaca concebida 
como embriaguez. Dificilmente perdemos o controlo
com um romance ou. com um quadro, mas podemos embebedarmo-nos com a Nona 
Sinfonia de Beethoven, com a Sonata para Dois
Pianos e Percusso de Banok e com uma cano dos Beatles. Franz
no faz qualquer distino entre msica erudita e msica ligeira.
Parece-lhe uma distino hipcrita e anacrnica. Gosta da mesma
maneira de Mozart e de rock.

  Para ele, a msica  libertadora: liberta-o da solido e da clausura, 
liberta-o da poeira das bibliotecas e abre-lhe portas no corpo por
onde a alma pode sair e confraternizar. Gosta de danar e tem pena
que Sabina no partilhe essa sua paixo.
  Esto a jantar no restaurante do hotel e os altifalantes acompanham a refeio 
com msica barulhenta e ritmada.
  Sabina diz: ?? um crculo vicioso. As pessoas esto a ficar
surdas porque pem a msica cada vez mais alto. Mas como esto a
ficar surdas, o nico remdio que tm  voltar a aumentar o som.

  - Tu no gostas de msica?, pergunta Franz.
  - No??, responde Sabina. Depois acrescenta: ??Talvez se tivesse
vivido noutros tempos...?? e fica a pensar na poca de Joo Sebastio
Bach, quando a msica parecia uma rosa aberta na imensa plancie
nevada do silncio.
  Sob a mscara da msica, o rudo persegue-a desde muito nova.
Quando andava a estudar em Belas-Anes, era obrigada a passar as
frias nos Estaleiros da Juventude, como ento se dizia. Os jovens
ficavam alojados em barraces colectivos e tinham que trabalhar na
construo de altos-fornos. Das cinco da manh s nove da noite, os
altifalantes vomitavam msica em altos berros. Dava-lhe vontade de
chorar, mas a msica era alegre e no se lhe podia escapar em stio
nenhum, nem na casa de banho nem na cama, nem mesmo debaixo
dos cobertores, porque havia altifalantes por toda a parte. A msica
era como uma matilha de ces a persegui-la.
  Pensava nessa altura que o universo comunista era o nico onde
essa barbrie da msica reinava. No estrangeiro, acabara por constatar que a 
transformao da msica em rudo  um processo planetrio, que faz a humanidade 
entrar na fase histrica da fealdade total.
A fealdade absoluta comeou por manifestar-se atravs da omnipresena da 
fealdade acstica: carros, motorizadas, guitarras elctricas, escavadoras, 
altifalantes, sirenes. No tardar a seguir-se a omnipresena da fealdade 
visual.
  Jantaram, subiram ao quarto, fizeram amor. A seguir, quase a
?adormecer, as ideias comearam a baralhar-se na cabea de Franz.
Lembrou-se da msica barulhenta do restaurante e pensou: ??O rudo tem uma 
vantagem.  que as palavras no se ouvem.?? Desde a
juventude no fizera outra coisa seno falar, escrever, dar aulas, inventar 
frases, procurar frmulas, corrigi-las, de tal maneira que as
palavras j no tinham nada de exacto, o sentido esbatia-se-lhes,
perdiam o contedo e s ficavam migalhas, moinhas, poeira, areia
que lhe flutuava no crebro e lhe fazia dor de cabea, que era a sua
insnia, a sua doena. Apeteceu-lhe ento, confusa e irresistivelmente, uma 
msica enorme, um rudo absoluto, uma barulheira
infernal que se espalhasse sobre todas as coisas, inundasse tudo,
abafasse tudo, onde a dor, a vaidade e a mesquinhez das palavras
perecessem para todo sempre. A msica era a negao das frases, a
msica era a antipalavra! Apetecia-lhe ficar enlaado para sempre
com Sabina, apetecia-lhe calar-se, nunca mais pronunciar palavra e
deixar o prazer confluir no clamor orgistico da msica. Foi nessa
bem-aventurada barulheira que adormeceu.



.? LL'Z E A OBS(?URIDADE

  Para Sabina, viver significa ver. A viso encontra-se limitada por
duas fronteiras: uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma

obscuridade total. Talvez seja da que lhe vem a repugnncia por
todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para l da
qual no h vida, e, tanto em arte como em poltica, a paixo do
extremismo  um desejo de morte disfarado.
  Para Franz, a palavra luz no evoca a imagem de uma paisagem
suavemente iluminada pelo sol, mas a fonte da luz enquanto tal:
uma lmpada, um projector. Vm-lhe  cabea as metforas habituais: o sol da 
verdade, o brilho da razo, etc.
   atrado pela luz como tambm o  pela obscuridade. Nos dias
que correm, quem apaga a luz para fazer amor arrisca-se a cair no
ridculo; como ele tem conscincia disso, deixa sempre uma luzinha
acesa por cima 'da cama. No entanto, no momento em que penetra
em Sabina, fecha os olhos. A volpia que o invade exige a obscuridade. Uma 
obscuridade pura, absoluta, sem imagens nem vises,
uma obscuridade sem fim, sem fronteiras, uma obscuridade que  u

infinito que cada um de ns tem em si (sim, porque quem busca o
infinito s tem .de fechar os olhos!).
  No momento em que sente a volpia espalhar-se-lhe pelo corpo,
Franz dissolve-se no infinito da sua obscuridade, ele prprio se
transforma em infinito. Mas quanto mais um homem cresce na sua
obscuridade interior, mais diminudo fica na sua aparncia fsica.
Um homem de olhos fechados no  seno um rebotalho de si prprio. Como no quer 
assistir a isso, Sabina tambm fecha os olhos.
Para ela, a obscuridade no  o infinito. Fecha os olhos porque quer
separar-se do que est a ver, porque quer neg-lo. Recusa-se a ver.

4

  Sabina deixara-se convencer a ir a uma reunio de compatriotas
seus. Uma vez mais, os presentes acabaram por pr-se a discutir se
os checos deviam ou no ter lutado contra os russos de armas na
mo. Claro que ali, ao abrigo da emigrao, toda a gente proclamva que sim. 
Sabina perguntou:   Ento porque  que no voltam
para l e lutam contra eles???
  No era coisa que se perguntasse. Um senhor de cabeleira grisalha, frisada no 
cabeleireiro, apontou-lhe o seu enorme indicador e
disse:   No diga uma coisa dessas. Somos todos responsveis pelo
que se passou. Voc tambm. O que  que voc fazia no nosso pas
para lutar contra o regime comunista? Pintava os seus quadros e
dava-se por muito satisfeita...??
  Nos pases comunistas, a inspeco e o controlo dos cidados so
actividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a 
expor, um simples cidado, para obter um visto para
passar frias  beira-mar, um futebolista, para poder jogar na seleco 
nacional, tm primeiro que recolher os mais variados relatrios
e certificados (da porteira, dos colegas, da polcia, da clula do
partido, do comit da empresa), que depois so amontoados, sopesados, lidos e 
relidos por funcionrios especialmente afectos a essa tarefa. O que vem escrito 
nos atestados no tem absolutamente nada
a ver com a competncia de um cidado para pintar ou jogar  bola
ou com um estado de sade que exija uma estada  beira-mar. S
contm informaes a respeito de uma coisa que  o chamado
  perfil poltico?? do cidado (aquilo que o cidado diz, aquilo que
pensa, a maneira como se comporta, se vai ou no s reunies e aos
desfiles do 1.o de Maio). Como tudo (vida quotidiana, emprstimos,
frias) depende da forma como se  classificado, todos os cidados


  so obrigados (para poderem jogar na seleco nacional, expor os
  seus quadros ou passar frias  beira-mar) a comportar-se de maneira a serem 
bem classificados.
  Era isto que Sabina pensava enquanto o senhor de cabelos grisa  lhos falava. 
Ele estava-se bem nas tintas para que os seus compatriotas jogassem bem futebol 
ou tivessem talento para pintar (nunca
  nenhum checo se interessara pela sua pintura). S tinha uma preocupao: 
apurar se eram opositores activos ou passivos, opositores
  da primeira ou da ltima hora, opositores a srio ou s para dar
  bom aspecto.
  Como era pintora, Sabina tornara-se uma boa fisionomista e
 aprendera em Praga a distinguir os homens com a paixo de inspeccionar e 
classificar os outros. Tinham todos um indicador um
  pouco mais comprido do que o dedo mdio e todos o apontavam
  aos seus interlocutores. Alis, o presidente Novotny, que reinou catorze anos 
seguidos na Bomia at 1968, tinha exactamente os
, mesmos cabelos grisalhos frisados no cabeleireiro e podia orgulhar  -se de 
possuir o maior indicador de todos os habitantes da Europa
  Central.
  Quando o emrito emigrante ouviu da boca daquela pintora,
  cujos quadros nunca vira, que era parecido com o presidente comunista Novotny, 
corou, empalideceu, voltou a corar, voltou a empalidecer, quis dizer qualquer 
coisa, no disse nada e acabou por cair
  num profundo silncio. Todos os presentes fizeram o mesmo e Sabina acabou por 
levantar-se e sair.
  Sentia-se penalizada, mas, uma vez na rua, ps-se a pensar: no
  fundo, porque  que tinha de conviver com checos? O que  que
  tinha em comum com eles? Uma paisagem? Se ainda h pouco algum lhes tivesse 
perguntado o que  que a palavra Bomia significava para eles, de certeza que 
perante os seus olhos se desenhariam
  imagens totalmente dspares e sem unidade nenhuma.
  A cultura? Mas o que  a cultura? A msica? Dvorak e Janacek? Claro que sim. 
Mas se houver um checo que no gosta de
  msica? A identidade checa desvanece-se imediatamente.
  Os grandes homens? Jan Hus? Aquela gente nunca lera uma linha dos seus livros. 
A nica coisa que era acessvel a todos era a
  fogueira, a glria da fogueira onde ardera por ser herege, a glria
  das cinzas em que se transformara, de forma que, pensava Sabina,
  para eles a essncia da alma checa no era seno um pequeno
  monte de cinzas e nada mais. Aquela gente s tinha em comum a
  derrota e as recriminaes que faziam uns aos outros.
  Caminhava depressa. Mais do que a discusso com os emigrantes, o que a 
perturbava eram os seus prprios pensamentos. Sabia que estava a ser injusta. 
Sabia que havia mais checos para alm
daquele tipo do indicador desmesurado. O silncio e o mal-estar que
se tinham seguido s suas palavras no significavam de forma
nenhuma que toda a assistncia a reprovasse. As pessoas tinham ficado com 
certeza desconcertadas com aquela irrupo do dio, com
aquela incompreenso de que todos se tornam vtimas na emigrao.
Porque no lhe inspiravam ento piedade nenhuma? Porque no os
olhava ento como pobres criaturas infelizes e abandonadas?
  Sabemos j qual  a resposta para estas perguntas: quando Sabina trara o pai, 
a vida abrira-se  sua frente como um longo caminho de traies e cada nova 
traio a atrai como um vcio e como
uma vitria. No quer ficar na fila e no fica mesmo! No ficar
para sempre na mesma fila com as mesmas pessoas e com as mesmas palavras! Por 
isso  que se sente perturbada com a sua prpria

injustia. Mas no  uma perturbao desagradvel, muito pelo contrrio, tem a 
impresso de ter alcanado uma vitria e de estar a ser
aplaudida por uma personagem invisvel.
  Mas, dentro em pouco, a embriaguez cedeu o lugar  angstia.
Um dia haveria de chegar ao fim do caminho! Um dia haveria de
acabar com as traies! Um dia haveria de parar de uma vez por
todas!
  Era de noite e caminhava apressadamente pelo cais da estao.
O comboio para Amesterdo j estava formado. Ps-se  procura da
carruagem. Foi conduzida at  porta do compartimento por um revisor bem 
simptico. Abriu-a. Franz estava sentado em cima da cama, que tinha os 
cobertores puxados. Levantou-se para acolh-la;
agarrou-se a ele e cobriu-o de beijos.
  Sentia uma vontade terrvel de lhe dizer, como a mulher mais
banal: no me abandones, deixa-me ficar ao p de ti, subjuga-me, s
forte!
  Quando Franz se libertou, apenas lhe disse: c?Estou to contente
por estar contigo!?? A sua discrio habitual no a deixou dizer mais
nada.

5


Pequeno lxico de palavras mal entendidas (continuao)


OS DESFILES


  Em Itlia ou em Frana, o problema  fcil de resolver. Quando
os pais obrigam os filhos a ir  igreja, os filhos vingam-se e
inscrevem-se num partido (comunista, trotskista, maosta, etc.). S
que o pai de Sabina comeou por mand-la  igreja e a seguir,
cheio de medo, obrigou-a a aderir  Juventude Comunista.
  Nos desfiles do 1.o de Maio nunca conseguia acertar o passo e a
rapariga de trs passava o tempo todo a insult-la e a pisar-lhe os
calcanhares. Quando era preciso cantar, nunca sabia a letra das canes, abria e 
fechava a boca como os actores do cinema mudo. Os
colegas perceberam e denunciaram-na. Desde a juventude que tinha
horror aos desfiles.
  Franz estudara em Paris e, como era excepcionalmente dotado,
j aos vinte anos tinha a sua carreira cientfica assegurada. A partir
dessa altura, sempre soube que havia de passar a vida fechado entre
as paredes de um gabinete universitrio, de algumas bibliotecas
pblicas e de dois ou trs anfiteatros; s de pensar nisso ficava abafado. 
Dava-lhe vontade de sair dessa sua vida como nos d vontade
de sair de casa para ir  rua tomar ar.
  Ainda morava em Paris e ia de bom grado s manifestaes.
Fazia-lhe bem ir comemorar qualquer coisa, reivindicar qualquer
coisa, protestar contra qualquer coisa, no ficar sozinho, ir para a
rua para o meio de outras pessoas. As manifestaes que percorriam
o Boulevard Saint-Germain ou iam da Rpublique  Bastilha
fascinavam-no. A multido em marcha, gritando ritmicamente os
seus slogans, era para ele a imagem da Europa e da sua histria.
A Europa  uma Grande Marcha. Uma Marcha de revoluo em

revoluo, de combate em combate, sempre cada vez mais para a
frente.
  Posso talvez diz-lo de outra maneira: para Franz, a vida no

meio dos livros era uma vida irreal. Aspirava  vida real, ao contacto com 
outros homens e outras mulheres a marcharem lado a lado
com ele, aspirava ao seu clamor. No se dava conta de que aquilo
que julgava irreal (o seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era
a sua vida real, enquanto as manifestaes que tomava pela realidade no 
passavam de um espectculo teatral, de uma dana, de uma
festa, ou, por outras palavras, de um sonho.
  Enquanto estudante, Sabina morava numa residncia universitria. No 1.o de 
Maio, eram todos obrigados a estar de madrugada
nos pontos de concentrao. Para que ningum pudesse faltar, alguns estudantes, 
militantes remunerados, iam verificar se a residncia tinha ficado completamente 
vazia. Sabina escondia-se na casa de
banho e s voltava para o quarto muito tempo depois de se terem
ido todos embora. Reinava ento um silncio como nunca conhecera
em dias da sua vida. Muito ao longe, ouvia-se a msica de uma
marcha. Era como estar escondida dentro de uma concha e ouvir ao
longe a ressaca de um universo hostil.
  Dois anos depois de ter deixado a Bomia, encontrava-se por
mero acaso em Paris no dia do aniversrio da invaso russa. Havia
uma manifestao de protesto a que no pde deixar de ir. Jovens
franceses de punho erguido berravam palavras de ordem contra o
imperialismo sovitico. Eram palavras de ordem que lhe agradavam,
mas constatou com surpresa que era incapaz de as gritar em unssono com os 
outros. S conseguiu aguentar a manifestao durante
alguns minutos.
  Contou esta experincia a uns amigos franceses. Espantados, estes 
perguntaram-lhe: ??Mas ento tu no queres lutar contra a
ocupao do teu pas??? O que tinha vontade de lhes dizer era que o
comunismo, o fascismo, todas as ocupaes e todas as invases ocultam o mesmo 
mal fundamental e universal; para ela, a imagem
desse mal eram as manifestaes com gente a desfilar de brao erguido e a gritar 
em unssono as mesmas slabas. Mas sabia que no
poderia explicar isso aos seus amigos. Sentiu-se aborrecida e preferiu passar a 
outro assunto.


A BLEZA DE NOVA IOR()UE

  Passavam horas a andar a p em Nova Iorque: como se seguissem por um caminho 
sinuoso numa paisagem montanhosa e fascinante, o espectculo alterava-se a cada 
passo: no meio do passeio,
havia um rapaz ajoelhado a rezar; a dois passos dele, encostada a
uma rvore, uma negra belssima passava pelo sono; um homem de
fato preto atravessava a rua a gesticular como se dirigisse uma orquestra 
invisvel; a gua caa nas bacias de um fontanrio; mesmo
ao lado, estavam uns operrios sentados a almoar. Escadarias metlicas trepavam 
pelas fachadas das casas de tijolo encarnado, casas
que, de to feias, at chegavam a parecer bonitas; mesmo ao lado,
erguia-se um gigantesco arranha-cus de vidro por detrs do qual
havia outro arranha-cus que culminava num palaciozinho rabe
com torres, galerias e colunas douradas.
  Era como as suas pinturas: nelas tambm havia coisas sem relao nenhuma umas 
ao lado das outras: altos-fornos em construo
e, ao fundo, um candeeiro de petrleo; ou ainda mais outro candeeiro com o abat 
jour antiquado de vidro pintado pulverizado em
pequenos fragmentos e, ao fundo, uma paisagem pantanosa e desolada.
  Franz disse: ??Na Europa, a beleza foi sempre premeditada. Havia sempre uma 
inteno esttica e um projecto de grande flego;

uma catedral gtica ou uma cidade renascentista que obedecessem a
esse projecto demoravam sculos a construir. A beleza da Nova
Iorque tem uma origem completamente diferente.  uma beleza involuntria. Nasceu 
sem que houvesse qualquer inteno por parte do
homem, um pouco como uma gruta de estalactites. Formas que, isoladas, so 
horrorosas, encontram-se aqui umas ao lado das outras
numa vizinhana perfeitamente improvvel, que inesperadamente as
faz brilhar, com uma poesia mgica.??
  Sabina disse: ??A beleza involuntria. Claro. Mas tambm podia
dizer-se: a beleza por engano. Antes de deixar definitivamente o
mundo, a beleza ainda h-de subsistir alguns instantes, mas por
engano. A beleza por engano  o ltimo estdio da histria da beleza. ??
  Estava a pensar no seu primeiro quadro verdadeiramente bem
conseguido; tinha-lhe escorrido tinta por cima por engano. Sim, os
seus quadros eram construdos a partir da beleza por engano e Nova
Iorque era a verdadeira e secreta ptria da sua pintura.
  Franz disse: ??Talvez a beleza involuntria de Nova Iorque seja
muito mais rica e muito mais variada do que a beleza demasiado
austera e elaborada resultante de um projecto humano. Mas j no
 a nossa beleza europeia.  um mundo estranho.??
  Mas como? Afinal, sempre concordam com alguma coisa?
  No. Tambm aqui h uma diferena. A estranheza da beleza
noviorquina atrai loucamente Sabina. A Franz, fascina-o, mas, ao
mesmo tempo, assusta-o: d-lhe saudades da Europa.



A PTRIA DE SABINA

  Sabina compreende bem as suas reticncias em relao  Amrica. Franz  a 
encarnao da Europa: a me era originria de Viena
  e o pai era francs. Franz, esse,  suo.
  Em contrapartida, Franz sente uma grande admirao pela ptria
  de Sabina. Quando ela fala do seu passado e dos seus amigos da
  Bomia e as palavras priso, perseguio, tanques na rua, emigrao, 
pantletos, literatura proibida, exposies proibidas so pronunciadas, sente uma 
inveja estranha e mesclada de nostalgia.
  Confessa a Sabina: "Um dia, um filsofo escreveu que todas as
minhas teses eram meras especulaes impossveis de demonstrar e
qualificou-me como "um Scrates quase inverosmil". Senti-me terrivelmente 
humilhado e respondi-lhe com toda a violncia. Imagina tu
que este episdio grotesco  o conflito mais grave que vivi em toda
a minha vida! Foi assim que a minha vida me revelou o mximo das
suas potencialidades dramticas! Tu e eu no vivemos na mesma
escala. Apareceste na minha vida como Gulliver no pas dos liliputianos. ??
  Sabina pe-se a protestar. Diz que os conflitos, os dramas, as
tragdias no significam absolutamente nada, no tm valor nenhum,
no merecem nem respeito nem admirao. O que toda a gente pode invejar a Franz 
 a paz que tem para trabalhar.
  Franz abana a cabea: ??Numa sociedade rica, as pessoas no tm
necessidade de trabalhar com as mos e podem consagrar-se a uma
actividade intelectual. H cada vez mais universidades e cada vez
mais estudantes. Estes, para obterem os seus canudos, primeiro tm
que fazer uma tese sobre um dado tema. E no  difcil arranjar um
tema, porque basta glosar o que j foi dito. E como tudo pode ser
glosado, h um nmero infinito de temas. E assim, cada vez h mais
e mais resmas de papel enegrecido amontoadas em arquivos ainda
mais tristes do que cemitrios, porque ningum l entra, nem

mesmo no dia de Todos os Santos. A cultura est a desaparecer
numa infinidade de produtos, numa avalanche de letras, na demncia da 
quantidade. Acredita em mim: um nico livro proibido no teu
antigo pas tem um significado infinitamente maior do que os milhes de palavras 
escarrados pelas nossas universidades.??

   neste sentido que a fraqueza de Franz por todas as revolues
  pode ser entendida. Primeiro simpatizara com Cuba, depois com a
  China e a seguir, desgostado com a crueldade dos seus regimes, acabou por 
admitir que no lhe restava seno esse oceano de letras que
  no pesam nada e no so a vida. Foi ensinar para a Universidade
  de Genebra (onde no h manifestaes) e, com uma espcie de
  abnegao (numa solido de onde mulheres e manifestaes estavam
, afastadas), publicou vrias obras cientficas que tiveram uma certa
  repercusso. Depois, um dia, Sabina surgiu como uma apario; vinha de um pas 
onde as iluses revolucionrias tinham murchado h
  muito, mas onde subsistia aquilo que ele mais admirava nas revolues: uma 
vida vivida  escala grandiosa do risco, da coragem e da
  proximidade com a morte. Sabina devolveu-lhe a confiana que tinha outrora na 
grandeza do destino da humanidade. A sua silhueta
  recortava-se sobre o drama de um pas e, para ele, ela ainda era
  mais bela por causa disso.
  Mas, a!, infelizmente, Sabina no v esse drama com bons
  olhos. Para ela, as palavras priso, perseguio, livro proibido,
  ocupao, blindado, no so seno palavras feias e sem romantismo
  nenhum. A nica palavra que lhe retine suavemente aos ouvidos
  como a lembrana nostlgica do seu pas  a palavra cemitrio.



O CEMlTRlO


  Os cemitrios da Bomia parecem jardins. Tm as campas cobertas de relva e de 
flores de cores garridas e os seus humildes jazigos
  espreitam por entre a verdura da folhagem.  noite, o cemitrio fica
I
  cheio de velinhas acesas como se os mortos estivessem a dar um
  baile infantil. Um baile infantil, sim, porque os mortos so inocentes
  como crianas. Por muito cruel que a vida seja, reina sempre a
  mesma serenidade no cemitrio. Mesmo durante a guerra, mesmo
  no tempo de Hitler, mesmo no tempo de Estaline, mesmo sob qual  quer outra 
ocupao. Quando se sentia triste, pegava no automvel
  e ia para fora de Praga dar uma volta num dos seus cemitrios preferidos. 
Aqueles cemitrios campestres recortados sobre um fundo
  azulado de colinas eram belos como uma cano de embalar.
  Para Franz, um cemitrio no  seno um imundo depsito de
  ossadas e cascalho.

6

    Nunca me ho-de obrigar a entrar num automvel! Terei sempre medo de ter um 
desastre! Mesmo quando no se morte, fica-se
traumatizado para a vida inteira!??, dizia o escultor, agarrando maquinalmente 
no indicador que quase serrara a esculpir madeira. S
por milagre  que os mdicos tinham conseguido salvar-lhe o dedo.
    Mas de maneira nenhuma!, proclamou uma Marie-Claude em

excelente forma. Quando eu tive o meu desastre foi magnfico! Como no conseguia 
pregar olho, lia ininterruptamente, de dia e de
noite! ??
  Todos olharam espantados para ela, o que lhe causou uma visvel satisfao. Ao 
enjoo que Franz sentia (lembrava-se que a mulher
ficara extremamente deprimida depois do desastre e que passava o
tempo a queixar-se) juntava-se uma certa admirao (aquele dom
que Marie-Claude tinha de metamorfosear tudo o que vivia era bem
o testemunho de uma incorrigvel vitalidade).
  Marie-Claude prosseguiu:   Foi no hospital que comecei a classificar os livros 
em duas categorias: os diurnos e os nocturnos. E 
mesmo verdade! H livros para ler de dia, e outros que s se podem ler  
noite.??
  Toda a gente manifestou o seu espanto e a sua admirao; s o
escultor, que continuava agarrado ao dedo, tinha o rosto crispado
pela sua dolorosa recordao.
  Marie-Claude voltou-se para ele: "Em que categoria  que tu
incluas os livros de Stendhal???
  O escultor no tinha ouvido e encolheu os ombros com um ar
aborrecido. A seu lado, um crtico de arte declarou que, na sua
opinio, Stendhal era para ler de dia.

  Marie-Claude abanou a cabea e proclamou com a sua voz tonitruante:   Mas de 
maneira nenhuma! No, no e no! No percebes
mesmo nada disto! Stendhal  mas  um autor nocturno!??
  Franz seguia muito de longe o debate sobre arte nocturna e arte
diurna, no pensando seno no momento em que Sabina faria a sua
apario. Tinham ambos passado vrios dias a ponderar se ela devia
aceitar ou no o convite para o c?oc?ktnil que Marie-Claude dava em
honra de todos os pintores e escultores que alguma vez tinham exposto na sua 
galeria privada. Desde que conhecera Franz, Sabina
evitava a sua mulher. Mas, com medo de se trair, acabou por decidir-se a aceitar 
porque isso era mais natural e menos suspeito.
  Enquanto ia deitando olhares furtivos para a entrada, apercebeu-se que, no 
outro extremo da sala, perorava infatigavelmente a voz
de Marie-Anne, a sua filha de dezoito anos. Trocou o grupo onde a
mulher oficiava pelo crculo onde a filha pontificava. Havia um
sentado num sof, outros de p e Marie-Anne estava sentada no
cho. Franz tinha a certeza que, dentro em pouco, no extremo oposto da sala, 
seria a vez de Marie-Claude se sentar na carpete. Nessa
poca, sentar-se no cho  frente dos convidados era uma atitude
obrigatria em quem pretendia mostrar-se natural, desinibido, progressista, 
socivel e parisiense. Marie-Claude sentava-se no cho
com tanta paixo em todo e qualquer lugar que Franz s vezes receava ir 
encontr-la sentada no cho da loja onde ela costumava ir
comprar ciganos.
    Em que  que andas a trabalhar agora, Alan'???, perguntou
Marie-Anne ao homem aos ps do qual estava sentada.
  Alan, jovem ingnuo e honesto, quis responder com sinceridade
 filha da dona da galeria. Comeou por explicar-lhe a sua nova
maneira de pintar, que combinava a fotografia e a pintura a leo.
Mal pronunciara duas ou trs frases, Marie-Anne deu uma assobiadela. O pintor 
falava devagar, todo concentrado naquilo que estava
a dizer; por isso, no deu pelo assobio.
  Franz perguntou-lhe baixinho:   Podes dizer-me porque  que assobiaste?
  - Porque detesto ouvir falar de poltica??, replicou-lhe a filha,
alto e bom som.
  Efectivamente, dois homens que faziam parte do mesmo grupo

falavam, em p um em frente do outro, das prximas eleies francesas. 
Marie-Anne, que se sentia no dever de dirigir a conversa,
interrompeu-os para lhes perguntar se iam na prxima semana ao
Grand-Thtre ouvir a companhia lrica italiana que l estava cantar uma pera 
de Rossini. Entretanto, Alan, o pintor, continuava obstinadamente  procura de 
frmulas cada vez mais precisas para explicar a sua nova maneira de pintar, e 
Franz sentiu-se envergonhado
  com a filha. Para a calar, disse que, quando ia  pera, se aborrecia
  mortalmente.
    No percebes nada disso, disse Marie-Anne, tentando dar
  palmadinhas na barriga do pai sem ter que se levantar, o intrprete
principal  to giro!  um espanto! Vi-o duas vezes e fiquei doida
por ele!"
  Franz constatava mais uma vez que a filha era atrozmente parecida com a me. 
Porque  que no havia antes de se parecer com
ele? Mas no, era um caso desesperado. J ouvira milhares de vezes
Marie-Claude proclamar que estava apaixonada por este pintor ou
por aquele, por um cantor, por um escritor, por um poltico e, uma
vez at, por um ciclista.  claro que aquilo no passava de retrica
de sociedade, mas s vezes vinha-lhe  cabea que vinte anos antes
ela dissera exactamente o mesmo a seu respeito, brindando-o ainda
por cima com uma ameaa de suicdio.
  Nesse preciso instante, Sabina entrou. Marie-Claude viu-a e
avanou ao seu encontro. A filha continuava a conversar sobre
Rossini, mas Franz s tinha ouvidos para aquilo que as duas mulheres diziam. 
Depois de dar-lhe educadamente as boas-vindas, Marie-Claude pegou com os dedos 
no medalho de cermica que Sabina
trazia ao pescoo e disse muito alto:   Mas que coisa horrorosa 
esta???
  Franz ficou fascinado com esta frase. No fora pronunciada num
tom agressivo porque, muito pelo contrrio, a gargalhada tonitruante
que se lhe seguira devia indicar imediatamente que a opinio de
Marie-Claude sobre o medalho no fazia mexer uma palha na sua
amizade pela pintora, mas, apesar de tudo, era uma frase que saa
do tom habitual de Marie-Claude com os outros.
    Fui eu que o fiz, disse Sabina.
  - Sinceramente, acho-o horroroso, repetiu muito alto Marie-Claude. No devias 
us-lo!??
  Franz sabia que para a mulher era perfeitamente indiferente que
uma jia fosse feia ou bonita. Feio era o que ela queria ver dessa
maneira, e bonito tambm. As jias das amigas eram, a priori, bonitas. Podia 
ach-las feias, mas disfarava cuidadosamente a sua opinio, j que a lisonja se 
tomara h muito a sua segunda natureza.
  Ento porque  que teria decidido achar feia a jia que Sabina
tinha feito com as suas prprias mos?

  Franz percebeu imediatamente porqu. Marie-Claude declarara
que a jia de Sabina era feia porque podia permiti-lo a si prpria.
  Ou, ainda mais exactamente, Marie-Claude proclamara que a
jia de Sabina era feia para deixar bem vincado que podia permitir-se a si 
prpria dizer a Sabina que a jia dela era feia.
  No ano anterior, a exposio de Sabina no tivera grande sucesso e, portanto, 
Marie-Claude no ficara nada interessada em
conquistar a simpatia de Sabina. Sabina, pelo contrrio, tinha todas
as razes para tentar conquistar a simpatia de Marie-Claude. Mas
nada no seu comportamento o deixava transparecer. Sim, Franz
compreendia-o com toda a nitidez: Marie-Claude tinha de aproveitar
aquela ocasio para mostrar claramente a Sabina (e aos outros) qual
era a verdadeira relao de foras que havia entre ambas.

7

Pequeno lxico de palavras mal entendidas (fim)


A VELNA (ATEDRAL DE AMESTERDO


  De um lado ficam as casas e, atravs das janelas do rs-do-cho,
to grandes como montras, apercebem-se os minsculos quartinhos
das putas. Estas esto em roupa interior, sentadas  janela em pequenos sofs 
cheios de almofadas. S parecem grandes gatos entediados.
  O outro lado da rua  ocupado por uma gigantesca catedral gtica do sculo 
xlv.
  Como um rio a separar dois reinos, entre o mundo das putas e o
mundo de Deus, paira o cheiro cido da urina.
  Na parte de dentro da igreja, do antigo estilo gtico no restam
seno as paredes, muito altas e despidas, as colunas, a abbada e as
janelas. No h um nico quadro, nem h imagens em stio nenhum.
O interior da catedral est to vazio como um ginsio. Tudo o que
l h so filas de cadeiras dispostas de maneira a formarem ao centro um grande 
quadrado, em torno de um estrado em miniatura
sobre o qual se ergue a mesinha do pregador. Atrs das cadeiras, h
camarotes de madeira destinados s famlias dos moradores mais ricos.
  As cadeiras e os camarotes esto dispostos sem qualquer respeito
pela configurao das paredes ou pela disposio das colunas, como
se assim manifestassem  arquitectura gtica a sua indiferena e o
seu desdm. H vrios sculos j que a f calvinista transformou a
igreja num simples hangar, cuja nica funo  proteger os fiis da
neve e da chuva.

  Franz estava fascinado: aquela sala gigantesca fora atravessada
pela Grande Marcha da histria.
  Sabina lembrou-se que, depois do golpe de Estado comunista,
todos os castelos e palcios da Bomia tinham sido nacionalizados e
transformados em centros de aprendizagem, casas de repouso ou at
em estbulos. Visitara uma vez um desses estbulos; nas paredes de
estuque, havia ganchos com anis de ferro aos quais estavam presas
as vacas, que olhavam com um ar sonhador atravs das janelas para
o jardim do palcio onde as galinhas corriam de um lado para o outro.
  Franz disse: ?"Sinto-me fascinado com este vazio. Acumulam-se
os altares, os quadros, as esculturas, as cadeiras, os sofs, os tapetes,
os livros e depois vem o momento de jbilo libertador em que tudo
 varrido como as migalhas de cima de uma toalha. s capaz de
imaginar a vassoura de Hrcules com que esta catedral foi varrida???
  Sabina apontou para um camarote de madeira. ??Os pobres ficavam de p, e os 
ricos tinham camarotes. Mas o banqueiro e o pobre
tinham uma coisa em comum. Era o dio  beleza.??
  ??O que  a beleza???, perguntou Franz, e veio-lhe imediatamente
 cabea a inaugurao de uma exposio onde, da a dias, tinha de
acompanhar a mulher: a vacuidade dos discursos e das palavras, a
vacuidade da cultura, a vacuidade da arte.
  Na poca em que, quando era estudante, trabalhava nos Estaleiros da Juventude 
e tinha na alma o veneno das alegres fanfarras que
brotavam ininterruptamente dos altifalantes, Sabina sara um domingo de 
motorizada. Percorreu vrios quilmetros de floresta e parou
numa aldeiazinha desconhecida, perdida no meio das colinas. Encostou a 
motorizada  igreja e entrou. Era precisamente a hora da

missa. Nessa altura, a religio era perseguida pelo regime comunista
e a maior parte das pessoas evitava as igrejas. Sentados nos bancos
s havia velhos. Esses no tinham medo do Governo; s tinham
medo da morte.
  Com uma voz melodiosa, o padre pronunciava uma frase e as
pessoas repetiam-na em coro logo a seguir. Era uma litania. As palavras, sempre 
as mesmas, voltavam continuamente, como um peregrino que no consegue arrancar 
os olhos da paisagem, como um
homem que no consegue dizer adeus  vida. Sentou-se num dos
bancos de trs; s vezes fechava os olhos s para ouvir aquela msica das 
palavras, depois voltava a abri-los: imediatamente lhe aparecia a abbada azul 
com grandes astros dourados pintados em cima.
Cedia ao encantamento.
  O que encontrara inesperadamente naquela igreja no fora Deus, mas a beleza. 
Ao mesmo tempo, tinha perfeita conscincia que
aquela igreja e aquelas litanias no eram belas em si mesmas, mas
que a sua beleza lhes vinha do contraste com os Estaleiros da Juventude onde os 
seus dias se passavam no meio da barulheira infernal das canes. A missa era 
bela por lhe ter aparecido sbita e
clandestinamente como um mundo trado.
  Aprendeu nesse dia que a beleza  um mundo trado. S podemos encontr-la 
quando aqueles que a perseguem a deixam por engano num stio qualquer. A beleza 
esconde-se atrs dos cenrios de
um desfile do 1.o de Maio. Para dar com ela, primeiro  preciso
furar a tela do cenrio.
  ??Nunca tinha ficado fascinado com uma igreja??, disse Franz. No
era nem o protestantismo nem a ascese que o entusiasmavam. Era
outra coisa, qualquer coisa de muito pessoal e da qual no se atrevia a falar  
frente de Sabina. Parecia-lhe estar a ouvir uma voz que
o desafiava a pegar na vassoura de Hrcules para varrer da sua vida
as inauguraes de Marie-Claude, os cantores de Marie-Anne, os
congressos, os colquios, os discursos inteis e as palavras vs.
O enorme espao vazio da catedral de Amesterdo acabava de lhe
oferecer a imagem da sua prpria liberdade.



A EORA


  Na cama de um dos inmeros hotis onde faziam amor, Sabina
apalpava um brao a Franz e exclamava: ??Tens uns msculos incrveis! >>
  Franz gostava de ouvir este elogio. Levantou-se da cama, agarrou mesmo rente 
ao cho o p de uma pesada cadeira de castanho e
comeou lentamente a tentar levant-la no ar. Enquanto isso, dizia
para Sabina:
    J no tens que ter medo de nada: agora tens-me a mim para
te defender! Fui campeo de judo na minha juventude!??
  Conseguiu endireitar o brao na vertical sem largar a cadeira e
Sabina disse-lhe: ?? bom saber que s to forte???
  Mas, bem l no fundo, acrescentou para si prpria: Franz 
forte, mas a fora dele est unicamente voltada para fora. Com as
pessoas com quem vive, com aqueles que ama.  muito fraco. A
fraqueza de Franz chama-se bondade. Franz seria incapaz de dar
uma ordem a Sabina. Nunca lhe ordenaria, como Tomas dantes fazia, que deitasse o 
espelho no cho e se pusesse a passear toda nua

em cima dele. No que a sensualidade lhe falte - no tem  fora

para dar ordens. H coisas que s se podem fazer com violncia.
O amor fsico  impensvel sem violncia.
  Sabina olhava para Franz a passear no quarto brandindo a sua
cadeira bem l no alto; a cena parecia-lhe ridcula e sentiu-se invadida por uma 
estranha tristeza.
  Franz poisou a cadeira e sentou-se com o rosto voltado para
Sabina.
  <<No que eu no goste de ser forte, disse, mas para que  que
me servem uns msculos destes em Genebra'? Uso-os para me enfeitar. So penas de 
pavo. Nunca parti a cara a ningum.??
  Sabina prosseguia as suas melanclicas reflexes. E se tivesse tido um homem 
que lhe desse ordens? Que tivesse querido domin-la. Durante quanto tempo 
suportaria isso? Nem durante cinco minutos! Portanto, no havia homem que lhe 
conviesse. Nem forte
nem fraco.
  Ento, perguntou a Franz: ??E porque  que de tempos a tempos
no te serves da tua fora contra mim?
  - Porque amar  renunciar  fora??, disse Franz, com doura.
  Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela
e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Franz acabara de se
desvalorizar para sempre na sua vida ertica.



VIVER NA VERDADE


   uma frmula que Kafka utilizou no dirio ou numa carta.
Franz j no se lembra muito bem onde. Sente-se seduzido por ela.
O que ser isso de viver na verdade? Uma definio negativa no 
difcil:  no mentir, no esconder, no dissimular nada. Desde que
conhece Sabina que vive na mentira. Fala  mulher de um imaginrio congresso de 
Amesterdo ou de umas conferncias de Madrid
que nunca existiram, e em Genebra tem medo de andar na rua com
Sabina. Mentir e esconder-se so coisas que o divertem porque
nunca as tinha feito. Do-lhe a mesma sensao de prazer que a
primeira gazeta ao melhor aluno da turma.
  Para Sabina, viver na verdade, no mentir nem a si prprio nem
aos outros, s  possvel se no houver pblico nenhum. A partir do
momento em que os nossos actos tm uma testemunha, quer queiramos quer no, 
adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a
partir de ento, nada do que fazemos  verdadeiro. Ter um pblico, pensar num 
pblico,  viver na mentira. Sabina despreza aquele tipo
de literatura em que o autor revela no s toda a sua intimidade,
como tambm a dos amigos. Quem perde a sua intimidade, perde
tudo, pensa Sabina. E quem renuncia voluntariamente a ela  um
monstro. Por isso, Sabina no se importa de ter uma relao clandestina. Bem 
pelo contrrio, para ela,  a nica maneira de viver
??na verdade??.
  Mas Franz, quanto a ele, est seguro de que a diviso da vida
em domnio privado e domnio pblico  a origem de toda a mentira: as pessoas 
so sempre diferentes em pblico e em privado. Para
Franz,   viver na verdade??  abolir a barreira entre o privado e o
pblico. Cita frequentemente Andr Breton, quando este dizia que
gostaria de ter vivido   numa casa de vidro?? aberta a todos os olhares e onde 
nada fosse secreto.
  Ao ouvir a mulher dizer a Sabina:   Que jia horrorosa!??, compreendera que 
era incapaz de continuar a viver aquela vida dupla.

Nesse momento, deveria ter acorrido em defesa de Sabina. Se no o
fizera, fora unicamente com medo de trair o seu amor clandestino.
  No dia seguinte ao do cocktail, estava de partida para Roma, para
passar dois dias com Sabina. As palavras:   Que jia horrorosa!??
vinham-lhe constantemente  cabea e faziam-lhe ver a mulher com
outros olhos. Passara a ver uma mulher muito diferente daquela que
julgara conhecer. A sua agressividade, invulnervel, espalhafatosa,
dinmica, aliviava-o do peso da bondade que pacientemente carregara durante 
vinte e trs anos de casamento. Lembrou-se do imenso
espao interior da catedral de Amesterdo e voltou a sentir o entusiasmo 
incompreensvel e singular que esse vazio lhe suscitava.
  Estava a fazer a mala quando Marie-Claude entrou no quarto;
falava dos convidados da vspera, aprovando energicamente certas
opinies que ouvira e condenaro acerbamente outras.
  Franz olhou demoradamente para ela e depois disse:   No vai
haver conferncia nenhuma em Roma.??
  Marie-Claude no entendeu:   Ento para que  que l vais???
  Replicou-lhe:   Tenho uma amante h sete ou oito meses. No
quero ter encontros com ela aqui em Genebra. Por isso  que tenho
viajado tanto. Pensei que mais valia prevenir-te.??
  Aps ter dito estas palavras, foi assaltado pela dvida: a coragem inicial 
comeava a abandon-lo. Desviou os olhos para no ter
de ver na cara de Marie-Ctaude o desespero que as suas palavras
no podiam deixar de causar-lhe.

  Depois de uma curta pausa, ouviu:   Sim, eu tambm acho que
vale mais estar prevenida.??
  Isto foi dito num tom de grande firmeza; Franz levantou os
olhos: Marie-Claude no estava minimamente perturbada. Continuava a ser a mulher 
que dizia com uma voz tonitruante:   Que jia
horrorosa! ??
  Ela prosseguiu:   Visto que tens a coragem de me anunciar que
me andas a enganar h sete ou oito meses, j agora tambm no
posso ficar a saber com quem???
  Sempre procedera de modo a no ofender Marie-Claude e a
respeitar a mulher que havia nela. Mas o que acontecera  mulher
que havia em Marie-Claude? Ou, por outras palavras, o que acontecera  imagem da 
me que associava sempre  da mulher? A sua
me, a sua me triste e magoada, com dois sapatos desemparceirados nos ps, 
deixara de estar dentro de Marie-Claude; e se calhar
nem isso, porque, de facto, nunca l devia ter estado. Quando o
percebeu veio-lhe o dio ao de cima.
    No tenho razo nenhuma para no te dizer??, disse.
  J que ela no ficara magoada por saber que ele a enganava,
saber quem era a rival mago-la-ia com certeza. Olhando-a bem nos
olhos, pronunciou o nome de Sabina.
  Pouco depois, foi ter com Sabina ao aeroporto.  medida que o
avio ganhava altura, sentia-se cada vez mais leve. Finalmente ao
cabo de nove meses, podia comear a viver outra vez na verdade!

8

  Para Sabina, foi como se Franz forasse a porta da sua intimidade. Era como se 
pelo postigo espreitassem a cabea de Marie-Claude, a cabea de Marie-Anne, a 
cabea de Alan, o pintor e a cabea
do escultor sempre agarrado ao dedo, a cabea de todos os seus
conhecidos de Genebra. Sem querer, involuntariamente, ia tornar-se
na rival de uma mulher que lhe era perfeitamente indiferente. Franz

divorciar-se-ia e ela iria ocupar o devido lugar a seu lado num grande leito 
conjugal. De perto ou de longe, todos os olhares estariam
pregados nela; de uma maneira ou de outra, teria de estar sempre a
representar; em vez de ser Sabina, ver-se-ia forada a interpretar o
papel de Sabina e, ainda por cima, a faz-!o da melhor maneira que
conseguisse encontrar. Servido ao pblico como pasto, o amor
ganharia cada vez mais peso e tornar-se-ia um fardo. S de pensar
nisso, sentia-se j dobrar sob o peso desse fardo.
  Encontravam-se a jantar num restaurante romano e a beber vinho. Sabina estava 
taciturna.
  ??A srio que no ests zangada???, perguntou Franz. Garantiu-lhe que no 
estava zangada. Sentia-se confusa e no sabia se devia
regozijar-se ou no com a notcia. Pensava no encontro na carruagem-cama do 
comboio de Amesterdo. Nessa noite, tivera vontade de lanar-se aos seus ps, de 
suplicar-lhe que a mantivesse sempre ao seu lado,
nem que fosse pela fora, e que a no deixasse nunca ir-se embora.
Nessa noite, tivera vontade de acabar de uma vez por todas com essa
perigosa viagem de traio em traio. Tivera vontade de parar.
  Agora, tentava com todas as suas foras voltar a sentir esse desejo, tentava 
invoc-lo, apoiar-se nele. Mas em vo. O enjoo era
mais forte.

  Regressaram ao hotel por entre a animao das ruas. Os gritos,
os gestos, os risos que havia em redor permitiam-lhes seguir calados
um ao lado do outro sem ouvir o seu prprio silncio.
  Depois, Sabina demorou imenso tempo na casa de banho enquanto Franz esperava 
debaixo do lenol do grande leito matrimonial. Como sempre, havia uma luzinha 
acesa.
  Ao voltar da casa de banho, desligou o interruptor. Era a primeira vez que 
fazia tal coisa. Franz deveria ter desconfiado. Mas
no deu qualquer importncia ao caso porque, para ele, tanto lhe
fazia que houvesse luz ou no. Como j sabemos, fazia amor de
olhos fechados.
   precisamente por causa desses olhos fechados que Sabina acaba de apagar a 
luz. Recusa-se a ver, nem que seja por mais um
segundo, essas plpebras cerradas. Como costuma dizer-se, os olhos
so as janelas da alma. O corpo de Franz a debater-se por cima de
si de olhos fechados  para ela um corpo sem alma.  como um
anmalzinho ainda cego que, quando est com sede, emite uns sons
de fazer d. Quando Franz, com os seus msculos magnficos, fazia
amor com ela s lhe parecia um cachorro gigante a amamentar-se
nos seus seios. E  bem verdade, ainda agora, com um dos seus
mamilos na boca, ele parece mesmo que vai mamar! Pensar que
Franz  um homem adulto por baixo, mas que em cima  um recm-nascido a mamar e 
que, portanto, vai para a cama com um
recm-nascido  uma ideia que raia a esfera da abjeco. No,
nunca mais quer v-lo a debater-se desesperadamente em cima de
si, nunca mais lhe estender o peito como uma cadela ao filho, hoje
 a ltima vez, hoje  irrevogavehnente a ltima vez!
  Sabia evidentemente que a sua resoluo era o cmulo da injustia, que Franz 
era o melhor dos homens que alguma vez conhecera,
que era inteligente, que compreendia os seus quadros, que era bom,
honesto, bonito, mas quanto mais conscincia tinha disso tudo, mais
vontade lhe dava de violar essa inteligncia, essa bondade de alma,
essa fora dbil.
  Nessa noite, amou-o com mais ardor do que nunca, excitada com
a ideia de ser a ltima vez. Amava-o e j l no estava, j se encontrava muito 
longe dali. J ouvia soar  distncia as trombetas da

traio e bem sabia que era incapaz de resistir a essa voz. Parecia-lhe que, 
mais uma vez, se abria diante de si um imenso espao de
liberdade, e essa extenso enorme dava-lhe uma grande exaltao.
Amava Franz loucamente, ferozmente, como no o amara nunca.
  Franz soluava sobre o seu corpo, pensava que agora j entendia tudo: Sabina 
pouco falara ao jantar e no lhe dissera nada a respeito da sua deciso, mas 
agora manifestava-lhe a sua alegria, a sua
paixo, o seu consentimento, o seu desejo de viver com ele para
todo o sempre.
  Sentia-se um cavaleiro a cavalgar num vazio soberbo, um vazio
sem mulher, sem filha, sem casa, um vazio soberbo varrido pela
vassoura de Hrcules, um vazio soberbo que ele preenchia com o
seu amor.
  Um por cima do outro, ambos cavalgavam. Ambos se encaminhavam para os 
horizontes longnquos pelos quais ansiavam. Ambos
se aturdiam numa traio que os libertava. Franz cavalgava Sabina e
traa a mulher, Sabina cavalgava Franz e traa Franz.
9


  Durante vinte anos, a mulher fora para ele a encarnao da me,
um ser frgil que precisava de ser protegido; era uma ideia to profundamente 
enraizada em si que no podia desembaraar-se dela em
dois dias. Quando entrou em casa, vinha cheio de remorsos; talvez
ela tivesse tido uma crise depois de ele ter sado, talvez fosse
encontr-la abatida pela tristeza. Fez timidamente girar a chave na
fechadura e foi para o quarto. Entrou com todo o cuidado para no
fazer barulho e ps-se  escuta; sim, Marie-Claude estava em casa.
Hesitou durante um momento e depois foi ter com ela como de
costume.
  Fingindo-se surpreendida, Marie-Claude levantou as sobrancelhas
e perguntou: ?"Ento sempre voltaste para c???
  Teve vontade de responder-lhe (e o seu espanto era sincero):
"Para onde  que querias que fosse???, mas no disse nada.
  Marie-Claude voltou a insistir: ??Para que fique tudo bem claro
entre ns, por mim, no h inconveniente .nenhum em mudares-te j
para casa dela.??
  Quando, no dia da partida, lhe confessara tudo, no tinha um
plano concreto. Pensava que, quando" regressasse, poderiam discutir
calmamente todos os pormenores para que as coisas se passassem da
forma menos penosa possvel para nela. No previra de forma nenhuma que ela 
insistisse friamente para que se fosse embora.
  Era uma atitude que lhe facilitava a vida mas, inconscientemente, sentia-se um 
pouco decepcionado. Toda a vida receara
mago-la e fora unicamente por isso que se impusera a si prprio a
disciplina voluntria de uma monogamia estupidificante. Agora, ao
fim de vinte anos, constatava que essa ateno para com ela fora perfeitamente 
intil e que se privara de dezenas de mulheres s por
causa de um mal-entendido!
  Depois das aulas da tarde, foi directamente da universidade a
cas de Sabina. Contava pedir-lhe que lhe deixasse passar l a noite.
Tocou e ningum abriu. Foi pr-se  espera no caf da frente, sempre com os 
olhos pregados na entrada do prdio.
  As horas iam passando e no sabia o que fazer. Toda a vida
dormira na mesma cama que Marie-Claude. Se agora voltasse para
casa, ainda teria de deitar-se ao lado dela? Claro que tambm podia

dormir no div do quarto ao lado. Mas no seria um gesto um pouco ostensivo de 
mais? No poderia ser interpretado como uma manifestao de hostilidade? Queria 
ficar amigo da mulher! Mas ir
dormir para o p dela tambm no podia ser. J estava a ouvi-la
perguntar, cheia de ironia: Mas como? Afinal no preferia a cama
de Sabina? Acabou por optar por um quarto de hotel.
  Passou todo o dia seguinte a tocar  porta de Sabina. Sempre
em vo.
  No outro dia, foi a casa da porteira do prdio do atelier de Sabina. Esta no 
sabia de nada e remeteu-o para a dona do atelier.
Telefonou e disseram-lhe que Sabina se mudara na antevspera, pagando, como 
constava do contrato, o aluguer de mais trs meses.
  Durante vrios dias ainda tentou surpreender Sabina em casa,
at que acabou por encontrar o apartamento aberto. Estavam trs
homens em fato-macaco l dentro a carregar os mveis e os quadros
para um grande camio de mudanas estacionado  frente do prdio.
  Perguntou-lhes para onde  que iam levar a moblia.
  Os homens responderam que estavam formalmente proibidos de
dar a morada.
  Encontrava-se prestes a enfiar-lhes algum dinheiro na algibeira,
quando perdeu subitamente a coragem. Ficou completamente paralisado de tristeza. 
No entendia nada, no conseguia encontrar qualquer espcie de explicao para o 
que se tinha passado. S sabia que
que no esperava outra coisa desde o momento em que conhecera
Sabina. Acontecera o que tinha de acontecer. Franz no se revoltava.
  Arranjou um pequeno apartamento na parte antiga da cidade.
Numa altura em que tinha a certeza de no encontrar nem a mulher
nem a filha, passou por casa para trazer o fato e alguns livros absolutamente 
indispensveis. Teve o cuidado de no levar nada que pudesse fazer falta a 
Marie-Claude.
  Um dia, divisou-a atravs da montra de uma casa de ch. Estava

com mais duas senhoras e no seu rosto, onde aquela infatigvel mmica gravara h 
muito um no acabar de rugas, lia-se uma viva
animao. As senhoras ouviam-na falar e no paravam de rir. Franz
no pde deixar de pensar que ela lhes devia estar a falar dele.
Sabia com certeza que Sabina desaparecera de Genebra no preciso
momento em que tinha decidido ir viver com ela. Era realmente
uma histria divertida! No era de espantar que fosse o alvo predilecto da 
chacota das amigas da mulher.
  Voltou para a sua casa nova, onde chegava o som dos sinos
da catedral de So Pedro. Nesse dia, tinham vindo entregar uma
mesa. Esqueceu-se de Marie-Claude e das amigas. E, por instantes, esqueceu-se 
tambm de Sabina. Sentou-se  mesa. Sentia-se orgulhoso por ter sido ele a 
escolh-la. Durante vinte anos,
vivera rodeado de mveis que no escolhera. Marie-Claude
encarregava-se de tudo. Pela primeira vez na sua vida, tinha deixado de ser um 
rapazinho e tornara-se independente. No dia
seguinte, devia vir um carpinteiro a quem ia encomendar as
estantes. Passara vrios dias a desenhar minuciosamente a biblioteca para que as 
formas e as dimenses ficassem bem claras e
para que depois no houvesse problemas quando viessem mont-la.
  Ento, de repente, percebeu com espanto que no se sentia infeliz. A presena 
fsica de Sabina contava muito menos do que pensara. O que contava era o rasto 
doirado, o rasto mgico que traara
na sua vida e que nunca ningum lhe poderia roubar. Antes de desaparecer do seu 
horizonte, ela tivera tempo de passar-lhe para a
mo a vassoura de Hrcules com que varrera da sua existncia tudo
de que no gostava. Aquela inopinada felicidade, aquele bem-estar,
aquela alegria que a sua liberdade e a sua nova vida lhe davam,

eram, afinal, um presente dela.
  Alis, sempre preferira o irreal ao real. Tal como se sentia
melhor nas manifestaes (que, como j disse, no passam de um
espectculo e de um sonho) do que atrs da ctedra onde dava aulas, tambm era 
mais feliz com Sabina metamorfoseada em deusa
invisvel do que fora em companhia de Sabina enquanto percorriam
mundo e ele tremia a cada passo pelo seu amor. Ela presenteara-o
com a sbita liberdade do homem s, ornara-o com a aura da seduo. Tornava-se 
um homem atraente para as mulheres; uma das alunas apaixonou-se por ele.
  De repente, num espao de tempo incrivelmente curto, todo o
cenrio da sua vida mudou. H pouqussimo tempo morava num

128 ? 129

          grande apartamento burgus, com uma criada, uma filha e uma esposa; 
agora mora num estdio da parte antiga da cidade e a sua
jovem amiga dorme praticamente todas as noites l em casa! No
tm qualquer necessidade de ir para o estrangeiro ou de dormir em
hotis; pode fazer amor com ela no apartamento que  bem seu, na
cama que  bem sua, na presena dos seus livros e do seu cinzeiro
poisado na mesa-de-cabeceira.
  A rapariga no era nem feia nem bonita, mas era muitssimo
  mais nova do que ele. E sentia uma grande admirao por Franz, tal
como Franz, pouco tempo antes, sentia uma grande admirao por
Sabina. Isso no lhe desagradava nada. Embora talvez considerasse
como uma pequena perda a substituio de Sabina pela universitariazinha de 
culos enormes, a sua bondade velava para que ele a
acolhesse com alegria e sentisse por ela um amor paternal que, alis,
comportando-se Marie-Anne no como sua filha mas como uma outra Marie-Claude, 
nunca pudera satisfazer.
  Um dia, foi ver a mulher e disse-lhe que queria voltar a casar-se.
  Marie-Claude abanou a cabea.
    Mas se nos divorciarmos, fica tudo na mesma. No te tiro nada.
Deixo-te tudo!
  - Para mim, o dinheiro no, conta, disse ela.
  - Ento o que  que conta?
  - O amor.
  - O amor???, perguntou Franz, admirado.
  Marie-Claude sorria: c?0 amor  um combate. Hei-de lutar o
tempo que for preciso. At ao fim.
  - O amor  um combate? No tenho a mnima vontade de lutar??, disse Franz, e 
saiu.

10


  Depois de quatro anos passados em Genebra, Sabina vivia em
Paris e nunca mais se recompunha da sua melancolia. Se lhe perguntassem o que 
lhe acontecera, no teria palavras para o dizer.
Pode sempre explicar-se o drama de uma vida atravs da metfora
do peso. Costuma dizer-se que nos caiu um fardo em cima. Carregamos com esse 
fardo, suportamo-lo ou no o suportamos. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. 
Mas o que acontecera ao
certo a Sabina? Nada. Deixara um homem porque queria deix-lo.
Esse homem tinha vindo atrs dela? Tinha querido vingar-se? No.
O seu drama no era o drama do peso, mas o da leveza. O que se
abatera sobre ela no era um fardo, mas a insustentvel leveza

do ser.
  At aqui, os momentos de traio exaltavam-na e ficava sempre
cheia de alegria s  ideia do novo caminho que se abria e da aventura sempre 
nova da traio que a esperava no fim da viagem. Mas
que aconteceria se a viagem acabasse? Pais, maridos, amores, ptrias
podem trair-se, mas o que resta para trair quando j no houver
pais, nem marido, nem amor, nem ptria?
  Sabina sentia um grande vazio em tomo de si. E se esse vazio
fosse precisamente o fim de todas as traies?
  At aqui,  claro que no tinha conscincia disso, e  bem compreensvel: o 
fim que se persegue est sempre oculto. Uma rapariga
que quer um marido, quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que 
anda em busca da glria no faz a mnima ideia
do que a glria . O que d sentido  nossa conduta  sempre uma
coisa completamente desconhecida. Tambm Sabina no sabe que
fim se oculta no seu desejo de trair. A insustentvel leveza do ser
poder ser considerada como um fim'? Desde que deixou Genebra,
encontra-se tremendamente prximo dela.
  Estava h trs anos em Paris quando recebeu uma carta da Bomia. Era uma carta 
do filho de Tomas. Tinha ouvido falar dela,
procurara a sua direco e dirigia-se-lhe porque ela era ??a amiga
mais chegada?? do pai. Dava-lhe a notcia da morte de Tomas e de
Tereza. Segundo o que dizia na carta, tinham passado os ltimos
anos de vida numa aldeia onde Tomas era motorista de camio. Iam
de vez em quando  cidade mais prxima e passavam a noite no
hotel. A. estrada atravessava uma serra, tinha muitas curvas e o camio cara 
numa ravina. Os corpos tinham ficado completamente
desfeitos. A polcia constatara que os traves estavam em muito
mau estado.
  No conseguia recompor-se do estado em que a notcia a deixara. Quebrara-se o 
ltimo lao que a unia ao passado.
  Como era seu hbito, tentou acalmar-se com uma volta num cemitrio. O 
cemitrio mais prximo era o de Montpamasse. Era
composto por delicadas construes em pedra, por capelas em miniatura erigidas 
ao lado das campas. Sabina no percebia como 
que os mortos podiam gostar de ter aqueles falsos palcios por cima
de si. Aquele cemitrio era o orgulho feito pedra. Longe de recobrarem a razo 
depois de mortos, os moradores daquele cemitrio
ainda se cobriam mais de ridculo do que em vida. Escarrapachavam
a sua importncia em jazigos. Quem ali repousava no eram nem
pais, nem irmos, nem filhos, nem avs, mas funcionrios pblicos, e
pessoas importantes, carregadas de ttulos e de honrarias; ali, mesmo
um simples empregado dos correios oferecia  admirao pblica a
sua classe, o seu posto, a sua posio social - enfim, a sua dignidade.
  Quando percorria uma lea do cemitrio, apercebeu-se de que,
pouco mais adiante, havia um enterro. O mestre-de-cerimnias tinha
os braos carregados de flores e distribua-as aos parentes e amigos:
uma ? a cada uma das pessoas. Estendeu uma a Sabina. Esta juntou-se ao cortejo. 
Era preciso contornar vrios jazigos antes de chegar
 cova de onde tinha sido retirada a pedra tumular. Debruou-se 
beira dela. A cova era muito funda. Largou a flor. Descrevendo
pequenas espirais, a flor l foi caindo e acabou por bater no caixo.
Na Bomia, as covas no so to fundas. Em Paris, as covas so to
fundas como as casas so altas. Os seus olhos poisaram na pedra
que, ao lado da cova, continuava  espera. De repente, ficou aterrorizada com 
aquela pedra. Voltou para casa quase a correr.

  Pensou na pedra o dia inteiro. Porque  que a aterrorizara

tanto %
  A resposta que achou foi a seguinte:  que se o tmulo est
fechado com uma pedra, o morto nunca mais pode sair.
  Mas, seja como for, o morto nunca mais sair da campa! Ento
tanto faz estar debaixo do barro como de uma pedra!
  No, no  exactamente a mesma coisa: se a campa est fechada
com uma pedra,  porque ningum quer que o morto volte. Aquela
pesada pedra est l para lhe dizer: ??Deixa-te estar onde ests!??
  Sabinz lembrava-se da campa do pai. Por, cima do caixo havia
barro, no barro cresciam flores e havia um bordo que estendia as
suas razes para o caixo: era como se o morto sasse da campa por
aquelas flores e por aquelas razes. Se o pai tivesse sido enterrado
debaixo de uma pedra, nunca mais teria podido falar-lhe, nunca teria ouvido a 
sua voz na folhagem da rvore a perdoar-lhe.
  Ento como seria o cemitrio onde Tereza e Tomas repousavam`?
  Uma vez mais, voltara a pensar neles. Iam de vez em quando 
cidade mais prxima e passavam a noite no hotel. Tinha reparado
especialmente naquela passagem da carta. Atestava que eles eram
felizes. Revia Tomas como se ele fosse um dos seus quadros: em
primeiro plano, um Dom Juan pintado como um cenrio aparente
pela mo de um pintor naf.? atravs de uma fenda do cenrio, apercebia-se um 
Tristo. Morrera a fazer de Tristo, no de Dom Juan.
Os pais de Sabina tinham morrido na mesma semana. Tomas e Tereza no mesmo 
segundo. De repente, apeteceu-lhe estar com Franz.
  Quando lhe falara dos seus passeios pelos cemitrios, Franz tivera quase um 
vmito e comparara os cemitrios a depsitos de ossadas e de cascalho. Nesse 
dia, cavara-se entre eles um abismo incompreensvel. S hoje, no cemitrio de 
Montparnasse,  que acaba de
compreender o que ele queria dizer. Tem pena de ter sido impaciente. Se tivessem 
ficado juntos mais tempo, talvez tivessem comeado a pouco e pouco a compreender 
as palavras que pronunciavam.
  Os seus vocabulrios ter-se-iam aproximado pudicamente, vagarosamente, como 
amantes muito tmidos, e a msica de cada um
teria comeado a fundir-se na msica do outro.
  Mas, claro,  tarde de mais e Sabina sabe que no ficar em
Paris, que ir para longe, cada vez mais para longe, porque se ali
morresse ficaria fechada debaixo de uma pedra, e uma mulher que
no pode estar parada no suporta a ideia de que lhe acabem de
uma vez por todas com a caminhada.

11

  Todos os amigos de Franz estavam ao corrente do que se passava com 
Marie-Claude, e todos estavam ao corrente do que se passava com a 
universitariazinha dos culos muito grandes. S que a
histria de Sabina ningum a sabia. Franz enganava-se ao pensar
que Marie-Claude falava dela s amigas. Sabina era bonita e Marie-Claude no 
queria que os seus rostos pudessem ser mentalmente
comparados.
  Com medo de ser descoberto, nunca lhe pedira nem um quadro
nem um desenho, nem mesmo uma fotografia de passe. Ela
desvanecera-se portanto da sua existncia. Passara com ela o ano
mais belo da sua vida, mas no ficara com nenhuma prova palpvel. Tudo isso s 
torna ainda maior o prazer de continuar a ser-lhe fiel.
  Quando se encontram a ss no quarto, s vezes, a sua jovem
amiga levanta a cabea do livro e poisa um olhar interrogativo sobre
ele: c?Em que ests tu a pensar???
  Franz est sentado num sof com os olhos perdidos no tecto.

Responda o que responder, est certamente a pensar em Sabina.
  Quando publica um trabalho numa revista cientfica, a sua universitariazinha  
sempre a primeira a l-lo e quer discuti-lo imediatamente com ele. Mas ele, ele 
s pensa no que Sabina diria do
texto. Tudo quanto faz, f-lo para Sabina e de uma forma de que
Sabina gostasse.
   uma infidelidade muito inocente, talhada  medida de Franz,
que  incapaz de fazer mal  sua universitariazinha de culos.
O culto de Sabina que pratica tem muito menos a ver com o amor
do que com a religio.

  Alis, segundo essa teologia, a sua jovem amante foi-lhe enviada
por Sabina. Reina portanto uma concrdia perfeita entre o seu amor
terreno e o seu amor extraterreno e se o seu amor extraterreno
contm necessariamente (s pelo simples facto de ser extraterreno,
uma grande dose de inexplicvel e de ininteligvel (no nos esqueamos do lxico 
de palavras mal entendidas, dessa lista enorme!), o
seu amor terreno, esse, repousa num verdadeiro entendimento.
  A estudante universitria  muito mais nova do que Sabina, a
partitura musical da sua vida mal comeou a ser esboada e ela l a
vai compondo com os temas que tira a Franz. A Grande Marcha de
Franz tambm  um artigo da sua f. Para ela, tal como para ele, a
msica  uma embriaguez dionisaca. Vo danar muitas vezes. Vivem na verdade, 
no tm segredos para os outros. Procuram a
companhia dos amigos, dos colegas, de estudantes e de simples
desconhecidos, sentem-se bem  mesa a beber e a conversar com
eles. De vez em quando, vo em excurso aos Alpes. Franz dobra-se para a frente, 
a rapariga salta-lhe para as costas e ele leva-a a
galope atravs dos prados, declamando muito alto um longo poema
alemo que a me lhe ensinou quando era pequeno. A pequena ri
s gargalhadas, e sente-se orgulhosa das suas pernas, das suas costas
e dos seus pulmes.
  A nica coisa cujo sentido lhe escapa  a singular simpatia que
Franz manifesta por todos os pases sob dominao russa. No dia do
aniversrio da invaso, h uma cerimnia comemorativa levada a cabo por uma 
organizao checa de Genebra. A sala est quase vazia.
O orador tem cabelos grisalhos frisados no cabeleireiro. L um
discurso muito comprido e consegue aborrecer mortalmente o
punhado de entusiastas que ali vieram s para ouvi-lo. Fala um
francs impecvel, mas com um sotaque terrvel. De tempos a
tempos, para sublinhar as palavras que profere, aponta com o indicador, como se 
estivesse a ameaar as pessoas que esto sentadas na
sala.
  A universitariazinha dos culos enormes est sentada ao lado de
Franz e reprime um bocejo. Mas Franz sorri beatificamente. Tem os
olhos pregados no homem de cabelos grisalhos, acha-lhe um ar
simptico, com aquele seu indicador surpreendente. Imagina que
aquele homem  um mensageiro secreto, um anjo que o mantm em
comunicao com a sua deusa. Fecha os olhos e sonha. Fecha os
olhos como sempre os teve fechados por cima do corpo de Sabina
em quinze hotis da Europa e num hotel da Amrica.

QUARTA PARTE

O CORPO E A ALMA

  Tereza entrou em casa por volta da uma e meia da manh, foi 
casa de banho, enfiou um pijama e deitou-se ao lado de Tomas.

Este j dormia. No momento em que, inclinada sobre o seu rosto,
lhe ia dar um beijo, percebeu que os cabelos deles tinham um cheiro esquisito. 
Manteve as narinas l mergulhadas durante um bom
bocado. Farejou-o como um co, at que acabou finalmente por
perceber: aquilo era um cheiro de mulher, um cheiro a sexo.
  s seis, ouviu-se o toque do despertador. Era a hora de Karenine. O co 
acordava sempre muito antes deles, mas no se atrevia a
incomod-los. Esperava impacientemente pela campainha do despertador, porque 
sabia que s nessa altura  que tinha o direito de
saltar para a cama dos donos, de pisar os seus corpos e de arranjar
um lugar para meter o focinho. Ao princpio, tinham tentado
contrari-lo e expuls-lo da cama, mas o co era mais teimoso do
que os donos e acabara por impor os seus direitos. Alis, Tereza j
h algum tempo que achava que no era desagradvel comear o
dia ao toque de Karenine. Para ele, o momento de acordar era de
uma felicidade sem mcula: estupidamente, ingenuamente,
espantava-se por ainda ser deste mundo e regozijava-se sinceramente com isso. 
Tereza, em contrapartida, sentia-se contrariada por
acordar e com vontade de que a noite no acabasse. No lhe apetecia nada ter de 
voltar a abrir os olhos.
  Agora, Karenine j estava  esper na entrada, com os olhos
pregados no cabide onde a coleira e a trela estavam penduradas.
Tereza ps-lhe a coleira e foram s compras. Comprou leite, po,
manteiga e, como sempre, um croissant para o co.  volta, Karenine vinha ao seu 
lado, com o croissant na boca: todo inchado, olhava em torno de si, encantado 
por ser alvo das atenes gerais e por
saber que as pessoas passavam o tempo a apontar para ele.
  Depois de chegar a casa, o co ficava a espreitar  porta do
quarto com o croissant na boca,  espera que Tomas se apercebesse
da sua presena, se pusesse de gatas, comeasse a rosnar e a fingir
que queria tirar-lho. Dia aps dia, repetia-se a mesma cena. Passavam uns cinco 
bons minutos a correr atrs um do outro pela casa
toda, at que Karenine ia refugiar-se debaixo da mesa para devorar
o seu croissant a toda a velocidade.
  Desta vez, porm, foi em vo que esperou pela cerimnia matinal. Havia um 
transstor em cima da mesa e Tomas estava todo
concentrado a ouvir.

2


  A rdio estava a dar um programa sobre a emigrao checa. Era
uma montagem de gravaes clandestinas de conversas privadas feitas por um 
espio checo que se infiltrara entre os emigrantes e depois regressara em 
triunfo ao pas. Eram conversas andinas e entrecortadas, de quando em vez, por 
insultos contra o regime de
ocupao e por frases em que os emigrantes se qualificavam uns aos
outros como cretinos e impostores.
  A emisso insistia sobretudo nestas ltimas passagens: com efeito, era preciso 
provar que aquela gente no s dizia mal da Unio
Sovitica (o que j no punha ningum indignado) como tambm
que no hesitava em mimosear-se com os piores insultos. O que 
curioso  que dizemos palavres de manh  noite, mas basta ouvirmos na rdio um 
tipo conhecido e respeitado pontuar o seu discurso
com uns estou-me bem a cagar para eles para, inconscientemente, nos
sentirmos algo desapontados.
    A primeira vtima de uma coisa destas foi Prochazka!??, disse
Tomas, sem deixar de prestar ateno quilo que estava a ouvir.

  Jan Prochazka era um romancista checo de cerca de quarenta
anos, forte como um touro, que, ainda muito antes de 1968, comeou a criticar em 
voz alta a situao do pas. Era um dos homens
mais populares da Primavera de Praga, essa vertiginosa liberalizao
do comunismo que terminou com a invaso russa. Pouco depois da
invaso, todos os meios de comunicao social lhe davam o toque
de rendio, mas quanto mais encurralado se encontrava maior era a
sua popularidade. Por isso, em 1970, a rdio comeara a transmitir  maneira de 
um folhetim as conversas privadas que, dois anos
antes (portanto, na Primavera de 1968). Prochazka tivera com um certo professor 
universitrio. Nenhum dos dois suspeitava que havia
um sistema de escuta montado em casa do professor e que, h muito tempo j, 
todos os gestos que faziam eram espiados at ao mais
nfimo pormenor! Prochazka punha sempre os amigos bem-dispostos
com as suas hiprboles e as suas ousadias. E, agora, essas suas inconvenincias 
eram regularmente transmitidas pela rdio! A polcia
secreta, que montara o programa, tivera o cuidado de dar um relevo
especial a uma passagem em que o romancista fazia troa dos amigos, entre os 
quais se contava, por exemplo, Alexandre Dubcek. As
pessoas no perdem uma ocasio de dizer mal dos amigos, mas, coisa
curiosa, ficaram mais indignadas contra o seu bem-amado Prochazka
do que contra a polcia secreta unanimemente detestada!
  Tomas desligou o aparelho e disse:   Todos os pases do mundo
tm uma polcia secreta. Mas s c  que ela transmite as gravaes
que faz pela rdio!  uma coisa inaudita!
  - No tanto como isso!, disse Tereza. Aos catorze anos, eu tinha
um dirio. Tinha medo que algum o lesse. Escondia-o no sto. A
minha me acabou por descobri-lo. Um dia, ao almoo, enquanto
estvamos a comer a sopa, tirou-o da algibeira e disse: "Ora oiam
todos com muita ateno!", e ps-se a l-lo em voz alta, desmanchando-se a rir a 
cada frase. Toda a famlia se desmanchou tambm
a rir e se esqueceu de comer.

3


  N?o desistia de tentar convenc-la a deix-lo tomar o pequeno-almoo sozinho 
e a ficar deitada. Mas ela no lhe dava ouvidos.
Tomas trabalhava das sete da manh s quatro da tarde, e ela das
quatro  meia-noite. Se no tomasse o pequeno-almoo com ele, s
aos domingos  que poderiam falar um com o outro. Portanto,
levantava-se ao mesmo tempo do que Tomas e, depois de ele se ir
embora, deitava-se outra vez e passava pelas brasas.
  Nesse dia, porm, tinha medo de tornar a adormecer porque
queria ir s dez horas ao sauna da ilha de Sofia. Havia muitos interessados, 
poucos lugares e s com uma boa cunha  que se conseguia frequent-lo. 
Felizmente que a caixa era mulher de um professor que tinha sido expulso da 
universidade. O professor era amigo
de um antigo doente de Tomas. Tomas falara ao doente, o doente
falara ao professor, o professor  mulher e Tereza agora tinha lugar
marcado uma vez por semana.
  Foi a p. Detestava os elctricos sempre a abarrotar, onde as
pessoas se apertavam rancorosamente umas de encontro s outras,
se pisavam, arrancavam os botes dos respectivos casacos e se injuriavam.
  Caa uma chuva fininha. As pessoas andavam com um passo
apressado, com os chapus-de-chuva abertos por cima da cabea e,
de repente, dava-se a grande confuso. Os chapus-de-chuva chocavam uns com os 
outros. Os homens eram delicados e, ao passar por

Tereza, levantavam os chapus-de-chuva. Mas as mulheres no se
desviavam um milmetro. Olhavam a direito, com um ar de ?ande
dureza, sempre  espera que a outra se reconhecesse como mais
fraca e capitulasse. O choque dos chapus-de-chuva era uma prova de fora. Ao 
princpio, Tereza desviava-se, mas, quando percebeu
que ningum lhe retribua a delicadeza, passou a segurar o chapu-de-chuva com 
toda a fora como as outras faziam. Por diversas
vezes, o seu chapu-de-chuva chocou violentamente com outros, mas
nunca ningum pediu desculpa. A maior parte das mulheres continuava de dentes 
cerrados; s ouviu por duas ou trs vezes: ??Puta!??
ou   Merda!??
  Armadas com os seus guarda-chuvas, havia mulheres de todas as
idades, mas as novas contavam-se entre as combatentes mais intrpidas. Tereza 
lembrava-se dos dias da invaso. Raparigas de minissaia
passavam e voltavam a passar com a bandeira nacional hasteada
num pau. Era um atentado ao pudor dos soldados russos forados
h vrios anos  ascese sexual. Em Praga, deviam julgar que estavam num planeta 
inventado por um romancista de fico cientfica,
um planeta povoado de mulheres incrivelmente elegantes a exibirem
o seu desprezo do alto de pernas to longas e esculturais como h
cinco ou seis sculos a Rssia inteira no vira.
  Durante aqueles dias, Tereza fotografara essas mulheres com os
carros de assalto a servirem de pano de fundo. Admirava-as tanto
nessa altura! E eram exactamente as mesmas mulheres que hoje via
avanar ao seu encontro, quezilentas e vulgares.  laia de bandeira,
erguiam um chapu-de-chuva, mas continuavam a segur-lo com o
mesmo orgulho. Afrontavam um exrcito estrangeiro to encarniadamente como o 
chapu-de-chuva que lhes impedia a passagem.

4


  Agora est a chegar  praa da Cidade Velha, onde se ergue a
catedral de Tyn e as rasas barrocas se dispem num quadriltero
irregular. A antiga Cmara Municipal do sculo xIv, que antes ocupava um lado 
inteiro da praa, h vinte e sete anos que se encontrava em runas. A Segunda 
Guerra Mundial mutilou horrorosamente
Varsvia, Dresden, Colnia, Budapeste, Berlim, mas os seus habitantes 
reconstruram-nas e, de uma forma geral, capricharam em
restaurar escrupulosamente os bairros histricos. Os habitantes de
Praga sentiam-se inferiorizados com essas cidades. O nico monumento que a 
guerra lhes destruiu foi a antiga Cmara Municipal.
Decidiram portanto conserv-la assim, com medo que o primeiro
polaco ou o primeiro alemo que passassem os censurassem por no
terem sofrido o suficiente. Diante desse ilustre entulho, encarregado
de representar para toda a eternidade a condenao da guerra,
ergue-se uma tribuna de barras metlicas que se destina  manifestao a que o 
Partido Comunista conduziu ontem ou tornar a
conduzir amanh o povo de Praga.
  Tereza olhava para os escombros da Cmara Municipal e, de sbito, aquele 
espectculo f-la pensar na me: era a mesma necessidade perversa de expor as 
runas, de se gabar da fealdade, de exibir
a misria, de pr o coto  mostra e obrigar toda a gente a ver.
Nestes ltimos tempos, tudo lhe fazia lembrar a me, como se o
universo materno a que escapara uma dezena de anos antes tivesse
vindo outra vez ao seu encontro e a cercasse por todos os lados.
Era por isso que contara ao pequeno-almoo que a me lhe lia o
dirio ntimo no meio da galhofa geral. O facto de uma conversa de

dois amigos diante de um copo ser transmitida pela rdio s pode significar uma 
coisa:  que o mundo se encontra transformado num
campo de concentrao.
  Tereza usava estas palavras quase desde a infncia para exprimir
a ideia que lhe dava a vida da famlia. O campo de concentrao 
um mundo em que as pessoas esto condenadas a viver perpetuamente, de dia e de 
noite, umas em cima das outras. As crueldades e
as violncias no so seno um aspecto secundrio e perfeitamente
dispensvel. O campo de concentrao  a liquidao total da vida
privada. Prochazka, que nem a discutir diante de um copo com um
amigo na sua prpria casa se encontrava abrigado, vivia (sem suspeitar disso, o 
que foi precisamente o seu erro fatal!) num campo de
concentrao. Quando Tereza vivia em casa da me, vivia num
campo de concentrao. Sabia desde esse tempo que o campo de
concentrao no  nada de excepcional, nada que nos deva surpreender, mas 
qualquer coisa de dado, de fundamental, qualquer
coisa onde se chega quando se vem ao mundo e de onde no nos
podemos evadir seno atravs de uma extrema tenso de todas as
nossas foras.

5


  Sentadas em trs bancos dispostos em socalcos, as mulheres
apertavam-se umas de encontro s outras. Uma rapariga de cerca de
trinta anos, de feies delicadas e .bonitas, transpirava ao lado de
Tereza. Um pouco abaixo dos ombros tinha dois seios incrivelmente
volumosos pendurados, que ao menor movimento se punham logo a
balanar. Quando se levantou, Tereza viu que atrs tambm parecia
ter dois sacos enormes que no tinham nada a ver com o seu rosto.
  Quem sabe se aquela mulher tambm no passava longos momentos diante do 
espelho a olhar para o corpo e a tentar ver a alma
 sua transparncia, como Tereza fazia desde criana? Com certeza
que tambm ela devia ter estupidamente julgado que o seu corpo
havia de ser o braso da sua alma. Mas se fosse parecida com aquele cabide com 
dois pares de sacolas penduradas, devia ser bem monstruosa, essa sua alma!
  Tereza levantou-se para ir para o duche. Depois foi tomar ar.
Continuava a chuviscar. Encontrava-se num ponto lanado sobre
uns poucos de metros quadrados do Vltava entre painis de madeira
muito altos que abrigavam as senhoras dos olhares da cidade. Ao
baixar a cabea, apercebeu  tona da gua a cara da mulher em
quem tinha estado a pensar.
  Ela sorria-lhe. Tinha um nariz fino, grandes olhos castanhos e
um olhar infantil.
  Subia a escada e, por debaixo daquele rosto delicado, voltaram a
aparecer as duas sacolas a baloiar e a projectar em redor minsculas gotas de 
gua fria.

6

  Foi-se vestir. Tinha um grande espelho diante de si.
  No, o seu corpo no tinha nada de monstruoso. No tinha dois
sacos pendurados abaixo dos ombros, mas uns seios relativamente
pequenos. A me fazia pouco dela por eles no serem suficientemente grandes, por 
no serem to grandes como os seios devem ser,
o que fizera com que ganhasse complexos de que s Tomas acabara
por livr-la. Agora, j aceitava perfeitamente as suas dimenses. S

no gostava daquelas aurolas grandes de mais e escuras de mais  volta
dos mamilos. Se tivesse podido desenhar o seu prprio corpo, teria mas
era uns mamilos discretos, delicados, pouco salientes em relao  curva
do seio e de uma cor que mal se distinguisse da cor do resto da pele.
Aqueles grandes alvos vermelho-escuros pareciam-lhe obra de um
pintor de aldeia especializado em imagens obscenas para necessitados.
  Examinava-se a si prpria e ia imaginando o que aconteceria se
o nariz lhe crescesse um milmetro por dia. Quanto tempo demoraria o seu rosto a 
ficar irreconhecvel?
  E se todas as partes do corpo lhe comeassem a crescer e a
diminuir at deixar de ter qualquer semelhana com Tereza, ainda
continuaria a ser a mesma, ainda haveria uma Tereza?
  Com certeza que sim. Mesmo supondo que Tereza passasse a ser
completamente diferente de Tereza, l dentro, a sua alma continuaria sempre a 
mesma e no poderia fazer nada seno assistir horrorizada ao que lhe estava a 
acontecer ao corpo.
  Mas, ento, que relao haveria entre Tereza e o seu corpo?
O seu corpo teria algum direito de se chamar Tereza? E se no tivesse, o que 
designaria ento esse nome? Nada a no ser uma coisa
incorprea, intangvel?

146

  (Desde a infncia que as mesmas perguntas bailam na cabea de
Tereza. Porque as perguntas verdadeiramente importantes so as
que uma criana pode formular - e apenas essas. S as perguntas
mais ingnuas so realmente perguntas importantes. So as interrogaes para as 
quais no h resposta. Uma pergunta para a qual
no h resposta  um obstculo para l do qual no se pode passar.
Ou, por outras palavras: so precisamente as perguntas para as
quais no h resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traam 
as fronteiras da nossa existncia.)
  Tereza encontra-se imvel, como que enfeitiada, em frente do
espelho, e olha para o seu corpo como se este lhe fosse estranho;
estranho, embora no cadastro dos corpos este seja o seu. D-lhe
vmitos. No teve fora suficiente para tornar-se o nico corpo da
vida de Tomas. Foi enganada por aquele corpo. Durante uma noite
inteira, tinha aspirado o cheiro ntimo de outra com que o cabelo do
marido estava completamente impregnado! 
  Apetece-lhe, de repente, despedir aquele corpo como se despede
uma criada. Apetece-lhe no ser para Tomas seno uma alma e expulsar aquele 
corpo para bem longe, para ele passar a comportar-se
como os outros corpos femininos se comportam com os corpos masculinos! J que o 
seu corpo no soube substituir todos os outros
corpos para Tomas e perdeu a maior batalha da vida de Tereza,
muito bem!, agora pode ir-se embora!

7

  Voltou para casa e almoou sem apetite, de p, na cozinha. s
trs e meia, ps a trela a Karenire e (sempre a p) foi com ele para
o hotel onde trabalhava e que ficava num bairro suburbano. Quando
fora despedida da revista, arranjara um lugar de criada de bar.
A coisa passara-se alguns meses depois de vir de Zurique; afinal,
sempre tinham acabado por no lhe perdoar que tivesse fotografado
ininterruptamente durante sete dias os tanques russos. Obtivera
aquele emprego graas a uns amigos: outras pessoas que tinham
perdido o emprego mais ou menos na mesma altura do que ela

tambm l encontraram refgio. Na contabilidade, havia um antigo
professor de teologia, na recepo, um antigo embaixador.
  Andava outra vez preocupada com as pernas. Dantes, quando
era criada na provncia, ficava assustada quando via como as pernas
das colegas estavam cobertas de varizes. Todas as raparigas que trabalhavam de 
p, que passavam a vida a andar e a correr carregadas
com pesos ficavam assim. De qualquer forma, aquele trabalho era
menos duro que o outro. Embora antes de comear o servio tivesse
de transportar as caixas de cerveja e de gua mineral, o resto do
tempo passava-o atrs do balco, a servir bebidas aos clientes e, nos
intervalos, a lavar os copos num pequeno lava-loia instalado na outra 
extremidade do bar.
  J passava da meia-noite quando acabou as contas e foi dar o
dinheiro ao director do hotel. Depois, foi despedir-se do embaixador
que estava de servio  noite. Atrs do longo balco da recepo
havia uma porta que dava para uma alcova onde se podia passar
pelas brasas numa cama muito estreita. Por cima do div, a parede
estava coberta de fotografias emolduradas onde o embaixador se encontrava sempre 
acompanhado por pessoas que sorriam para a objectiva, lhe apertavam a mo, ou 
estavam sentadas a seu lado numa
enorme secretria a assinar papis. Em lugar de destaque, havia
uma fotografia onde se reconhecia ao lado da cabea do embaixador
o rosto sorridente de John F. Kennedy.
  No era com o Presidente dos Estados Unidos que ele estava a
discutir nessa noite, mas com um sexagenrio desconhecido que se
calou quando Tereza entrou.
     uma amiga, disse o embaixador. Podes falar  vontade.??
  Depois, voltando-se para Tereza, explicou:   0 filho dele foi hoje
mesmo condenado a cinco anos de cadeia.??
  Contaram-lhe que, nos primeiros dias da invaso, o filho daquele
senhor de idade e mais alguns amigos estavam de vigia  entrada de
um prdio onde se encontrava instalada uma seco especial do
exrcito russo. Qualquer checo que l aparecesse era seguramente
informador dos russos. Ele e os amigos seguiam-nos, tiravam a
matrcula dos automveis e denunciavam-nos aos jornalistas de uma
emissora checa clandestina, que punham a populao de sobreaviso.
Uma vez com a ajuda dos amigos dera uma tareia num deles.
  O senhor de idade dizia:   A nica prova material  esta fotografia. O meu 
filho negou sempre tudo at que lha mostraram.??
  Tirou um recorte de jornal do bolso de cima:   Veio publicada
no Times, no Outono de 1968.??
  Na fotografia, via-se um rapaz a agarrar um homem pelo pescoo. Havia gente  
volta a ver. A legenda era: o castigo de um colaborador.
  Tereza ficou aliviada. No, no fora ela que tirara aquela fotografia.
  Acompanhada por Karenine, voltou para casa pelo escuro das
ruas de Praga. Pensava nos dias que passara a tirar fotografias a
tanques. Como tinham sido ingnuos, todos eles! Convencidos que
arriscavam a vida pela ptria, estavam mas era a facilitar a vida 
polcia russa!
  Chegou a casa  uma e meia. Tomas j dormia. Dos seus cabelos, desprendia-se 
um cheiro a mulher, um cheiro a sexo.

aquilo de que  capaz. Mas por ser assim to importante, assim to
grave, a sua coquetterie perdeu toda a leveza,  forada, expressamente 
convocada, excessiva. Rompeu-se o equilbrio entre a promessa e a falta de 
garantias (no qual reside precisamente o autntico virtuosismo da coqueterie!). 
Promete, mas sem a clareza suficiente, para fazer ver que a sua promessa no a 
compromete a nada.

Ou, dito de outra maneira, todos julgam que  uma mulher extraordinariamente 
fcil. E depois, quando os homens reclamam o pagamento daquilo que pensam que 
lhes foi prometido, deparam com
una resistncia inesperada que s pode encontrar explicao na refinada 
crueldade de Tereza.

8


  O que  a coquetterie? Pode talvez dizer-se que  um comportamento que deve 
sugerir que a aproximao sexual  possvel, sem
que essa eventualidade possa ser tida como certa. Ou, por outras
palavras, a coquetterie  uma promessa de coito, mas uma promessa
sem garantias.
  Tereza encontra-se de p atrs do balco do bar e os clientes a
quem serve bebidas passam o tempo a meter-se com ela. Ser-lhe-
desagradvel essa onda contnua de cumprimentos, de subentendidos, de anedotas 
pesadas, de convites, de sorrisos e de olhares? De
forma nenhuma. Sente um desejo incontrolvel de oferecer o corpo
(aquele corpo estranho que gostaria de expulsar para longe), de
oferec-lo a essa ressaca.
  Tomas no se cansa de insistir que, entre o amor e o acto de
amor, h todo um universo. Tereza recusava-se a admiti-lo. Agora,
est permanentemente rodeada de homens que no lhe inspiram a
mnima simpatia. O que sentiria se fosse para a cama com um deles? Tem vontade 
de experimentar, pelo menos sob essa forma de
promessa sem compromisso que  a coquerterie.
  Mas, no nos enganemos! No procura vingar-se de Tomas. S
procura uma sada para o labirinto onde se encontra perdida. Sabe
que lhe  pesada: leva as coisas demasiado a srio, leva tudo para o
trgico, no consegue compreender a leveza e a alegre futilidade do
amor fsico. Gostava tanto de aprender a leveza! Gostava tanto que
lhe ensinassem a deixar de ser anacrnica!
  Se, para outras mulheres, a c?oquetterie  uma segunda natureza,
uma rotina insignificante, para Tereza, daqui em diante ela ser o
campo de uma importante investigao que deve fazer-lhe descobrir


9

  Um adolescente veio sentar-se num tamborete vago. No teria
mais de dezasseis anos. Proferiu alguns ditos provocantes que se incrustvam na 
conversa como, num desenho, se incrusta um trao em
falso to impossvel de prolongar como de apagar.
    Voc tem umas lindas pernas??, disse.
  Tereza empertigou-se:   Como se elas se pudessem ver atravs
do balco!?
  - J a conhecia. Costumo v-la na rua??, explicou o rapaz.
  Mas Tereza tinha-se afastado e estava a atender outros clientes.
O adolescente pediu uma aguardente. Ela disse que no lha servia.
    J fiz dezoito anos, protestou o adolescente.
  - Ento deixe-me ver o seu bilhete de identidade!
  - Nem pensar nisso, replicou o adolescente.
  - Como queira! Vou-lhe servir uma limonada!??
  Sem acrescentar palavra, o adolescente levantou-se do tamborete
e saiu. Mais ou menos meia hora depois, voltou a entrar e a sentar-se no bar. 
Fazia gestos muito exagerados e tresandava a lcool a
trs metros de distncia.

    Uma limonada!
  - Voc est bbado!??, disse ela.
  O adolescente apontou para um aviso pendurado na parede que
ficava atrs de Tereza:  expressamente proibido servir bebidas alcolicas a 
menores de dezoito anos.
    Est proibida de me servir bebidas alcolicas, disse, apontando
para Tereza com um gesto muito pronunciado. Mas no est escrito
em stio nenhum que eu no tenho o direito de estar bbado neste
bar.

  - Onde,  que se foi pr nesse lindo estado?
  - Na tasca do outro lado!??, disse. Deu uma grande gargalhada e
voltou a exigir uma limonada.
    Ento porque  que no ficou l?
  - Porque quero olhar para si, disse o adolescente. Amo-a.??
  E, ao diz-lo, tinha o rosto estranhamente crispado. Tereza no
estava a entender: o rapaz estaria a gozar com ela? Aquilo seria
uma proposta? Ou uma brincadeira? Ou ele estava simplesmente
bbado e no sabia o que dizia?
  Poisou-lhe uma limonada  frente e foi atender outros clientes.
A declarao de amor parecia ter esgotado todas as foras do adolescente. No 
disse mais nada, ps silenciosamente o dinheiro em
cima do balco e retirou-se sem Tereza dar por isso.
  Mas, mal acabara de sair, um homenzinho careca, que j ia no
terceiro vodka, tomou a palavra:   Minha senhora, no sabe que no
pode servir bebidas alcolicas a adolescentes?
  - Ms eu no lhe servi bebida alcolica nenhuma! Ele s bebeu
uma limonada!
  - Vi muito bem o que  que lhe estava a deitar para dentro da
limonada!
  - O que  que est para a a dizer?, exclamou Tereza.
  - Outro vodka, ordenou o careca e acrescentou: ?"J a trago debaixo de olho 
h muito tempo.
  - Pois d-se por muito feliz por poder olhar para uma muther
bonita e cale mas  o bico!??, interveio um homem alto que, entretanto, se 
tinha aproximado do balco e assistira  cena toda.
    No tem nada que se meter onde no  chamado! Isto no 
da sua conta!, berrou o careca.
  - E voc, pode-me explicar o que  que tem a ver com isto???,
perguntou o homem alto.
  Tereza serviu ao careca o vodka que o careca tinha pedido. Ele
bebeu-o de um trago, pagou e saiu.
    Agradeo-lhe muito, disse Tereza ao homem alto.
  - No tem de qu??, disse o homem alto, que, por sua vez,
tambm se foi embora.

10

  Alguns dias mais tarde, voltou a aparecer no bar. Ao v-lo, ela
sorriu-lhe como a um amigo: ??Tenho que voltar a agradecer-lhe.
Aquele careca est c sempre cado e  tremendamente desagradvel.
  - No pense mais nisso!
  - Porque  que no outro dia ele estaria a embirrar comigo?
  - No passa de um bbado! Peo-lhe mais uma vez: no pense
mais nisso!
  - J que  voc que mo pede, vou mesmo deixar de pensar.??
  O homem alto olhava-a nos olhos: ??Tem que me prometer.
  - Prometo-lhe.

  - Gosto de a ouvir prometer-me alguma coisa??, disse o homem
alto sem deixar de olh-la nos olhos.
  Estavam em plena coquetterie: aquele comportamento que deve
sugerir que a aproximao sexual  possvel, mesmo que se trate
apenas de uma eventualidade sem garantias e absolutamente terica.
  "o que  que uma mulher como voc faz no bairro mais feio de
Praga?, perguntou ele.
  - E voc? O que  que o traz aqui, ao bairro mais feio de
Praga? ??
  Ele disse-lhe que morava perto, que era engenheiro e que da
outra vez tinha entrado perfeitamente por acaso ao voltar do emprego.

11


  Ela olhava para Tomas. O seu olhar no se dirigia para os olhos
dele, mas uns dez centmetros mais para cima, para os cabelos dele
que cheiravam ao sexo de outra.
  Disse: <<No posso mais, Tomas. Bem sei que no tenho o direito de me queixar. 
Desde que voltaste para Praga por minha causa
proibi-me a mim prpria de ter cimes. No quero ter cimes, mas
no consigo dominar-me, no tenho fora suficiente. Ajuda-me, por
favor! ??
  Ele deu-lhe o brao e levou-a a um largo onde, uns anos antes,
costumavam ir passear. O largo tinha bancos: azuis, amarelos, vermelhos. 
Sentaram-se e Tomas disse-lhe:
  ?"Eu compreendo-te. Sei o que  que tu queres. J tratei de tudo. Agora, tens 
de ir ao Monte-de-Pedra.??
  Sentiu-se imediatamente invadida pela angstia. ??Ao Monte-de-Pedra? O que  
que eu vou fazer ao Monte-de-Pedra?
  - Sobes l acima e logo vs.??
  Ela no tinha vontade nenhuma de ir-se embora; o seu corpo
estava to fraco que no conseguia despregar-se do banco. Mas no
podia desobedecer a Tomas. Eez um esforo para se levantar.
  Voltou-se para trs. Ele continuava sentado no banco e sorria-lhe quase com 
alegria. Acenou-lhe com a mo, certamente para lhe
dar coragem.

12

  Ao chegar ao Monte-de-Pedra, uma colina verdejante que se ergue no centro de 
Praga, percebeu com espanto que no estava l
ningum. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas
for, as suas leas esto sempre cheias de gente que l vai apanhar
ar. Sentia-se extremamente angustiada, mas o monte estava to silencioso e o 
silncio era to tranquilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, 
parando de vez em quando para olhar para trs.
A seus ps, descobria-se uma infinidade de torres e de pontes. Os
santos, com os seus olhos petrificados e postos nas nuvens, erguiam
ameaadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.
  Chegou ao cimo. Por trs dos pavilhes onde habitualmente se
vendiam gelados, postais e bolos (naquele dia no havia vendedores), estendia-se 
a perder de vista um enorme relvado pontuado,
aqui e alm, por algumas rvores. Viu l alguns homens. Quanto
mais perto estava deles, mais devagar andava. Eram seis. Ou estavam parados ou 
caminhavam lentamente de trs para a frente e da
frente para trs, um pouco como se fossem jogadores de golfe a

examinar o relevo do terreno, a tomar o peso ao taco e a concentrar-se para o 
incio do torneio.
  Por fim, sempre acabou por chegar ao p deles. Tinha a certeza
que trs estavam ali exactamente para o mesmo que ela. Intimidados, davam a 
impresso de querer fazer uma data de perguntas, mas
tambm de ter medo de incomodar, de forma que preferiam estar
calados a olhar em torno de si com um ar perplexo.
  Dos outros trs irradiava uma indulgente bonomia. Um destes
trs tinha uma espingarda na mo. Ao ver Tereza, fez-lhe sinal e
sorriu: ?Sim,  aqui.??

  Cumprimentou-o com a cabea e sentiu-se terrivelmente mal.
  O homem acrescentou: "Para que no haja enganos,  mesmo de
  sua vontade???
  Era fcil dizer: c?No, no venho de livre vontade??; mas trair a
  confiana de Tomas era uma coisa impensvel. Que desculpa iria
  invocar quando chegasse a casa? De modo que disse: c?Claro. Evidentemente.  
de minha livre vontade.??
  O homem da espingarda prosseguia: ??Quero que compreendam
  porque  que eu lhes fao esta pergunta. S fazemos isto quando
  temos a certeza de que os que vm ter connosco esto expressa  mente decididos 
a morrer.  um servio que lhes prestamos.??
  O seu olhar interrogativo continuava poisado em Tereza e esta
  sentiu que tinha de voltar a confirmar-lhes a sua resoluo: ??No,
  no tenham receio! Vim de livre vontade.
  - Quer ir em primeiro lugar???, perguntou ele.
  Ela queria retardar a execuo, nem que fosse s por alguns instantes.
i   No, por favor, no quero. Se fosse possvel, gostava de ir em
  ltimo lugar.
  - Como queira??, disse o homem, e aproximou-se dos outros. Os
I seus dois assistentes no tinham arma nenhuma e s ali estavam
  para se ocupar das pessoas que iam morrer. Agarravam-nas pelo
  brao e acompanhavam-nas na sua caminhada pelo relvado. Era
; uma imensa superfcie coberta de relva que se estendia a perder de
' vista. Os candidatos  execuo podiam escolher a rvore que que; riam para 
si. Paravam, olhavam demoradamente e no conseguiam
  tomar uma deciso. Por fim, dois escolheram pltanos, mas o terceiro, no 
encontrando rvore que fosse digna da sua morte, foi-se
  afastando cada vez mais para longe. O assistente, que lhe agarrava
  displicentemente no brao, acompanhava-o sem dar qualquer sinal
; de impacincia, mas em breve ele perdeu a coragem de avanar e
; parou perto de um bordo frondoso.
I, Os assistentes vendaram os olhos dos trs homens.
  No imenso relvado havia portanto trs homens encostados a trs
i
  troncos de rvores, cada um deles com uma venda nos olhos e a
  cabea voltada para cima.
  O homem da espingarda fez pontaria e disparou. A parte o
canto dos pssaros, no 'se ouviu mais barulho nenhum. A espingarda estava 
munida com um silenciador. S se via que o homem encostado ao bordo j no se 
aguentava em p.
  Sem se afastar do local onde se encontrava, o homem da espingarda voltou-se 
noutra direco e, por seu turno, a personagem encostada ao pltano comeou a 
dobrar-se sobre si prpria no meio de
um silncio absoluto, e alguns instantes mais tarde (o homem da
espingarda girava sobre si prprio) o terceiro candidato  tortura
tambm caiu sobre a relva.

13

  Sem dizer palavra, um dos assistentes aproximou-se de Tereza.
Trazia uma venda azul escura na mo.
  Ela percebeu que ele lhe queria vendar os olhos. Abanou a cabea e disse: 
?"No, eu quero ver tudo.??
  Mas na verdade no era por isso que no queria que lhe vendassem os olhos. No 
tinha nada daqueles heris que olham decididamente para o peloto de fuzilamento 
de olhos nos olhos. Tentava
era retardar um pouco o momento da morte. Estava convencida de
que, a partir do instante em que tivesse os olhos vendados, se encontraria j na 
antecmara da morte, donde j no haveria esperana de regresso.
  O homem no tentou for-la e agarrou-a pelo brao. Caminhavam pelo imenso 
relvado e Tereza nunca mais se decidia a escolher
a rvore junto da qual morreria. Ningum a obrigava a ter pressa,
mas ela sabia que, acontecesse o que acontecesse, no podia escapar. Vendo  sua 
frente um castanheiro em flor, aproximou-se dele.
Encostou-se ao tronco e levantou a cabea: viu a folhagem atravessada pelos 
raios de sol e, muito ao longe, ouviu a cidade a murmurar debilmente, docemente, 
como se o seu murmrio fosse o rumor
de mil e um violinos a tocar:
  O homem ergueu a espingarda.
  Ela j tinha perdido a coragem toda. Sentia-se desesperada com
a sua fraqueza, mas no conseguiu domin-la. Disse: ??No! No 
de minha livre vontade!??
  O homem baixou imediatamente o cano da espingarda e disse,
com toda a calma: c?Se no  de sua livre vontade, no podemos
faz-lo. No temos esse direito.??
  Com o corpo sacudido pelos soluos, abraava-se  rvore, como
se aquilo no fosse uma rvore mas o pai que perdera, o av que
nunca conhecera, o bisav, o trisav, cm homem infinitamente 'velho, vindo das 
mais longnquas profundezas do tempo para lhe oferecer o seu rosto sob a mscara 
da casca rugosa de uma rvore.
  Voltou-se. Os trs homens j estavam longe, caminhavam para
diante e para trs sobre o relvado como jogadores de golfe, e era
isso mesmo, era exactamente um taco de golfe que fazia lembrar a
espingarda na mo daquele que estava armado.
  Descia as leas do Monte-de-Pedra e levava no fundo da alma a
recordao nostlgica do homem que devia t-la fuzilado e no o
fizera. Tinha necessidade dele. Tinha necessidade de algum que pudesse ajud-la 
no fim! Tomas no a ajudaria. Tomas queria que ela
morresse. S outro homem podia ajud-la!
  Quanto mais perto estava da cidade, mais forte era essa sua espcie de 
nostalgia por aquele homem e mais forte era o medo que
sentia de Tomas. Ele no lhe perdoaria no ter cumprido a sua promessa. No lhe 
perdoaria ter perdido a coragem e t-lo trado. J se
encontrava na rua onde moravam e sabia que, de um momento para
o outro, ele iria aparecer. Foi uma ideia que a ps em pnico; deu-lhe dores de 
estmago, deu-lhe vontade de vomitar.

15

  O engenheiro convidara-a para ir a casa dele. J dissera que no
duas vezes. Desta vez, aceitara.
  Almoou, como de costume, em p, na cozinha e saiu. Tinham
acabado de dar duas horas.
  Aproximava-se do stio onde ele morava e sentia que as suas
pernas, privadas do impulso da vontade, se punham por si ss a
afrouxar a passada.
  Depois pensou que, na realidade, era Tomas que a fazia ir a

casa desse tipo. Pois no era ele que passava o tempo a explicar-lhe
que o amor e a sexualidade no tm nada em comum? S ia 
procura da confirmao das suas palavras. Parecia-lhe ouvir a voz
dele a dizer-lhe: ?<Eu compreendo-te. Sei o que  que tu queres. J
tratei de tudo. Sobes l acima e logo vs.??
  Sim, na verdade no fazia seno executar as ordens de Tomas.
  No queria ficar seno um momento em casa do engenheiro, seno o tempo de 
tomar um caf, seno o tempo de descobrir o que 
que acontece quando se avana at  fronteira da infidelidade. Queria empurrar o 
corpo at essa fronteira, deix-lo l, como num pelourinho, apenas por um 
instante e depois, no momento em que o
engenheiro tentasse tom-la nos braos, diria, como dissera ao homem da 
espingarda no monte de pedra: ??No, no! no  de minha
livre vontade!??
  E o homem baixaria o cano da espingarda e diria com uma voz
doce: <"Se no  de sua livre vontade, no podemos faz-lo. No
temos esse direito.??
  Virar-se-ia para o tronco da rvore e desataria a soluar.

16


  Era um prdio do comeo do sculo que ficava num bairro operrio dos subrbios 
de Praga. Penetrou num corredor de paredes
caiadas e muito sujas. Subiu at ao primeiro andar pelos degraus
usados de uma escada de pedra com corrimo de metal. Virou 
esquerda. Era a segunda porta. No tinha nem carto-de-visita nem
campainha. Bateu.
  Ele veio abrir.
  A casa compunha-se de uma nica diviso cortada por um cortinado a dois metros 
da porta para dar a iluso de que havia outra
sala  entrada; a estavam uma mesa com um fogareiro e um pequeno frigorfico. 
Avanando para dentro, apareceu-lhe o rectngulo
vertical da janela na extremidade de uma diviso estreita e comprida; de um 
lado, havia estantes, do outro, um div e um nico sof.
  ?? tudo muito simples c em casa, disse o engenheiro. Espero
que no se importe.
  - Claro que no>?, disse Tereza com os olhos pregados na parede inteiramente 
coberta de estantes cheias de livros. O tipo no tinha sequer uma mesa digna 
desse nome, mas tinha centenas de
livros. Foi uma coisa que acalmou Tereza; a angstia que a acompanhara at aqui 
comeava a desvanecer-se. Desde criana que via no
livro o santo-e-senha de uma irmandade secreta. Quem tinha uma
biblioteca assim no podia fazer-lhe mal.
  Ele perguntou-lhe o que  que lhe podia oferecer. Vinho?
  No, -no; no queria vinho. Se tomasse alguma coisa, seria caf.
  Ele desapareceu por trs do cortinado e ela aproximou-se das
estantes. Estava l um livro que a fascinava. Era uma traduo do
Rei dipo de Sfocles. Era to estranho encontrar esse livro em casa daquele 
desconhecido! Uns anos antes, Tomas oferecera-o a Tereza
pedindo-lhe para o ler com toda a ateno, e falara-lhe demoradamente dele. 
Publicara em seguida as suas reflexes num jornal e
fora precisamente esse artigo que alterara radicalmente a vida de
ambos. Olhava para a lombada do livro e ia-se acalmando. Era como se Tomas ali 
tivesse deixado deliberadamente o rasto ou uma
mensagem que significava que tinha sido tudo arranjado por ele. Pegou no livro e 
abriu-o. Quando o homem alto voltasse, havia de
perguntar-lhe porque  que tinha esse livro, se j o tinha lido e o

que  que pensava dele. Assim, atravs dessa artimanha, passaria do
perigoso territrio da casa do desconhecido para o universo familiar
das ideias de Tomas.
  Sentiu uma mo no ombro. O homem tirou-lhe o livro da mo,
arrumou-o em silncio na biblioteca e conduziu-a at ao div.
  Voltou a pensar na frase que dissera ao homem do Monte-de-Pedra. Desta vez, 
pronunciou-a em voz alta: ??No, no! No  de
minha livre vontade!??
  Estava convencida de que aquilo era uma frmula encantada que
ia resolver imediatamente a situao, mas naquele quarto as palavras
perderam o seu poder mgico. Por mim, penso mesmo que incitaram o homem a 
mostrar-se ainda mais firme: apertou-a contra ele e
ps-lhe a mo sobre um seio.
  Coisa estranha: esse contacto libertou-a imediatamente da angstia que sentia. 
Como se, com esse contacto, o engenheiro lhe tivesse
mostrado o seu prprio corpo e ela tivesse compreendido que o que
estava em jogo no era ela (ou seja, a sua alma), mas nica e exclusivamente o 
seu corpo. Esse corpo que a trara e que ela expulsara
para longe de si, para junto dos outros corpos.

17


  O homem desabotoou-lhe um boto da blusa e, com um gesto,
mandou-a continuar. No obedeceu. Expulsara o seu corpo para
longe de si, mas no queria assumir nenhuma responsabilidade por
ele. No se defendia, mas tambm no o ajudava. Era a sua alma
que estava a mostrar .que, embora reprovando o que se estava a
passar, decidira manter-se neutra.
  Ele despia-a e, enquanto isso, Tereza encontrava-se quase inerte.
Quando a beijou, os seus lbios no lhe responderam. Depois, apercebeu-se 
subitamente e com consternao de que tinha o sexo molhado.
  Sentia-se excitada e tanto mais excitada quanto era contra sua
vontade. A alma dava j secretamente o seu aval a tudo o que estava a passar-se, 
mas, ao mesmo tempo, tambm sabia que, para prolongar essa grande excitao, o 
seu assentimento deveria manter-se
tcito. Se tivesse dito sim em voz alta, se tivesse aceitado expressamente 
participar na cena de amor, a excitao teria desaparecido.
Porque o que excitava a alma era precisamente ser trada pelo corpo
que agia contra sua vontade, e, ao mesmo tempo, assistir a tal traio.
  Depois, o homem tirou-lhe as cuecas; agora, estava completamente nua. A alma 
via o corpo desnudado nos braos do desconhecido e o espectculo parecia-lhe to 
incrvel como contemplar de
perto o planeta Marte. Iluminado pelo inverosmil, o corpo perdia
pela primeira vez a sua banalidade; pela primeira vez, olhava-o com
uma espcie de encantamento mgico, pois tudo o que constitua a
sua singularidade e o tomava nico e inimitvel se encontrava projectado para 
primeiro plano. Deixara de ser o corpo mais vulgar de todos (era assim que o via 
at agora), para tornar-se o mais extraordinrio dos corpos. A alma no 
conseguia desprender os olhos da
pinta acastanhada do sinal de nascena que tinha logo acima dos
plos; via nesse sinal o selo com que ela prpria (a alma) marcara o
corpo, e o movimento do membro estranho to perto desse esti?na
parecia-lhe um sacrilgio.
  E quando levantou os olhos e viu a cara dele, lembrou-se de que
nunca aceitara que o corpo, onde a alma gravra a sua assinatura,
pudesse encontrar-se nos braos de algum que no conhecesse e
no quisesse vir a conhecer. Ficou aturdida de dio. Puxou a saliva

aos lbios para lhe cuspir na cara. Observavam-se ambos com a
mesma avidez; ele apercebeu-se da clera dela e precipitou os movimentos. 
Tereza, sentindo ao longe a volpia a comear a invadi-la,
ps-se a gritar: ?<No, no, no??, resistia ao prazer que se aproximava e, ao 
resistir-lhe, a volpia reprimida irradiava longamente por
todo o seu corpo, que no lhe deixava qualquer sada por onde se
escapar; o prazer propagava-se nela como morfina injectada numa
veia. Debatia-se nos braos do homem, batia s cegas no ar e
cuspia-lhe na cara.

18


  As retretes das casas de banho modernas erguem-se do cho co; mo uma flor 
branca de nenfar. Os arquitectos fazem os impossveis
  para que o corpo esquea a sua misria e para que o homem no
  saiba o que acontece s dejeces das suas vsceras quando a gua
  do autoclismo, a gorgolejar, as expulsa da vista. Embora os seus
  tentculos se prolonguem at nossas casas, os canos de esgoto esto
  sempre cuidadosamente disfarados e por isso no sabemos absolutamente nada a 
respeito das invisveis Venezas de merda sobre as
  quais se encontram construdas as nossas casas de banho, os nossos
j quartos, os nossos sales de baile e os nossos parlamentos.
  As casas de banho daquele velho prdio de um bairro operrio
  dos subrbios de 'Praga eram menos hipcritas; do cho, de ladrilhos
  cinzentos, erguia-se, rf e miservel, a retrete. No fazia lembrar
  uma flor de nenfar, mas, pelo contrrio, evocava o que, na realidade,
  era: o stio onde um cano terminava e o seu dimetro se alargava. Nem sequer 
tinha um tampo de madeira e Tereza teve de sentar-se directamente na loia 
esmaltada. Sentiu um arrepio de frio.
  Estava sentada na retrete e a vontade de esvaziar os intestinos que lhe
, tinha dado de repente era o desejo de ir at ao extremo da humilhao, de
  ser o mais possvel e to totalmente quanto possvel um corpo, esse corpo
  de que a me dizia sempre que s servia para digerir e evacuar. Tereza
; esvaziava os intestinos e sentia uma tristeza e uma solido infinitas.
  Nada h de mais miservel que o seu corpo nu sentado na embocadura de um cano 
de esgoto. A alma perdeu j a sua curiosidade
I de espectador, a sua malevolncia e o seu orgulho; voltou a retirar  -se para 
o mais recndito do corpo. Espera desesperadamente que
  voltem a chamar por ela.

19

  Levantou-se da retrete, puxou o autoclismo e voltou para a entrada da casa. A 
alma tremia dentro do corpo nu e rejeitado. Ainda
sentia no nus o contacto do papel com que se limpara.
  Aconteceu ento qualquer coisa de inesquecvel: teve vontade de
ir ter com ele ao quarto e de ouvir a sua voz, o seu apelo. Se ele
lhe falasse com uma voz doce e grave, a alma teria a ousadia de
voltar  superfcie do corpo, e ela desataria a chorar. Abraar-se-ia
a ele como se abraara em sonhos ao tronco do castanheiro. Encontrava-se na 
entrada e esforava-se por dominar aquele imenso desejo de se desfazer em 
lgrimas  frente dele. Se no o dominasse,
sabia que aconteceria precisamente o que no queria. Apaixonar-se-ia.
  Nesse momento, uma voz vinda do fundo do estdio chegou at
ela. Ao ouvir essa voz desencarnada (?em ver ao mesmo tempo o
corpo alto do engenheiro), teve um sobressalto: era uma voz fininha
e aguda. Como  que nunca tinha reparado nisso?

  Foi graas  impresso desconcertante e desagradvel que a sua
voz lhe causou que pde vencer a tentao. Voltou para o quarto,
apanhou o fato, vestiu-se e saiu.





168

20


  Voltava das compras com Karenine, que trazia um croissant
na boca. Estava uma manh fria, com um bocado de geada. Caminhava ao longo de um 
bairro onde, entre as casas, havia enormes
parcelas divididas em minsculos campos cultivados e pequenos
jardinzinhos. Karenine estacou; olhava fixamente numa certa direco. Tereza 
olhou para esse lado mas no reparou em nada de
especial. Karenine puxou-a e ela deixou-se levar. Por fim, acima do
barro gelado de um canteiro vazio, viu emergir a cabecita preta de
uma gralha de bico comprido. A cabecita sem corpo agitava-se debilmente e, de 
tempos a tempos, o bico emitia um som triste  roufenho.
  Karenine estava to excitado que deixou cair o croissant. Para
ele no fazer mal  gralha, Tereza prendeu-o a uma rvore. Depois,
ajoelhou-se e tentou cavar a terra calcada  volta do corpo do
pssaro enterrado vivo. No era uma operao fcil. Partiu uma
unha; ficou a sangrar.
  Nesse momento, caiu uma pedra ao seu lado. Levantou os olhos
e viu dois garotos de pouco mais de dez anos na esquina de uma
casa. Levantou-se. Quando viram a sua reaco e o co atado 
rvore, os midos fugiram.
  Voltou a ajoelhar-se no cho para cavar o barro e sempre acabou
por conseguir libertar a gralha da sua sepultura. Mas a ave
estava paralisada e no conseguia andar nem voar. Envolveu-a com
o cachecol vermelho que trazia ao pescoo, pegou-lhe com a mo
esquerda e apertou-a contra o corpo. Com a mo direita, desprendeu Karenine da 
rvore e teve de apelar para todas as suas
foras para conseguir acalm-lo e mant-lo encostado s pernas.
  Como no tinha mo para tirar a chave do bolso, tocou  porta.
Tomas veio abrir. Estendeu-lhe a trela de Karenine. ??Segura-o!??,
ordenou-lhe, e levou a gralha para a casa de banho. Poisou-a no
cho por baixo do lavatrio. A gralha debatia-se mas no se podia
mexer. Escorria-lhe do corpo um lquido espesso e amarelado. Para
ela no sentir o frio dos mosaicos, Tereza fez-lhe uma caminha com
trapos velhos debaixo do lavatrio. O pssaro agitava desesperadamente a asa 
paralisada; o seu bico erguia-se como uma acusao.




21


  Estava sentada na borda da banheira e no conseguia despregar
  os olhos da gralha agonizante. A sua pobre solido parecia-lhe a
  imagem do seu prprio destino e s pensava: ??No tenho ningum
  no mundo, ningum a no ser o Tomas.??

  Teria aprendido com o caso do engenheiro que as aventuras
  amorosas no tm nada a ver com o amor? Que so leves e no
  pesam nada? Sentia-se-ia mais calma?
  Longe disso.
  Havia uma cena que a obcecava: acaba de sair da casa de banho
  e o seu corpo est pregado ao cho da entrada, nu e abandonado.
  A alma, apavorada, treme-lhe nas entranhas. Se, naquele instante,
  do fundo do quarto, o homem se tivesse dirigido  sua alma, teria
  desatado a soluar, ter-lhe-ia cado nos braos.
  Ps-se a imaginar que, em vez dela, era uma amiga de Tomas
? que estava na entrada ao p da casa de banho e que, em vez do
  engenheiro, era Tomas que estava no quarto. A uma palavra sua, a
  uma simples palavra sua, a mulher lanar-se-ia a chorar nos seus
  braos.
  E com isso que se parece, Tereza sabe-o bem, o instante em que
  o amor nasce; a mulher no resiste  voz que chama pela sua alma
  apavorada; o homem no resiste  mulher cuja alma se torna atenta
   sua voz. Tomas nunca estar livre de cair na armadilha do amor e
  hora a hora, minuto a minuto, Tereza no pode seno tremer por
  ele.
  Qual a sua nica arma? A fidelidade. A sua fidelidade que lhe
  ofereceu desde o incio, desde o primeiro dia, como se tive?se percebido 
imediatamente que no tinha mais nada para lhe dar. O amor deles  uma 
arquitectura estranhamente assimtrica: repousa sobre a
certeza absoluta da fidelidade de Tereza como um palcio gigantesco
sobre um nico pilar.
  Agora, a gralha deixara praticamente de agitar as asas; apenas
agitava debilmente a sua pata martirizada e partida. Tereza no
queria deix-la, era como estar a velar  cabeceira de uma irm
moribunda. Mas acabou por decidir-se e foi almoar  pressa  cozinha.
  Quando voltou, a gralha j tinha morrido.



22


  No primeiro ano da sua ligao com Tomas, enquanto fazia
amor, Tereza gritava e, como j disse uma vez, esse grito era uma
tentativa para cegar e ensurdecer os sentidos. Depois, passou a gritar menos, 
mas a sua alma continuava cega pelo amor e no via
nada. Quando fora pra a cama com o engenheiro, como o amor
no estava presente, a sua alma pudera finalmente ver claro.
  Voltara ao sauna e encontrava-se de novo em frente do espelho.
Olhava para si prpria e revia mentalmente a cena de amor em casa
do engenheiro. Lembrava-se da cena, mas no do amante. Para dizer a verdade, no 
seria sequer capaz de descrev-lo, talvez nem
tivesse reparado em como  que ele era todo nu. A nica coisa de
que se lembrava (e para a qual olhava agora com excitao em frente ao espelho) 
era do seu prprio corpo; dos plos do pbis e do
sinal redondo logo acima deles. Esse sinal, que at agora nunca fora
para ela seno um simples defeito cutneo, tinha-lhe ficado para sempre gravado 
na memria. Queria v-lo e tornar a v-lo na incrvel
proximidade do membro do estranho.
  Mas volto a sublinh-lo: no sentia qualquer vontade de ver o
sexo do desconhecido. Queria era ver o seu pbis ao p do membro
estranho. No desejava o corpo do amante. Desejava era o seu prprio corpo, 
subitamente revelado, tanto mais excitante quanto mais

prximo e estranho.
  Olha para o corpo coberto das minsculas gotas da gua do
duche, pensa que, mais dia menos dia, o engenheiro h-de voltar a
passar pelo bar. Apetece-lhe que ele venha, apetece-lhe que a convide para ir a 
casa dele! Ah! Como isso lhe apetece!
  O homem tentou prender o colar entre os dedos:   Lembre-se
que, c, a prostituio  proibida!??
  Karenine ps-se de p. apoiou as patas da frente na mesa e
rosnou.





  Dia aps dia, tinha medo de ver o engenheiro aparecer ao balco e de no ter 
fora suficiente para dizer   no??.  medida que os
dias iam passando, o receio de que ele aparecesse ia sendo substitudo pelo 
receio de que afinal j no viesse.
  J passara um ms e o engenheiro continuava a no dar sinal de
vida. Tereza no sabia como explicar tal coisa. De sbito, deixou de
ter qualquer espcie de desejo. Ficou inquieta: porque  que ele no
viria?
  Encontrava-se a servir uns clientes. O careca que, na outra noite,
a tinha acusado de servir bebidas alcolicas a menores, estava l
outra vez. Contava alto e bom som uma histria porca, uma histria
que ela j ouvira centenas de vezes na provncia na boca dos bbados a quem 
servia cervejas. Sentindo-se de novo assaltada pelo universo da me, 
interrompeu-o brutalmente.
  O homem ficou humilhado:   Voc no tem nada que me dar
ordens! Deve dar-se  por muito feliz por ns a deixarmos trabalhar
neste bar.
  - Ns:' Mas ns, quem?
  - Ns, disse o homem, e mandou vir outro vodka. E lembre-se
n??P n?n lhP nPrmitn nnP mP inci?ltP n
24

  O embaixador disse: c?Era um chui.
  - Se  um chui, tinha obrigao de ser mais discreto, fez notar
Tereza. Para que  que serve uma polcia secreta que j no se
esconde???
  O embaixador sentou-se no div com os ps debaixo do traseiro
como aprendera no ioga. Na parede, Kennedy sorria da sua moldura e conferia s 
suas palavras uma espcie de consagrao.
  c?Senhora D. Teresa, disse num tom paternal, os chuis tm diversas funes. A 
primeira  clssica. Ouvem o que as pessoas dizem e
relatam-no aos seus superiores.
  c?A segunda  uma funo de intimidao. Mostram-nos que nos
tm  sua merc e querem que ns tenhamos medo. Era o que o
seu careca pretendia.
  c?A terceira funo consiste em encenar situaes que nos podem
comprometer. Acusar-nos de conspirar contra o Estado j no interessa a ningum 
porque s conseguiriam tornar-nos mais populares.
Preferem encontrar haxixe nas nossas algibeiras ou provar-nos que
violmos uma rapariguinha de doze anos. Ho-de arranjar sempre
uma mida que lhes sirva de testemunha.??
  Tereza lembrou-se do engenheiro. Como explicar que nunca
mais tivesse voltado?
  O embaixador continuava: ??Fazem uma pessoa cair numa armadilha

para ficarem com ela na mo e poderem utiliz-la para montar uma
armadilha a outra, e sempre assim por diante, at transformarem a pouco
e pouco um povo inteiro numa imensa organizao de denunciantes.??
  Tereza estava obcecada pela ideia de que o engenheiro tinha sido
mandado pela polcia. E quem seria aquele estranho rapaz que tinha

ido embebedar-se para a tasca do outro lado da rua e voltara para
lhe fazer declaraes de amor? Por sua causa  que o chui se tinha
posto a embirrar com ela e que o engenheiro a tinha defendido.
Todos os trs tinham desempenhado um papel numa pea preparada
com antecedncia para a fazer simpatizar com o homem que estava
encarregado de a seduzir.
  Como  que ainda no tinha pensado nisso? Aquela casa tinha
algo de equvoco e destoava completamente do dono. Porque  que
um engenheiro to bem vestido havia de morar numa casa to miservel? Mas ele 
seria mesmo engenheiro? Se fosse, como  que podia
no estar no emprego s duas horas da tarde? E como  que um
engenheiro pode ler Sfocles? No, aquilo no era uma biblioteca
de engenheiro! Aquele quarto parecia mas era uma casa confiscada
a um intelectual pobre que tivesse sido preso. Quando tinha dez
anos, o seu pai fora preso e tambm lhe confiscaram o apartamento
e a biblioteca. V-se l saber para que  que a casa tinha servido
depois!
  Agora, percebia claramente porque  que ele nunca mais voltara.
J tinha cumprido a sua misso. E que misso era essa? Fora o que,
sem querer, o chui careca revelara quando dissera: c?C, agora, a
prostituio  proibida, lembre-se bem disso!?? O suposto engenheiro
testemunharia que tinha ido para a cama com ela e que ela lhe
pedira dinheiro! Amea-la-ia com um escndalo e obrig-la-ia a
denunciar as pessoas que vinham embebedar-se ao- bar.
  O embaixador tentava tranquiliz-la: ??C por mim, no acho a
sua aventura nada perigosa.
  -- Talvez no??, disse Tereza, com a voz estrangulada, e, na
companhia de Karenine, saiu para o escuro das ruas de Praga.

25

  A maior parte das vezes, para escapar ao sofrimento refugiamo-nos no futuro. 
Julgamos que a pista do tempo tem uma linha marcada para l da qual o sofrimento 
presente h-de cessar. Mas Tereza
no conseguia ver essa linha  sua frente. S olhando para trs
descobria alguma consolao. Era mais uma vez domingo; meteram-se no automvel 
para sair de Praga.
  Tomas ia ao volante ao lado de Tereza e Karenine no banco de
trs, sentado; de vez em quando, chegava-se para a frente para lhes
lamber as orelhas. Ao fim de duas horas, chegaram a umas termas
onde tinham passado alguns dias juntos h cinco ou seis anos.
Tencionavam dormir l.
  Estacionaram o carro na praa e saram. Estava tudo na mesma. Em
frente, com a sua velha ti ia  entrada, ficava o hotel onde se tinham
hospedado nesse ano. Para a esquerda do hotel estendiam-se velhas
arcadas em madeira e uma fonte com uma bacia de mrmore. Tal como
dantes, havia pessoas l debruadas, cada uma com o seu copo na mo.
  Tomas apontava para o hotel. Afinal, sempre tinha mudado
qualquer coisa. Dantes, aquilo era o Grande Hotel e agora, conforme indicava o 
letreiro, era o Hotel Baikal. Olharam para a placa da
esquina: aquela era a Praa de Moscovo. Em seguida (com Karenine
sozinho atrs, sem trela) percorreram todas as ruas que conheciam

para saber como  que se chamavam agora: havia a Rua de Estalinegrado, a Rua de 
Leninegrado, a Rua de Rostov, a Rua de Novossibirsk, a Rua de Kiev, a Rua de 
Odessa, e havia a casa de repouso
Piotr Tchakovski, a casa de repouso Tolsto, a casa de repouso
Rimski-Korsakov, havia o Hotel Suvarov, o Cinema Gorki e o Caf
Puchkine. Eram s nomes russos ou alusivos  histria da Rssia.

  Tereza lembrava-se dos primeiros dias da invaso. As pessoas
tinham roubado as placas de todas as ruas e os sinais de todas as
estradas. O pas tornara-se annimo numa s noite. Durante sete
dias, o exrcito russo errara por todo o pas sem saber onde estava.
Os oficiais queriam ocupar as sedes dos jornais, da televiso, da rdio, mas no 
conseguiam localiz-las. Perguntavam s pessoas, mas as
pessoas encolhiam os ombros ou indicavam moradas falsas e apontavam numa 
direco errada.
  Com o passar dos anos, parecia que esse anonimato se tomara
perigoso para o pas. Mas nem as ruas nem as casas voltaram a
recuperar os seus nomes originais. Assim, uma estao termal da
Bomia tomara-se, da noite para o dia, numa pequena Rssia imaginria, e Tereza 
via-se forada a constatar que o passado que ali
tinham ido procurar lhes fora confiscado. Impossvel dormir em tal Stio.

26

  Voltavam em silncio para o carro. Tereza ia a pensar que agora
tudo lhes aparecia debaixo de um disfarce: a velha cidadezinha da
Bomia cobrira-se de nomes russos; os checos que tinham corajosamente 
fotografado a invaso estavam de facto a prestar um servio 
polcia secreta russa; o homem que queria que ela morresse aparecera-lhe 
disfarado com a mscara de Tomas; o polcia fizera-se passar
por engenheiro, e o engenheiro queria desempenhar o mesmo papel
que o homem do Monte-de-Pedra. O livro que l estava no apartamento era um sinal 
mentiroso; era s para despistar.
  Agora, ao pensar no livro que tivera na mo em casa daquele
tipo, lembrou-se subitamente de uma coisa que a fez corar. O engenheiro 
tinha-lhe dito que ia fazer caf. Ela aproximara-se da estante
e tirara o Rei dipo de Sfocles. A seguir, o engenheiro voltara. Mas
sem caf nenhum!
  Examinava e tornava a examinar o que se tinha passado: quanto
tempo se demorara ele fora do quarto quando desaparecera com o
pretexto de ir fazer caf? Um minuto, pelo menos, talvez dois,
talvez mesmo trs. O que poderia ele ter estado a fazer durante
tanto tempo naquela minscula entrada? Teria ido  casa de banho?
Tereza tentava lembrar-se se tinha ouvido a porta a fechar-se ou o
autoclismo a funcionar. No, no tinha ouvido o autoclismo porque,
se tivesse, de certeza que se lembrava. E tambm tinha quase a
certeza de no ter ouvido o barulho da porta. Ento o que  que
ele estaria a fazer na entrada?
  Tudo se tornava de sbito muito claro. Claro de mais, at. Para a
apanharem na armadilha, o depoimento do engenheiro no era suficiente. 
Precisavam de uma prova irrefutvel. Durante aquela longa

ausncia, longa de mais para no levantar suspeitas, ele instalara uma
cmara na entrada. Ou ento, o que era mais plausvel, abrira a
porta a um tipo munido de uma mquina fotogrfica que depois,
escondido atrs do cortinado, os tinha fotografado.
  Ainda h to poucas semanas fizera pouco de Prochaska por ele

no saber que vivia num campo de concentrao onde a vida privada no  
possvel. Mas ela? Depois de deixar a casa da me, julgara, como uma pobre 
idiota, que passaria a ser de uma vez por todas
dona e senhora da sua vida privada. Mas a casa da me estendia-se
pelo mundo inteiro e apanhava-a em todo o lado. Tereza no poderia nunca 
escapar-lhe em parte nenhuma.
  Desceram uma escadaria que havia no meio dos jardins, para
voltarem  praa onde o carro estava estacionado.
  ??O que tens tu???, perguntou Tomas.
  Antes de ter tempo de lhe responder, houve um homem que se
aproximou deles e cumprimentou Tomas.

27

  Era um homem de cerca de cinquenta anos com a cara burilada
pelo vento, um campons que Tomas tinha operado em tempos. A
partir dessa operao, os mdicos mandavam-no todos os anos fazer
uma cura de guas quelas termas. Convidou Tomas e Tereza para
irem beber um copo. Como os ces no podiam entrar em recintos
pblicos, Tereza foi pr Karenine ao carro e os dois homens ficaram
 sua espera sentados a uma mesa do caf. Quando Tereza voltou, o
homenzinho estava a dizer: ??L na minha terra, esteve sempre tudo
muito calmo. Imagine que h dois anos eu at fui eleito presidente
da cooperativa!
  - Os meus parabns!, disse Tomas.
  - Como sabem, vivo numa zona rural. As pessoas querem todas
sair de l. Os que esto no poleiro tm de se dar por muito contentes quando 
ainda h gente que quer ficar. No podem dar-se ao
luxo de nos expulsarem dos empregos!
  - Era o stio ideal para ns, disse Tereza.
  - Minha querida senhora, havia de se aborrecer muito por l.
No h nada para fazer, nada com que uma pessoa se entretenha.
Absolutamente nada.??
  Tereza examinava atentamente aquela cara burilada pelo vento.
Sentia uma viva simpatia pelo campons. At que enfim que encontrava algum 
simptico! Comeou a desenhar-se-lhe perante os
olhos uma cena campestre: uma aldeia com o seu campanrio, campos lavrados, 
florestas, uma lebre a escapar-se por um rego, um
guarda-florestal de chapu verde na cabea. Nunca tinha vivido no
campo. Construra aquela imagem a partir do que as pessoas lhe
tinham contado. Ou a partir dos livros que lera. Ou a partir daquilo

que antepassados longnquos lhe tinham inscrito no subconsciente.
E, no entanto, tinha essa imagem dentro de si, ntida e eloquente
como a fotografia de uma bisav num lbum de famlia, ou como
uma velha gravura.
  ??Ainda tem dores???, perguntou Tomas.
  O campons apontou para o stio onde o crnio se liga  coluna
vertebral na parte de trs do pescoo: ??s vezes di-me aqui.??
  Sem se levantar da cadeira, Tomas apalpou o stio que ele lhe
acabara de mostrar e fez mais algumas perguntas. Depois disse: ??Eu
j no posso passar receitas. Mas, quando voltar para casa, diga a
um mdico que falou comigo e que eu lhe recomendo que tome
isto.?? Tirou um bloco do bolso e arrancou uma folha onde escreveu
o nome do remdio em maisculas.

  Virou a cabea. Mas Tomas continuava calado, com os olhos
pregados na estrada. Ela sentia-se incapaz de vencer o muro de silncio que se 
erguia entre ambos. Estava exactamente no mesmo

estado do dia em que voltara do Monte-de-Pedra. Tinha dores de
estmago e vontade de vomitar. Tinha medo dele. Tomas era forte
de mais para ela, e ela era fraca de mais. S lhe dava ordens que ela
no percebia. Bem se esforava por execut-las, mas no era capaz.
  Queria voltar ao Monte-de-Pedra e pedir ao homem da espingarda para a deixar 
pr a venda nos olhos e encostar-se ao tronco
do castanheiro. Tinha vontade de morrer.



28

Iam de regresso a Praga.                                                 i
Tereza pensava na fotografia onde o se? corpo estava nu entre            '
os braos do engenheiro. Tentava acalmar-se: mesmo admitindo que         I
tal fotografia existisse, Tomas nunca a veria. S tinha utilidade para
eles se tencionassem pr Tereza a denunciar pessoas. Se a mandassem a Tomas, 
perderia todo e qualquer valor.
Mas o que se passaria se os chuis decidissem que no tinham
tempo a perder com Tereza? Nesse caso, a fotografia no seria para
eles seno um motivo de risota e, se a um lhe apetecesse gozar,
ningum podia impedi-lo de a meter num envelope e de a mandar
para a morada de Tomas.
0 que se passaria se Tomas recebesse uma fotografia como
aquela?
P-la-ia na rua? Talvez no. Com certeza que no. Mas o frgil
edifcio do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse
edifcio repousava sobre o pilar nico da sua fidelidade e os amores
so como os imprios: desaparecendo a ideia sobre a qual esto
construdos, tambm eles desaparecem.
Tinha uma imagem a bailar-lhe diante dos olhos: uma lebre a
escapar-se por um rego, um guarda-florestal de chapu verde na
cabea e o campanrio de uma igreja a despontar por cima da floresta.
Queria dizer a Tomas que deviam ir-se embora de Praga. Ir para
longe das crianas que enterram gralhas vivas, para longe dos polcias, para 
longe das raparigas armadas de chapus-de-chuva. Queria
dizer-lhe que deviam ir viver para o campo. Que era a nica salvao possvel.

continuavam a passar porque no lhes interessava nada que houvesse um rio a 
correr de sculo para sculo pelo meio da sua cidade
efmera.
  voltou a contemplar a gua. Sentia-se infinitamente triste. Percebia que 
aquilo que estava a ver era um adeus. O adeus  vida que
se despedia com o seu cortejo de cores.
  Os bancos tinham desaparecido do seu campo de viso. Ainda
viu mais alguns, os ltimos retardatrios, depois ainda houve um
banco amarelo, depois ainda outro, azul, o ltimo.



29


  Acordou e viu que estava sozinha em casa.
  Saiu e dirigiu-se para os cais. Queria ver o Vltava. Queria ir
para a beira do rio olhar para a gua porque ver gua a correr
acalma e cura. O rio corre de sculo para sculo e as histrias dos

homens desenrolam-se nas suas margens. Amanh ningum se lembrar delas e, por 
sua causa, o rio no deixar nunca de correr.
  Apoiada na balaustrada, olhava para baixo. Encontrava-se nos
subrbios de Praga, o Vltava j atravessara a cidade, deixando para
trs de si o esplendor do palcio e das igrejas, como uma actriz
depois da representao, lassa e pensativa. Corria entre margens sujas, 
entaipado por palissadas e muros; atrs havia fbricas e campos
de jogos abandonados.
  Olhou durante muito tempo para a gua que aqui ainda parecia
mais triste, ainda mais sombria; depois, de repente, no meio do rio,
viu aparecer um objecto estranho, um objecto vermelho, sim, era
isso, era mesmo um banco. Um banco de madeira com ps de metal, como h tantos 
nos jardins de Praga. Vinha a flutuar lentamente
pelo meio do Vltava. E atrs vinha outro banco. Depois outro, depois mais outro 
e Tereza acabou por perceber que estava a ver os
bancos dos jardins pblicos de Praga a sair da cidade ao sabor da
corrente. Eram muitos, eram cada vez mais, flutuavam nas guas
como as folhas no Outono quando as guas as levam para longe das
florestas, e havia bancos vermelhos, havia bancos amarelos, havia
bancos azuis.
  Voltou-se para trs para perguntar s pessoas o que seria aquilo.
Porque  que os bancos dos jardins pblicos de Praga se iriam embora ao sabor da 
corrente? Mas as pessoas, com um ar indiferente, 
QUINTA PARTE

O PESO E A LEVEZA


  Como j referi na primeira parte, quando Tereza veio a casa de
Tomas sem prevenir, mal tinha acabado de chegar, j ele estava a
fazer amor com ela. Depois, a rapariga ficou de cama com febre e
Tomas postara-se  sua cabeceira, convencido que ela era uma criana que algum 
pusera numa cesta para lhe ser enviada ao sabor das
guas.
  A partir de ento, afeioara-se  imagem da criana abandonada
e pensava frequentemente nos mitos antigos onde ela aparece. Foi
com certeza por esse motivo que, um dia, pegou numa traduo do
Rei dipo de Sfocles.
  A histria de dipo  sobejamente conhecida: tendo encontrado
um recm-nascido abandonado, um certo pastor levou-o ao rei Polbio que o criou. 
J adulto, dipo cruzou-se um dia numa estrada de
montanha com um carro de cavalos onde viajava um prncipe desconhecido. Gerou-se 
uma discusso e dipo matou o prncipe. Mais
tarde, desposou a rainha Jocasta e tornou-se rei de Tebas. No fazia
a mnima ideia que o homem que um dia matara nas montanhas era
seu pai e a mulher com quem dormia, sua me. E, no entanto, o
destino encarniava-se contra os seus sbditos, cobrindo-os de pragas. Quando 
dipo percebeu que o culpado dos seus males era ele,
vazou os olhos com alfinetes e, cego para todo o sempre, deixou
Tebas.

2

  Quem pensa que os regimes comunistas da Europa Central so
exclusivamente obra de criminosos deixa na sombra uma verdade
fundamental:  que os regimes comunistas no foram edificados por
criminosos, mas por entusiastas, convencidos de que tinham descoberto a nica 
via possvel para o paraso. E defendiam essa via com

unhas e dentes, chegando inclusivamente a mandar matar muito boa
gente por causa disso. Mais tarde, tomou-se claro como a luz do dia
que o paraso no existia e, portanto, que os entusiastas eram assassinos.
  Ento todos caram em cima dos comunistas: eles  que eram
responsveis pela desgraa do pas (que se encontrava pobre e-arruinado), pela 
perda da independncia nacional (o pas tinha cado sob
a alada dos russos), pelos homicdios judiciais!
  O debate resumia-se, portanto, a uma questo: os comunistas no
saberiam mesmo? Ou estavam s a fingir que no sabiam de nada?
  Tomas ia seguindo o debate (como outros dez milhes de checos), convencido que 
tinha forosamente de haver comunistas ao
corrente de alguma coisa (apesar de tudo, sempre deviam ter ouvido
falar dos honores que se tinham produzido e continuavam a produzir-se na Rssia 
ps-revolucionria). Mas tambm achava provvel
que a grande maioria no estivesse realmente ao corrente de nada.
  E pensava que a pergunta que devia ser feita no era: afinal, os
comunistas sabiam ou no? Mas: algum pode estar inocente s por
no saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de
tudo s pelo facto de ser imbecil?
  Admitamos que o procurador checo, que no incio dos anos cinquenta pedia a 
pena de morte para um inocente, tenha sido de facto

enganado pela polcia secreta russa e pelo Governo do seu pas.
Mas agora que toda a gente sabia que as acusaes eram absurdas
e que os supliciados estavam inocentes, como  que exactamente
o mesmo procurador podia defender a brancura da sua alma e bater
com a mo no peito, protestando: eu tenho a conscincia limpa,
eu no sabia, eu no acreditava! No era exactamente no seu   Eu
no sabia! Eu no acreditava!?? que residia a sua culpa irreparvel?
  Ento, Tomas lembrou-se da histria de dipo. dipo no sabia
que dormia com a prpria me, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe 
tinha acontecido, no se sentiu inocente. No pde
suportar o espectculo da desgraa que causara com a sua ignorncia, vazou os 
olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.
  Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a brancura das
suas almas e pensava: por causa da vossa inconscincia, talvez este
pas tenha ficado privado de liberdade por vrios sculos e ainda se
pem a berrar que esto inocentes? Como  que ainda podem olhar
para aquilo que vos rodeia? Como  que no ficam apavorados?
Ainda so capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mas era
vaz-los e sair de Tebas!
  A comparao agradava-lhe tanto que recorria frequentemente a
ela quando discutia com os amigos, exprimindo-a atravs de frmulas cada vez 
mais elegantes e aceradas.
  Como todos os intelectuais da poca, costumava ler um semanrio da Unio dos 
Escritores Checos com qualquer coisa como trezentos mil exemplares de tiragem. A 
publicao tinha ganho uma
autonomia considervel no interior do regime e falava de assuntos
que os outros jornais no se atreviam sequer a abordar. Chegava
mesmo a trazer artigos onde se perguntava quem eram os culpados,
e em que medida, dos homicdios judiciais cometidos aquando dos
processos polticos dos primeiros anos do regime comunista.
  Em todas as discusses, acabava sempre por vir ao de cima
aquela velha questo! Eles sabiam ou no sabiam? Julgando-a uma
questo secundria, Tomas um dia passou para o papel as suas
reflexes sobre dipo e mandou-as para o semanrio. Um ms depois, recebeu uma 
resposta. Pediam-lhe para passar pela redaco.
Quando l chegou, foi recebido por um jornalista baixinho, hirto

como uma tbua, que lhe props uma alterao na sintaxe de uma
frase. O texto apareceu pouco depois, na antepenltima pgina, entre outras   
cartas do leitor??.
  Tomas ficou muito pouco satisfeito com ele. Para lhe pedirem
para modificar um pequeno pormenor de sintaxe, tinham-se dado ao
trabalho de cham-lo ao jornal, mas depois, sem pedirem sequer a
sua opinio, tinham-lhe cortado tanto o texto que as suas reflexes
ficavam reduzidas a uma tese fundamental (demasiado esquemtica
e demasiado agressiva) e j no lhe davam satisfao nenhuma.
  Tudo isto se passava na Primavera de 1968. Alexandre Dubcek
subira ao poder e rodeara-se de comunistas que tinham algumas
culpas na conscincia e estavam dispostos a fazer qualquer coisa para reparar os 
erros cometidos. Mas os outros comunistas, os que se
punham a berrar que estavam inocentes, temiam que a ira popular
os viesse a obrigar a responder perante a justia. Iam todos os dias
queixar-se ao embaixador da Rssia e implorar o seu auxlio. Quando a carta de 
Tomas apareceu no jornal, as suas vozes ergueram-se
em unssono: vejam bem ao que j chegmos! J tm o descaramento de escrever num 
jornal que deviam furar-nos os olhos!
  Dois ou trs meses mais tarde, os russos decidiram que discutir
em liberdade era uma coisa inadmissvel numa provncia sua e
mandaram o seu exrcito ocupar no espao de uma noite o pas de
Tomas.





192

3


  Depois de vir de Zurique, Tomas fora ocupar o lugar que tinha
anteriormente no mesmo hospital de Praga. Pouco tempo mais tarde, foi convocado 
pelo chefe do servio, que lhe disse:
  c?Afinal de contas, meu caro colega, voc no  nem escritor,
nem jornalista e, muito menos, o messias do povo. O que voc , 
um mdico e um homem de cincia! No gostava mesmo nada de
perd-lo e estou disposto a tudo para conserv-lo c. Mas voc tem
de se retratar daquele seu artigo sobre dipo.  assim uma coisa
to preciosa para si???
  Lembrando-se que lhe tinham cortado um tero do texto, Tomas
respondeu:
  c?Pelo contrrio, chefe,  a coisa que me interessa menos neste
mundo!
  - Voc tem bem conscincia daquilo que est em jogo???,
perguntou o chefe do servio.
  Tomas sabia que estavam duas coisas, uma em cada prato da
balana. Uma era a sua honra (que lhe exigia que no desmentisse
o que escrevera) e a outra, aquilo que se habituara a considerar
como o sentido da sua vida (o seu trabalho como homem de cincia
e como mdico).
  O chefe do servio prosseguiu: ?" perfeitamente medieval exigir
a um homem que se retracte daquilo que escreveu. O que significa
uma pessoa "retractar-se"? Nos tempos de hoje, ningum pode
retractar-se de uma ideia, uma ideia s pode ser refutada. E, meu
caro colega, como retractar-se de uma ideia  uma coisa impossvel,

uma coisa puramente verbal, formal, mgica, no vejo porque  que
no h-de fazer o que lhe pedem. Numa sociedade regida pelo
terror, as declaraes no comprometem ningum porque so extorquidas pela 
violncia e todo o homem honesto tem o dever de
no lhes prestar ateno, de nem sequer as ouvir. Meu caro colega,
no meu e no interesse dos seus doentes volto a repetir-lhe: voc
tem de conservar o seu lugar!
  - Com certeza que sim, chefe, disse Tomas, com um ar infeliz.
  - Mas...?, adiantou o chefe do servio, esforando-se por adivinhar o que o 
outro estava a pensar.
  - Tenho medo de ter vergonha.
  - De quem? Tem assim em to alta considerao os que o rodeiam para se 
incomodar com aquilo que eles pensam?
  - No, disse Tomas.
  - Alis, prosseguiu o chefe do servio, j me garantiram que
no se trata de uma declarao pblica. So mros burocratas. Precisam de ter 
nos dossiers qualquer coisa que prove que voc no 
contra o regime, para poderem defender-se se algum vier acus-los
de o terem deixado ficar no mesmo lugar. Prometeram-me que a
sua declarao ficaria s entre si e as autoridades e no encaram a
possibilidade de ela poder ser publicada.
  - Conceda-me uma semana de reflexo??, disse Tomas, rematando a conversa.

4


  Era considerado o melhor cirurgio do hospital. J se dizia que o
chefe do servio, que estava  beira da reforma, lhe cederia dentro
em pouco o lugar. Quando se espalhou o boato de que as altas
autoridades lhe exigiam uma declarao de autocrtica, ningum duvidou que 
cederia.
  Foi a primeira coisa que o apanhou de surpresa: embora no
tivesse feito nada para justificar tal suposio, os outros apostavam
muito mais na sua desonestidade do que na sua verticalidade.
  Outra coisa surpreendente eram as reaces das pessoas perante
o seu presumvel comportamento. De um modo grosseiro, poderia
reparti-las por duas categorias:
  O primeiro tipo de reaco era o daqueles que (ou eles ou os
seus prximos) tinham renegado qualquer coisa, tinham sido obrigados a declarar 
publicamente que estavam de acordo com o regime
de ocupao ou iam faz-lo em breve (a contragosto,  claro, porque
ningum faz uma coisa dessas com alegria).
  Esses faziam-lhe um estranho sorriso, que nunca tinha visto em
dias da sua vida: era o tmido sorriso de uma cumplicidade secreta.
Era o sorriso que dois homens passam a trocar depois de se encontrarem por acaso 
num bordel; sentem uma certa vergonha, mas, ao
mesmo tempo, d-lhes prazer que a vergonha seja recproca. Ficam
ligados por uma espcie de lao de fraternidade.
  O sorriso ainda era mais significativo na medida em que Tomas
nunca tivera fama de conformista. A sua presumvel anuncia  proposta do chefe 
do servio era, portanto, a prova de que a cobardia se
ia tornando lenta mas seguramente uma regra de conduta e deixaria
em breve de ser considerada como aquilo que de facto era. Esses nunca tinham 
sido seus amigos. Tomas sentia-se arrepiado ao pensar
que, se de facto confeccionasse a declarao que lhe exigiam, eles o
convidariam para tomar um copo em suas casas e procurariam ter
relaes mais chegadas com ele.
  O segundo tipo de reaco era a daqueles que (ou eles ou os

seus prximos) eram perseguidos, se recusavam a aceitar um compromisso qualquer 
com as foras de ocupao, ou ento aqueles a
quem ningum exigia compromisso ou declarao de espcie nenhuma (talvez por 
serem novos de mais e nunca terem estado metidos
em nada), mas que estavam convencidos que jamais cederiam.
  Um deles, S., um mdico ainda jovem mas bastante competente,
perguntou um dia a Tomas: "Ento, l escreveste aquilo?
  - Queres fazer o favor de me explicar a que  que te ests a
referir?
  -  tua autocrtica??, disse S. No o disse com maldade.
At estava a sorrir. No rico herbrio dos sorrisos, aquele era um
sorriso completamente novo. O sorriso da superioridade morar satisfeita.
  "Ouve l, perguntou Tomas, o que  que tu sabes sobre a minha
autocrtica? Leste-a?
  - No, respondeu S.
  - Ento o que  que ests para a a dizer???
  S. continuava a exibir o mesmo sorriso de satisfao: ??Ora essa!
Toda a gente sabe como  que essas coisas se passam. A pessoa faz
a sua autocrtica numa carta dirigida ao senhor director-geral, ao
senhor ministro ou a outra excelncia qualquer, que promete que a
carta no ser publicada para o autor no se sentir humilhado. 
assim ou no ???
  Tomas encolheu os ombros e esperou pelo resto. ??A seguir, arquivam 
cuidadosamente a autocrtica, mas o autor sabe que, a qualquer momento, a podem 
publicar. Nessas condies, nunca mais poder criticar nada, nunca mais poder 
protestar contra nada porque
a sua autocrtica ser imediatamente publicada e ele sentir-se- desonrado aos 
olhos de toda a gente. No fim de contas, acaba por ser
um mtodo simptico. Podia ser pior.
  - Tens razo,  um mtodo muito simptico, disse Tomas. Mas
o que eu gostava de saber era quem  que te disse que comigo deu
bons resultados.??
  O colega encolheu os ombros, mas o sorriso no lhe desapareceu
da cara.

  Tomas compreendeu uma coisa estranha. Todos lhe sorriam, rodos
desejavam que se retractasse por escrito, se se retractasse faria o
gosto a todos. Uns regozijavam-se porque a inflao de cobardia banalizava a sua 
prpria conduta e lhes devolvia a honra perdida. Os
outros tinham-se acostumado a ver na sua honra um privilgio especial a que no 
queriam renunciar por nada deste mundo. Por isso
nutriam um secreto amor pelos cobardes. Sem eles, a sua coragem
seria apenas um esforo banal pela qual ningum sentiria qualquer
admirao especial.
  Tomas no podia com aqueles sorrisos e j os via em todo o
lado, mesmo na prpria cara de certos desconhecidos com quem se
cruzava na rua. No conseguia dormir. Mas como? Ligava assim
tanto a essas pessoas? De forma nenhuma. No pensava bem de
nenhuma delas e censurava-se a si prprio por se deixar perturbar
pelos seus olhares. Era uma coisa completamente incoerente. Como
? que algum que tinha to pouca considerao pelos outros podia
depender tanto da sua opinio?
  Talvez a profunda desconfiana que o gnero humano lhe inspirava (a forma como 
duvidava do seu hipottico direito de decidir do
seu destino e de o julgar) j tenha pesado bastante na sua opo
por uma profisso abrigada aos olhos do pblico. Quem escolhe, por
exemplo, uma carreira poltica, escolhe deliberadamente o pblico
para seu juiz, com a ingnua e confessa certeza de poder ganhar os

seus favores. A eventual hostilidade das massas incita-o depois a
fazer representaes cada vez mais exigentes, da mesma forma que
Tomas se sentia estimulado pela dificuldade de um diagnstico.
  O mdico (ao contrrio do poltico ou do actor) no  julgado
seno pelos seus doentes e pelos confrades mais prximos, ou seja,
entre quatro paredes e de homem para homem. Confrontado com os
olhares daqueles que o julgam, pode responder logo na altura,
explicar-se ou defender-se. Agora (e pela primeira vez na sua vida),
Tomas tinha tantos olhares postos em cima de si que era impossvel
distingui-los uns dos outros. No podia responder-lhes nem com o
seu prprio olhar nem com palavras. Estava  sua merc. Falava-se
dele no hospital e fora do hospital (Praga tinha os nervos  flor da
pele e as notcias dos que fraquejavam, denunciavam, colaboravam,
circulavam pela cidade com a extraordinria velocidade do tant
africano), ele tinha conscincia disso e no podia impedi-lo. Ele prprio se 
sentia admirado por perceber a que ponto isso lhe era insuportvel e em que 
estado de pnico o mergulhava. O interesse que
todos demonstravam por ele fazia-o sentir to mal como os empurres de uma 
multido ou, como num pesadelo, o contacto fsico com
pessoas que estivessem a arrancar-lhe o fato.
  Foi ter com o chefe do servio e disse-lhe que no assinava coisa
nenhuma.
  O chefe do servio apertou-lhe a mo muito mais energicamente
do que o costume e disse que no esperava outra coisa dele. Tomas
respondeu-lhe:
    Chefe, mas mesmo sem autocrtica, talvez me pudesse deixar c
ficar!??, querendo dar-lhe a entender que bastava que todos os seus
colegas ameaassem demitir-se se o obrigassem a ir-se embora.
  Mas ningum se lembrou de apresentar a demisso e, pouco depois, Tomas (o 
chefe do servio apertou-lhe a mo ainda mais energicamente do que da ltima vez 
- at ficou com ndoas negras)
teve de deixar o lugar que tinha no hospital.

5


  Primeiro, arranjou emprego numa clnica a oitenta quilmetros
de Praga. Ia e vinha todos os dias de comboio e chegava sempre
mortalmente cansado a casa. Um ano depois, conseguiu arranjar um
lugar mais cmodo, embora absolutamente subalterno, num posto
clnico suburbano. A, j no podia operar e s fazia clnica geral.
A sala de espera estava sempre a abarrotar, tinha pouco mais de
cinco minutos para cada doente, receitava-lhes aspirinas, passava-lhes atestados 
mdicos para os empregos e mandava-os para consultas de servios especializados. 
Sentia que deixara de ser mdico
para passar a empregado de escritrio.
  Um dia, no fim da consulta, teve uma visita; era um senhor de
cerc de cinquenta anos, suficientemente bem nutrido para ter um
ar srio. O senhor apresentou-se dizendo que era chefe de um servio no 
Ministrio do Interior, e convidou Tomas a ir com ele at ao
caf que havia do outro lado da rua.
  Mandou vir uma garrafa de vinho. Tomas disse que no podia
beber e explicou-lhe: c? que ainda tenho que guiar. Se a polcia me
apanha, fico sem carta." O homem do Ministrio do Interior disse,
com um sorriso: c?Se lhe acontecer alguma coisa, diga que  meu
conhecido?, e estendeu-lhe um carto-de-visita onde, alm do nome
(falso, com toda a certeza), havia o nmero de telefone do Ministrio.
  Depois, exps demoradamente a Tomas a considerao que tinha

por ele. No Ministrio, toda a gente lamentava que um cirurgio da
sua craveira 'estivesse reduzido a receitar aspirinas num posto clnico
dos subrbios. Chegou mesmo a insinuar que, sem poder diz-lo em
voz alta, a polcia no concordava que os especialistas fossem afastados de uma 
maneira to sumria dos seus empregos.
  Como j h muito tempo no ouvia ningum elogi-lo, Tomas
prestava uma ateno extraordinria ao que aquele homenzinho
barrigudo dizia e constatava com surpresa que estava extremamente bem informado 
sobre a sua carreira, que conhecia em todos os seus
pormenores. Como a lisonja nos apanha desprevenidos! Tomas no
conseguia deixar de levar a srio o que o homem do Ministrio lhe
dizia.
  Mas no era s por vaidade. Era sobretudo por inexperincia.
Quando nos encontramos perante uma pessoa que se mostra amvel,
deferente e corts para connosco,  muito difcil estar sempre a
pensar que nada do que est a dizer  verdadeiro, que nada  sincero. Para 
duvidar dela (contnua e sistematicamente, sem a menor
hesitao),  preciso fazer um esforo gigantesco, e tambm ter algum treino, ou 
seja, estar-se habituado a interrogatrios da polcia.
Era esse treino que faltava a Tomas.
  O homem do Ministrio prosseguia, dizendo: ??Senhor doutor,
sabemos que tinha uma excelente situao em Zurique. Apreciamos muito que tenha 
voltado. Foi uma coisa que lhe ficou bem.
O senhor bem sabia que o seu lugar era aqui.?? Depois acrescentou,
como se Tomas  que tivesse a culpa: ??Mas o seu verdadeiro lugar
 na sala de operaes!
  - Concordo consigo??, disse Tomas.
  Depois de uma curta pausa, o homem do Ministrio retomou a
conversa, com uma voz um pouco enervada: ??Mas ora diga-me: o
senhor doutor acha mesmo que  preciso vazar os olhos aos comunistas? No acha 
estranho ser precisamente o senhor que o diz, o
senhor que j devolveu a sade a tanta gente?
  - Mas as suas palavras no tm sentido nenhum, protestou Tomas. Leu o meu 
artigo?
  - Li, disse o homem do Ministrio num tom que pretendia exprimir a sua 
desolao.
  - E ento acha que eu disse que era preciso vazar os olhos aos
comunistas?
  - Foi o que toda a gente percebeu, disse o homem do Ministrio, num tom cada 
vez mais desolado.
  - Se tivesse lido o meu texto na ntegra, tal como eu o escrevi,
nunca poderia pensar uma coisa dessas. O meu texto foi cortado.
  - Como?, disse o homem do Ministrio, apurando o ouvido.
Aquilo que foi publicado no era o seu texto?
  - Encurtaram-no.
  - Muito?
  - Tiraram-lhe mais ou menos um tero.
  O homem do Ministrio parecia sinceramente indignado. <?No
foi nada leal da parte deles.??

  Tomas encolheu os ombros.
  <<Mas devia ter-se defendido! Devia ter exigido imediatamente
uma rectificao!
  - O que  que quer?! Os russos vieram logo a seguir! Tnhamos
todos mais que fazer..., disse Tomas.
  - Mas ento porque  que continua a deixar que as pessoas
pensem que um mdico como o senhor quer que outros homens
percam a vista?

  -  preciso ver as coisas como elas so! O meu artigo apareceu
misturado com outras cartas. Ningum deve ter reparado nele. Excepto,  claro, 
na Embaixada da Rssia: dava-lhes jeito...
  - No diga uma coisa dessas, senhor doutor! Olhe que at eu o
discuti com muita gente que o tinha lido e nunca tinha pensado que
o senhor pudesse escrever uma coisa daquelas. Mas agora j percebo
tudo melhor, sobretudo desde que me explicou que o artigo que foi
publicado no era exactamente aquele que tinha escrito. Algum lhe
sugeriu que o escrevesse?
  - No, disse Tomas. Fui eu que o mandei sem ningum mo pedir.
  - Conhece essa gente?

  - Quem?
  - Os que lhe publicaram o artigo?

  - No.
  - Ento nunca falou com eles?
  - S os vi uma vez. Pediram-me para passar pelo jornal.

  - Porqu?
  - Por causa desse artigo.
  - E com quem  que falou?
  - Com um jornalista.
  - Como  que ele se chamava???
  Tomas compreendeu finalmente que aquilo era um interrogatrio. Apercebeu-se 
que cada uma das suas palavras podia pr uma
pessoa em perigo. Claro que sabia o nome do jornalista, mas disse:
  ??No sei.
  - Oh senhor doutor!, disse o homem, altamente indignado com
tanta falta de sinceridade. Ento ele no se apresentou???
   quase tragicmico que o melhor aliado da polcia seja precisamente a nossa 
boa educao. O imperativo " preciso dizer
sempre a verdade!?? que nos foi inculcado pelos pais faz com que
tenhamos automaticamente vergonha de mentir, mesmo ao polcia
que nos est a interrogar.  mais fcil discutir com ele, insult-lo (o que no 
serve absolutamente para nada), do que mentir-lhe descaradamente (que  a nica 
coisa que se deve fazer).
  Ao ouvir o homem do Ministrio censur-lo pela sua falta de
sinceridade, Tomas sentiu-se quase culpado; teve de superar uma
espcie de bloqueio moral para poder continuar a insistir na sua
mentira: c?Claro que deve ter-se apresentado, disse, mas, como o
nome dele no me dizia nada, esqueci-me imediatamente.
  - Como  que ele era???
  O jornalista em causa era baixo e tinha cabelo loiro cortado 
escovinha. Tomas tentou escolher caractersticas diametralmente
opostas:   Era alto. Tinha cabelos compridos, pretos.
  - Ah! Ah!, exclamou o homem do Ministrio. E queixo de rabeca?
  - Isso mesmo, disse Tomas.
  - Um tipo um bocado curvado.
  - Isso mesmo??, voltou a repetir Tomas, e percebeu que o homem do Ministrio 
tinha acabado de identificar algum. Tomas no
s denunciara um desgraado jornalista, como ainda por cima o fizera com uma 
mentira.
  ?"Mas porque  que ele lhe pediu para passar por l? De que  que
falaram?
  - Queriam modificar a sintaxe de uma frase.??

  Esta frase soou como um subterfgio ridculo. O homem do Ministrio voltou a 
revoltar-se por Tomas se recusar a contar a verdade: ?? senhor doutor! Depois 
de me dizer que lhe cortaram um
tero do texto, quer-me convencer que s falaram de sintaxe! Olhe
que isso no tem lgica nenhuma!??
  Desta vez, Tomas pde responder com toda a facilidade porque
aquilo era pura e simplesmente a verdade: ??No  nada lgico, mas
 mesmo assim, disse, a rir. Pediram-me autorizao para mudar a
sintaxe de uma frase e depois cortaram-me um tero do artigo.??
  O homem do Ministrio voltou a abanar a cabea como se um
comportamento to imoral fosse inadmissvel, dizendo: ??Essa gente
no foi nada correcta consigo.??
  Esvaziou o copo e concluiu: "Senhor doutor, o senhor foi vtima
de uma manipulao. Era pena que, no fim de contas, fosse o
senhor e os seus doentes que acabassem por pagar. Apreciamos
muito as suas qualidades, senhor doutor. Veremos o que se pode
fazer. ??
  Estendeu a mo a Tomas e despediu-se cordialmente. Saram
ambos do caf e dirigiram-se para os respectivos automveis.

6


  O encontro ps Tomas de muito mau humor. Censurava-se intimamente por se ter 
deixado levar pelo tom jovial da conversa. J
que no se tinha recusado a falar com o polcia (no estava preparado para uma 
situao como aquela e no sabia o que a lei lhe
permitia ou no), pelo menos devia ter-se recusado a acompanh-lo
ao caf e a beber um copo como se ele fosse seu amigo! E se algum, algum que 
conhecesse o 'polcia, os tivesse visto juntos? Tinha pensado, com certeza, que 
Tomas trabalhava para a polcia!
E que necessidade tivera de contar quele chui que lhe tinham cortado
o artigo? Porque  que, sem ter razo nenhuma para isso, lhe tinha
dado essa informao? Sentia-se extremamente descontente consigo
prprio.
  Uns quinze dias mais tarde, o homem do Ministrio voltou. Props que fossem ao 
caf como da ltima vez, mas Tomas preferiu
ficar no consultrio.
  ?"Compreendo a sua atitude, senhor doutor??, disse o outro, com
um sorriso.
  Tomas ficou a matutar nesta frase. O homem do Ministrio acabara de 
exprimir-se como o jogador de xadrez que confirma ao adversrio o erro que 
cometeu na jogada precedente.
  Estavam sentados um em frente do outro, apenas separados pela
secretria de Tomas. Ao fim de dez minutos, em que o tema da
conversa foi a epidemia de gripe que grassava na altura, o homem
disse: ??Senhor doutor, reflectimos sobre o seu caso. Se fosse s o
senhor que estivesse em causa, era tudo muito mais fcil. Mas temos
que ter em conta a opinio pblica. Quer queira quer no, o seu
artigo contribuiu para aumentar a histeria anticomunista. No lhe quero ocultar 
que nos chegaram mesmo a sugerir que devamo,
faz-lo prestar contas  justia por causa do seu artigo. H uma
disposio do cdigo penal para isso. Incitao pblica  violncia.??
  O homem do Ministrio do Interior fez uma pausa e olhou Tomas de olhos nos 
olhos. Tomas encolheu os ombros. O homem disse
ento, com o ar de quem queria sosseg-lo: ??Mas afastmos tal
ideia. Seja qual for a sua responsabilidade, a sociedade exige que
exera funes onde as suas capacidades possam render o mximo.
O seu antigo chefe de servio tem muita estima por si. E tambm
tirmos informaes junto dos seus doentes. O senhor  realmente

um grande especialista, senhor doutor! Ningum pode exigir que um
mdico perceba de poltica. Deixou que o ridicularizassem, senhor
doutor. Temos de remediar isso.  por isso que lhe queramos propor o texto de 
uma declarao que, na nossa opinio, o senhor devia pr  disposio da 
imprensa. Depois, c nos arranjvamos para
a fazer publicar na devida altura??, e estendeu um papel a Tomas.
  Tomas leu-o e teve um choque. Era bem pior do que o que o
seu antigo chefe de servio lhe exigira dois anos antes. J no se
tratava apenas de uma simples autocrtica por causa do artigo sobre
dipo. Havia vrias referncias ao seu amor pela Unio Sovitica e
 sua fidelidade ao Partido Comunista, era uma condenao dos intelectuais que, 
como l se dizia, queriam pr o pas  beira da guerra civil, mas, o que era 
pior, era uma denncia da redaco do semanrio dos escritores e do jornalista 
alto e curvado (Tomas nunca
o vira, mas conhecia-o de nome e j vira fotografias suas) que abusara 
deliberadamente dele ao deformar-lhe o sentido do artigo de
forma a convert-lo num autntico apelo contra-revolucionrio; eram
demasiado cobardes (estava l escrito) para fazer um artigo daqueles e
tinham querido esconder-se por trs de um mdico ingnuo.
  O homem do Ministrio apercebeu-se do assombro que perpassava pelos olhos de 
Tomas. Debruando-se para a frente, deu-lhe
uma palmadinha amigvel no joelho, por baixo da secretria:
<<Senhor doutor, isto  s um borro! O senhor agora vai reflectir e
se quiser alterar uma frmula ou outra, com certeza que havemos
de nos entender. No fim de contas, o texto  seu.?.?
  Tomas devolveu o papel ao polcia como se receasse continuar
com ele na mo nem que fosse por mais um segundo. Pouco faltou
para imaginar que haviam de l ir tirar-lhe as impresses digitais.
  Fingindo-se surpreendido, em vez de pegar no papel, o homem
do Ministrio abriu os braos (s parecia o papa a abenoar os fiis
do alto da sua varanda):   Mas, oh senhor doutor, porque  que mo

quer dar? O senhor  que deve ficar com ele. Em casa vai ter mais
sossego para reflectir.??
  Continuando pacientemente com o papel na mo estendida, Tomas abanava a 
cabea. O homem do Ministrio parou de imitar o
Santo Padre a abenoar os fiis e teve de resignar-se a pegar no
papel.
  Tomas tencionava deixar bem vincado que nunca escreveria nem
assinaria nada: Mas, no ltimo momento, mudou de tom. Aparentando uma grande 
calma, disse: ?"Eu no sou analfabeto. Porque 
que hei-de assinar uma coisa que no fui eu que escrevi?
  - Mas, senhor doutor,  claro que podemos fazer ao contrrio.
O senhor escreve primeiro qualquer coisa e em seguida vemo-la os
dois. O que lhe mostrei pode pelo menos servir-lhe de modelo.??
  Porque  que Tomas no recusou categoricamente a proposta do
polcia logo naquela altura?
  Porque fez rapidamente o seguinte raciocnio: para alm de que
declaraes do gnero daquela desmoralizavam a nao inteira (e
toda a estratgia dos russos ia nesse sentido), com certeza que, no
seu caso, a polcia tinha um objectivo mais preciso: talvez estivesse
em preparao um processo contra os jornalistas do semanrio para
onde Tomas mandara o artigo. Se assim fosse, a sua declarao seria
no s uma prova mas tambm uma pea importante da campanha
de imprensa que desencadeariam contra os jornalistas. Recusando
logo, firme e categoricamente, arriscava-se a que a polcia publicasse
o texto previamente preparado apondo-lhe fraudulentamente a sua

assinatura. Nenhum jornal publicaria depois o seu desmentido! Ningum 
acreditaria que no fora ele que escrevera e assinara o artigo!
J tivera tempo para perceber que as pessoas se regozijam de mais
com a humilhao moral de outrem para deixar que lhes estraguem
esse gosto com explicaes.
  Alimentando na polcia a esperana de que ele prprio acabaria
por escrever um texto, estava a ganhar tempo. No dia seguinte,
demitiu-se. Supunha (e com razo) que, uma vez que tivesse descido
voluntariamente para o degrau mais baixo da escala social (como
milhares de outros intelectuais de outras disciplinas j tinham feito),
a polcia deixaria de ter qualquer poder sobre a sua pessoa e desistiria de se 
interessar por ele. Nessas condies, j no podiam publicar a declarao com a 
sua assinatura porque ningum acreditaria
que fosse verdadeira. As ignbeis declaraes pblicas do gnero
daquela so sempre acompanhadas pela promoo do signatrio, no
pela sua queda.
  Mas, como na Bomia os mdicos so funcionrios pblicos, o
Estado pode dispens-los, mas  sempre livre de no o fazer.
O funcionrio com quem Tomas discutiu a sua demisso j tinha
ouvido falar dele e tinha-o em elevada estima. Tentou convenc-lo a
no deixar o lugar. Tomas percebeu que no tinha a certeza de que
aquela fosse a melhor deciso, mas, sentindo-se j ligado  sua resoluo por 
uma espcie de juramento de fidelidade, obstinou-se nela
e tornou-se lavador de janelas.




7


  Alguns anos antes, ao volante do automvel que o trazia de
volta de Zurique para Praga, Tomas ia repetindo baixinho: ??es muss
sein!??, a propsito do seu amor por Tereza. Depois da fronteira,
comeou a duvidar que tivesse mesmo de ser: percebeu que tudo o
que o tinha feito chegar a Tereza no fora mais do que uma srie
de acasos ridculos que se tinham produzido sete anos antes (tinham
comeado com a crise de citica do chefe do servio) e que agora o
empurravam para uma priso de onde nunca mais conseguiria sair.
  Dever-se- ento concluir que no havia qualquer ??es muss
sein!??, qualquer grande necessidade na sua vida? Penso que no; na
minha opinio, havia uma. No era o amor, mas a profisso. O que
o levara a ser mdico no fora nem o acaso nem um clculo racional, mas um 
profundo desejo interior.
  Se h algo que nos permite classificar os homens em categorias,
 com certeza o desejo profundo que os guia para um dado tipo de
actividade que exercero toda a vida. Os Franceses so todos diferentes uns dos 
outros. Mas todos os actores do mundo se parecem
- os de Paris, os de Praga e mesmo os que trabalham no mais
modesto dos teatros de provncia. Actor  aquele que, desde a infncia, aceita 
expor toda a sua vida ao pblico annimo. Sem este
assentimento fundamental, que no tem nada a ver com o talento e
que  algo de muito mais profundo do que o talento, ningum pode
tornar-se actor. Do mesmo modo, o mdico  aquele que aceita
ocupar-se durante toda a vida, com todas as consequncias que isso
implica, de corpos humanos.  este sim fundamental (e no o talento e a 
habilidade) que lhe permite entrar no primeiro ano numa sala
de anatomia e, seis anos mais tarde, sair mdico da Faculdade.

  A cirurgia eleva o imperativo fundamental da profisso de mdico quele 
extremo limite onde o humano se confunde quase com
o divino. Quando se d ?ma pancada com toda a fora na cabea
de uma pessoa, ela fica estendida por terra e pode deixar de respirar de uma vez 
por todas. Mas, mais dia menos dia, sempre acabaria por deixar de respirar. O 
crime s antecipa aquilo de que o
prprio Deus em pessoa se encarregaria um pouco mais tarde.
E Deus, podemos sup-lo, previu o homicdio, mas no a cirurgia.
Nunca lhe passou pela cabea que, um belo dia, o homem se atrevesse a meter as 
mos no mecanismo que ele inventara e cuidadosamente embalara, selara e fechara 
com pele para melhor o furtar
aos seus olhos. Quando Tomas poisou pela primeira vez o bisturi
na pele de um homem anestesiado, e depois a rasgou com um
golpe enrgico e a descoseu com uma inciso regular e precisa (como um bocado 
inanimado de pano, um sobretudo, uma saia, um
cortinado), foi acometido por uma curta mas intensa sensao de
sacrilgio. Mas com certeza que era precisamente isso que o atraa!
Era uma necessidade, um ??es muss sein!?? profundamente enraizatio
nele, ao qual no chegara nem por acaso, nem devido  citica do
chefe do servio, nem a outra coisa qualquer que lhe fosse exterior.
  Como explicar ento que se tenha desligado to depressa, to
resolutamente e com tanta facilidade de qualquer coisa de to profundo?
  Ele responder-nos-ia que o seu acto se destinava a impedir que
a polcia abusasse dele. Mas, francamente, embora, em teoria, isso
fosse sempre possvel (porque houve de facto casos do gnero), na
verdade, no corria praticamente risco nenhum que a polcia fizesse
publicar uma declarao falsa com a sua assinatura.
  Claro que temos sempre o direito de precaver-nos contra todos
os perigos, mesmo os mais improvveis. Admitamos tambm que estava irritado 
consigo prprio, com a falta de habilidade que revelara
e queria evitar novos contactos com a polcia, contactos que no
fariam seno exacerbar a sua sensao de impotncia. Admitamos
ainda que j renunciara de facto  sua profisso, porque o trabalho
mecnico que tinha no posto clnico, a receitar aspirinas, no tinha
nada a ver com aquilo que a profisso de mdico era para ele.
Mesmo assim, uma deciso to brusca ainda continua a parecer-me
estranha. No esconder algo de mais profundo, algo que escapava 
sua reflexo racional?

8


  Tomas comeara a gostar de Beethoven por causa de Tereza, mas
no era um fantico da msica e duvido mesmo que conhecesse a
histria que est na origem do ilustre tema beethoveniano do   muss
es sein? es muss sein!??
  A coisa passou-se assim: um certo senhor Dembscher devia
cinquenta florins a Beethoven, e o compositor, sempre falido, foi
pedir-lhos. ?"Es muss sein?, tem de ser???, suspirou o pobre Dembscher, ao que 
Beethoven replicou num tom jocoso: ?"Es muss sein!,
tem de ser!??, imediatamente anotou as palavras no seu caderninho e
comps a partir desse tema realista uma pequena pea a quatro vozes: trs cantam 
<?es muss sein, ja, ja, ja, tem de ser, tem, tem, tem??
e a quarta acrescenta: aheraus mit dem Beutel! puxa da bolsa!??.
  Esse mesmo tema tomar-se-ia mais tarde o ncleo central do
quarto andamento do ltimo quarteto opus 135. As palavras ?"es
muss sein!" adquiriam para ele uma tonalidade cada vez mais solene, como se 
tivessem sido proferidas pelo Destino. Na lngua de

Kant, mesmo um simples   bom dia!?, quando convenientemente articulado, pode 
parecer uma tese metafsica. O alemo  uma lngua
de palavras pesadas.   Es muss sein!? deixara de ser uma brincadeira
para tornar-se   der schwer gefasste Entschluss?; atem de ser
tornara-se a deciso gravemente pesada.
  Beethoven transformara, portanto, uma inspirao cmica num
quarteto srio, uma brincadeira numa verdade metafsica.  um
exemplo interessante de passagem do leve ao pesado (portanto, segundo 
Parmnides, de transformao do positivo em negativo). E,
coisa curiosa, essa mutao no nos surpreende. Pelo contrrio, ficaramos era 
indignados se Beethoven tivesse passado da seriedade do seu quarteto para a 
leveza do cnone a trs vozes sobre a bolsa de
Dembscher. E, no entanto, teria agido em perfeita consonncia com
o esprito de Parmnides: teria mudado do pesado para o leve, ou
seja, do negativo para o positivo! No comeo, teria havido (sob a
forma de um esboo imperfeito) uma grande verdade metafsica e,
no fim (como obra acabada), a mais leve das brincadeiras. S que j
no sabemos pensar como Parmnides.
  Estou convencido de que, no fundo, Tomas j h rouito que no
podia ouvir aquele agressivo, solene e austero   es muss sein!?? e que
tinha um secreto desejo de fazer o pesado tornar-se leve, segundo a
via de Parmnides. Lembremo-nos que, noutros tempos, lhe bastou
pouco mais de um minuto para decidir que nunca mais veria a primeira mulher e o 
filho e que recebera com alvio a notcia de que
os pais tinham cortado relaes com ele. Seria algo mais do que um
gesto repentino e no muito racional, com o qual se desembaraava
daquilo que queria impor-se-lhe como uma pesada obrigao, como
um   es muss sein!???
  Claro que ento se tratava de um   es muss sein!?? exterior, imposto pelas 
convenes sociais, enquanto que o   es muss sein!?? do
seu amor pela medicina era uma necessidade interior. Mas, precisamente por isso, 
ainda era pior. p imperativo interior ainda  mais
forte e, portanto, ainda incita mais fortemente  revolta.
  Ser cirurgio  abrir a superfcie das coisas e espreitar para o
que l est escondido. Talvez tenha sido esse desejo que fez com
que Tomas ficasse com vontade de ir ver o que havia do outro lado,
para l do   es muss sein!??; ou, por outras palavras, de ir ver o que
resta da vida quando um homem deixa tudo aquilo que, at ento,
pensara que era a sua misso.
  No entanto, quando foi apresentar-se  afvel directora das empresas de 
lavagem de vidros e vitrinas de Praga, o resultado da sua
deciso apareceu-lhe bruscamente diante de si em toda a sua irrevogvel 
realidade, e quase teve medo. Viveu nesse susto os primeiros
dias que passou no seu novo emprego. Mas uma vez habituado (o
que demorou mais ou menos uma semana)  espantosa estranheza
da sua nova vida, percebeu de repente que estava a comear umas
longas frias.
  Fazia coisas a que no ligava importncia nenhuma, ' e isso era
bom. Compreendia finalmente a felicidade daqueles (que. at agora,
nunca lhe tinham inspirado seno piedade) que exercem uma profisso que no 
escolheram uxiados por um   es muss sein!?? interior e
da qual se esquecem mal?largam o local de trabalho. Nunca sentira

essa bem-aventurada indiferena. Dantes, quando uma operao no
tinha corrido bem, tinha uma crise de desespero e no conseguia
dormir. Chegava mesmo a perder o gosto pelas mulheres. O   es
muss sein!?? da sua profisso era como um vampiro que lhe sugava o
sangue.
  Agora, percorria as ruas de Praga com a sua grande vara de

lavar montras e constatava com surpresa que se sentia dez anos mais
novo. As empregadas de balco dos grandes armazns tratavam-no
por   senhor doutor?? (o tant de Praga funcionava na perfeio) e
consultavam-no sobre as suas constipaes, as suas dores lombares
ou o atraso das suas menstruaes. Tinham quase vergonha quando
o viam molhar o vidro das montras, montar a escova na ponta da
vara e comear a lavar a fachada. Se pudessem plantar os clientes
ao cho da loja, de certeza que lhe tirariam a vara das mos e iriam
lavar as montras em vez dele.
  Tomas trabalhava sobretudo nos grandes armazns, mas, por vezes, a empresa 
tambm o mandava a casas particulares. Nessa poca, as pessoas ainda viviam as 
perseguies em massa contra os intelectuais checos numa espcie de euforia da 
solidariedade. Quando os
doentes de Tomas souberam que ele agora era lavador de janelas,
puseram-se a telefonar para a empresa a reclamar os seus servios.
Recebiam-no com uma garrafa de champanhe ou de aguardente, escreviam na folha 
que Tomas lhes tinha lavado treze janelas e depois
passavam duas horas a conversar e a beber com ele. Quando saa
em direco a outras casas particulares ou a outra loja, sentia-se
numa forma esplndida. As famlias dos oficiais russos estavam instaladas no 
pas, a rdio transmitia os discursos intimidatrios dos
funcionrios do Ministrio do Interior que tinham ido ocupar os lugares dos 
jornalistas despedidos, e ele, ele titubeava entre dois copos pelas ruas de 
Praga, com o estado de esprito de algum que
anda de festa em festa. Eram as suas frias grandes.
  Voltara  poca da sua vida de celibatrio. Porque, de repente,
via-se sem Tereza. S a encontrava  noite, quando ela voltava do
bar e ele, j no primeiro sono, entreabria um olho, e depois de
manh, quando era ela que estava ensonada e ele tinha de se despachar para 
chegar a horas. Tinha dezasseis horas s para ele e isso
era um espao de liberdade que inopinadamente lhe era oferecido.
Para ele, desde a mais remota juventude, um espao de liberdade
queria dizer: mulheres.

9

  Quando os amigos lhe perguntavam quantas mulheres tinha tido,
respondia de forma evasiva e, se insistiam em saber, dizia: c?Mais ou
menos duzentas.?? Os invejosos afirmavam que estava a exagerar
com certeza. Defendia-se, dizendo: ??Nem tanto como isso. Tenho
relaes com mulheres mais ou menos h vinte e cinco anos. Ora
experimentem a dividir duzentos por vinte e cinco. Ho-de ver que
d mais ou menos oito mulheres novas por ano. No so assim
tantas. ??
  Mas, desde que vivia com Tereza, a sua actividade ertica esbarrava com vrias 
dificuldades de organizao; no lhe podia reservar
seno uma estreita faixa de tempo (entre a sala de operaes e a
chegada a casa) que, embora explorada intensivamente (como o
montanhs faz com a sua estreita parcela), estava longe de poder
comparar-se com o espao de dezasseis horas com que subitamente
se via presenteado. (E digo dezasseis porque mesmo as oito horas
que passava a lavar vidros lhe ofereciam mil e uma oportunidades
de fazer novos conhecimentos com empregadas de balco, caixeiras
ou donas de casa e de marcar encontros com elas.)
  O que procurava em todas essas mulheres? O que  que o
atraa? O amor fsicu no  sempre a eterna repetio do mesmo?
  De forma nenhuma. H sempre uma pequena percentagem de

inimaginvel. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse 
fazer mais ou menos uma ideia de como seria depois
de despida (aqui a sua experincia de mdico completava a do
amante), restava sempre um pequeno intervalo de inimaginvel entre a inexactido 
da ideia e a preciso da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe 
tirava o sossego. E, depois, a busca do

inimaginvel no termina com a descoberta da nudez; vai para alm
dela: que caras far enquanto se despe? o que dir enquanto faz
amor? em que tom suspirar? que ricto se imprimir no seu rosto
no momento da volpia?
  O que o eu tem de nico encontra-se precisamente naquilo que
o ser humano tem de inimaginvel. S consegue imaginar-se o que 
idntico em todos, o que  comum a todos. O ??eu?? individual 
aquilo que se distingue do geral, e , portanto, aquilo que no pode
ser adivinhado nem calculado antecipadamente, aquilo que primeiro
 preciso desvendar, descobrir, conquistar no outro.
  Tomas, que nos ltimos dez anos da sua actividade profissional
se ocupara exclusivamente do crebro, sabia que nada  mais difcil
de distinguir? do que o eu. Entre Hitler e Einstein ou entre Brejnev
e Soljenitsyne h muito mais semelhanas do que diferenas.
Dizendo-o por nmeros, entre eles h um milionsimo de diferente
e novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove
milionsimos de semelhante.
  Tomas vivia obcecado pelo desejo de descobrir esse milionsimo
e de apoderar-se dele, e esse era o sentido que dava  sua obsesso
por mulheres. No vivia obcecado pelas mulheres, vivia era obcecado pelo que 
cada uma delas tem de inimaginvel ou, por outras
palavras, vivia obcecado por esse milionsimo de diferente que faz
com que uma mulher se distinga das outras.
  (Talvez fosse a que-a sua paixo de cirurgio se encontrava com
a sua paixo de sedutor. Nunca largava o seu bisturi imaginrio,
mesmo quando estava com as amantes. Desejava apoderar-se de
qualquer coisa que estava profundamente enterrado nelas e por causa da qual 
tinha de rasgar os seus envlucros superficiais.)
  Claro que temos o direito de perguntar por que  que era na
sexualidade que ia procurar esse milionsimo de diferente. No poderia antes 
encontr-lo, por exemplo, na maneira de andar, nos
gostos culinrios ou nas preferncias estticas de cada uma?
  O milionsimo de diferente est presente em todos os aspectos
da vida humana, mas  publicamente desvendado em todo o lado,
no precisa de ser descoberto, no  preciso nenhum bisturi para
chegar a ele. O facto de uma mulher gostar mais de queijo do que
de doces e de outra detestar couve-flor  com certeza um sintoma
de originalidade, mas tambm se torna imediatamente evidente que
essa originalidade  insignificante e v e que no seria seno uma
perda de tempo algum interessar-se por ela e conferir-lhe algum valor.
  S na sexualidade  que o milionsimo de diferente aparece como uma coisa 
preciosa, porque no  publicamente acessvel e tem
de ser conquistado. Ainda h meio sculo, este tipo de conquista
exigia que se lhe dedicasse muito tempo (vrias semanas e, s vezes,
alguns meses) e o valor do objecto conquistado era proporcional ao
tempo consagrado  sua conquista. Mesmo nos dias que correm, embora o tempo da 
conquista tenha diminudo consideravelmente, a
sexualidade  para ns como que o cofrezinho das jias onde se
encontra guardado o mistrio do eu feminino.
  No era, portanto, de forma nenhuma, o desejo da volpia (a
volpia aparecia por assim dizer como brinde), mas o desejo de
apoderar-se do mundo (de abrir com o bisturi o corpo jazente do

mundo) que o fazia andar atrs das mulheres.
10


  Os homens que tm a mania das mulheres dividem-se facilmente
em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que
eles prprios tm da mulher tal como ela lhes aparece em sonhos,
o que  algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os
o deseja de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino
objectivo.
  A obsesso dos primeiros  uma obsesso lirica; o que procuram
nas mulheres no  seno eles prprios, no  seno o seu prprio
ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desiluso, porque, como 
sabemos, o ideal  precisamente o que nunca se
encontra. Como a desiluso que os faz andar de mulher em mulher
d, ao mesmo tempo, uma espcie de desculpa melodramtica  sua
inconstncia, no poucos coraes sensveis acham comovente a sua
perseverante poligamia.
  A outra obsesso  uma obsesso pica e as mulheres no vem
nela nada de comovente: como o homem no projecta nas mulheres
um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo.
E esta impossibilidade de desiluso encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos 
do mundo, a obsesso do femeeiro pico no tem
remisso (porque no  resgatada pela desiluso).
  Como o femeeiro lrico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se 
repara quando tem uma amante nova; os amigos
causam-lhe srios embaraos porque nunca vem que a sua companheira j no  a 
mesma e tratam as suas amantes sempre pelo
mesmo nome.
  Na sua caa ao conhecimento, os femeeiros picos (e  evidentemente a esta 
categoria que Tomas pertence) afastam-se cada vez
mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e
acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades. Tm
conscincia de tal coisa, envergonham-se um pouco dela e, para no
incomodar os amigos, nunca aparecem em pblico com as amantes.
  J andava a lavar janelas mais ou menos h dois anos quando foi
chamado a casa de uma cliente nova. Assim que a viu  porta do
apartamento, achou-a estranha. Era uma estranheza discreta, reservada, contida 
nos limites de uma agradvel banalidade (o gosto de
Tomas pelas curiosidades no era de modo nenhum um gosto por
monstros  Fellini): a mulher era extraordinariamente alta, ainda
mais alta do que ele, tinha um nariz afilado e muito comprido, e o
seu rosto era a tal ponto inslito que, embora fosse impossvel dizer
que era bonita (esta afirmao seria acolhida por um coro de protestos), no era 
totalmente desprovida de beleza (pelo menos aos
olhos de Tomas). Estava de calas e tinha uma blusa branca - dir-se-ia que era o 
estranho produto do cruzamento entre um grcil
rapazinho, uma girafa e uma cegonha.
  Olhou-o demoradamente com um olhar atento e perscrutador
onde no faltava sequer um lampejo de ironia inteligente.
  ??Entre, senhor doutor??, disse ela.
  Percebeu que a mulher sabia quem ele era. Para no o dar a
entender, perguntou: ??Onde  que posso ir buscar gua???
  Ela abriu-lhe a porta da casa de banho.  sua frente estavam o
lavatrio, a banheira, a retrete; aos ps da banheira, aos ps do
lavatrio e aos ps da retrete encontravam-se dispostos pequenos
tapetes cor-de-rosa.
  A mulher metade girafa metade cegonha sorria-lhe franzindo os

olhos e tudo o que dizia parecia impregnado de uma ironia ou de
um sentido ocultos.
  <cA casa de banho est  sua inteira disposio, senhor doutor,
disse. Sirva-se dela para o que bem entender.
  - Mesmo para tomar banho?
  - Gosta de tomar banho???, perguntou ela.
  Encheu o balde de gua quente e voltou para a sala. ??Por onde
 que quer que eu comece?
  - O senhor  que sabe. disse ela, encolhendo os ombros.
  - Posso ver as janelas das outras divises?
  - Quer que lhe mostre a casa toda??? Sorria, como se a lavagem
das janelas fosse apenas um capricho de Tomas, um capricho a que
no dava importncia nenhuma.
  Tomas entrou no quarto que ficava ao lado. Tinha uma grande

janela, duas camas encostadas uma  outra e um quadro com uma
paisagem outonal de btulas ao sol-poente.
  Quando voltou  sala, havia uma garrafa de vinho aberta em
cima da mesa e dois copos. ?"No quer retemperar as foras antes de
prosseguir os seus rudes trabalhos?, perguntou ela.
  - Com muito gosto, disse Tomas, sentando-se.
  - Deve ser interessante para si andar assim por casa das
pessoas?, disse ela.
  - No posso dizer que seja mau, respondeu Tomas.
  - Est sempre a apanhar mulheres sozinhas em casa, com os
maridos nos empregos...
  - Nem por isso. O que eu apanho sobretudo so avs e sogras,
disse Tomas.
  - E a sua antiga profisso no lhe faz falta?
  - Diga-me mas  como  que soube disso.
  - O seu patro tem muito orgulho em si, disse a mulher-cegonha.
  - Ainda?, disse Tomas, espantado.
  - Quando telefonei a pedir uma pessoa para me lavar as janelas, perguntaram-me 
logo se no era voc que eu pretendia. Parece
que dantes voc era um grande cirurgio e que o expulsaram do
hospital. Pode crer que fiquei interessada!
  - Voc , de facto, muito curiosa, disse Tomas.
  - Nota-se assim tanto?
  - Pela sua maneira de olhar.
  - E o que  que a minha maneira de olhar tem de especial?
  - Est sempre a franzir os olhos e fez-me uma data de perguntas.
  - E voc no gosta de me responder???
  Graas a ela, a conversa cara logo num tom de grande intimidade. Nada do que 
ela dizia tinha a ver com o mundo exterior. As
palavras que se pronunciavam eram s a respeito deles e de mais
nada. Com uma conversa assim, uma conversa que os elegera a ambos para tema 
principal, nada mais fcil do que completar as palavras com um contacto fsico, 
e Tomas assim fez, acariciando-lhe os
olhos enquanto lhe dizia que ela os franzia. E a mulher respondia a
cada carcia com uma carcia. No agia espontaneamente, mas como
se obedecesse a uma lgica consciente, como se estivessem a brincar
ao   tudo o que tu me fazes, tambm eu to fao. Estavam sentados um em frente do 
outro, ambos com as mos no corpo do
outro.
  Quando Tomas tentou meter-lhe a mo entre as coxas, a mulher
comeou finalmente a defender-se. Tomas no percebeu se era
mesmo a srio, mas j tinha passado bastante tempo e o seu prximo cliente 
esperava-o da a dez minutos.

  Levantou-se e explicou que tinha de ir-se embora. A mulher tinha a cara a 
arder.
    Tenho que lhe assinar o papel, disse ela.
  - Mas eu no fiz nada, protestou Tomas.
  - Por minha causa??, disse ela, acrescentando depois com uma
voz doce, arrastada, inocente:   Vou ter que mand-lo c vir outra
vez para voc poder acabar aquilo que nem sequer chegou a comear por minha 
causa.??
  Como Tomas se recusasse a dar-lhe o papel para assinar, a
mulher disse ternamente, num tom de quem est a pedir que lhe
faam alguma coisa:   Faa o favor de me dar isso?? e, franzindo os
olhos, acrescentou:   No sou eu que pago,  o meu marido e no 
a voc que se paga,  ao Estado. Essa transaco no diz respeito a
nenhum de ns.??

11


  S de pensar na curiosa dissimetria da mulher metade girafa
metade cegonha, ficava excitado: a coquetrerie aliada aos seus modos
desajeitados; um desejo sexual inequvoco acompanhado por um
sorriso irnico, a vulgar banalidade do apartamento e a singularidade da sua 
proprietria. Como ficaria ela a fazer amor? Tentava
imagin-lo, mas no era fcil. Foi a sua nica preocupao durante
vrios dias.
  Quando ela o convidou pela segunda vez, a garrafa de vinho e
os dois copos j estavam  'sua espera em cima da mesa. Mas, desta
vez, correu tudo muito depressa. Em breve estavam  frente um do
outro no quarto (com o Sol a pr-se sobre uma paisagem de btulas
brancas) e se beijavam. Tomas pronunciou o seu habitual   Dispa-se! ??, mas, em 
vez de obedecer, ela retorquiu-lhe:   No, primeiro,
despe-se voc!??
  No estava habituado a isso e ficou um pouco perturbado.
A mulher comeou a desabotoar-lhe as calas. "Dispa-se!??, voltou a
ordenar-lhe vrias vezes (sempre com o mesmo cmico insucesso),
mas no lhe restava seno aceitar um compromisso; segundo as
regras do jogo que ela j lhe impusera da outra vez (  tudo o que tu
me fazes, tambm eu to fao??), enquanto ela lhe tirava as calas,
ele despia-lhe as calas, enquanto ela lhe tirava a camisa, ele despia-lhe a 
blusa, at que ficaram ambos nus um em frente do outro.
Tomas tinha a mo poisada no sexo hmido da mulher e fez deslizar os dedos para 
o orifcio anal, o stio que preferia em 'todas as
mulheres. O desta era extremamente protuberante, sugerindo distintamente a ideia 
de que um longo tubo digestivo a terminava numa
ligeira salincia. Apalpava aquele anel firme e saudvel, aquele que era o mais 
belo dos anis e ao qual a medicina chamava esfncter,
quando sentiu de repente os dedos da mulher-girafa no mesmo stio
do seu traseiro. Ela repetia todos os seus gestos com a preciso de
um espelho.
  Embora, como j referi, Tomas tivesse tido cerca de duzentas
mulheres (nmero que aumentara consideravelmente desde que lavava janelas) nunca 
lhe acontecera que uma mulher mais alta do
que ele se postasse  sua frente a franzir os olhos e a apalpar-lhe o
nus. Para vencer a perturbao, empurrou-a com toda a fora para
cima da cama.
  A brusquido do gesto apanhou-a desprevenida. O seu enorme
corpo caiu para trs com o rosto coberto de manchas vermelhas e o
ar assustado de quem perdeu o equilbrio. Como estava de p 

frente dela, agarrou-a por debaixo dos joelhos e levantou-lhe muito
alto as pernas, mantendo-as ligeiramente afastadas. Assim, de repente, pareciam 
os braos de um soldado perdido de medo a render-se
perante uma arma apontada.
  Os modos desajeitados aliados ao fervor, o fervor aliado aos modos 
desajeitados, provocavam uma excitao magnfica em Tomas.
Fizeram amor durante muito tempo. Ia observando o seu rosto coberto de manchas 
vermelhas, sempre  procura da expresso de
susto que uma mulher faz quando lhe pregam uma rasteira e cai, a
inimitvel expresso que acabara de fazer subir-lhe  cabea o fluxo
da excitao.
  Depois de acabarem, foi lavar-se  casa de banho. A mulher foi
ter com ele e explicou-lhe demoradamente onde  que o sabo estava, onde  que a 
luva do banho estava e como  que se punha a
gua quente a correr. Achava curioso que ela lhe explicasse coisas
to simples com tantos pormenores. Disse-lhe que j percebera e
que queria ficar sozinho na casa de banho.
  :?No me vai deixar assistir  sua toilette???, suplicou ela.
  Conseguiu, por fim, p-la fora da casa de banho. Lavou-se, urinou para o 
lavatrio (prtica corrente dos mdicos checos), sempre
com a impresso de que ela andava de trs para a frente e da frente
para trs ao p da porta da casa de banho,  procura de um pretexto para entrar. 
Quando fechou as torneiras, reparou que reinava
um silncio absoluto em todo o apartamento e pensou que ela o
estava a espreitar. Tinha quase a certeza de que a porta tinha um
buraco contra o qual a mulher tinha o seu belo olho franzido encostado.
  Ao deix-la, sentia-se extremamente bem-disposto. Tentava rememorar o 
essencial, condensar a recordao numa frmula qumica
que permitisse definir o que ela tinha de nico (o seu milionsimo
de diferente). Acabou por chegar a uma frmula composta por trs
elementos:
  l. Os modos desajeitados aliados ao fervor;
  2. O rosto assustado de quem perde o equilbrio e cai;
  3. As pernas levantadas como os braos de um soldado a
render-se perante uma arma apontada.
   medida que repetia para si prprio esta frmula, ia sendo invadido pela 
agradvel impresso de que uma vez mais se apoderara
de um fragmento do mundo; uma vez mais cortara com o seu bisturi
imaginrio uma estreita tira no tecido infinito do universo.





221



12


  Eis o que lhe aconteceu mais ou menos na mesma poca. Tinha
tido vrios encontros com uma rapariga num apartamento que um
velho amigo lhe emprestava todos os dias at  meia-noite. Ao fim
de um ms ou dois, a rapariga recordou-lhe um dos encontros:
tinham feito amor na carpete debaixo da janela enquanto l fora os
relmpagos e os troves estalavam. Tinham feito amor durante todo
o tempo que a tempestade durara e isso fora, segundo a rapariga,
de uma beleza inesquecvel.
  Tomas ficou surpreendido com as palavras dela. Lembrava-se de
que tinham feito amor na carpete (no estdio do amigo s havia um
div muito estreito onde no se sentia nada  vontade), mas tinha-se
esquecido completamente da tempestade! Era estranho: conseguia
lembrar-se de todas as vezes que estivera com ela, lembrava-se at da
maneira como tinham feito amor (ela recusava-se a fazer amor por
trs), lembrava-se das palavras que ela pronunciara enquanto faziam
amor (pedia-lhe sempre para a estreitar de encontro a ele e protestava
se ele se punha a olhar para ela) e at se lembrava do corte da sua roupa
interior - mas tinha-se esquecido completamente da tempestade.
  Das duas aventuras amorosas, a sua memria s registava o estreito e escarpado 
caminho da conquista sexual: a primeira agresso
verbal, o primeiro contacto fsico, a primeira obscenidade que lhe
dissera a ela e que ela lhe dissera a ele, todas as pequenas perverses a que a 
fora obrigando e as que ela recusara. Tudo o resto
(com um cuidado quase pedante) estava excludo da sua memria.
Esquecia-se mesmo do stio onde encontrara pela primeira vez esta
mulher ou aquela, porque esse momento se situava antes da conquista sexual 
propriamente dita.

  A rapariga falava da tempestade com o rosto banhado por um
sorriso sonhador, e ele olhava para ela com espanto, quase com
vergonha: ela vivera algo de belo e ele no o vivera com ela.
A reaco dicotmica das suas memrias  tempestade nocturna exprimia toda a 
diferena que pode haver entre o amor e o no-amor.
  Ao falar de no-amor, no quero dizer que Tomas se tenha
comportado como um cnico com a rapariga, que, como costuma
dizer-se, no tenha visto nela seno um objecto sexual: pelo contrrio, gostava 
dela como amiga, apreciava-lhe o carcter e a inteligncia, estava pronto a 
ajud-la sempre que precisasse. No era ele que
se portava mal com ela: era a sua memria que, sem que ele pudesse dizer 
palavra, a exclura da esfera do amor.
  Parece que existe no crebro uma zona perfeitamente especfica
que poderia chamar-se memria potica e que regista aquilo que nos
encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que d  nossa vida a sua
beleza prpria. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma
mulher tinha o direito de deixar qualquer marca, por mais efmera
que fosse, nessa zona do seu crebro.
  Tereza ocupava despoticamente a sua memria potica e varrera
de l as marcas de todas as outras mulheres. Isso era injusto porque,
por exemplo, a rapariga com quem fizera amor na carpete durante a
tempestade no era menos digna de poesia do que Tereza. Gritava-lhe:   Fecha os 
olhos, agarra-me pelas ancas, aperta-me com fora!??
No suportava que Tomas ficasse com os olhos abertos, atentos e

perscrutadores enquanto faziam amor, e que o seu corpo, ligeiramente soerguido 
sobre o dela, no aderisse  sua pele. No queria
que ele a estudasse com os olhos. Queria arrast-lo com- ela para a
torrente de encantamento onde s se entra de olhos fechados.
Recusava-se a pr-se de gatas porque, nessa posio, os seus corpos
mal se tocavam e Tomas podia observ-la a uma distncia de quase
meio metro. Detestava esse afastamento. Queria confundir-se com
ele. Por isso lhe afirmava obstinadamente de olhos nos olhos que
no tinha prazer nenhum, embora a carpete estivesse toda molhada
com o seu orgasmo: ?"No ando  procura de volpia, ando  
procura da felicidade e a volpia sem felicidade no  volpia.?? Ou,
por outras palavras, batia ao porto da sua memria potica. Mas o
porto estava fechado. No havia lugar para ela na memria potica
de Tomas. S havia lugar para ela na carpete.
  A aventura de Tomas com Tereza comeara exactamente onde
as suas aventuras com as outras mulheres acabavam. Desenrolava-se
do outro lado do imperativo que o levava  conquista das mulheres.
No queria desvendar nada em Tereza. J a encontrara desvEndada.
Fizera amor com ela sem conceder a si prprio o tempo necessrio
para pegar no bisturi imaginrio com que abria o corpo jazente do
mundo. Sem conceder a si prprio o tempo necessrio para pensar
em como seria ela a fazer amor, j a amava.
  A histria de amor s comeara depois: Tereza ficara com febre
e ele no a pudera levar a casa como fazia com as outras mulheres.
Ajoelhara-se  sua cabeceira e viera-lhe  cabea a ideia de que ela
lhe fora enviada numa cesta ao sabor das guas. Fiz j notar como
as metforas so perigosas. O amor correra com uma metfora. Ou,
por outras palavras, o amor comea no preciso instante em que,
com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memria potica.

13


  Tereza no tardou a reimprimir a sua marca: como todas as manhs, fora buscar 
leite e, quando ele lhe abriu a porta, trazia apertada ao peito uma gralha 
enrolada no seu cachecol encarnado.  assim que as ciganas trazem os filhos. 
Nunca mais esquecer o imenso
bico acusador da gralha junto ao rosto dela.
  Encontrara-a meio enterrada. Era assim que, outrora, os cossacos tratavam os 
inimigos que faziam prisioneiros. ?? imagina tu que
foram uns midos>>, disse ela. Era mais do que uma simples constatao, era a 
expresso de um repentino nojo pelo gnero humano.
Lembrava-se que ela lhe dissera recentemente: ??Comeo a estar-te
agradecida por nunca teres querido filhos.??
  Na vspera, queixara-se de ter sido insultada por um homem no
bar onde trabalhava. O homem tinha-se agarrado ao seu colar de
prolas falsas afirmando que ela o devia ter ganho prostituindo-se.
Estava completamente transtornada com aquilo. Mais do que o caso
merecia, pensava Tomas. De repente, sentiu-se extremamente mal
por pensar que h dois anos que a via to pouco que at deixara de
ter tempo para lhe agarrar nas mos e as impedir de tremer.
  Era o que ia pensando a caminho do escritrio, onde uma empregada lhes dava 
quotidianamente o trabalho, a ele e aos colegas. Um cliente
particular exigira expressamente que lhe mandassem Tomas para lhe
lavar as janelas. De mau humor, dirigiu-se  morada indicada, receando
que, mais uma vez. se tratasse de uma mulher. Estava todo entregue s
suas reflexes sobre Tereza e no se sentia tentado por aventuras.

  Quando a porta se abriu, ficou aliviado.  sua frente encontrava-se um homem 
alto e um pouco encurvado. O homem tinha queixo de rabeca e fazia-lhe lembrar 
algum.
  Sorria-lhe:   Entre, doutor??, disse e guiou-o at  sala.
  Tinha l um rapaz  espera. De p, com o rosto escarlate. Olhava para Tomas e 
esforava-se por sorrir.
    A vocs dois, parece-me que no vale a pena apresent-los,
disse o homem.
  - Claro que no??, disse Tomas sem sorrir, e estendeu a mo ao
rapaz. Era o seu filho.
  O homem de queixo de rabeca acabou finalmente por se apresentar.
    Eu bem sabia que voc me fazia lembrar algum!, disse Tomas.
Como  que no havia de o conhecer? De nome, claro.??
  Distriburam-se os trs pelos sofs que havia na sala e entre os
quais se encontrava uma mesa baixa. Tomas pensou que aqueles
dois homens que estavam  sua frente eram criaes suas, embora
involuntrias. Tinha tido um filho porque a mulher o obrigara, e
fora tambm obrigado que traara o retrato daquele rapaz alto e
encurvado ao polcia que o interrogava.
  Para afastar tais pensamentos, disse:   Ora muito bem! Por que
janela  que querem que eu comece???
  Os dois homens que tinha sentados  sua frente desataram a rir.
  Sim, era evidente que no era de janelas que se tratava. No o
tinham mandado vir por causa das janelas, tinham-no apanhado numa armadilha. 
Nunca tinha falado com o filho. Era a primeira vez
que lhe apertava a mo. S o conhecia de vista e no queria conhec-lo de outra 
maneira. No queria saber nada dele e s esperava
que o filho pensasse o mesmo em relao ao pai.
    Belo cartaz, no  verdade???, perguntou o jornalista, apontando
para um grande desenho emoldurado que estava pendurado na parede oposta a Tomas.
  Pela primeira vez desde que entrara, Tomas levantou os olhos.
As paredes estava cobertas de quadros bem interessantes, de fotografias e de 
cartazes. O desenho que o jornalista mostrara tinha
aparecido em 1969 num dos ltimos nmeros do semanrio, antes
de este ter sido proibido pelos russos. Era a imitao de um clebre
cartaz da guerra civil russa de 1918, apelando  populao para se
alistar no Exrcito Vermelho: um soldado com um bon enfeitado
com uma estrela vermelha e com um olhar extraordinariamente severo olhava-nos de 
olhos nos olhos com o indicador apontado na
nossa direco. O texto russo original dizia:   Cidado, ainda no te
alistaste no Exrcito Vermelho??? Tinha sido substitudo pelo seguinte texto, 
em checo:   Cidado, tu tambm assinaste o manifesto das
duas mil palavras???
  Era um excelente achado! O manifesto das duas mil palavras fora o primeiro 
manifesto da Primavera de 1968 e exigia uma democratizao radical do regime 
comunista. Tinha sido primeiro assinado
por um no acabar de intelectuais e depois tanta gente o assinara
que se tinha tornado impossvel contar as assinaturas. Quando o
Exrcito Vermelho invadiu a Bomia e as purgas polticas comearam, uma das 
perguntas que se faziam ao cidado era:   Tambm tu
assinaste o manifesto das duas mil palavras??? Os que confessavam
que sim, eram imediatamente despedidos.
    Belo desenho. Lembro-me bem dele??, disse Tomas.
  O jornalista sorriu.   Esperemos que o soldado do Exrcito
Vermelho no esteja a ouvir-nos.??
  E acrescentou com um ar srio:   Para que tudo fique bem claro,
doutor, devo dizer-lhe que esta casa no  minha.  de um amigo
meu. Portanto, no podemos ter a certeza de estar a ser ouvidos
neste momento pela polcia. Talvez sim, talvez no. Se fosse em

minha casa, era mais do que certo.??
  Depois, acrescentou num tom mais leve:   Mas eu parto do princpio que no 
temos nada a esconder a ningum. Alis, imagine s a
sorte que os historiadores checos do futuro tero! Encontraro nos
arquivos da polcia a vida de todos os intelectuais gravada em fita
magntica! J pensou bem no esforo que deve representar para um
historiador da literatura a reconstituio da vida sexual de um
Voltaire, de um Balzac ou de um Tolstoi? No caso dos escritores
checos, no haver lugar para dvidas. Est tudo gravado. At ao
mais nfimo suspiro.??
  Depois, voltando-se para os imaginrios microfones escondidos
na parede, levantando a voz, disse:   Meus senhores, hoje como
sempre quero dar-vos uma palavra de encorajamento e expressar-vos tanto os meus 
agradecimentos como os dos historiadores do
futuro.??
  Riram-se os trs, e depois o jornalista falou demoradamente das
circunstncias que tinham rodeado o encerramento do seu semanrio, daquilo que 
fazia actualmente o desenhador que tivera a ideia
da caricatura e daquilo que faziam actualmente os outros pintores,
filsofos e escritores checos. A seguir  invaso russa tinham sido
afastados do seu trabalho normal e eram lavadores de janelas, guardas de parques 
de automveis, porteiros de hotel  noite, guardas
das caldeiras dos edifcios pblicos ou ainda, na melhor das hipteses, porque 
isso j implicava alguns apoios, motoristas de txi.
  O que o jornalista dizia no era desinteressante, mas Tomas no
conseguia concentrar-se nas suas palavras. Pensava no filho. Lembrava-se que, 
desde h uns meses, tinha passado a encontr-lo na
rua. No era evidentemente por mero acaso. Sentia-se espantado era
de v-lo agora na companhia do jornalista perseguido. A primeira
mulher de Tomas era uma comunista ortodoxa, e Tomas deduzira
automaticamente que o filho vivia sob a sua influncia. No sabia
nada dele. Claro que podia perfeitamente perguntar-lhe como  que
eram as suas relaes com a me, mas a pergunta parecia-lhe descabida ali,  
frente de um estranho.
  O jornalista chegou finalmente ao cerne da questo. Disse que
havia cada vez mais gente na cadeia, s por ter defendido as suas
opinies, e terminou com as seguintes palavras: ?"Pensmos, portanto, que tinha 
chegado a altura de fazer qualquer coisa.
  - O que  que querem fazer???, perguntou Tomas.
  Nesse momento, o filho interveio. Era a primeira vez que lhe
ouvia a voz. Constatou com surpresa que ele gaguejava.
  ??Pelo que sabemos, disse, os presos polticos so maltratados. H
alguns em estado crtico. Sendo assim, pensmos que seria bom fazer uma petio 
que fosse assinada pelos intelectuais checos mais
conhecidos, cujo nome ainda tem algum peso.??
  No, aquilo no era gaguez. Era uma espcie de soluo que lhe
fazia arrastar a fala, de modo que cada palavra que pronunciava saa
involuntariamente martelada e sublinhada. Era claro que tinha
conscincia disso porque, depois de ter voltado ao normal, corara de
novo.
  ??Querem que vos indique pessoas da minha especialidade com
quem possam ir ter?, perguntou Tomas.
  - No, disse o jornalista com um sorriso. No queremos conselhos seus. 
Queremos  a sua assinatura!??
  Uma vez mais, sentia-se lisonjeado. Uma vez mais, sentia-se feliz
por algum no se ter esquecido que ele era cirurgio! S por modstia  que se 
defendeu: ??Mas ora oiam! No foi por me terem
posto na rua que me tomei um grande mdico!

  - No nos esquecemos do que escreveu no nosso jornal, disse-lhe o jornalista.
  - Pois no!, sussurou o filho com um entusiasmo que talvez tenha escapado a 
Tomas.
  - Mas o que no percebo  a que ttulo  que o meu nome
pode ajudar os presos polticos, disse Tomas: Quem devia assinar

so aqueles que ainda no caram em desgraa e que ainda gozam
de alguma influncia junto do poder!
  - Claro que deviam!??, disse o jornalista, rindo para dentro.
  Tambm o filho de Tomas riu, com o riso de algum que j sabe
uma data de coisas: ??S que esses no vo assinar nada!??
  O jornalista prosseguiu: ??O que no quer dizer que no tentemos! No somos 
suficientemente bondosos para poup-los a essa ginstica, disse. S gostava que 
ouvisse as desculpas que inventam
para nos dar. So magnficas!??
  O filho de Tomas deu uma gargalhada de aprovao.
  O jornalista continuou, dizendo: c?Claro que todos afirmam que
esto de acordo connosco em tudo, s que acham que deveramos
agir de outra maneira, com mais tctica, com mais subtileza, com
mais inteligncia, com mais discrio. Tm medo de assinar, mas, ao
mesmo tempo, tambm tm medo do mal que ficamos a pensar deles por no 
assinarem. ??
  O filho de Tomas e o jornalista riram em unssono.
  O jornalista estendeu a Tomas uma folha de papel na qual havia
um pequeno texto onde, num tom relativamente corts, se pedia ao
presidente da Repblica para amnistiar os presos polticos.
  Tomas tentou reflectir rapidamente. Tratava-se ento de amnistiar os presos 
polticos? Concordava com isso. Mas seriam os presos
polticos amnistiados porque algumas pessoas expurgadas pelo regime (portanto, 
presos polticos em potncia) o pediam ao presidente
da Repblica? O nico resultado que uma petio daquele gnero
podia ter era os presos polticos no serem amnistiados, mesmo se,
por acaso, estivessem para s-lo!
  Os seus pensamentos foram interrompidos pelo filho, que disse:
  0 que  importante  que se fique a saber que neste pas ainda h
um punhado de homens e de mulheres sem medo. Mostrar quem
est com quem. Separar o trigo do joio.??
  Tomas pensava: Sim, tens razo, mas o que  que os presos polticos tm a ver 
com isso tudo? Das duas, uma: ou se trata de obter
uma amnistia, ou se trata de separar o trigo do joio. So coisas
diferentes.
  c?Est hesitante, doutor???, perguntou o jornalista.
  Sim, estava hesitante. Mas tinha medo de o dizer.  sua frente,
na parede, estava a imagem ameaadora do soldado com o dedo
apontado, que ora perguntava: ??Ainda hesitas em alistares-te no
Exrcito Vermelho???, ora perguntava: ??Tu ainda no assinaste o
manifesto das duas mil palavras?>?, ora perguntava: ??Tambm tu assinaste o 
manifesto das duas mil palavras???, ora perguntava: c?Tu
no queres assinar a petio da amnistia???. Fosse o que fosse, era
sempre uma ameaa.
  O jornalista j expressara a opinio que tinha daqueles que, embora pensando 
que os presos polticos deviam ser amnistiados, invocavam mil e uma razes para 
no assinar a petio. Segundo ele,
no eram seno pretextos para disfarar a sua cobardia. Que poderia ento dizer 
Tomas?
  O silncio ia-se prolongando, mas, desta vez, foi Tomas que o
interrompeu com uma risada. Apontando para o desenho, disse:

"<Olhem-me bem para aquele tipo que s sabe ameaar-me e
perguntar se vou assinar ou no.  difcil pensar com algum a
olhar assim para ns!??
  Riram-se os trs.
  A seguir, Tomas disse: ?"Mas muito bem. Vou reflectir. Podemos
voltar a encontrar-nos nos prximos dias?
  - Tenho sempre muito gosto em v-lo, disse o jornalista, mas j
no nos resta muito tempo para a petio. Queramos entreg-la
amanh ao presidente.
  - Amanh???
  Tomas lembrou-se do chui gordo que lhe estendera um papel
com o qual devia precisamente denunciar o jornalista de queixo de
rabeca. Toda a gente queria obrig-lo a assinar textos que no fora
ela que escrevera.
  "<Num caso como este, nem sequer  preciso reflectir!??, disse o
seu filho.
  Eram palavras agressivas, mas foram ditas quase como uma
splica. Desta vez olharam-se directamente nos olhos e Tomas viu
que, quando concentrava o olhar em qualquer coisa, o filho ficava
com a parte esquerda do lbio superior ligeiramente levantada. Era
um ricto que conhecia bem porque costumava v-lo no seu prprio
rosto quando verificava ao espelho se estava bem barbeado. No
pde reprimir a sensao de mal-estar que lhe dava v-lo agora no
rosto de outra pessoa.
  Quando se viveu sempre com os filhos, habituamo-nos a essas
parecenas, achamo-las normais e, se algum repara nelas, at nos
divertimos com isso. Mas Tomas estava a falar com o filho pela
primeira vez em toda a sua vida! No tinha ganho o hbito de se
ver confrontado com o seu prprio rosto!
  Ora suponham que vos amputaram uma mo para a enxertarem
noutra pessoa. Um belo dia, est algum sentado  vossa frente a

gesticular com essa mo mesmo por baixo do vosso nariz. De certeza que ficam a 
pensar que  um fantasma. E embora a conheam
intimamente, embora seja a vossa rica mo, ficam cheios de medo
que ela vos toque.
  O filho de Tomas prosseguia, dizendo: ??Mas tu tambm foste
perseguido! ??
  Durante todo o tempo que a conversa durara, Tomas perguntara
a si prprio se o filho o iria tratar por tu ou por senhor. At agora,
dirigira-se-lhe sempre de maneira a tornear a questo. Mas, desta
vez, escolhera. Tratava-o por tu e Tomas percebeu de repente com
toda a nitidez que, na realidade, aquela cena no tinha absolutamente nada a ver 
com a amnistia dos presos polticos, porque o que
estava em jogo eram as suas relaes com o filho: se assinasse a
petio, os seus destinos cruzar-se-iam e Tomas seria mais ou menos
forado a aproximar-se do filho. Se no assinasse, voltaria a no
haver qualquer espcie de relao entre ambos, mas agora j no
por sua vontade, mas por vontade do filho, que, por causa da cobardia do pai, o 
regenaria.
  Estava na situao do jogador de xadrez que j no pode fazer
nada para evitar a derrota e se v forado a desistir da partida. No
fim de contas, assinar ou no assinar vinha a dar exactamente no
mesmo. Nem o seu destino nem o destino dos presos polticos sofreriam qualquer 
alterao.
  ??Dem-me isso??, disse, e agarrou no papel.

14

  Como se quisesse recompens-lo pela deciso que tomara, o
jornalista exclamou: ??Aquele seu artigo sobre dipo era realmente
muito bom!??
  O filho estendeu-lhe a caneta e acrescentou: ?cH ideias que so
autnticos atentados!??
  Sentiu-se lisonjeado com as palavras do jornalista, mas achou a
metfora do filho enftica e despropositada. Disse: ??Infelizmente, a
nica vtima desse atentado fui eu. Por causa desse artigo, fiquei
impossibilitado de operar os meus doentes.??
  As suas palavras produziram uma certa impresso de frieza, quase at de 
hostilidade.
  Para apagar essa pequena dissonncia, o jornalista observou
(com o ar de quem est a apresentar as suas desculpas): ?"Mas olhe
que o seu artigo ajudou muito boa gente!??
  Para Tomas, a expresso ?"ajudar algum?? identificava-se, desde
a infncia, com uma nica actividade: a medicina. Alguma vez algum artigo de 
jornal ajudara algum'? O que  que aqueles dois lhe
queriam impingir, aqueles dois que reduziam o conjunto da sua vida
a uma miservel reflexo sobre dipo ou, ainda a menos do que
isso, ao nico no que pronunciara abertamente contra o regime?
  Disse (sempre com a mesma frieza, embora involuntria): ??No
sei se o meu artigo ajudou algum ou no. O que sei  que enquanto fui mdico 
salvei a vida a muita gente.??
  Seguiu-se outra pausa. O filho acabou por interromp-la. dizendo: ??As ideias 
tambm podem salvar a vida.??
  Tomas via a sua prpria boca na cara do filho e pensava: que
coisa mais esquisita, ver a nossa prpria boca a gaguejar!

  "<O teu artigo tinha uma coisa realmente formidvel: era a recusa
de todo e qualquer compromisso. Aquela faculdade, que ns temos
vindo a perder aos poucos, de distinguir claramente o bem e o mal.
Deixmos de saber o que  sentirmo-nos culpados. Os comunistas
arranjaram uma boa desculpa: foram enganados por Estaline. O assassino 
desculpa-se dizendo que a me no gostava dele e que era
um frustrado. E, de repente, vieste tu e disseste:   No h justificao 
nenhuma. Ningum pode estar mais inocente no seu ntimo do
que dipo estava. E, no entanto, dipo castigou-se a si prprio
quando percebeu o que tinha feito.??
  Tomas fez um esforo para desviar o olhar do seu prprio lbio
estampado na cara do filho e tentou concentrar toda a sua ateno
no jornalista. Estava irritado e com vontade de os contradizer.
Disse: ??Sabem, tudo isso no passa de um simples mal-entendido. A
fronteira entre o bem e o mal  muito pouco ntida. Eu no pedi o
castigo de ningum, longe de mim ter essa inteno! Castigar algum que no 
sabia o que estava a fazer  uma pura barbaridade.
O mito de dito  um belo mito. Mas utiliz-lo dessa maneira...??
  Ia acrescentar mais qualquer coisas mas lembrou-se que a
conversa talvez estivesse a ser gravada. No sentia a menor ambio
de ser citado pelos historiadores do futuro. Tinha era medo de ser
citado pela polcia. Porque o que ela lhe exigira fora precisamente
que condenasse o artigo nos termos em que o estava a fazer agora.
No lhe agradava nada que, ao fim e ao cabo, a estivesse agora a
ouvir da sua prpria boca. Sabia que cada frase que se pronunciava
naquele pas podia um dia ser transmitida pela rdio. Calou-se.
  <"O que  que o levou a mudar de opinio???, perguntou o jornalista.
  - Eu gostava era de saber o que me levou a escrever o artigo??,
disse Tomas, mas, nesse preciso instante, lembrou-se: ela viera encalhar na 
margem da sua cama como uma criana abandonada numa

cesta ao sabor das guas. Sim, por causa disso  que tinha ido
buscar aquele livro com as lendas de Rmulo, de Moiss, de dipo.
E, de repente, ela estava ali,  sua frente, com a gralha enrolada no
cachecol vermelho apertada contra o peito. A imagem reconfortava-o. Era como se 
tivesse vindo dizer-lhe que Tereza estava viva, que
nesse instante se encontrava na mesma cidade que ele e que nada
mais tinha importncia.
  O jornalista quebrou o silncio: ??Compreendo as suas palavras,
doutor. Tambm eu no gosto que se castiguem pessoas. Mas ns
no estamos a reclamar por castigo. S vamos pedir a remisso do
castigo.
  - Eu sei??. disse Tomas. Aceitava a ideia de que, dentro de alguns segundos, 
iria fazer uma coisa talvez generosa, mas, de certeza
absoluta, perfeitamente intil (porque no ajudaria em nada os presos polticos) 
e que lhe era pessoalmente desagradvel (porque agira
em circunstncias que lhe eram impostas).
  O filho de Tomas ainda disse (quase em tom de splica): ??O teu
dever  assinar!??
  O teu dever? O filho atrevia-se ento a cham-lo ao seu dever?
Era a pior coisa que lhe podiam ter dito! A imagem de Tereza com
a gralha apertada entre os braos voltou a aparecer-lhe diante dos
olhos. Lembrava-se agora que ela lhe tinha dito que na vspera tinha ido um chui 
ao bar provoc-la. As suas mos tinham recomeado a tremer. Envelhecera. A no 
ser ela, j nada tinha importncia
para ele. Ela, que nascera de seis acasos, ela, a flor que desabrochara da 
citica do chefe do servio, ela, que estava para l de todos os
c?es muss sein!", ela, a nica coisa que realmente contava.
  Mas ento porque  que hesitava? No havia seno um critrio
para todas as suas decises: no fazer nada que pudesse prejudicar
Tereza. No podia salvar os presos polticos, mas podia fazer Tereza
feliz. No, nem mesmo disso era capaz. Mas, se assinasse a petio,
tinha quase a certeza de que os chuis viriam importun-la ainda
mais vezes e que as suas mos ainda ficariam a tremer mais.
  Disse: << muito mais importante desenterrar uma gralha enterrada viva do que 
mandar uma petio ao presidente.??
  Sabia que a frase era incompreensvel, mas isso s lhe dava satisfao. 
Sentia-se invadir por uma embriaguez sbita e inesperada. A
mesma negra embriaguez do dia em que dissera  mulher que nunca
mais queria v-los, a ela e ao filho. A mesma negra embriaguez do
dia em que deitara na caixa do correio a carta com a qual renunciara para sempre 
 sua profisso de mdico. No tinha a certeza de
estar a proceder bem, mas tinha a certeza de estar a proceder segundo a sua 
vontade.
  ??Peo desculpa, disse, mas no vou assinar.??

15


  Alguns dias mais tarde, todos os jornais falavam da petio.
  Naturalmente, nenhum dizia que era um humilde requerimento a
favor dos presos polticos e que o que se pedia era a su libertao.
Nenhum jornal citava a mais pequena frase daquele texto, j de si
to sucinto. Aquilo de que se falava, em termos vagos e ameaadores, era de um 
apelo subversivo que devia funcionar como trampolim para um novo combate contra 
o socialismo. Os signatrios eram
todos nomeados, e os seus nomes cobertos de injrias e calnias
arrepiantes.

  Evidentemente que era previsvel. Naquela poca, qualquer aco pblica (uma 
reunio, uma petio, uma manifestao) que no
fosse organizada pelo Partido Comunista era considerada como
ilegal e punha em perigo todos os que tivessem participado nela.
Todos tinham conscincia disso. Tomas ainda estava com certeza
mais arrependido por no ter assinado a petio precisamente por
causa disso. Mas, ao certo, porque  que no assinara? J nem sequer percebia 
muito bem quais tinham sido os motivos da sua deciso.
  E, ainda uma vez mais, vejo-o tal como me apareceu no comeo
deste romance.  janela, a olhar para o prdio em frente do outro
lado do ptio.
  Foi dessa imagem que Tomas nasceu. Como j disse, as personagens no nascem de 
um corpo matemo como os seres vivos nascem,
mas de uma situao, de uma frase, de uma metfora que contm
em germe uma possibilidade humana fundamental, que o autor
pensa que nunca ningum descobrira antes dele ou ento que nunca
ningum tratara de modo a dizer algo de essencial sobre ela.
  Mas no se costuma dizer que um autor no pode falar seno de
si prprio?
  Olhar com angstia para um ptio sem conseguir tomar uma deciso; ouvir o 
gorgolejar obstinado da nossa prpria barriga num
minuto de exaltao amorosa; trair e no saber parar na estrada to
bela das traies; erguer o punho na manifestao da Grande Marcha; exibir o 
nosso bom humor perante os microfones invisveis da
p?lcia: eu mesmo vivi e conheci todas estas situaes; porm, de
nenhuma delas saiu a personagem que eu prprio sou no meu curriculum vitae. As 
personagens do meu romance so as minhas prprias
possibilidades no realizadas..  o que faz com que goste igualmente
de todas elas e tambm com que todas elas me assustem igualmente
um pouco. Todas, sem excepo, atravessaram uma fronteira que eu
s contornei. O que me atrai precisamente  essa fronteira que elas
atravessaram (a fronteira para l da qual acaba o meu eu). Do outro lado, comea 
o mistrio que o romance interroga. O romance
no  uma confisso do autor, mas uma explorao do que a vida
humana  nesta armadilha em que o mundo se converteu. Mas chega por agora. 
Voltemos a Tomas.
  Est  janela a olhar para a parede suja do prdio em frente, do
outro lado do ptio. Pensa com uma espcie de nostalgia naquele
tipo alto com queixo de rabeca e nos seus amigos que no conhece,
e no nmero dos quais ele prprio no se inclui.  como se se
tivesse cruzado com uma mulher muito bela no cais de embarque de
uma estao e que, antes mesmo de poder abord-la, ela tivesse
subido para o comboio de Lisboa ou de Istambul.
  Ps-se de novo a reflectir: o que  que devia ter feito? Mesmo
abstraindo de tudo quanto tinha a ver com sentimentos (como a
admirao que sentia pelo jornalista e a irritao que o filho lhe
causava), ainda no estava completamente convencido de que devia
ter assinado o texto que lhe fora apresentado.
  Levantarmos a voz quando algum tenta reduzir um homem ao
silncio ser uma atitude correcta? Com certeza que sim.
  Mas, por outro lado, porque  que os jornais consagravam tanto
espao  petio? A imprensa (inteiramente manipulada pelo Estado) podia muito 
bem no ter deixado passar uma nica palavra e
nunca ningum saberia de nada. Se falava dela, era porque dava
jeito aos senhores do pas! Para eles, a petio era uma autntica
ddiva dos cus, e, como tal, serviam-se dela para justificar e desencadear uma 
nova vaga de perseguies.
  Ento, o que  que devia ter feito? Devia ter assinado ou no?
  A questo tambm pode ser formulada noutros termos: Ser

prefervel dar um grito que apresse o nosso prprio fim ou ficar
calado e comprar uma agonia mais lenta?
  Estas perguntas s tero uma resposta?
  E veio-lhe de novo  cabea uma ideia j nossa conhecida: a
vida humana s acontece uma vez e nunca podemos verificar qual
era a boa e qual era a m deciso porque, em toda e qualquer
situao, s podemos decidir uma vez. No nos  concedida nem
uma segunda, nem uma terceira, nem uma quarta vida para podermos comparar as 
diversas decises.
  A histria  como a vida do indivduo. Os Checos no tm seno uma histria. 
Tal como a vida de Tomas, um dia acaba, sem
que seja possvel repeti-la uma segunda vez.
  Em 1618, tomando-se de brios, a nobreza da Bomia decidiu
defender a sua liberdade religiosa e, furiosa com o imperador sentado no trono 
de Viena, precipitou de uma janela do palcio abaixo
dois dos seus mais eminentes representantes. Foi assim que a Guerra dos Trinta 
Anos comeou, guerra essa que quase levou  destruio total do povo checo. Os 
Checos deviam nessa altura ter
sido mais prudentes e menos corajosos? A resposta parece fcil, mas
no .
  Trezentos e vinte anos mais tarde, em 1938, a seguir  Conferncia de Munique, 
o mundo resolveu sacrificar o pas dos Checos a
Hitler. Deveriam nessa altura ter tentado lutar sozinhos contra um
inimigo oito vezes mais numeroso? Ao contrrio do que fizeram em
1618, foram mais prudentes do que corajosos. A sua capitulao
marcou o incio da Segunda Guerra Mundial, que se saldou pela
perda definitiva da sua liberdade enquanto nao por vrios decnios ou por 
vrios sculos. Deveriam nessa altura ter sido mais corajosos do que prudentes? 
Que deveriam ter feito'?
  Se a histria checa se pudesse repetir, seria interessante experimentar caso a 
caso a outra eventualidade e depois comparar os resultados. Como tal experincia 
no  possvel, todos os raciocnios
se reduzem a um mero jogo de hipteses.
  Einmal ist keinmal. Uma vez no conta. Uma vez  nunca.
A histria da Bomia no h-de repetir-se segunda vez, a histria da
Europa tambm no. A histria da Bomia e a histria da Europa
so dois esquissos que a inexperincia da humanidade traou.
A histria  to leve como a vida do indivduo, insustentavelmente
leve, leve como uma pena, como poeira 'ao vento, como uma coisa
que h-de desaparecer amanh.
  Tomas voltou a pensar uma vez mais com uma espcie de nostalgia, quase com 
amor, no jornalista alto e curvado. Era algum
que se comportava ?como se a histria no fosse um esquisso, mas
um quadro acabado. Comportava-se como se tudo o que fazia tivesse de repetir-se 
um nmero incalculvel de vezes no eterno retorno,
com a certeza de nunca se enganar nos seus actos. Estava convencido que tinha 
razo, o que para ele no era um sintoma de estreiteza
de esprito, mas uma marca de virtude. Era um homem que vivia
numa histria completamente diferente da de Tomas: numa histria
que no era (ou que no tinha conscincia de ser) um esquisso.

16

  Pouco depois, ainda fez a reflexo que menciono a seguir para
melhor esclarecer o captulo precedente: suponhamos que havia no
universo um planeta onde pudssemos vir ao mundo pela segunda
vez. Ao mesmo tempo, lembrar-nos-amos perfeitamente da vida
passada na Terra, de toda a experincia j adquirida.

  E talvez houvesse outro planeta onde vissemos  luz pela
terceira vez com a experincia das duas vidas anteriores.
  E talvez fosse havendo sempre mais planetas onde a espcie humana fosse 
renascendo sempre um grau mais acima na escala da
maturidade.
  Era assim que Tomas via o eterno retorno.
  "Vs, c na Terra (no planeta nmero um, no planeta da inexperincia), no 
podemos ter seno uma ideia muito vaga do que aconteceria ao homem nos outros 
planetas. Tornar-se-ia mais sbio? Poder alguma vez ter a maturidade ao seu 
alcance? Poder ele chegar
a ela atravs da repetio?
  S na perspectiva desta utopia  que as noes de pessimismo e
de optimismo tm sentido. Optimista  quem pensa que a histria
humana ser menos sangrenta no planeta nmero cinco. Pessimista,
quem no acredita nisso.

  Tomas esforava-se por lembrar-se de onde  que a conhecia.
Seria uma das suas antigas doentes? Ela comportava-se como se j
tivessem sido amigos ntimos. 'Tentou responder-lhe sem dar a entender que no 
se lembrava dela. J pensava em como  que havia
de convenc-la a ir com ela ao estdio do amigo, cuja chave tinha
no bolso, quando uma observao inesperada lhe revelou quem era
essa mulher: era a estudante de arte dramtica com um corpo
magnificamente bronzeado a quem passara o dia inteiro a telefonar!
  Esta triste aventura divertia-o mas ao mesmo tempo assustava-o.
Estava cansado, no s fisicamente mas tambm mentalmente; os
dois anos de frias no podiam prolongar-se indefinidamente.

17


  Um clebre romance de Jlo Verne, de que Tomas gostava muito em criana, 
intitula-se Dois Anos de Frias. e , de facto, bem
certo que a durao mxima das frias so dois anos. Ia fazer da a
pouco trs anos que Tomas lavava janelas.
  Durante essas semanas compreendeu (com tristeza, e tambm
com um sorriso sereno) que comeava a cansar-se fisicamente (todos
os dias travava um e s vezes dois combates amorosos) e que, embora o seu desejo 
no tivesse diminudo, s conseguia possuir as
mulheres  custa de uma ltima tenso ? das suas foras. (Eu
acrescento: no das suas foras sexuais, mas das suas foras fsicas;
no tinha dificuldades com o sexo, mas com a respirao, e era precisamente isso 
que lhe parecia um bocado cmico.)
  Tentava, um belo dia, marcar um encontro para a tarde, mas,
como s vezes acontece, nenhuma das suas amigas atendia o telefone e a tarde 
arriscava-se a ficar em branco. Sentia-se desamparado.
Telefonou uma boa dezena de vezes para casa de uma rapariga encantadora, 
estudante de teatro, cujo corpo, dourado ao sol de alguma praia de nudistas da 
Jugoslvia, se encontrava coberto de um
halo perfeitamente uniforme, como se tivesse estado a girar lentamente num 
espeto regulado por um mecanismo espantosamente preciso.
  Telefonou-lhe de todos os armazns onde trabalhava. Sempre em
vo. Por volta das quatro horas, tendo acabado o servio, dirigia-se
para o escritrio para entregar as folhas preenchidas quando, numa
rua do centro de Praga, uma desconhecida ps-se a chamar por ele.
Com um sorriso, a rapariga perguntou: ??Doutor, ento por onde 
que tem andado escondido? Nunca mais lhe pus a vista em cima!??


18

  As frias longe da sala de operaes tambm eram frias sem
Tereza: passavam dias inteiros sem se ver, e ao domingo, finalmente
reunidos, repletos de desejo, mas afastados um do outro como na
noite em que Tomas voltara de Zurique, tinham um longo caminho
a percorrer antes de poderem tocar-se, antes de poderem beijar-se.
O amor fsico dava-lhes prazer mas no lhes trazia consolao
nenhuma. Ela no gritava como gritava dantes e, quando da volpia,
a sua mscara parecia exprimir dor e uma estranha ausncia. Ternamente unidos, 
s de noite, a dormir. Continuavam a dormir de mos
dadas, e ela esquecia o abismo (o abismo da luz do dia) que havia
entre eles. Mas, para Tomas, s as noites no chegavam para poder
continuar a proteg-la e a tomar conta dela. De manh, quando
olhava para Tereza, sentia o corao apertar-se-lhe e ficava a tremer
por ela: a mulher andava com um ar triste e doente.
  Um domingo, ela props-lhe que fossem de automvel ao
campo. Foram a umas termas onde constataram que todas as ruas
tinham sido baptizadas de novo com nomes russos e onde encontraram um antigo 
doente de Tomas. Esse encontro deixou-o bastante
perturbado. De um momento para o outro, voltavam a falar-lhe como se fala a um 
mdico e, durante alguns minutos, pensou que tinha reencontrado a sua vida de 
outrora, com a sua reconfortante
regularidade, com as horas das consultas, com o olhar confiante dos
doentes ao qual ele parecia no ligar importncia nenhuma mas que
lhe dava uma satisfao bem real e que lhe era extremamente necessrio.
  No caminho de regresso, Tomas, ao volante, repetia de si para si
que deixar Zurique tinha sido um erro catastrfico. Mantinha os

olhos convulsivamente fixos na estrada para no ver Tereza.
Achava-a culpada. A sua presena ali ao lado aparecia-lhe em toda
a sua insustentvel contingncia. Porque  que ela estava ali ao seu
lado'? Quem  que a pusera na cesta e a abandonara ao sabor das
guas? E que necessidade tivera de ir acostar precisamente 
margem da cama de Tomas?' Porqu ela e no outra qualquer'?
  Continuavam o seu caminho; durante todo o trajecto nem um
nem outro descerraram os dentes.
  Uma vez em casa, jantaram em silncio.
  O silncio erguia-se entre eles como a infelicidade. De minuto a
minuto, tornava-se cada vez mais pesado. Para se verem livres dele,
foram deitar-se muito cedo. Durante a noite, acordou-a para ela
deixar de chorar.
  Tereza contou-lhe: ?"Eu estava enterrada. Desde h muito
tempo. Tu vinhas ver-me uma vez por semana. Batias na cova e eu
saa. Tinha os olhos cheios de terra.
  ??Tu dizias: 'Assim no vs nada,, e tiravas-me a terra dos olhos.
  <?E eu respondia-te: 'Seja como for, no vejo nada. Tenho buracos em vez de 
olhos.,
  ??Depois, estiveste muito tempo sem aparecer e eu sabia que tu
estavas com outra. As semanas passavam e tu sempre sem apareceres. J no 
conseguia dormir porque tinha medo que tu viesses e eu
no desse por isso. Um dia, acabaste por voltar e bateste na cova,
mas eu estava to cansada por ter estado um ms inteiro sem
dormir que mal tinha foras para me levantar e sair l para fora.
Quando acabei finalmente por conseguir, tu ficaste com um ar desiludido. 
Disseste-me que eu estava com m cara. Sentia que te desagradava, que tinha a 
cara cavada, que fazia gestos incoerentes.
  c?Para me desculpar, disse-te: ?Perdoa-me:  que no preguei

olho durante este tempo todo.'
  ?"E tu disseste, com uma voz que era para me tranquilizar mas
que soava a falso: ?Vs? Tens que descansar. Devias tirar um ms
de frias.'
  ??E eu sabia perfeitamente o que querias dizer quando me falavas em frias! 
Sabia que tu querias ficar um ms inteiro sem me ver
porque estavas com outras. Foste-te embora e eu voltei para o
fundo da cova. e sabia que ia estar outra vez um ms inteiro sem
dormir para no faltar ao nosso encontro, e que, quando voltasses,
ao fim de um ms, ainda estaria mais feia e tu ainda ficarias mais
desiludido.??
  Tomas nunca ouvira nada to pungente. Apertava Tereza de encontro a si, 
sentia-lhe o corpo a tremer e pensava que j no tinha
foras para carregar o amor que sentia por ela.
  Que o planeta vacilasse sob as deflagraes das bombas, que a
ptria fosse cada novo dia pilhada por um novo intruso, que todos
os habitantes do bairro fossem obrigados a comparecer perante o
peloto de execuo, tudo isso suportaria mais facilmente do que se
atrevia a confessar. Mas a tristeza de um s sonho de Tereza era-lhe
perfeitamente insuportvel.
  Voltava para dentro do sonho que ela lhe acabara de contar.
Acariciava-lhe a face e, muito discretamente, para ela no perceber,
tirava-lhe a terra das rbitas. Depois ouviu-a pronunciar esta frase,
a mais pungente de todas: ??Seja como for, no vejo nada. Tenho
buracos em vez de olhos.??
  Sentiu-se  beira do enfarte.
  Tereza voltara a adormecer; agora era ele que no conseguia
dormir. Imaginava-a morta. Ela estava morta e tinha sonhos horrveis; mas, como 
estava morta, ele no podia acord-la. Sim, a morte
era isso: Tereza a dormir e a ter sonhos atrozes e ele sem poder
acord-la.

19


  Cinco anos depois de o exrcito russo ter invadido o pas de
Tomas, Praga estava muito diferente: as pessoas com quem Tomas
se cruzava na rua j no eram as mesmas de dantes. Metade dos
seus amigos tinha emigrado e metade dos que ficaram tinha morrido.  um facto 
que no ser assinalado por historiador nenhum: os
anos que se seguiram  invaso russa foram um perodo de enterros;
nunca houve tantos bitos. E no falo s dos casos (afinal de contas
bastante raros) em que as pessoas foram encurraladas e empurradas
pra a morte como Jan Prochazka. Quinze dias depois de a rdio
ter comeado a transmitir quotidianamente a gravao das suas
conversas privadas, deu entrada no hospital. De sbito, o cancro
que, por certo, j dormitava discretamente h algum tempo no seu
corpo, floriu como uma rosa. A operao teve lugar na presena da
polcia e esta, quando constatou que o escritor estava condenado,
deixou de interessar-se por ele e permitiu-lhe morrer nos braos da
mulher. Mas a morte tambm atingia aqueles que no eram directamente 
perseguidos. Infiltrando-se atravs da alma, o desespero que
tomara conta do pas apoderava-se dos corpos e fazia-os cair por
terra. Alguns fugiam desesperadamente para evitar os favores do regime que 
queria cumul-los de honrarias e obrig-los a aparecer em
pblico com os novos dirigentes. Foi assim que o poeta Frantisek
Hrubine morreu: a fugir do amor do Partido. O ministro da Cultura,
ao qual tentara com todas as suas ltimas foras escapar, acabou por

apanh-lo no caixo. Fez-lhe um discurso sobre a campa, um discurso que versava 
sobre o amor do poeta  Unio Sovitica. Talvez
tenha proferido tal ignomnia para acordar o poeta. Mas o mundo
estava to feio que ningum se queria levantar de entre os mortos.
  Tomas foi  cmara crematria assistir s exquias de um clebre
bilogo expulso da Universidade e da Academia das Cincias. Para
evitar que a cerimnia se transformasse em manifestao, tinham
proibido que a hora viesse indicada nas participaes e os parentes
s  ltima da hora  que souberam que o defunto seria incinerado
s seis e meia da manh.
  Ao penetrar na cmara crematria, Tomas no conseguiu logo
perceber o que estava a passar-se: a sala estava iluminada como um
estdio de cinema. Surpreendido, olhou em torno de si e constatou
que havia cmaras de filmar instaladas nos trs ngulos da sala.
No, no era a televiso, mas a polcia que filmava o enterro para
poder identificar quem l estava. Um antigo colega do sbio falecido, que ainda 
era membro da Academia das Cincias, teve a coragem de pronunciar algumas 
palavras ao p do caixo. Nunca pensara vir assim a tornar-se uma estrela de 
cinema.
  Depois da cerimnia, enquanto os presentes cumprimentavam a
famlia do defunto, Tomas viu, num canto a sala, um pequeno grupo, onde 
reconheceu o jornalista alto e curvado. Continuava a
pensar com uma espcie de nostalgia naquelas pessoas que no tm
medo de nada e se ligam com uma forte amizade umas s outras.
Aproximou-se dele, sorriu-lhe, quis cumpriment-lo, mas o homem
alto e curvado disse: <?Ateno, doutor,  melhor no se aproximar. ??
  Era uma frase ambgua. Podia tom-la como um aviso sincero e
amigvel (??Tenha cuidado, estamos a ser filmados, se nos dirige a
palavra  meio caminho andado para novo interrogatrio??), mas
tambm no era de excluir que encerrasse uma certa ironia (??J que
no teve a coragem de assinar uma petio, seja coerente e no
tenha mais contactos connosco!??). Fosse qual fosse a interpretao,
Tomas obedeceu e eclipsou-se. Tinha a impresso de que a bela
desconhecida com quem se cruzara no cais de embarque da estao
subia para a carruagem-cama de um rpido e que, no momento em
que estava quase a dizer-lhe que a admirava, ela punha um dedo
nos lbios para impedi-lo de falar.

20


   tarde, teve um encontro interessante. Estava a lavar a montra
de uma loja quando um homem ainda novo parou a dois passos
dele. O homem debruou-se para examinar as etiquetas.
  c?Est tudo cada vez mais caro!??, disse Tomas, sem parar de esfregar a 
esponja no vidro molhado.
  O homem virou a cabea. Era um colega do hospital, aquele a
que chamei S., e que sorria com indignao  ideia de que Tomas
pudesse fazer a sua autocrtica. Tomas sentia-se feliz com o encontro (no era 
seno o prazer ingnuo que o inesperado nos traz), mas
percebeu no olhar do colega (logo no primeiro segundo, enquanto
S. ainda no tinha tido tempo de controlar a sua reaco) uma expresso de 
desagradvel surpresa.
  ?"Como ests???, perguntou S.
  Antes mesmo de dar uma resposta, Tomas compreendeu que
S. tinha ficado com vergonha da pergunta. Um mdico que continuava a exercer a 
sua profisso perguntar a um mdico que lavava
janelas ??como ests??? era evidentemente uma gaffe terrvel.

  ?"Melhor do que nunca??, respondeu Tomas com o ar mais contente do mundo, 
para lhe aliviar o mal-estar, mas sentiu imediatamente
que esse ??melhor do que nunca?? podia, contra sua vontade, ser interpretado 
(por causa do tom enftico com que o dissera) como uma
amarga ironia.
  ?"Que novidades me contas do hospital?, apressou-se a acrescentar.
  - Nenhumas, corre tudo normalmente??, respondeu S.
  Mesmo esta resposta, que ele pretendia que fosse perfeitamente
neutra, no podia ser mais despropositada; ambos o sabiam e pressentiam que o 
outro tambm sabia: como  que tudo podia correr
normalmente quando um dos mdicos lavava montras?
  ??E o chefe do servio?, perguntou Tomas.
  - Deixaste de o ver'?, interrogou S.
  - Deixei??, disse Tor?'ias.
  Era verdade. Desde que sara do hospital nunca mais vira o chefe do servio, 
embora outrora fossem excelentes colaboradores e
quase tivessem tendncia para se considerar amigos. Embora no
fosse de propsito, o ??deixei?? que acabara de pronunciar tinha qualquer coisa 
de triste e Tomas sentia que S. estava arrependido de lhe
ter feito a pergunta, j que ele prprio, S., tal como o chefe do
servio, nunca viera saber notcias de Tomas e perguntar-lhe se precisava de 
alguma coisa.
  A conversa entre os dois antigos colegas estava a tornar-se impossvel, embora 
ambos, sobretudo Tomas, o lamentassem.
  No queria mal aos colegas por se terem esquecido dele.
  T-lo-ia explicado de boa vontade, e logo de seguida quele jovem mdico. 
Tinha vontade de lhe dizer: ??No fiques com esse ar
incomodado.  normal e est perfeitamente na ordem natural das
coisas que vocs no me procurem! No tenhas complexos por causa
disso! Para mim, foi um verdadeiro prazer encontrar-te!??, mas,
mesmo isso, tinha medo de lho dizer porque at agora nenhuma das
suas palavras soara com o sentido que lhes queria dar e o seu antigo
colega podia suspeitar que, por detrs dessas frases e por muito
sinceras que elas fossem, podia esconder-se um sarcasmo.
  ??Desculpa, disse por fim S., estou com pressa??, e estendeu-lhe a
mo. "<Depois telefono.??
  Dantes, quando os colegas o desprezavam por causa da sua suposta cobardia, 
todos lhe sorriam. Agora, que j no podiam desprez-lo, que eram mesmo forados 
a respeit-lo, evitavam-no.
  Alis, os seus antigos doentes tambm j no lhe faziam convites
para beberricar champanhe. A situao dos intelectuais despromovidos j no 
tinha nada de excepcional; era um estado permanente
cujo espectculo incomodava.

21


  Entrou em casa, deitou-se e adormeceu mais depressa do que o
costume. Mais ou menos uma hora depois, acordou com dores de
estmago. Era uma maleita antiga que voltava sempre que estava
deprimido. Abriu o armrio dos remdios e ps-se a praguejar. No
havia medicamentos. Tinha-se esquecido de os arranjar. Tentou debelar a crise 
pela fora de vontade, e quase conseguiu, mas no
tornou a adormecer. Quando Tereza chegou a casa, por volta da
uma e meia da manh, apeteceu-lhe conversar com ela. Contou-lhe
o enterro, o que acontecera com o jornalista que se tinha recusado a
falar-lhe e o seu encontro com o colega.
  a Praga est a tornar-se uma cidade muito feia, disse Tereza.

  -  verdade??, respondeu Tomas.
  Alguns segundos depois, Tereza disse em voz baixa: ??O melhor
era irmo-nos embora.
  - Tambm acho, disse Tomas. Mas no temos para onde ir.??
  Estava sentado em cima da cama, de pijama; ela veio sentar-se a
seu lado e passou-lhe o brao por baixo da cintura.
  ?? Vamos para o campo, disse Tereza.
  - Para o campo?, perguntou ele, surpreendido.
  - L, podamos estar sozinhos. No tinhas de ver nem o jornalista nem os teus 
colegas. L, h outras pessoas, e h a natureza que
ainda est como dantes.??
  Nesse momento, Tomas ainda teve uma dor indefinida no estmago; sentia-se 
velho e tinha a impresso de no querer mais nada
seno um bocadinho de paz e tranquilidade.
  "<Talvez tenhas razo??, disse com dificuldade, porque lhe custava
respirar quando tinha dores.
  Tereza voltou a insistir: ??Podamos ter um casibeque com um
jardinzito. Karenine havia de sentir-se nas suas sete quintas.
  - Pois havia??, concordou Tomas.
  Depois, tentou imaginar como seria se realmente fossem viver
para o campo. Numa aldeia, era com certeza muito difcil ter uma
mulher nova todas as semanas. Era o fim das suas aventuras erticas.
  <<S que, no campo, te chateavas de morte por s me teres a
mim... >>. disse Tereza, adivinhando-lhe os pensamentos.
  A dor de estmago aumentava. J no conseguia falar. Pensou
que andar atrs das mulheres tambm era um ??es muss sein!?? para
ele, um imperativo que o reduzia  escravatura. Apetecia-lhe ter
frias. Mas frias absolutas, frias em que dissesse adeus a todos os
imperativos, a todos os ??es muss sein!??. Se tinha conseguido livrar-se da 
sala de operaes do hospital, porque  que no havia de
conseguir livrar-se da sala de operaes do mundo onde o seu bisturi imaginrio 
passava o tempo a abrir a misteriosa caixinha das jias
do eu feminino para pr  mostra a sua ilusria milionsima parte
de diferena?
  c?Di-te o estmago???, percebeu finalmente Tereza.
  Disse-lhe que sim.
  ?"J tomaste a injeco???
  Abanou a cabea. ??Esqueci-me de comprar remdios.??
  Tereza censurou-o pela sua negligncia e acariciou-lhe a testa
perlada de suor.
  c?J me sinto melhor, disse.
  - Deita-te??, disse ela, pondo-lhe o cobertor por cima. Foi  casa de banho 
e, passados instantes, veio deitar-se ao seu lado.
  Voltou a cabea sobre a almofada para o lado dela e foi assaltado pelo pnico: 
a tristeza que emanava dos olhos de Tereza era
insuportvel.
  Disse-lhe: ??Ouve, Tereza! O que  que tu tens? H j algum
tempo que te acho estranha. Sinto-o. Sei-o.??
  Ela abanou a cabea: ??No, no tenho nada.
  - No digas que no!
  -  a mesma coisa de sempre??, disse Tereza.
  <<A mesma coisa de sempre?? queria dizer que ela tinha cimes e
que ele continuava a tra-la.
  Mas Tomas voltou a insistir: c?No, Tereza. Agora  diferente.
Nunca te vi em tal estado. ??

  Tereza r?plicou-lhe: ?<Ora muito bem! J que mo pedes, vou
mesmo dizer-te: vai lavar a cabea!??

  Tomas no percebia.
  Ela disse-lhe tristemente, sem agressividade e quase com ternura:
<< que j h alguns meses que trazes um cheiro insuportvel nos
cabelos. Tresandam a sexo. No to queria dizer. Mas j perdi a
conta s noites em que me tens obrigado a respirar o cheiro do sexo
das tuas amantes!??
  Ao som destas palavras, voltaram a dar-lhe as cibras no estmago. Era 
desesperante! Esfregava escrupulosamente o corpo todo,
as mos, a cara, para tirar toda e qualquer rstea de cheiros desconhecidos. Nas 
casas de banho alheias, evitava sempre os sabonetes.
Andava munido com um sabo de seda. Mas tinha-se esquecido do
cabelo. No, nos cabelos nunca tinha pensado!
  E lembrou-se daquela mulher que se punha a cavalo na sua cara
e que lhe exigia que fizesse amor com a cara e com o alto da cabea. Como a 
detestava agora! Que ideias to parvas as suas! Via que
no podia desmentir nada e que s podia pr-se estupidamente a rir
e depois ir  casa de banho lavar a cabea.
  Tereza voltou a acariciar-lhe a testa. ??Deixa-te estar deitado. J
no vale a pena. Estou habituada.??
  Doa-lhe o estmago e no queria seno calma e tranquilidade.
  Disse-lhe: c?Vou escrever quele meu doente que encontrmos
nas termas. Tu conheces a regio onde a aldeia dele fica?
  - No??, disse Tereza.
  Tomas j s falava com grande dificuldade. Apenas conseguiu
articular: ??Floresta... colinas...
  - Sim,  isso mesmo. Vamo-nos embora. Mas agora cala-ter?, e
continuava a acariciar-lhe a testa. Estavam deitados um ao lado do
outro em silncio. Lentamente, a dor ia recuando. Em breve, ambos
adormeceram.

22

  Acordou a meio da noite e constatou com surpresa que tinha tido
sonhos extremamente erticos. S se lembrava com nitidez do ltimo:
havia uma mulher gigante a nadar toda nua numa piscina, uma mulher
umas boas cinco vezes maior do que ele, com a barriga totalmente
coberta por uma espessa crina, que lhe ia das pernas ao umbigo.
Observava-a da borda e estava extraordinariamente excitado.
  Como  que podia excitar-se com o corpo to debilitado pelas
dores de estmago'? E como  que podia excitar-se com uma mulher
que, se estivesse acordado, no lhe inspiraria seno nojo?
  Ps-se a pensar: H duas rodas dentadas a girar em sentido contrrio no 
relgio do nosso crebro. Numa, h as vises, na outra, as
reaces do corpo. O dente que tem a viso de uma mulher nua
gravada engrena no dente oposto, onde est inscrito o imperativo da
ereco. Quando, por qualquer razo, o mecanismo se avaria e o
dente da excitao entra em contacto com o dente no qual est
pintada a imagem de uma andorinha a voar, o nosso sexo levanta-se
s por ver a andorinha.
  Tinha, alis, conhecimento de um estudo no qual um dos seus
colegas, especialista do sono, afirmava que um homem a sonhar est
sempre em ereco, seja qual for o seu sonho. A associao da ereco com uma 
mulher nua no era seno a maneira que Deus escolhera de entre as mil e uma 
possveis de regular o mecanismo do
relgio da cabea do homem.
  E que tem o amor a ver com isso? Nada. Basta que uma roda
da engrenagem se desvie de uma fraco de milmetro na cabea de
Tomas para ele ficar excitado por ver uma andorinha, mas isso no

altera em nada o seu amor por Tereza.

  Se a excitao  um mecanismo que depende de um capricho do
Criador, o amor , pelo contrrio, aquilo que s nos pertence a ns
e atravs do qual escapamos ao Criador. O amor  a nossa liberdade. O amor est 
para l da necessidade, para l do ??es muss sein!??.
  Mas a verdade tambm no  ainda bem essa. Mesmo que o
amor seja algo de muito diferente do mecanismo de relgio da sexualidade que o 
Criador imaginou para sua alta recreao, ele
encontra-se sempre ligado a ela, como uma delicada figura de
mulher nua ao pndulo de um enorme relgio de sala.
  Tomas disse de si para si: Ligar o amor  sexualidade foi realmente uma das 
ideias mais bizarras do Criador.
  E ainda pensou o seguinte: A nica maneira de salvar o amor da
estupidez da sexualidade era regular de outra maneira o relgio
da nossa cabea e fixar excitado por ver uma andorinha.
  Com este doce pensamento, sentiu-se mais relaxado. E,  beira
do sono, no espao encantado das vises confusas, convenceu-se que
acabara de descobrir a soluo de todos os enigmas, a chave do
mistrio, uma nova utopia, o Paraso: um mundo em que se fica em
ereco por ver uma andorinha e onde  possvel amar Tereza sem
ser importunado pela estupidez agressiva da sexualidade.
  Voltou a adormecer.

23

   sua volta rodopiavam mulheres meio despidas, e sentia-se
cansado. Para lhes escapar, abriu a porta que dava para o quarto ao
lado. Viu uma rapariga deitada num div. Tambm se encontrava
quase nua, pois s tinha umas cuecas vestidas; estava deitada de
lado. apoiada num cotovelo. Olhava para ele e sorria, como se j
estivesse  sua espera.
  Aproximou-se. Sentia-se inundado por uma imensa felicidade,
porque finalmente a encontrara e podia estar com ela. Sentou-se a
seu lado, disse-lhe algumas palavras, e, por sua vez, tambm ela lhe
disse algumas palavras. Irradiava dela uma calma enorme. Os gestos
que fazia com a mo eram lentos e suaves. Toda a vida desejara a
paz daqueles gestos. Era aquela calma feminina que lhe faltara toda
a vida.
  Mas em breve passou do sono para o estado de semiconscincia.
Encontrava-se naquele no man's land onde j se no est a dormir e
ainda se no est acordado. Tinha medo de perder aquela rapariga
de vista e pensava: Meu Deus! Agora no a posso perder! Tentava
lembrar-se com todas as suas foras de onde  que a conhecia, daquilo que tinha 
vivido com ela. Como  que podia no se lembrar
se a conhecia to bem? Prometeu a si prprio que, mal pudesse,
havia de telefonar-lhe. Mas logo se ps a tremer: como  que podia
telefonar-lhe se no se lembrava do nome dela? Como  que tinha
podido esquecer-se do nome de algum que conhecia to bem?
A seguir, quase completamente acordado, com os olhos abertos,
pensou: Onde  que eu estou? Em Praga, claro, mas aquela rapariga
ser de Praga? No a terei encontrado noutro lado? No a terei
conhecido na Sua? Foi preciso um bom minuto para compreender

que no conhecia a rapariga, que ela no era nem de Zurique nem
de Praga, que fora o seu sonho que a criara e que ela no era de
parte nenhuma.
  Ficou to perturbado que se sentou  beira da cama. Tereza

dormia com uma respirao muito funda ao seu lado. Dizia para si
prprio que a rapariga do sonho no era parecida com nenhuma das
mulheres que encontrara na sua vida. Aquela rapariga que lhe parecera to 
familiar era, de facto, uma desconhecida. Mas era ela que
sempre desejara. Se um dia encontrasse o seu paraso pessoal. se 
que tal coisa existe, era com essa rapariga que l havia de viver.
A rapariga do sonho era o ??es muss sein!?? do seu amor.
  Lembrou-se do clebre mito do Banquete de Plato: dantes, em
tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas 
metades, que, desde ento, erram pelo mundo  procura
uma da outra. Amar  desejar essa metade perdida de ns prprios.
  Admitamos que assim seja; que cada um de ns tenha algures no
mundo um par com o qual constitua em tempos um nico corpo. A
outra metade de Tomas  a rapariga com quem ele sonhou. Mas
nunca ningum h-de encontrar a outra metade de si prprio. Em
vez dela, mandam-lhe uma Tereza dentro de uma cesta ao sabor das
guas. Mas o que acontecer depois, se encontrar realmente a
mulher que lhe estava destinada, a outra metade de si prprio?
Qual  que deve preferir? A mulher que encontrou numa cesta ou a
mulher do mito de Plato?
  Pe-se a imaginar que vive num mundo ideal com a mulher que
lhe apareceu em sonhos. E Tereza, um dia, passa por baixo das
janelas da casa onde eles vivem. Est sozinha, pra no passeio e
olha-o de longe com um olhar infinitamente triste. E ele, ele no
consegue suportar esse olhar. Uma vez mais, sente a dor de Tereza
no mago do seu prprio corao! Uma vez mais,  presa da compaixo e 
encontra-se profundamente mergulhado na alma de Tereza.
Salta pela janela. Mas ela diz-lhe com amargura que a nica coisa
que tem a fazer  ficar onde se sente feliz, e di-lo com aqueles
gestos incoerentes que sempre o irritaram e sempre achou feios.
Agarra-lhe nas mos, naquelas suas mos to nervosas, e aperta-as
nas suas para as acalmar. E sabe que est pronto a deixar a qualquer momento a 
casa da sua felicidade, que est pronto a deixar a
qualquer momento o paraso onde vive com a rapariga dos seus sonhos, que vai 
trair o ??es muss sein!?? do seu amor para se ir embora
com Tereza, essa mulher nascida de seis acasos grotescos.
  Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a 
mo a dormir. Sentia por ela um amor inexprimvel.
Nesse momento, ela devia estar com um sono muito leve porque
abriu as plpebras e olhou para ele com um ar assustado.
  ??Para onde  que ests a olhar???, perguntou ela.
  Sabia que no devia acord-la e que devia voltar a conduzi-la
para o sono; tentou responder-lhe com palavras que lhe acendessem
na cabea a falha de um novo sonho.
  ??Estou a olhar para as estrelas, disse. ele.
  - No me mintas, tu no ests a olhar para as estrelas, tu ests
a olhar para baixo.
  - Mas, como vamos num avio, as estrelas esto por baixo de
ns.
  -Ah!??, disse Tereza. Apertou ainda com mais fora a mo de
Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava
a olhar pela janela de um avio que voava to alto que ia por cima
das estrelas.

SEXTA PARTE

A GRANDE MARCHA





  S em 1980, atravs de um artigo publicado no Sunday Times, se
ficou a saber em que circunstncias morreu Iakov, o filho de Estaline. 
Prisioneiro de guerra durante a Segunda Guerra Mundial,
encontrava-se detido num campo onde tambm havia oficiais ingleses. As latrinas 
eram comuns. O filho de Estaline deixava-as sempre
sujas. Os ingleses no gostavam de ver as suas latrinas cheias de
merda, mesmo que a merda fosse do filho daquele que era ento o
homem mais poderoso do universo. Ralharam com ele. O filho de
Estaline ficou ofendido. Os oficiais ingleses voltaram a repreend-lo
e obrigaram-no a limpar as latrinas. Zangou-se, discutiu com eles e
agrediu-os. Por fim, pediu para ser recebido pelo comandante do
campo. Queria que ele arbitrasse o diferendo. Mas o alemo estava
demasiado imbudo da sua importncia para deixar-se envolver numa discusso 
sobre merda. O filho de Estaline no pde suportar tal
humilhao. Lanando aos cus as pragas russas mais tremendas,
correu em direco ao arame farpado e electrificado que cercava o
campo. Atirou-se contra os fios. A ficou suspenso o corpo que
nunca mais havia de sujar as latrinas britnicas.

2

  O filho de Estaline no teve uma vida fcil. O pai engendrou-o
c?m uma mulher que, conforme tudo indica, acabou por mandar
fuzilar. O jovem Estaline era, portanto, ao mesmo tempo, filho de
Deus (porque o seu pai era venerado como Deus) e maldito por ele.
As pessoas temiam-no duplamente: podia prejudic-los tanto pelo
poder que ainda tinha (sempre era o filho de Estaline) como pela sua
amizade (o pai podia mandar castigar os amigos em vez do filho).
  Maldio e privilgio, felicidade e infelicidade - nunca ningum
sentiu tanto na prpria pele o ponto a que essas oposies so intermutveis e 
como  estreita a margem entre os dois plos da existncia humana.
  Logo no princpio da guerra foi capturado pelos alemes e eis
que outros prisioneiros, membros de uma nao pela qual sempre
sentira uma antipatia visceral, porque lhe parecia incompreensivelmente fechada, 
o acusavam de ser porco. Ele, que carregava s
costas o drama mais sublime que possa ser concebido (ser ao mesmo
tempo filho de Deus e anjo cado em desgraa), tinha agora que
suportar ser julgado, e no por coisas nobres (a respeito de Deus ou
dos anjos), mas por causa da merda? O drama mais nobre e o incidente mais 
trivial estaro assim to vertiginosamente prximos um
do outro?
  Vertiginosamente prximos? Ento a proximidade tambm pode
causar vertigens?
  Claro que pode. Quando o plo norte se aproximar do plo sul
quase a ponto de o tocar, o nosso planeta desaparecer e o homem
ter  sua volta um tal vazio que ficar aturdido e ceder  seduo
da queda.

  Se a maldio e o privilgio so uma e a mesma coisa, se no h
diferenas entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado
por causa da merda, a existncia humana perde as suas dimenses e
torna-se de uma leveza insustentvel. Ento, o filho de Estaline
corre em direco ao arame farpado para lanar contra ele o corpo,
como se estivesse a lan-lo para o prato de uma balana que miseravelmente 
subisse soerguido pela infinita leveza de um mundo sem

dimenses.
  O filho de Estaline deu a vida pela merda. Mas morrer pela
merda no  uma morte absurda. Os alemes que sacrificaram a
vida para aumentar o territrio do imprio para leste, os russos que
morreram para que o poder do seu pas se estendesse mais para
ocidente, esses sim, morreram por um disparate e a sua morte no
tem nem qualquer espcie de sentido nem de valor geral. Em contrapartida, a 
morte do filho de Estaline foi a nica morte metafsica
no meio da estupidez universal da guerra.

3

  Quando eu era pequeno, punha-me a olhar para uma imagem de
Deus Nosso Senhor de p, em cima de uma nuvem que havia no
Antigo Testamento, contado s crianas e ilustrado com gravuras de
Gustavo Dor, que costumava folhear. Era um senhor bastante velho, com olhos, 
nariz, uma grande barba, e eu achava que, como
tinha boca, tambm devia comer. E, se comia, tambm devia ter
intestinos. Mas ficava logo assustado com a ideia porque, embora a
minha famlia fosse quase ateia, percebia bem a blasfmia que era
pensar que Deus Nosso Senhor tinha intestinos.
  Sem a mnima preparao teolgica, com toda a espontaneidade,
a criana que eu era ento j compreendia, portanto, a fragilidade
da tese fundamental da antropologia crist, segundo a qual o homem foi criado  
imagem e semelhana de Deus. Das duas, uma: ou
o homem foi criado  imagem de Deus e Deus tem intestinos, ou
Deus no tem intestinos e o homem no se parece com ele.
  Os gnsticos antigos sentiam-no to claramente como eu, aos
cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito
problema, Valentino, gro-mestre da Gnose do sculo ?i, afirmava
que Jesus ?comia, bebia, mas no defecava??.
  A merda  um problema teolgico mais difcil do que o mal.
Deus ofereceu a liberdade ao homem e, Portanto, pode admitir-se
que ele no  responsvel pelos crimes da humanidade. Mas a
responsabilidade pela existncia da merda incumbe inteiramente
quele que criou o homem, e s a ele.

4


  So Jernimo rejeitava categoricamente, no sculo ?v, a possibilidade de que 
Ado e Eva alguma vez tivessem dormido um com o
outro no Paraso. Joo Escoto Ergena, ilustre telogo do sculo ix,
defendia precisamente o contrrio. Mas, na sua opinio, Ado podia
levantar o seu membro mais ou menos como ns levantamos um
brao ou uma perna, ou seja, quando queria e como queria. No
tentemos descortinar por detrs desta ideia o eterno sonho do homem obcecado com 
o pesadelo da impotncia. A ideia de Escoto
Ergena tem um significado completamente diferente. Se o membro viril se levanta 
a uma simples ordem do crebro,  porque a
excitao  dispensvel. O membro no se levanta por estar excitado, mas porque 
obedece a uma ordem. O que o grande telogo
julgava incompatvel com o Paraso no era o coito e a volpia que
lhe est associada. O que era incompatvel com o Paraso era a excitao. 
Fixemo-lo bem: no Paraso, havia volpia, mas excitao,
no.
  O raciocnio de Escoto Ergena pode constituir a chave de uma
justificao teolgica (ou, por outras palavras, de uma teodiceia) da

merda. Enquanto foi permitido ao homem viver no Paraso, ou ele
no defecava (tal como Jesus Cristo, segundo Valentino) ou, o que
parece mais plausvel, a merda no era tida como algo de repugnante. Ao expulsar 
o homem do Paraso, Deus revelou-lhe tanto a
sua natureza imunda como o nojo. O homem comeou a esconder
aquilo de que se envergonhava e quando afastava o vu quase ficava
cego com o brilho de uma grande luz. Assim, logo a seguir a ter
descoberto o imundo, tambm descobriu a excitao. Sem a merda
(no sentido literal e no sentido figurado da palavra), o amor sexual no seria 
nunca tal como ns o conhecemos: com o corao a
martelar e uma grande cegueira dos sentidos.
  Na terceira parte deste romance, evoquei Sabina seminua, com o
chapu de coco na cabea, de p, ao lado de Tomas, todo vestido.
Mas h uma coisa que ocultei. Enquanto se viam ao espelho e ela
se sentia excitada com o ridculo da situao, imaginava que, tal
como estava, com o chapu de coco na cabea, Tomas a obrigava a
sentar na retrete e a esvaziar os intestinos  sua frente. O corao
comeou a bater-lhe mais depressa, as ideias a turvarem-se-lhe; empurrou Tomas 
para cima da carpete; no minuto seguinte, estava a
gritar de prazer.

5


  O debate entre aqueles que afirmam que o universo foi criado
por Deus e aqueles que pensam que ningum o criou tem como
objecto algo que ultrapassa o nosso entendimento e a nossa experincia. Bem mais 
real  a diferena entre aqueles que contestam o
ser tal como foi dado ao homem (pouca importa como e por quem)
e aqueles que a ele aderem sem reservas de espcie nenhuma.
  Todas as crenas europeias, sejam elas religiosas ou polticas,
tm por detrs de si o primeiro captulo do Gnesis, do qual se
infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser  bom
e, por consequncia, que procriar  uma coisa boa. Chamemos a
esta crena fundamental acordo categrico com o ser.
  Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituda nos
livros por trs pontinhos, no era seguramente por uma questo de
moral. Apesar de tudo, ningum pode pretender que a merda seja
imoral! O desacordo com a merda  metafsico. O instante da defeco  a prova 
quotidiana do carcter inaceitvel da criao. Pas
duas, uma: ou a merda  aceitvel (ento porque  que se fecham
na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram  que  inadmissvel.
  Daqui se infere que o acordo categrico com o ser tem como
ideal esttico um mundo onde a merda  negada e onde todos se
comportam como se ela no existisse. Esse ideal esttico chama-se
kitsch.
   uma palavra alem que apareceu em meados do sculo x?x
sentimental e que depois se vulgarizou em todas as lnguas. Mas a
sua utilizao frequente f-la perder todo o valor metafsico original:
o kitsch , por essncia, a negao absoluta da merda; tanto no sentido literal 
como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu
campo de viso tudo o que a existncia humana tem de essencialmente inaceitvel.






6





264

  A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo no
teve uma conotao tica, mas esttica. Mais do que a fealdade do
mundo comunista (os palcios convertidos em estbulos, por exemplo), o que lhe 
causava repugnncia era a mscara de beleza com
que ele se cobria, ou, por outras palavras, o kirsch comunista.
O modelo mais acabado desse kitsch  a chamada festa do 1.o de
Maio.
  Ainda assistira aos desfiles do 1.o de Maio numa poca em que
as pessoas se entusiasmavam com eles ou, pelo menos, se esforavam por 
mostr-lo. As mulheres iam vestidas com camisas vermelhas, brancas ou azuis e 
desfilavam em conjuntos que, vistos das
janelas e das varandas, formavam estrelas de cinco pontas, coraes
e letras. Entre as diversas seces, intercalavam-se pequenas orquestras que 
ritmavam a marcha. Quando o cortejo j estava perto da
tribuna, mesmo os rostos mais sombrios se iluminavam com um
sorriso, como se as pessoas quisessem provar que, como no podia
deixar de ser, se regozijavam ou, melhor, que, como no podia deixar de ser, 
estavam de acordo. E no se tratava de um simples acordo poltico com o 
comunismo, mas de um acordo com o ser enquanto tal. A festa do 1.o de Maio ia 
beber directamente na fonte profunda do acordo categrico com o ser. A palavra 
de ordem tcita e
invisvel do desfile no era ??Viva o comunismo!??, mas ??Viva a vida!??. A 
fora e a astcia da poltica comunista consistiu em apoderar-se dessa palavra 
de ordem. Era precisamente essa estpida tautologia (??Viva a vida!??) que 
empurrava para o desfile comunista
muita gente que era perfeitamente indiferente ao comunismo.

7

  Uma dezena de anos mais tarde (j vivia na Amrica), encontrava-se no enorme 
automvel de um senador americano, amigo de
uns amigos seus, que a tinha levado a dar uma volta. No banco de
trs, iam quatro crianas apertadas umas contra as outras. O senador parou o 
carro; as crianas saram, atravessaram a correr um
enorme relvado e entraram num estdio onde havia um rinque de
patinagem no gelo. O senador continuava ao volante e olhava com
ar sonhador para as quatro figurinhas que corriam; voltou-se para
Sabina e disse, enquanto descrevia com a mo um crculo que englobava o estdio, 
o relvado e as crianas: ??Olhe bem para eles!
Para mim, a felicidade  isto!??.
  As suas palavras no eram s uma expresso da alegria por ver
as crianas a correr e a relva a crescer; eram tambm uma manifestao de 
compreenso para com uma mulher vinda de um pas comunista onde, estava ele 
convencido, a relva no cresce e as crianas no correm.
  Mas, nesse momento, Sabina imaginou o mesmo senador posto
numa tribuna de uma praa de Praga. Tinha no rosto exactamente o
mesmo sorriso que os homens de Estado comunistas faziam, do alto
da sua tribuna, aos cidados igualmente sorridentes que desfilavam
em cortejo a seus ps.





266

8


  Como  que o senador podia dizer que as crianas eram a felicidade? Lia-lhes 
na alma? E se, mal acabassem de sair do seu campo
de viso, trs de entre elas se atirassem  quarta para lhe dar uma
tareia?
  O senador no tinha seno um argumento a favor da afirmao
que fizera: a sua sensibilidade. Quando o corao falou, no convm
que a razo levante objeces. No reino do kirsch, exerce-se a ditadura do 
corao.
  Claro que  necessrio que os sentimentos suscitados pelo kitsch
possam ser partilhados pelo maior nmero possvel de pessoas. Assim, o kitsch 
no apela para o inslito; apela, isso sim, para algumas
imagens-chaves profundamente enraizadas na memria dos homens:
a filha ingrata, o pai abandonado, as crianas a correr num relvado,
a ptria trada, a recordao do primeiro amor.
  O kitsch faz-nos vir duas lgrimas de emoo aos olhos, uma
logo a seguir  outra. A primeira diz: Que coisa bonita, crianas
a correr num relvado!
  A segunda diz: Que coisa bonita, comovermo-nos como toda
a humanidade se comove quando h crianas a correr num relvado!
  S esta segunda lgrima  que faz com que o kitsch seja
o kitsch.
  A fraternidade de todos os homens nunca poder repousar em
nada seno no kitsch.

9

  Os polticos sabem-no melhor do que ningum. Mal vem uma
mquina fotogrfica nas proximidades, precipitam-se para a primeira
criana que esteja ao p, pem-na ao colo e pespegam-lhe um beijo
na bochecha. O kitsch  o ideal esttico de todos os polticos, de
todos os partidos e de todos os movimentos polticos.
  Numa sociedade onde coexistem vrias correntes polticas cuja
influncia se anula ou se limita reciprocamente, sempre se vai conseguindo 
escapar  inquisio do kitsch; o indivduo ainda pode salvaguardar a sua 
individualidade e o artista criar obras inesperadas.
Mas, nos pases onde um nico partido detm todo o poder, no h
escapatria possvel ao imprio do kitsch totalitrio.
  Se digo totalitrio,  porque tudo quanto pode fazer perigar o
kitsch  banido da vida: no s toda e qualquer manifestao de
individualismo (a mais pequena discordncia  um escarro cuspido
em plena cara da risonha fraternidade), toda e qualquer manifestao de 
cepticismo (quem comea por pr um pequeno detalhe em
dvida, acaba por pr em dvida a prpria vida), toda e qualquer
manifestao de ironia (porque no reino do kitsch  tudo para levar
a srio), mas tambm a me que deixou a famlia ou o homem que
gosta mais de homens do que de mulheres e constitui uma ameaa
para o sacrossanto <<amei-vos e multiplicai-vos??.
  Deste ponto de vista, aquilo a que costuma chamar-se gulog pode ser 
considerado como a fossa sptica para onde o kitsch totalitrio despeja a 
porcaria.

10


  Os dez anos que se seguiram  Segunda Guerra Mundial foram a
poca em que o t?rror estalinista se mostrou mais feroz. Foi nessa
poca que o pai de Tereza foi preso por uma coisa de nada e a
mida de dez anos que ela era se viu posta fora de casa. Sabina
tinha, na altura, vinte anos e estudava em Belas-Artes. O professor
de marxismo explicava-lhes, a ela e aos colegas, o seguinte postulado da arte 
socialista: a sociedade sovitica era uma sociedade to
avanada que a sua contradio fundamental tinha deixado de ser
entre o bem e o mal para passar a ser entre o bom e o melhor. A
merda (ou seja, o que  essencialmente inaceitvel) no podia existir
seno ??do outro lado?? (por exemplo, na Amrica) e era s a partir
da, a partir do exterior, e s como um corpo estranho (por exemplo, sob a forma 
de um espio) que podia penetrar no mundo ??dos
bons e dos melhores??.
  Com efeito, nesse tempo cruel como nunca, os filmes soviticos
que inundavam as salas de cinema dos pases comunistas estavam
impregnados de uma inocncia incrvel. O conflito mais grave que
podia haver entre dois russos era o mal-entendido amoroso: ele
pensa que ela j no o ama e ela pensa o mesmo dele. No fim,
caem nos braos um do outro com o rosto banhado em lgrimas de
felicidade.
   conveno aceite, hoje em dia, que esses filmes estavam encarregados de 
pintar o ideal comunista quando a realidade era bem
mais sombria.
  Sabina revoltava-se com esta interpretao. S de pensar que o
universo comunista algum dia pudesse tomar-se uma realidade concreta, onde fosse 
obrigada a viver, ficava toda arrepiada. Preferia de longe o regime comunista 
real, com todas as suas perseguies e
bichas  porta dos talhos. No mundo comunista real, ainda  possvel viver. No 
mundo do ideal comunista feito realidade, nesse
mundo de risonhos cretinos com os quais no poderia trocar uma
palavra, tinha a certeza que, ao fim de uma semana, j tinha rebentado de 
horror.
  Na minha opinio, o sentimento que o kitsch sovitico despertava
em Sabina  semelhante ao terror que Tereza teve daquela vez que
sonhou estar a desfilar  volta de uma piscina com outras mulheres
nuas e era obrigada a cantar alegres canes. Havia cadveres a flutuar dentro 
de gua. No havia uma nica mulher a quem Tereza
pudesse dirigir uma simples palavra, fazer uma simples pergunta. A
nica resposta que ouviria seria a estrofe seguinte. No havia
nenhuma a quem pudesse piscar discretamente o olho. Seria imediatamente apontada 
ao homem que estava por cima da piscina, de p,
dentro de um cesto, para que ele abrisse fogo.
  O sonho de Tereza diz-nos qual  a verdadeira funo do kitsch:
o kitsch  um biombo atrs do qual se esconde a morte.

11


  No reino do kitsch totalitrio, as respostas j esto sempre preparadas e 
excluem toda a pergunta que seja realmente nova. Donde se
infere que o verdadeiro adversrio do kirsch totalitrio  o homem
que pergunta. A interrogao  como uma faca que rasga a tela do
cenrio para permitir que se veja o que est atrs. Foi precisamente
esse o sentido que Sabina deu aos seus quadros numa conversa com

Tereza:  frente, a mentira inteligvel, e, por detrs, a incompreensvel 
verdade.
  S que aqueles que combatem contra os chamados regimes
totalitrios no podem combater com interrogaes e com dvidas. Tambm eles 
precisam da sua certeza e da sua verdade simplista, que tambm tm de ser 
acessveis ao maior nmero possvel
de pessoas e capazes de provocar uma boa secreo lacrimal colectiva.
  Um dia, um certo movimento poltico organizou uma exposio
de pinturas de Sabina na Alemanha. Ao pegar no catlogo, Sabina
viu uma fotografia sua na capa com fios de arame farpado pintados
por cima. Nas pginas de dentro, a sua biografia parecia a hagiografia de um 
mrtir ou de um santo. Tinha sofrido muito, tinha combatido a injustia, tinha 
sido forada a abandonar o seu pas martirizado, mas continuava a lutar. "Com os 
quadros que pinta, luta pela
felicidade??, dizia a ltima frase do texto.
  Protestou, mas no havia ningum que a compreendesse.
  Mas, afinal, no era verdade que o comunismo perseguia a arte
moderna?
  Respondeu, cheia de raiva: ao meu inimigo no  o comunismo!
 o kitsch!??
  A partir de ento, passou a rodear a sua biografia de mistificaes e mais 
tarde, na Amrica, conseguiu mesmo ocultar que era
checa. Era um esforo desesperado para escapar ao kitsch que as
pessoas queriam fabricar com a sua vida.





12


  Est de p diante de um cavalete com um quadro inacabado.
Atrs dela, sentado num sof, encontra-se um velho que segue atentamente com os 
olhos cada uma das suas pinceladas.
  Depois, o homem olha para o relgio e diz: ??Parece-me que so
boas horas de irmos jantar.??
  Poisa a paleta e vai lavar-se  casa de banho. O velho levanta-se
do sof e baixa-se para pegar na bengala que estava encostada a
uma mesa. O atelier d directamente para um relvado. A noite cai.
Do outro lado, mais ou menos a vinte metros, h uma casa branca
de madeira com as janelas do rs-do-cho iluminadas. Sabina comove-se ao ver 
aquelas duas janelas a brilhar no crepsculo.
  Toda a vida afirmou que o seu maior inimigo  o kitsch. Mas
no o trar ela no fundo de seu ser? O seu kitsch  a imagem de
uma casa calma, doce, harmoniosa, onde reina uma me carinhosa e
um pai repleto de sabedoria.  uma imagem que se formou dentro
dela depois da morte dos pais. A vida que teve, bem diferente desse
belo sonho, s lhe serviu para se tornar ainda mais sensvel ao seu
encanto e j chegou mesmo a sentir, por mais de uma vez, os olhos
molhados enquanto, num filme sentimental da televiso, uma filha
ingrata estreitava nos braos um pai abandonado, e, no crepsculo,
brilhava a luz das janelas da casa habitada por uma famlia feliz.
  Conhecera o velhote em Nova Iorque. Era rico e gostava de
pintura. Vivia numa casa isolada no campo com a mulher, to idosa
como ele. Em frente da casa, no mesmo terreno, erguia-se o edifcio
de um antigo estbulo. O velho transformara-o em atelier, oferecera-o a Sabina 
e, desde ento, passava os dias a seguir os movimentos do seu pincel.

  Agora, esto os trs a jantar. A velha trata Sabina por ??minha
filhinha??, mas tudo indica o contrrio: Sabina  que parece uma
me com dois filhos sempre agarrados s suas saias, dois filhos que
sentem uma grande admirao por ela e que, por muito que no lhe
apetea dar ordens, esto sempre prontos a obedecer-lhe.
  Ter ela encontrado  beira da velhice os pais a quem se arrancara quando era 
nova? Ter ela por fim encontrado os filhos que
nunca teve?
  Sabina bem sabe que aquilo.  uma iluso. A estada em casa
daquele velhotes encantadores no  mais do que uma suspenso
temporria na sua caminhada. O velho est gravemente doente e
quando a mulher se vir sem ele ir viver para o Canad para casa
do filho. Sabina retomar o caminho das traies e, de tempos a
tempos, no mais fundo de si prparia, sintilar na insustentvel leveza
do ser uma ridcula cano sentimental que fala de duas janelas iluminadas atrs 
das quais vive uma famlia feliz.
  A cano comove-a, mas Sabina no leva a sua emoo a srio.
Sabe perfeitamente que essa cano no passa de uma linda mentira. No momento em 
que  reconhecido como mentira, o kitsch passa
a situar-se no contexto do no-kitsch. Perde o seu poder autoritrio
e torna-se comovente como qualquer outra fraqueza humana.
Porque nenhum de ns  o super-homem e escapa totalmente ao
kitsch. Por muito que o desprezemos, o kirsch no deixa de ser parte
integrante da condio humana.

13


  A fonte do kirsch  o acordo categrico com o ser.
  Mas qual  o fundamento do ser? Deus? A humanidade? A luta? O amor? O homem? A 
mulher?
  Como, para esta pergunta, h as mais variadas respostas, assim
tambm h as mais variadas espcies de kitsch: o kitsch catlico, o
protestante, o judaico, o comunista, o fascista, o democrtico, o feminista, o 
europeu, o americano, o nacional, o internacional, etc., etc.
  Desde a poca da Revoluo Francesa que metade da Europa diz
que  a esquerda. enquanto a outra metade recebeu a denominao
de direita. Tanto uma noo como a outra so praticamente impossveis de definir 
a partir dos princpios tericos sobre os quais se apoiariam. No  de admirar: 
os movimentos polticos no repousam sobre
atitudes racionais, mas sobre representaes, imagens, palavras, arqutipos, 
que, no seu conjunto, constituem um dado kitsch polirico.
  A ideia da Grande Marcha, com a qual Franz gosta de se inebriar,  o kitsch 
poltico que une todas as pessoas de esquerda de
todos os tempos e de todas as tendncias. A Grande Marcha 
aquela soberba caminhada sempre em frente, a caminhada em direco  
fraternidade,  igualdade,  justia, e ainda mais para l, apesar de todos os 
obstculos, porque para a marcha ser a Grande
Marcha  preciso que haja obstculos.
  Ditadura do proletariado ou democracia? Rejeio da sociedade
de consumo ou aumento da produo? Guilhotina ou abolio da
pena de morte? No. faz diferena. Aquilo que faz de um homem de
esquerda um homem de esquerda no  uma dada teoria, mas a sua
capacidade de fazer com que toda e qualquer teoria se tome parte
integrante do kitsch chamado a Grande Marcha sempre em frente.

14


  Claro que Franz no  o homem do kitsch. A ideia da Grande
Marcha desempenha na sua vida mais ou menos o mesmo papel que
a cano sentimental das duas janelas iluminadas desempenha na vida de Sabina. 
Em que partido poltico votaria Franz? Receio bem
que no votasse em nenhum e que, no dia das eleies, preferisse
fazer uma excurso aos Alpes. O que no quer dizer que a Grande
Marcha tenha deixado de comov-lo.  belo sonhar que se faz parte
de uma multido em marcha, que avana atravs dos sculos, e
Franz nunca esqueceu esse belo sonho.
  Um dia, uns amigos seus de Paris telefonaram-lhe. Estavam a
organizar uma marcha at ao Camboja e convidaram-no a juntar-se-lhes.
  Nessa poca, o Camboja tinha atrs de si uma guerra civil, os
bombardeamentos americanos, as atrocidades perpetradas pelos
comunistas locais, que tinham dizimado um quinto da populao
desse pequeno pas, e finalmente a ocupao levada a cabo pelos
seus vizinhos vietnamitas, cujo governo no passava ento de um
mero vassalo da Rssia. No Camboja havia fome e as pessoas
morriam sem assistncia mdica. As organizaes internacionais de
mdicos j tinham pedido diversas autorizaes para entrar no pas,
mas os vietnamitas tinham-se sempre recusado a isso. Assim, alguns
dos intelectuais mais conhecidos do mundo ocidental decidiram organizar uma 
marcha at  fronteira do Camboja para, com esse
grande espectculo a que todo o mundo assistiria, forarem a admisso dos 
mdicos no pas ocupado.
  O amigo que telefonara a Franz era um daqueles ao lado de
quem desfilava outrora pelas ruas de Paris. Ficou imediatamente entusiasmado com 
o convite, mas logo os seus olhos foram poisar na
universitariazinha de culos. A rapariga estava sentada  sua frente
num sof e os seus olhos ainda pareciam maiores por trs das lentes
redondas. Teve a sensao que eles lhe imploravam que no fosse.
  Mas, mal desligou, comeou a ficar arrependido. Atendera os votos da sua. 
amante terrena, mas negligenciara o seu amor celeste.
O Camboja no era afinal uma variante da ptria de Sabina? No
era um pas ocupado pelo exrcito comunista de um pas vizinho?
Um pas sobre o qual se tinha abatido o punho da Rssia? De repente, pensou que 
aquele seu amigo de quem quase estava j esquecido lhe tinha telefonado a um 
secreto sinal de Sabina.
  As criaturas celestes sabem tudo e vem tudo. Se participasse na
marcha, Sabina v-lo-ia e ficaria contente. Compreenderia que lhe
continuava a ser fiel.
  --Ficavas muito zangada comigo se eu sempre fosse???, perguntou
 sua amiga de culos, para quem cada dia sem ele era um tormento, mas que 
tambm no sabia dizer-lhe que no a nada.
  Alguns dias mais tarde, encontrava-se dentro de um grande
avio no aeroporto de Paris. Entre os passageiros, contava-se uma
vintena de mdicos escoltados por meia centena de intelectuais (professores, 
escritores, deputados, cantores, actores e presidentes de cmaras) e quatro 
centenas de jornalistas e fotgrafos que os acompanhavam.

15

  O avio aterrou em Banguecoque. Os quatrocentos e setenta
mdicos, intelectuais e jornalistas encaminharam-se para o salo de
um hotel internacional, onde j eram esperados por outros mdicos,
actores, cantores e fillogos, acompanhados por outras tantas centenas de 
jornalistas munidos dos seus blocos, gravadores, mquinas fotogrficas e cmaras 
de filmar. No fundo da sala, havia um estrado
e, em cima do estrado, uma mesa muito comprida por detrs da

qual estava sentada uma vintena de americanos que j comeava a
dirigir a reunio.
  Os intelectuais franceses aos quais Franz se juntara sentiam-se
marginalizados e humilhados. A marcha at ao Camboja era uma
ideia deles e eis que os americanos, com uma admirvel naturalidade, estavam a 
tomar conta das operaes e, para cmulo dos cmulos, se punham a falar em 
ingls sem sequer lhes ter passado pela
cabea que podia haver um francs ou um dinamarqus que no os
entendesse.  claro que os dinamarqueses se tinham j esquecido h
muito que foram outrora uma nao, de forma que, de todos os
europeus presentes, s os franceses  que pensaram em protestar.
Gente com princpios como eram, recusavam-se a protestar em ingls e dirigiam-se 
na sua lngua materna aos americanos sentados na
tribuna. No entendendo uma nica palavra, os americanos respondiam-lhes 
afavelmente com sorrisos de aprovao. Por fim, os franceses no tiveram outro 
remdio seno formular as suas objeces
em ingls. ??Porque  que se fala em ingls nesta sala? Tambm
esto c franceses!??
  Os americanos mostraram-se bastante espantados com esta
objeco, mas no deixavam de sorrir e concordaram com que todos

278

os discursos fossem traduzidos. Passou-se um bom bocado  procura
de um intrprete para a reunio poder continuar. Depois disso, como era preciso 
ouvir cada frase primeiro em ingls e depois em
francs, a reunio durou o dobro do tempo previsto ou, a bem dizer, mais do 
dobro, porque todos os franceses sabiam ingls, interrompiam o intrprete, 
corrigiam-no e discutiam com ele palavra por
palavra.
  Com a apario de uma estrela americana no estrado a reunio
atingiu o apogeu. Por sua causa, irromperam pela. sala dentro mais
fotgrafos e camaramen e cada slaba que a actriz pronunciava era
saudada por uma salva de disparos. A actriz falava sobre as crianas
martirizadas, sobre a barbrie da ditadura comunista, sobre o direito
do homem  segurana, sobre as ameaas que pesam sobre os valores tradicionais 
das sociedades civilizadas, e referia como o presidente Carter se sentia 
incomodado com o que estava a passar-se no
Camboja. Disse as ltimas palavras a chorar.
  Nesse momento, um jovem mdico francs de bigodes ruivos
levantou-se e ps-se a vociferar: ??Se aqui estamos  para salvar moribundos! 
No estamos aqui para maior glria do presidente Carter!
Esta manifestao no pode degenerar num circo de propaganda
americana! No viemos aqui para protestar contra o comunismo,
mas para tratar doentes!
  Outros franceses se juntaram ao mdico de bigodes. O intrprete
estava com medo e no se atrevia a traduzir o que eles diziam.
Como h pouco, os vinte americanos do estrado olhavam para eles
com um sorriso cheio de simpatia e alguns deles faziam um sinal de
aprovao com a cabea. Um chegou mesmo a levantar o punho
porque sabia que os europeus tm a mania de fazer esse gesto nos
momentos de euforia colectiva.

16

  Como  que intelectuais de esquerda (porque o mdico do bigode era um 
intelectual de esquerda) se dispem a integrar uma manifestao contra um pas 
comunista quando o comunismo sempre fez

parte integrante da esquerda?
  Na altura em que os crimes perpetrados pelo pas baptizado com
o nome de Unio Sovitica se tornaram escandalosos de mais, o
homem de esquerda ficou perante uma alternativa: ou renegar a sua
vida anterior e renunciar a desfilar, ou (com maior ou menor dificuldade) 
arrumar a Unio Sovitica entre os outros obstculos 
Grande Marcha e continuar a desfilar.
  J disse uma vez que o que faz com que a esquerda seja a esquerda  o kitsch 
da Grande Marcha. A identidade do kitsch no 
determinada por uma estratgia poltica, mas por imagens, por metforas, por 
certo vocabulrio. Portanto,  possvel transgredir o hbito e desfilar contra 
os interesses de um pas comunista. Mas no 
possvel substituir as palavras por outras palavras. Pode erguer-se o
punho contra o exrcito vietnamita. Mas no gritar-lhe: ??Abaixo o
comunismo!>? Porque c?Abaixo o comunismo!?>  a palavra de ordem
dos inimigos da Grande Marcha, e quem no quer perder a vergonha tem de 
continuar fiel  pureza do seu prprio kirsch.
  No digo isto seno para explicar o mal-entendido entre o mdico francs e a 
estrela americana que, no seu egocentrismo, julgava
estar a ser vtima de invejosos ou misgenos. Na realidade, o mdico francs 
dava provas de uma grande sensibilidade esttica: as palavras ??o presidente 
Carter??, ??os nossos valores tradicionais??, ??a
barbrie do comunismo?? faziam parte do kitsch americano e no
tinham nada a ver com o kitsch da Grande Marcha.

280

17


  No dia seguinte, pela manh, subiram todos para as camionetas
nas quais teriam de atravessar a Tailndia antes de chegar  fronteira do 
Camboja.  noite, pararam numa pequena aldeia, onde lhes
estavam reservadas umas casas construdas sobre pilares. O rio, que
tinha cheias muito perigosas, obrigava a populao a morar l em
cima, enquanto em baixo, ao p das estacas, ficavam os porcos.
Franz dormiu com mais quatro professores universitrios. Vindos de
baixo, chegavam-lhe aos ouvidos oS grunhidos dos porcos, enquanto,
a seu lado, resssonava um ilustre matemtico.
  De manh, toda a gente voltou .para os autocarros. O trnsito
estava proibido a dois quilmetros da fronteira. S havia uma estrada muito 
estreita que ia at ao posto fronteirio defendido pelo
exrcito. Ao descer, os franceses constataram que tinham sido mais
uma vez ultrapassados pelos americanos, que j os esperavam  cabea do cortejo. 
Foi o momento mais delicado. O intrprete teve
que intervir outra vez e a discusso l prosseguiu ao ritmo do costume. Chegaram 
finalmente a um compromisso: um americano, um
francs e o intrprete iam  frente. Logo a seguir, vinham os mdicos e, na 
cauda, os outros; era tambm a que devia incorporar-se a
estrela americana.
  A estrada era muito estreita e ladeada de campos de minas. De dois
em dois minutos, deparava-se-lhes uma chicana: dois blocos de beto coroados de 
arame farpado apenas deixavam no meio uma
passagem muito acanhada. Tiveram de seguir em fila indiana.
  Mais ou menos cinco metros  frente de Franz, marchava um
clebre poeta e cantor pop alemo que tinha no activo novecentas e
trinta canes a favor da paz e contra a guerra. Na ponta de uma comprida haste, 
levava uma bandeira branca, que lhe ficava a matar

com a enorme barba preta' e, ao mesmo tempo, servia para distingui-lo dos 
demais.
  Fotgrafos e camaramen corriam para trs e para diante ao longo
do cortejo. Com os aparelhos a disparar e a ronronar, lanavam-se
para a frente, paravam, recuavam, punham-se de ccoras, e logo
voltavam a correr para a frente. De tempos a tempos, pronunciavam
aos gritos o nome de uma celebridade; 'o interpelado voltava-se maquinalmente na 
sua direco e nesse preciso instante carregavam no
boto.


18


  Cheirava a acontecimento. As pessoas diminuam o ritmo da
passada e voltavam-se para trs.
  A estrela americana, que fora colocada na cauda do cortejo, recusava-se a 
suportar por mais tempo to grande humilhao e decidiu passar ao ataque. Era 
como nos cinco mil metros, quando um
corredor, que veio a poupar foras na cauda do peloto, avana para a frente e 
ultrapassa todos os adversrios.
  Os homens sorriam com um ar incomodado e afastavam-se para
permitir a vitria da ilustre sprinter, mas houve mulheres que se puseram aos 
gritos: --Volte imediatamente para o seu lugar! Isto no 
um manifestao para estrelas de cinema!??
  A actriz no se deixou intimidar e continuou a correr para a frente,
seguida por cinco fotgrafos e dois camaramen. Uma francesa, professora de 
lingustica, agarrou a actriz pelos pulsos e disse-lhe (num pssimo
ingls): --Quem vem aqui a desfilar so mdicos que querem salvar a
vida aos cambojanos! Isto no  um show de estrelas de cinema!??
  A actriz tinha o pulso preso numa espcie de torniquete e no
tinha fora suficiente para se libertar.
  Disse (num excelente ingls): --V-se foder! J participei em
milhares de desfiles! As estrelas de cinema so sempre bem acolhidas!  o nosso 
trabalho!  o nosso dever moral!??
  - Merda?>, disse a professora de lingustica (num excelente francs).
  A estrela americana percebeu e desfez-se em lgrimas.
  --Dei?ce-se estar assim mesmo??, gritou um camaraman ajoelhado 
frente dela.
  A estrela fixou longamente a objectiva; as lgrimas corriam-lhe
pela cara abaixo.

19

  A professora de lingustica sempre acabou por largar o pulso da
estrela americana. O cantor alemo da barba preta e da bandeira
branca desatou aos gritos a chamar por ela.
  A estrela nunca tinha ouvido falar dele, mas, nesse momento de
humilhao, mostrou-se mais sensvel do que p costume s manifestaes de 
simpatia e lanou-se na sua direco. O poeta-cantor ps
o pau de bandeira na mo esquerda para poder passar o brao direito pelos ombros 
da actriz.
  Fotgrafos e camaramen saltitavam em torno da actriz e do
cantor. Um clebre fotgrafo americano queria apanhar as duas caras e a bandeira 
ao mesmo tempo, o que no era fcil por causa da
altura do pau. Ps-se a recuar a toda a velocidade no arrozal.
Calcou uma mina. Ouviu-se uma exploso e o seu corpo desfeito em
pedaos voou pelos ares, aspergindo com uma chuvada de sangue a

intelligentsia internacional.
  O cantor e a actriz ficaram apavorados e pregados ao mesmo lugar.
Ambos ergueram os olhos para a bandeira. Estava toda salpicada de sangue. 
Primeiro, o espectculo no serviu seno para ficarem
ainda mais aterrorizados. Depois, a pouco e pouco, comearam timidamente a 
levantar os olhos e a sorrir. Sentiam um estranho orgulho, um orgulho que at 
ento desconheciam, por levarem uma
bandeira santificada pelo sangue. Voltaram a pr-se em marcha.

20


  A fronteira era constituda por um ribeiro que no se via, porque
estava tapado a todo o comprimento com um muro de metro e meio
de altura, em cima do qual havia sacos de areia para os atiradores
tailandeses se protegerem. S no havia muro no stio em que uma
ponte em arco atravessava o rio. Mas ningum devia aproximar-se
dela. Embora se no vissem, havia tropas vietnamitas de ocupao
perfeitamente camufladas do outro lado do rio. Ningum duvidava
que os invisveis vietnamitas comeariam imediatamente a disparar
assim que qualquer pessoa tentasse atravessar a ponte.
  Alguns membros do cortejo chegaram ao p do muro e, apoiando-se nele, 
iaram-se no bico dos ps. Franz apoiou-se num intervalo aberto entre dois sacos 
e tentou ver alguma coisa. Mas no
conseguiu ver nada porque foi imediatamente empurrado por um
fotgrafo que achava que tinha o direito de lhe tirar o lugar.
  Voltou-se para trs. Como gralhas gigantes com os olhos fixos na
outra margem, havia sete fotgrafos poisados nos ramos de uma rvore solitria.
  Nesse momento, o intrprete que ia  cabea do desfile aplicou
os lbios a um megafone e ps-se a gritar para a outra margem, em
kmer: h aqui mdicos que exigem que lhes dem autorizao para
entrar em territrio cambojano para prestar assistncia mdica. Isto
no  uma ingerncia poltica. S vm guiados pelo amor  vida
humana!
  A resposta da outra margem foi um silncio incrvel. Um silncio
to absoluto que todos se sentiram presa da angstia. S os disparos
das mquinas fotogrficas continuavam a soar no meio daquele silncio como o 
canto de um insecto extico.
  Franz teve bruscamente a impresso de que a Grande Marcha
estava a chegar ao fim. As fronteiras do silncio voltavam a fechar-se sobre a 
Europa, e a Grande Marcha j no desfilava seno em
cima de um pequeno estrado no centro do planeta. As multides
que outrora se acotovelavam ao p do estrado tinham partido h
muito e a Grande Marcha continuava sozinha e sem espectadores.
Sim, pensava Franz, a Grande Marcha continua, apesar da indiferena do mundo, 
mas est a tornar-se nervosa, febril, ontem contra a
ocupao do Vietname pelos americanos, hoje contra a ocupao do
Camboja pelos vietnamitas, ontem para apoiar Israel, hoje pelos palestinianos, 
ontem para apoiar Cuba, amanh contra Cuba, e sempre
contra a Amrica, sempre contra os massacres e sempre em apoio a
outros massacres, continua a Europa sempre a desfilar, e para poder
acompanhar o ritmo dos acontecimentos sem falhar um nico acelera cada vez mais 
o passo, de modo que a Grande Marcha j s  um
cortejo de gente apressada a desfilar a galope, e a cena cada vez se
encolhe mais, at ao dia em que finalmente h-de tornar-se apenas
um ponto sem dimenses.





286

21


  O intrprete voltou a fazer o apelo com o megafone. Como da
primeira vez, a nica resposta que obteve foi um enorme silncio,
um silncio infinitamente indiferente.
  Franz olhava em torno de si. Toda a gente sentia aquele silncio
como uma bofetada na cara. O prprio cantor da bandeira branca e
a prpria actriz americana se mostravam incomodados e hesitantes.
  Franz teve subitamente conscincia do ridculo daquela gente toda,
mas isso no o distanciava deles, no lhe inspirava ironia nenhuma; muito
pelo contrrio, sentia por eles um imenso amor, como o amor que se tem
por condenados. Sim, a Grande Marcha chegou ao fim, mas isso  uma
razo suficiente para Franz a trair? A prpria vida dele tambm no est a
chegar ao fim? Dever achar apenas irrisrio o exibicionismo daqueles que
acompanharam at  fronteira alguns mdicos corajosos? Podero todos
eles fazer outra coisa seno dar espectculo? Resta-lhes algo de melhor?
  Franz tem razo. Faz-me pensar naquele jornalista que andava a organizar em 
Praga uma campanha de assinaturas para conseguir a amnistia
dos presos polticos. Tinha perfeita conscincia de que a campanha no
ajudaria os presos. O seu verdadeiro objectivo no era libertar presos,
mas mostrar que ainda havia gente sem medo. Dava espectculo, mas no
podia fazer outra coisa. No podia escolher entre a aco e o espectculo.
S tinha uma escolha: dar espectculo ou no fazer nada. H situaes em
que o homem est condenado a dar espectculo. A sua luta contra o poder
silencioso (contra o poder silencioso do outro lado do ribeiro, contra a
polcia metamorfoseada em microfones mudos escondidos na parede) 
como um grupo de teatro a fazer frente a um exrcito.
  Franz viu o seu amigo da Sorbonne erguer o punho e ameaar com
ele o silncio da outra margem.

22

  Pela terceira vez, o intrprete lanou o apelo com o seu megafone.
  E de novo apenas o silncio lhe respondeu, transformando subitamente a 
angstia de Franz numa raiva frentica. Encontrava-se a
uma dzia de passos da ponte que separava a Tailndia do Camboja
e tinha uma vontade enorme de precipitar-se para ela, de lanar aos
cus injrias tremendas e de morrer sob a barulheira infernal das
rajadas de metralhadora.
  Este repentino desejo de Franz faz-nos lembrar qualquer coisa;
sim, faz-nos lembrar o olho de Estaline a lanar-se de encontro ao
arame farpado e electrificado porque no podia suportar que os plos da 
existncia humana estivessem prximos a ponto de se tocar, a
ponto de j no haver diferena entre o nobre o o abjecto, entre o
anjo e a mosca, entre Deus e a merda.
  Franz no podia admitir que a glria da Grande Marcha se reduzisse afinal  
cmica pretenso de pessoas a desfilar e que a grandiosa barulheira da histria 
europeia desaparecesse num silncio infinito, num silncio to grande que j no 
h diferena nenhuma
entre a histria e o silncio. Poria a sua prpria vida na balana
para provar que a Grande Marcha pesa mais do que a merda.

  Mas uma coisa dessas no se pode provar. Quando num dos pratos da balana 
havia a merda, o filho de Estaline atirou-se com todo
o peso do seu corpo para cima do outro prato e a balana nem
sequer se mexeu.
  Em vez de correr para a morte, Franz baixou a cabea e voltou
em fila indiana com os outros para o autocarro.

23


  Todos ns temos necessidade de ser olhados. Podamos ser divididos em quatro 
categorias consoante o tipo de olhar sob o qual
desejamos viver.
  A primeira procura o olhar de um nmero infinito de olhos annimos ou, por 
outras palavras, o olhar do pblico.  o caso do
cantor alemo e da estrela americana, como  tambm o caso do
jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e
quando o semanrio foi proibido pelos russos teve a impresso de
ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ningum
podia substituir os olhos annimos. Sentia-se quase a sufocar, at
que um dia percebeu que a polcia lhe seguia todos os passos, que o
seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente
fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos annimos a
acompanharem-no: j podia voltar a respirar! Interpelava num tom
teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na
polcia o pblico que julgava ter perdido para sempre.
  Na segunda categoria, incluem-se aqueles que no podem viver
sem o olhar de uma multido de olhos familiares. So os incansveis
organizadores de jantares e de cocktails. So mais felizes que os da
primeira categoria porque, quando estes perdem o pblico, imaginam que as luzes 
se apagaram para sempre na sala da sua vida.
 o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, 
estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os
olhares de que precisam. Marie-Claude e a filha so deste gnero.
  Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que
precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condio
 to perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se 
fecham, a sala fica mergulhada na escurido.
 neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.
  Finalmente, h uma quarta categoria, bem mais rara, que so
aqueles que vivem sob os olhares imaginrios de seres ausentes. So
os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi at  fronteira cambojana
unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada
tailandesa faz baloiar violentamente, s sente o seu longo olhar
poisado em si.
  O filho de Tomas pertence  mesma categoria. Chamar-lhe-ei
Simo. (Vai com certeza gostar de ter um nome bblico como o
pai.) O olhar a que aspira,  o olhar dos olhos de Tomas. Por ter-se
comprometido com a campanha de assinaturas, foi expulso da faculdade. Namorava a 
sobrinha de um praco de aldeia. Casou-se com
ela, tornou-se motorista de tractor numa cooperativa, catlico praticante e pai 
de famlia. Soube que Tomas tambm vivia no campo e
ficou feliz com isso. Afinal o destino tomara as suas vidas simtricas! Foi o 
que o incitou a escrever-lhe uma carta. No pedia resposta. No queria seno uma 
coisa: que Tomas pousasse o olhar dele
sobre a sua vida.

24


  Franz e Simo so os sonhadores deste romance. Ao contrrio
de Franz, Simo no gostava da me. Desde a infncia que andava
 procura do pai. Sempre esteve pronto a acreditar que a injustia
que o pai lhe fizera fora forosamente provocada por uma ofensa
qualquer. Nunca lhe quisera mal por causa disso, recusando-se sempre a aliar-se 
 me, que passava o tempo a dizer mal de Tomas.
  Viveu com ela at aos dezoito anos e, depois de acabar o liceu,
foi estudar para Praga. Nessa altura, j Tomas andava a lavar janelas. Simo 
tentou variadssimas vezes provocar um encontro fortuito
na rua com ele. Mas o pai nunca parava.
  Se se ligara ao jornalista de queixo de rabeca fora unicamente
porque este lhe lembrava o destino do pai. O jornalista nem sequer
sabia o nome de Tomas. O artigo sobre dipo tinha cado no esquecimento e s se 
lembrou da sua existncia quando Simo lhe pediu para
ir com ele propor ao pai que assinasse a petio. O jornalista aceitou
apenas para ser agradvel ao rapaz, de quem gostava bastante.
  Quando pensava nesse encontro, Simo tinha vergonha do seu
nervosismo. Com certeza que o pai no gostara dele. Em contrapartida, o pai 
tinha-lhe agradado bastante. Lembrava-se de tudo quanto
ele dissera, palavra por palavra, e cada vez lhe dava mais razo.
Tinha sobretudo uma fase gravada na memria: ??Castigar os que
no sabiam o que estavam a fazer,  pura barbaridade." Quando o
tio da namorada lhe ps uma Bblia entre as mos, saltou-lhe logo
aos olhos o pedido de Jesus: ??Perdoai-lhes, que eles no sabem o
que fazem.?? Bem sabia que o pai era ateu, mas a semelhana das
duas frases funcionou para ele como um sinal secreto: o pai aprovava a via que 
ele escolhera.
  At ao fim dos seus dias, Sabina nunca mais deixar de receber
cartas desse triste epistolgrafo aldeo. Muitas no sero sequer
abertas, porque o pas de onde  originria lhe interessa cada vez
menos.
  O velhote morreu e Sabina foi viver para a Califrnia. Sempre
mais para ocidente, sempre cada vez mais longe da Bomia.
  Os seus quadros tm boa aceitao e ela gosta bastante da Amrica. Mas s  
superfcie. Por baixo, h todo um mundo que lhe 
estranho. Sob aquela terra, no tem nem antepassados, nem tios.
Tem medo que a encerrem dentro de um caixo e a enterrem debaixo dela.
  Fez, portanto, um testamento onde estipula que o seu corpo dever ser queimado 
e as suas cinzas deitadas ao vento. Tereza e Tomas morreram sob o signo do peso. 
Ela quer morrer sob o signo da
leveza. Ser mais leve do que o ar. Segundo Parmnides,  a transformao do 
negativo em positivo.



26


  A camioneta parou finalmente diante de um hotel de Banguecoque. J ningum 
tinha vontade de fazer reunies. As pessoas
espalharam-se em pequenos grupos pela cidade, uns para visitar
templos, outros para irem aos bordis. O amigo da Sorbonne props
a Franz que passassem a noite juntos, mas Franz preferia ficar
sozinho.
  Caa a noite quando saiu. Pensava continuamente em Sabina e
sentia poisado em si o seu longo olhar, sob o qual comeava sempre
a duvidar de si prprio, porque nunca sabia o que Sabina de facto
pensava. Mais uma vez esse olhar comeava a confundi-lo. No estaria ela a fazer 
troa dele? No acharia estpido aquele culto que
lhe votava? No quereria dizer-lhe que j era tempo de comportar-se com adulto e 
consagrar-se por inteiro  namorada que ela prpria lhe enviara?
  Tentou imaginar-lhe o rosto com os seus enormes culos redondos. Agora, sim, 
avaliava bem quanto era feliz com a sua universitariazinha. A viagem ao Camboja 
parecia-lhe de sbito ridcula e
insignificante; No fundo, porque  que ali estava? Agora j sabia.
Tinha sido preciso aquela longa viagem para compreender finalmente que a sua 
vida verdadeira, a sua nica vida real, no eram
nem os desfiles, nem Sabina, mas a sua universitariazinha de culos!
Tinha sido preciso aquela longa viagem para entender que a realidade  mais do 
que o sonho, mesmo bem mais do que o sonho.
  Depois, emergiu da sombra uma figura que lhe dirigiu algumas
palavras numa lngua desconhecida. Observava-a com uma mescla
de espanto e compaixo. O desconhecido curvava-se, sorria e no se
cansava de algaraviar. O que estaria ele a dizer-lhe? Pareceu-lhe

294

que estava a pedir-lhe que o seguisse. O homem pegou-lhe na mo
e arrastou-o atrs de si. Franz pensou que algum devia precisar da
sua ajuda. Afinal, talvez aquela viagem no tivesse sido de todo intil. Afinal, 
talvez ali estivesse para responder ao apelo de algum.
  De sbito, surgiram outros dois tipos ao lado do homem que
continuava a algaraviar e um deles ordenou em ingls, a Franz, que
lhe desse dinheiro.
  Nesse momento, a rapariga dos culos desvaneceu-se do campo
da sua conscincia. Era de novo Sabina que olhava para ele, aquela
irreal Sabina com o seu destino grandioso, aquela Sabina diante da
qual se sentia sempre pequenino. Tinha os olhos postos nele, colricos e 
descontentes: mais uma vez se tinha deixado enganar? Mais
uma vez abusavam da sua estpida bondade?
  Com um gesto brusco, desembaraou-se do homem que o agarrava pela manga. Sabia 
que Sabina sempre gostara da sua fora.
Agarrou no brao com que o segundo homem o ameaara. Apenou-o com fora e, 
executando um golpe de judo perfeito, f-lo revoltear sobre a cabea.
  Agora, sim, sentia-se contente consigo prprio. Os olhos de Sabina no o 
largavam. Nunca mais o veriam ser humilhado! Nunca
mais o veriam recuar! Franz nunca mais havia de ser fraco e piegas.
  Sentia um dio quase alegre por aqueles homens que tinham
querido aproveitar-se da sua ingenuidade. Mantinha-se ligeiramente
dobrado e no os largava de vista. Mas, de repente, bateram-lhe

com uma coisa pesada na cabea e ele caiu ao cho. Percebeu vagamente que o 
levavam para um stio qualquer. Depois, atiraram com
ele para o vazio. Sentiu um choque violento e perdeu os sentidos.
  Acordou muito mais tarde num hospital de Genebra. Marie-Claude estava 
debruada sobre a cama. Quis dizer-lhe que no
queria v-la ao p de si. Queria que algum fosse prevenir imediatamente a 
universitariazinha de culos. S pensava nela e em mais
ningum. Queria gritar que no podia ver mais ningum  sua cabeceira. Mas 
constatou com pavor que no conseguia falar. Olhava
para Marie-Claude com um olhar transbordante de dio e queria
virar-se para a parede para no ser obrigado a v-la. Mas no
conseguia mexer-se. Tentou voltar a cabea. Mas nem com a cabea
podia fazer o menor movimento. Fechou os olhos para no ver a
mulher.

27

  Finalmente, depois de morto, Franz pertence  sua esposa legtima como nunca 
lhe pertenceu em vida. De tudo Marie-Claude se
encarrega: organiza as obsquias, pe participaes no correio, encomenda coroas 
de flores e manda fazer um vestido preto que, na
realidade, no  seno um vestido de casamento. Sim, para a esposa, o enterro do 
marido  finalmente o seu verdadeiro casamento
com ele! O apogeu da sua vida! A recompensa de todos os seus
sofrimentos!
  Alis, o prprio pastor o compreende e, sobre a campa de
Franz, fala do indefectvel amor conjugal que, embora sujeito a duras provas, 
permaneceu sempre para o defunto, at ao fim dos seus
dias, um porto seguro onde encontrou abrigo no ltimo momento.
Mesmo o colega de Franz, a quem Marie-Claude pediu para pronunciar umas breves 
palavras, presta sobretudo homenagem  corajosa esposa do defunto.
  Muito mais atrs, toda encolhida, amparada por uma amiga,
encontra-se a rapariga dos enormes culos redondos. Engoliu tantas
lgrimas e tomou tantos comprimidos que, antes do fim da cerimnia,  acometida 
de convulses. Agarrada  barriga, toda curvada,
tem de sair do cemitrio ajudada pela amiga.

28


  Assim que recebeu o telegrama do presidente da cooperativa,
saltou para a motorizada e fez-se ao caminho. Foi ele que se encarregou do 
enterro. Mandou gravar no jazigo a seguinte inscrio,
mesmo por baixo do nome do pai: Ele queria o reino de Deus sobre
a Terra.
  Sabia perfeitamente que o pai nunca empregaria tais palavras para exprimir 
aquela ideia. Mas tinha a certeza que elas exprimiam
exactamente o que o seu pai queria. O reino de Deus significa justia. Tomas 
tinha sede de um mundo onde reinasse a justia. Simo
tinha ou no o direito de exprimir a vida do pai no seu prprio
vocabulrio? Desde tempos imemoriais, no  precisamente esse o
direito dos herdeiros?
  Aps um longo desvario, o regresso, l-se no jazigo de Franz.
Esta inscrio pode ser lida como um smbolo religioso: o desvario na
vida terrestre, o regresso aos braos de Deus. Mas os iniciados sabem que a 
frase tambm tem um sentido totalmente profano. Alis,
Marie-Claude todos os dias se refere a ele.
  Franz, o seu querido Franz, o seu bom Franz, no suportou a
crise dos cinquenta anos. Caiu nas garras de uma pobre rapariga.

Ela nem sequer era bonita (repararam bem naqueles enormes culos
por detrs dos quais ela mal se v?). Mas um homem de cinquenta
anos (como todos ns sabemos) chega a ser capaz de vender a alma
por um pedao de carne tenra. S a sua prpria mulher sabe o que
isso o fez sofrer! Aquilo era uma autntica tortura moral para ele!
Porque, bem l no fundo, Franz era um homem bom e honesto.
Que mais pode explicar essa viagem absurda e desesperada quele
canto perdido da sia? Foi l  procura da morte. Sim, Marie O que restou dos 
moribundos do Camboja?
  Uma grande fotografia da estrela americana com um beb amarelo nos braos.
  O que restou de Tomas?
  Uma inscrio: Ele queria o reino de Deus sobre a Terra.
  O que restou de Beethoven?
  Um homem carrancudo com uma cabeleira inverosmil a pronunciar solenemente um: 
??Es muss sein!??
  O que restou de Franz?
  Uma inscrio: Aps um longo desvario, o regresso.
  E sempre assim por diante. E sempre assim por diante. Antes de
nos esquecerem, ho-de transformar-nos em kitsch. O kitsch  a estao de 
correspondncia entre o ser e o esquecimento.



STIMA PARTE

U SORRISO DE KARENINE





  A janela dava para uma encosta onde aqui e alm despontavam
os corpos retorcidos das macieiras. Por cima da encosta, a floresta
adensava o horizonte e, mais ao longe, perdiam-se na distncia as
curvas das colinas. Ao fim da tarde, aparecia no plido cu uma
Lua branca e esse era o momento que Tereza escolhia para vir 
porta. A Lua, assim suspensa no cu ainda claro, era como um
candeeiro que se tivessem esquecido de apagar de manh e que
continuasse aceso durante todo  dia no quarto dos mortos.
  As macieiras, com os seus corpos retorcidos, tinham cada uma o
seu lugar na encosta e nenhuma delas poderia deixar nunca o stio
onde criara razes, tal como Tereza e Tomas nunca mais poderiam
deixar a aldeia. Tinham vendido o automvel, o aparelho de televiso, o rdio, 
para poderem comprar uma casita com jardim a um
campons que fora instalar-se na cidade.
  Ir viver para o campo era a nica possibilidade de evaso que
lhes restava porque, embora l se fizesse sentir permanentemente
uma grande falta de braos, as casas nunca faltavam. Ningum se
interessava pelo passado poltico de quem se sujeitava a ir trabalhar
para o campo ou para as zonas florestais e tambm ningum os
invejava.
  Tereza sentia-se feliz por ter deixado a cidade e por se encontrar
longe no s do bar e dos bbados como tambm das desconhecidas
que impregnavam com o cheiro dos seus sexos o cabelo de Tomas.
A polcia desistira de se interessar por eles e como a histria do
engenheiro se confundia na sua memria com o episdio do Monte-de-Pedra, mal 
distinguia j o sonho da realidade. (Alis, o engenheiro estaria realmente ao 
servio da polcia secreta? Talvez sim, talvez no. O que no faltam so homens 
para pedir apartamentos
emprestados para as suas entrevistas ntimas e que no gostam de ir
para a cama mais de uma vez com a mesma mulher.)
  Portanto, Tereza era feliz e sentia que as coisas quase se passavam tal e qual 
como sempre tinha querido: Tomas e ela estavam os
dois juntos e sozinhos. Sozinhos? Sou forado a ser um pouco mais
exacto: aquilo a que chamo solido  ao facto de terem cortado todas
as relaes com amigos e conhecidos. Tinham cortado a vida deles
como se corta um bocado de fita. Mas sentiam-se bem na companhia
dos camponeses com quem trabalhavam, a casa de quem iam de
  tempos a tempos e que tambm convidavam para vir a sua casa.
  No dia em que travara conhecimento com o presidente da cooperativa, nas termas 
cujas ruas tinham sido todas baptizadas com
nomes russos, Tereza descobrira de repente dentro de si prpria a
imagem do campo que as leituras e os antepassados l tinham deixado gravada. Um 
universo harmonioso, cujos membros so uma grande famlia com os mesmos 
interesses e os mesmos hbitos: a missa
ao domingo, a estalagem onde os homens vo sozinhos, e o salo
dessa mesma estalagem onde, ao sbado, h um grupo musical e toda
a gente da aldeia vai danar.

  Com o comunismo, a aldeia passou a ser completamente diferente desta imagem 
secular. A igreja era na outra freguesia e ningum
l ia, a estalagem fora aproveitada para os servios administrativos,
os homens deixaram de ter um 'stio para se encontrar e beber uma
cerveja, a gente nova deixara de ter um stio para danar. As festas
religiosas foram proibidas e as festas oficiais no interessavam a
ningum. O cinema mais prximo era na cidade, a vinte quilmetros
de distncia. Depois de acabado o dia de trabalho, durante o qual
as pessoas se interpelavam alegremente e aproveitavam os intervalos
para conversar, os camponeses fechavam-se dentro das quatro paredes das suas 
casitas decoradas com mobilirio moderno, de onde o
mau gosto soprava como uma corrente de ar, e por l se deixavam
ficar parados, de olhos postos no cran da televiso. No iam a casa
uns dos outros e s de tempos a tempos saam para dar um dedo de
conversa ao vizinho antes da ceia. Todos sonhavam em ir para a
cidade. O campo no oferecia nada daquilo que poderia dar um
bocadinho de interesse  vida.
  Talvez por ningum querer fixar-se no campo  que o Estado
perdeu toda e qualquer autoridade sobre ele. Tendo passado de proprietrio de um 
naco de terra a simples operrio do campo, o agricultor deixou de sentir 
qualquer espcie de ligao com a paisagem
e com o trabalho, deixou de ter qualquer coisa a perder, deixou de
ter qualquer coisa que possa ter medo de perder. Graas a essa
indiferena, o campo manteve uma margem considervel de autonomia e de 
liberdade. O presidente da cooperativa no  algum imposto de fora (como todos 
os responsveis o so na cidade), mas 
eleito pelos camponeses e  sempre um deles.
  Como toda a gente queria ir-se embora, Tereza e Tomas estavam numa posio 
excepcional porque tinham vindo de livre vontade. Enquanto os outros 
aproveitavam sempre a mais pequena oportunidade para passar um dia nas terras 
das redondezas, Tereza e
Tomas no queriam seno ficar onde estavam e no tardaram a
conhecer melhor os habitantes da aldeia do que eles prprios se
conheciam entre si.
  O presidente da cooperativa tornou-se mesmo um amigo ntimo.
Tinha mulher, quatro filhos e um porco amestrado como um co.
O porco chamava-se Mefistfeles e era a glria e a principal atraco da aldeia. 
Obedecia ao que lhe diziam, era cor-de-rosa, andava
sempre todo bem asseado e l se ia equilibrando em cima dos seus
cascozitos como uma mulher de pernas gordas em cima dos saltos
altos. A primeira vez que Karenine viu Mefistfeles ficou todo
desconcertado e passou um bom bocado a farej-lo. Mas em breve
se tomou de amizades pelo porquito e passou a dar-se melhor com
ele do que com os ces da aldeia, pelos quais sentia um desprezo
soberano por estarem sempre presos s suas casotas, a ladrar estupidamente sem 
razo para isso. Karenine sabia apreciar as raridades
pelo seu justo valor e quase me sinto tentado a dizer que tinha um
certo orgulho naquela sua amizade com o porco.
  O presidente da cooperativa sentia-se ao mesmo tempo feliz por
poder ajudar o mdico que o operara e infeliz por no poder faz-lo
melhor. Tomas era motorista de camio, levava os agricultores para
o campo ou transportava-lhes o material.
  A cooperativa tinha quatro grandes edifcios destinados ao gado
e ainda um pequeno estbulo com quarenta vitelas. Estas tinham
sido confiadas a Tereza, que as levava a pastar duas vezes por dia.
Como os prados mais prximos e acessveis se destinavam  produo de feno, 
Tereza tinha de levar o rebanho para os montes. As
vitelas iam pastando a erva de prados cada vez mais afastados e,
assim, Tereza ia percorrendo com elas ao longo de todo o ano os

campos que rodeavam a aldeia. Como dantes costumava fazer na
sua cidadezinha, andava sempre com um livro na mo; uma vez nas
  pastagens, abria-o e punha-se a ler.
  Karenine ia sempre com ela. Tinha aprendido a ladrar s vitelas
  mais tontas que queriam afastar-se das outras; era bem evidente o
  prazer que isso lhe dava. Dos trs, o co era o mais feliz. Nunca a
  'sua funo de ??chanceler do relgio?? fora to respeitada como aqui,
  onde no havia lugar para qualquer improvisao. Aqui, o tempo
  em que Tomas e Tereza viviam aproximava-se da regularidade do
  tempo de Karenine.
  Um dia, a seguir ao almoo (era nessa altura que ambos tinham
  uma hora livre), foram dar um passeio com Karenine pela encosta
que ficava atrs da casa.
  c?No estou a gostar nada da maneira como ele est a correr??,
disse Tereza.
  Karenine coxeava da pata esquerda. Tomas baixou-se e apalpou-lhe a pata. 
Descobriu um pequeno caroo na coxa.
  No dia seguinte, sentou-o ao seu lado no camio e levou-o a um
veterinrio de uma aldeia vizinha. Tornou a passar por l uma semana mais tarde 
e, quando voltou, anunciou que Karenine tinha um
cancro.
  Trs dias depois, ele e o veterinrio operaram-no. Quando o
trouxe para casa, Karenine ainda no tinha acordado depois da
anestesia. O co estava deitado com os olhos abertos e gemia. Tinha
os plos da coxa rapados e uma cicatriz com seis pontos.
  Pouco tempo depois, tentou levantar-se. Mas em vo.
  Tereza teve medo: e se ele nunca mais pudesse andar?
  ?<No tenhas medo, ele ainda est sob o efeito da anestesia??,
disse Tomas.
  Ela tentou levant-lo, mas Karenine cerrou os maxilares. Era a
primeira vez que tentava mord-la!
  ??No sabe quem tu s. No te reconhece??, disse Tomas.
  Estenderam-no ao p da cama e, em breve, ele ficou sossegado.
Por seu turno, tambm Tomas e Tereza adormeceram.
  Acordou-os de repente, por volta das trs da manh. Estava em
cima deles, com o rabo a abanar. Esfregava-se neles selvaticamente,
incansavelmente.
  Tambm era a primeira vez que os acordava! Esperava sempre
que um dos dois acordasse antes de saltar para a cama.
  Mas, desta vez, no se contivera quando, de repente, a meio da
noite, ficara finalmente acordado de todo. De que longnquas paragens voltaria? 
Que es?ectros teria enfrentado? E agora, ao perceber
que estava em casa, ao reconhecer os seres que lhe eram mais familiares, no 
conseguiu conter-se e teve de comunicar-lhe a sua terrvel alegria, a alegria 
que lhe dava estar de regresso e ter nascido
outra vez.

2

  Logo no comeo do Gnesis, est escrito que Deus criou o homem para que ele 
reinasse sobre os pssaros, os peixes e o gado.
 claro que o Gnesis  obra do homem e no do cavalo. Ningum
pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre 
todas as outras criaturas. O mais provvel  que
o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre
a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na
verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca  a nica coisa

que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras 
mais sangrentas.
   um direito que s nos parece natural porque quem est no
topo da hierarquia somos ns. Bastava que entrasse mais outro
parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta
cujo Deus tivesse dito ??Tu reinars sobre as criaturas de todas as
outras estrelas??, para que todas a evidncia do Gnesis ficasse logo
posta em questo. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a
uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via 
Lctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela
que costumava comer e apresentasse (tarde de mais) as suas desculpas  vaca.
  Tereza l vai caminhando com o seu rebanho, l vai obrigando
as vitelas a seguirem  sua frente, l vai ralhando ora com uma, ora
com outra, porque as vaquinhas esto todas bem-dispostas e passam
o tempo a fugir do caminho para irem correr para os campos. Karenine tambm l 
vai caminhando. H mais de dois anos que vai todos os dias atrs dela para as 
pastagens. Costuma divertir-se imenso
a disciplinar as vitelas, a ladrar-lhes e a injuri-las (o seu deus

encarregou-o de reinar sobre as vacas e ele tem muito orgulho
nisso). Mas hoje, como tem uma ferida a sangrar numa pata, l vai
saltitando com grande dificuldade nas outras trs. De dois em dois
minutos, Tereza baixa-se para lhe fazer festas nas costas. Quinze
dias depois da operao,  cada vez mais evidente que o cancro no
foi irradiado e que Karenine no tem cura.
  A meio do caminho, encontram uma vizinha que vai para o estbulo, calada com 
as suas botas de borracha. A vizinha pra para
perguntar a Tereza: ?"O que  que o seu co tem? Parece que vai a
coxear!?? Tereza responde: ??Tem um cancro. S lhe resta muito
pouco tempo de vida??, e sente a garganta to apertada que mal
consegue falar. A vizinha apercebe-s das lgrimas de Tereza e pe-se quase a 
ralhar com ela: ??Santo Deus! No me diga que se vai
pr a chorar s por causa de um co!??  uma boa mulher. No o
disse por maldade, mas para tentar consolar Tereza. Tereza tem
conscincia disso e j vive h tempo suficiente na aldeia para saber
que, se os camponeses gostassem tanto dos seus coelhos como ela
gosta de Karenine, no matariam nenhum e no tardariam tambm
a morrer de fome rodeados de bichos por todos os lados. No entanto, sente o que 
a vizinha lhe disse como uma hostilidade. ??Eu sei??,
responde ela sem protestar, mas despede-se rapidamente e prossegue o seu 
caminho. Sente-se sozinha com o seu amor pelo seu co.
Pensa, com um sorriso melanclico, que tem de disfar-lo melhor
do que se tivesse de esconder uma infidelidade. Ter amor por um
co  uma coisa escandalosa. Se, em vez disso, a vizinha tivesse
sabido que andava a enganar Tomas, s teria recebido uma palmada
cmplice nas costas!
  Prossegue; portanto, caminho com as suas vitelas, que l vo
com os flancos a roar, e mais uma vez pensa com os seus botes
que aqueles bichos so realmente muito simpticos. Mansos, sem
malcia, s vezes de uma alegria pueril: s parecem cinquentonas
gordas a armarem-se s meninas de quatorze anos. Nada mais tocante do que vacas 
a brincar. Tereza olha para elas com ternura e
pensa ( uma ideia que a assalta irresistivelmente de h dois anos
para c) que a humanidade  um parasita da vaca, tal como a tnia
 um parasita do homem: est presa s suas tetas como uma sanguessuga. O homem  
um parasita da vaca - seria certamente a
definio que a zoologia de um no-homem daria do homem.

  Pode no ver-se nesta definio mais do que uma simples brincadeira, 
merecedora apenas de um sorriso de indulgncia. Mas se Tereza a levar a srio, 
arrisca-se a encetar uma queda vertiginosa:  um pensamento perigoso que pode 
afast-la da humanidade. J no
Gnesis, Deus encarregou os homens de reinar sobre os animais,
mas isso pode explicar-se dizendo que esse poder apenas foi emprestado. O homem 
no era o proprietrio, mas um simples gerente
do planeta; mais dia menos dia, teria de prestar contas pela sua
gesto. Descartes deu o passo decisivo: fez do homem ??dono e
senhor da natureza??. O que no deixa de ser uma coincidncia interessante  o 
facto de ser precisamente esse mesmo Descartes que
nega categoricamente que os animais tenham alma. O homem  proprietrio, e dono, 
enquanto, segundo Descartes, o animal no passa
  de um autmato, de uma ??machina animata??, ou seja, de uma m  quina 
animada. Quando o animal geme, no quer dizer que se queixe: s quer dizer que 
tem uma pea a ranger. Quando a roda de um
  carro de cavalos chia, isso no quer dizer que a charrete tenha uma
  dor:  s falta de leo. As queixas dos animais devem ser interpretadas da 
mesma maneira, e  perfeitamente estpido lamentar a
  sorte de um co dissecado em vida num laboratrio.
  Enquanto as vitelas pastam, Tereza senta-se num tronco e Karenine deita-se ao 
p dela, com a cabea poisada no seu colo. Tereza
lembra-se de uma notcia de duas linhas que vinha h uma dzia de
anos no jornal e que dizia que, numa certa cidade da Rssia, todos
os ces tinham sido abatidos. Tal notcia, discreta e aparentemente
insignificante, fizera-lhe sentir pela primeira vez todo o horror que
emanava desse vizinho desmesurado.
  Era uma simples antecipao de tudo quanto veio a acontecer
depois, porque nos dois anos a seguir  invaso ainda no podia
falar-se propriamente de terror. Como quase toda a nao estava
contra o regime de ocupao, os russos tinham de arranjar primeiro
homens novos a quem pudessem confiar o poder. Mas onde encontr-los, j que a f 
no comunismo e o amor pela Rssia eram letra
morta? Entre aqueles que nutriam dentro de si o desejo de vingar-se da vida. O 
que era preciso era consolidar essa agressividade,
aliment-la, mant-la em estado de alerta. Era preciso primeiro
trein-la contra um alvo provisrio. Esse alvo, foram os animais.
  Os jornais comearam a publicar artigos em srie e a organizar
campanhas concertadas sob a forma de .avalanches de cartas dos leitores. O que 
se exigia era, por exemplo, o extermnio dos pombos
nas cidades. E os pombos foram mesmo exterminados. Mas a campanha visava 
sobretudo os ces. O pas ainda estava traumatizado
com a catstrofe da ocupao, mas nos jornais, na rdio, na televiso, s se 
falava na falta de higiene dos passeios e dos jardins pblicos por causa dos 
ces, da ameaa que eles constituam para a sade
das crianas, s se dizia que eram animais sem utilidade nenhuma e
que, para cmulo, as pessoas ainda tinham de lhes dar de comer.
Fabricou-se uma autntica psicose, e Tereza chegou mesmo a temer
que a populaa, excitada, se virasse um dia contra Karenine. Um
ano depois, o dio acumulado (e que tinha sido primeiro experimentado nos 
animais) foi apontado para o seu verdadeiro alvo: o homem. Comearam os 
despedimentos, as prises e os processos. E,
finalmente, os animais puderam respirar, aliviados.
  Tereza acaricia a cabea de Karenine mansamente deitada no
seu colo. Faz mais ou menos o seguinte raciocnio: No h mrito
nenhum em portarmo-nos bem com os nossos semelhantes. Tereza 
forada a ser correcta com os outros habitantes da aldeia, porque
seno deixaria de poder l viver, e, at com o prprio Tomas, 
obrigada a portar-se como uma esposa desvelada porque ela precisa

dele. Ser sempre impossvel determinar com um mnimo de segurana em que medida 
 que as nossas relaes com outrem resultam
dos nossos sentimentos, do nosso amor, do nosso desamor, da nossa
benevolncia ou do nosso dio, e em que medida  que esto previamente 
condicionadas pelas relaes de foras existentes entre os
indivduos.
  A verdadeira bondade do homem s pode manifestar-se em toda
a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que no representam fora 
nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o
teste mais radical, aquele que por se situar a um nvel to profundo
nos escapa ao olhar) so as suas relaes com quem se encontra 
sua merc: isto , com os animais. E foi a que se deu o maior
fracasso do homem, o desaire fundamental que est na origem de
todos os outros.
  Uma vitela aproxima-se de Tereza, estaca ao p dela e fica a
observ-la demoradamente com os seus grandes olhos castanhos. Tereza conhece-a 
bem. Chama-lhe Margarida. Gostava de ter baptizado todas as vitelas, mas no 
conseguiu. No havia nomes que chegassem. H trinta anos, pelo menos, com 
certeza que ainda era
assim, com certeza que todas as vacas da aldeia tinham nome. (E se
o nome  sinal da alma, pode bem dizer-se, custe o que custar a
Descartes, que as vacas tinham alma.) Mas, depois, a aldeia tornou-se uma 
fbrica cooperativa e as vacas nunca mais saram, durante
toda a vida, dos seus dois metros quadrados de estbulo. Deixaram
de ter alma e passaram a no ser mais do que ??machinae animatae??. O mundo deu 
razo a Descartes.

  Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco,
a afagar a cabea de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade. Ao mesmo 
tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a
sair de um hotel de Turim. V um cocheiro a vergastar um cavalo.
Chega-se ao p do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraa-se  sua
cabea e desata a chorar.
  A cena passava-se em 1889 e Nietzsche, tambm ele, j se encontrava muito 
longe dos homens. Ou, por outras palavras, foi precisamente nesse momento que a 
sua doena mental se declarou. Mas, na
minha opinio,  justamente isso que reveste o seu gesto de um
profundo significado. Nietzsche foi pedir perdo por Descartes ao
cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divrcio da humanidade)
comea no instante em que se pe a chorar abraado ao cavalo.
  E  desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que
tem ao colo a cabea de um co mortalmente doente e que a afaga.
Ponho-os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da
estrada em que a humanidade, ??dona e senhora da natureza??, prossegue a sua 
marcha sempre em frente.

3


  Karenine dera  luz dois croissants e uma abelha. Olhava espantado para a sua 
estranha progenitura. Os croissants estavam quietos,
mas a abelha, toda tonta, titubeava; em breve levantou voo e desapareceu.
  Era um sonho que Tereza acabara de ter. Quando acordou, contou-o a Tomas e 
ambos o viram como uma consolao: o sonho
transformara a doena de Karenine em gravidez e o drama do parto
acabara de uma forma ao mesmo tempo cmica e enternecedora:
com dois croissants e uma abelha.
  Tereza voltou a sentir uma esperana absurda. Tambm na aldeia comeava o dia 
por ir s compras: ia  mercearia comprar leite,

po e croissants. Mas, nesse dia, quando chamou Karenine para ele
ir com ela, o co mal levantou a cabea. Era a primeira vez que se
recusava a participar na cerimnia que sempre reclamara tiranicamente.
  Portanto, foi-se embora sozinha. ??Onde est Karenine???, per?untou a 
vendedora que j tinha um croissant preparado para ele.
I desta vez, foi Tereza que trouxe o croissant no cabaz. Mal entrou
em casa, tirou-o para Karenine o ver. Queria que ele fosse busc-lo.
Mas Karenine ficou deitado sem se mexer.
  Tomas via como Tereza estava triste. Agarrou o croissant com a
boca e ps-se de gatas  frente de Karenine. Depois foi-se aproximando 
lentamente dele.
  Karenine olhava para ele, parecia acender-se-lhe nos olhos um
brilho de interesse, mas no se levantava. Tomas ps a cara ao p
do focinho dele. Sem mexer o corpo, o co apoderou-se com a boca
de um bocado de croissant que saa para fora da boca de Tomas.
Depois, Tomas largou o resto do croissant para Karenine ficar com
ele todo inteiro.
  Sempre de gatas, Tomas recua, encolhe-se sobre si prprio e
pe-se a rosnar. Finge que est a disputar o croissant. O co responde ao dono a 
rosnar. At que enfim! Era isso mesmo que eles esperavam! Karenine estava com 
vontade de brincar! Karenine ainda tinha gosto pela vida.
  Esse rosnar era o sorriso de Karenine e eles queriam fazer durar
esse sorriso tanto tempo quanto possvel. Tomas, sempre de gatas,
voltou a aproximar-se do co e agarrou com os dentes a extremidade do croissant 
que lhe saa para fora da boca. Como estavam muito
perto um do outro, Tomas aspirava o hlito do co e os plos muito
compridos que Karenine tinha  volta do focinho faziam-lhe ccegas
no rosto. O co voltou a rosnar e sacudiu o focinho. Ficou cada um
com metade do croissant presa nos dentes. Karenine voltou a cometer o mesmo erro 
de sempre. Largou a sua metade e quis apoderar-se do pedao que o dono tinha na 
boca. Como sempre, esqueceu-se
que Tomas no era um co e tinha mos. Tomas no largou o pedao de croissant 
que tinha na boca e apanhou a metade que estava
no cho.
  ??Tomas, no lhe tires o croissant.??., gritou Tereza.
  Tomas deixou cair as duas metades  frente de Karenine, que
engoliu uma rapidamente, mas conservou ostensivamente a outra
durante muito tempo na boca para mostrar aos dois donos, todo
vaidoso, que tinha ganho.
  Estes olhavam para ele e pensavam que Karenine estava a sorrir
e que, enquanto sorrisse, ainda tinha uma razo para viver.
  No dia seguinte, parecia melhor. Foram almoar. Era a altura
em que ambos tinham uma hora livre e costumavam levar o co a
dar um passeio. Karenine sabia disso e, alguns minutos antes,
punha-se a saltar  roda deles com um ar inquieto, mas, desta vez,
quando Tereza foi buscar a coleira e a trela, o co olhou demoradamente para 
eles e no se mexeu. Estavam especados  frente dele e
esforavam-se por parecer alegres (por causa dele e de propsito
para ele) a fim de lhe comunicarem um pouco da sua boa disposio. Passado um 
momento, como se tivesse tido pena deles, o co
aproximou-se a coxear nas trs patas e deixou que lhe pusessem a
coleira.
  c?Tereza, embora saiba que ests zangada com a mquina fotogrfica, por 
favor, tr-la hoje!??, pediu Tomas.

  Tereza obedeceu. Abriu um armrio onde a mquina devia estar

arrumada a um canto. Tomas voltou  carga: --Um dia, ainda havemos de sentir-nos 
muito contentes por ter estas fotografias. Karenine era uma parte da nossa vida.
  - Era'' ??, perguntou Tereza como se tivesse sido picada por uma
cobra. Tinha a mquina mesmo diante dos olhos, no fundo do armrio, mas no 
fazia um gesto para tir-la. --No quero pensar que
Karenine alguma vez possa deixar de estar aqui. Tu j falas dele no
passado!
  - No te zangues!, disse Tomas.
  - Eu no estou zangada, disse Tereza baixinho. Quantas vezes 
que eu tambm j dei por mim a pensar nele no passado! Quantas
vezes j me censurei a mim prpria por causa disso! Por isso  que
no vou levar a mquina.??
  Iam a caminhar pela estrada, sem falar. No falar era a nica
maneira de no pensar em Karenine no passado. No tiravam os
olhos de cima dele e estavam constantemente com ele. S estavam 
espera do momento em que ele comeasse a sorrir. Mas ele no
sorria; no fazia seno caminhar, sempre s com trs patas.
  <<S o faz por nossa causa. No tinha vontade nenhuma de sair.
S veio porque sabia que ns gostvamos??, disse Tereza.
  O que ela dizia era triste, mas, apesar disso e sem se darem
conta, eles eram felizes. Se eram felizes, no era apesar da tristeza,
mas graas  tristeza. Iam de mos dadas e ambos tinham a mesma
imagem diante dos olhos: um co que encarnava dez anos da sua
vida em comum.
  Ainda andaram mais um bocado. Depois, para sua grande desiluso, Karenine 
parou e deu meia volta. Tiveram de voltar para casa.
  Talvez ainda nesse dia, ou ento no dia seguinte, ao entrar sem
avisar no quarto de Tomas, Tereza reparou que ele estava a ler uma
carta. Quando ouviu bater a porta, meteu a carta no meio de outros
papis. Tereza percebeu. E tambm viu que ele, quando saiu do
quarto, escondeu uma carta na algibeira. Mas esqueceu-se do envelope. Quando se 
viu sozinha em casa, foi inspeccion-lo. A direco
estava escrita com uma caligrafia desconhecida, muito clara, e que
lhe pareceu tipicamente feminina.
  Mais tarde, quando voltou a v-lo, perguntou-lhe, como quem
no quer a coisa, se tinha havido correio.
  ??No??, disse Tomas, e Tereza sentiu-se invadir pelo desespero,
um desespero tanto mais cruel quanto j se tinha desabituado dele.
No, Tomas no podia encontrar-se s escondidas com uma mulher.
Era praticamente impossvel. Mas devia ter deixado em Praga uma
mulher em quem continuava a pensar, que era importante para ele e
que lamentava que agora j no pudesse deixar-lhe o cheiro do sexo
no cabelo. No receava que Tomas a deixasse por causa dessa
mulher, mas tinha a sensao que, corno dantes, a felicidade daqueles dois 
ltimos anos passados no campo estava aviltada pela mentira.
  Veio-lhe de novo  cabea uma ideia: a casa dela no era Tomas, mas Karenine. 
Quens daria corda ao relgio dos seus dias
quando ele j no estivesse presente?
  Tereza j se encontrava em pensamento no futuro, num futuro
sem Karenine, num futuro onde se sentia abandonada.
  Karenine encontra-se deitado, a gemer, a um canto. Tereza vai
ao jardim. Observa o estado da erva entre duas macieiras e decide
que Karenine h-de ser enterrado nesse stio. Traa um rectngulo
na erva com o salto do sapato.  o desenho da campa.
  ?"O que ests a fazer???, perguntou-lhe Tomas, que a apanhou
to inopinadamente como ela o apanhara a ele umas horas antes a
ler uma carta.
  No lhe respondeu. Tomas viu que ela tinha as mos a tremer;
j h muito tempo que isso no lhe acontecia. Agarrou-lhas. Ela

libertou-se.
  c? a campa de Karenine???
  No lhe respondeu.
  Tomas comeou a ficar irritado com o silncio dela. Explodiu:
--Censuraste-me por eu j estar a pensar nele no passado. E tu, o
que  que ests a fazer? J o queres enterrar!??
  Ela virou-lhe as costas e voltou para casa.
  Tomas foi para o quarto e bateu com a porta.
  Tereza abriu-a e disse: c?Era bem melhor que em vez de s
pensares em ti, tambm pensasses nele agora. Estava a dormir e tu
acordaste-o. Vai pr-se a gemer outra vez.??
  Tereza sabia que estava a ser injusta (o co no estava a
dormir), sabia que estava a comportar-se como uma mulherzinha
vulgar que quer magoar algum e sabe qual  a melhor maneira de
o fazer.
  Tomas entrou em bicos de ps no quarto onde Karenine estava
deitado. Mas ela no queria deix-lo sozinho com ele. Estavam ambos debruados 
sobre o co, cada um por seu lado. Esse movimento

comum no era um gesto de reconciliao. Bem pelo contrrio. Ambos estavam 
sozinhos. Tereza com o seu co. 'I?omas com o seu co.
  Tenho medo  que fiquem assim com ele at ao ltimo momento. os dois 
separados. os dois sozinhos.

4

  Por que  a palavra idlio uma palavra to importante para Tereza?
  Ns, que fomos educados na mitologia do Antigo Testamento,
podamos talvez dizer que o idlio  a imagem que nos ficou gravada
na lembrana como representao do Paraso. A vida no Paraso
no era uma caminhada sempre em linha recta para o desconhecido,
no era uma aventura. Movia-se em crculo, entre as coisas conhecidas. A sua 
monotonia no era tdio, mas felicidade.
  Enquanto viveu no campo, no meio da natureza, rodeado de animais domsticos, 
embalado pelas estaes e pela sua repetio, o
homem ainda tinha pelo menos um reflexo desse idlio paradisaco.
Assim, Tereza, no dia em que encontrou o presidente da cooperativa nas termas, 
viu desenhar-se  sua frente uma imagem do campo
(do campo onde nunca tinha vivido, que no conhecia) e ficou maravilhada com 
ela. Era como olhar para trs, era como olhar para o
Paraso.
  No Paraso, quando Ado se debruava nas fontes, ainda no
sabia que estava a ver a sua prpria imagem. No teria compreendido Tereza que, 
quando era pequena, se plantava diante do espelho
e se esforava por ver a alma atravs do corpo. Ado era como
Karenine. s vezes, para se divertir, Tereza punha-o  frente do
espelho. O co no reconhecia a imagem do espelho e olhava para
ela com um ar distrado, com uma indiferena incrvel.
  A comparao de Karenine com Ado leva-me a pensar que, no
Paraso, o homem ainda no era bem o homem. Para ser mais exacto: o homem ainda 
no se tinha lanado na trajectria do homem.
Pela nossa parte, h muito que estamos lanados nessa trajectria e

voamos no vazio de um tempo que corre sempre a direito. Mas
ainda existe em ns um fino cordo a ligar-nos ao longnquo Paraso
enevoado onde Ado se debruava sobre a fonte e, ao contrrio de
Narciso, no fazia a menor ideia de que a plida mancha amarela
que l via era a sua imagem. A nostalgia do Paraso  o desejo que

o homem tem de no ser homem.
  Quando Tereza era pequena e via os pensos higinicos da me
sujos de sangue menstrual, ficava cheia de nojo e detestava a me por
no ter sequer o pudor de escond-los. Mas Karenine, que era uma
cadela, tambm tinha menstruaes. Tinha uma de seis em seis meses,
durante quinze dias. Para ele no sujar a casa, Tereza punha-lhe um
grande bocado de algodo entre as pernas e vestia-lhe umas cuecas
velhas que lhe atava engenhosamente ao corpo com uma fita muito
comprida. Passava quinze dias divertida a v-lo com essa fatiota.
  Como explicar que as menstruaes de uma cadela despertassem
em si uma tal ternura, quando at pela sua prparia menstruao tinha
repugnncia? A resposta parece-me fcil:  que o co nunca foi expulso do 
Paraso. Karenine desconhece totalmente a dualidade do
corpo e da alma e no sabe o que  ter repugnncia. Por isso Tereza se sente to 
bem e to calma ao p dele. (E por isso  que  to
perigoso transformar o animal em mquina animada e tornar a vaca
um autmato de produzir leite: ao faz-lo, o homem est a cortar o
cordo que o ligava ao Paraso e a privar-se da nica coisa que
pode obrig-lo a parar e dar algum conforto ao seu voo atravs do
vazio do tempo. j
  Do caos confuso destas ideias, nasce no esprito de Tereza um
pensamento blasfemo de que no consegue livrar-se: o amor que a
une a Karenine  melhor do que o amor que existe entre ela e
Tomas. Melhor, e no maior. Tereza no quer culpar nenhum dos
dois, nem Tomas nem ela, no quer dizer que eles poderiam amar-se mais. 
Parece-lhe  que o casal humano foi criado de tal forma
que o amor do homem e da mulher  a priori de uma natureza
inferior quela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor 
entre o homem e o co, essa estranha coisa d histria
do homem que o Criador certamente no previu.
   um amor desinteressado: Tereza no quer nada de Karenine.
Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as
perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostar ele de
mim? J ter amado algum mais do que me ama a mim? Amar-me- mais do que eu o 
amo? Todas essas interrogaes que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, 
o inspeccionam, no se arriscaro a mat-lo na casca? Se somos incapazes de 
amar, talvez
  seja por desejarmos ser amados, ou seja, por querermos alguma coisa do outro 
(o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem
  reivindicaes e no querermos seno a sua simples presena.
  E ainda h mais uma coisa: Tereza aceitou Karenine tal e qual
como ele , no tentou modific-lo, deu a sua anuncia prvia ao
seu universo de co, no quer confiscar-lho, no tem cimes das
suas tendncias secretas. Se o educou, no foi com a inteno de
modific-lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher
e uma mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a
lngua elementar que havia de permitir-lhes compreenderem-se e viverem os dois 
juntos.
  E tambm: o seu amor pelo co  um amor voluntrio, ningum
a obrigou a isso. (Tereza pensa uma vez mais na me, e tem muita
pena dela: se a me fosse uma daquelas desconhecidas da aldeia,
talvez a sua jovial grosseria lhe parecesse simptica! Ah! se ao menos a me 
fosse uma estranha! Tereza sempre teve desde criana
uma grande vergonha por a me ter ocupado os traos do seu rosto
e confiscado o seu eu. E o pior  que o imperativo milenar que nos
manda amar pai e me a forava a aceitar essa ocupao, a chamar
amor a essa agresso! A me no  culpada de Tereza ter rompido
com ela. No rompeu com a me por ela ser como era, mas por ser

sua me. )
  Mas sobretudo: nenhum ser humano pode presentear outro com
um idlio. S o animal pode faz-lo porque no foi expulso do Paraso. O amor 
entre o homem e o co  idlico.  um amor sem
conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evoluo. Karenine ia traando em torno 
de Tereza e de Tomas o crculo da sua vida fundada
na repetio e tambm esperava o mesmo deles.
  Se, em vez de ser um co, Karenine fosse um ser humano, certamente que j 
teria dito a Tereza h muito tempo: ??Ouve l, j estou farto de vir todos os 
dias com um croissant na boca. No s
capaz de me arranjar outra coisa??? Nesta frase, encontra-se resumida toda a 
maldio do homem. O tempo humano no anda em crculo, mas avana em linha 
recta. Por isso o homem no pode ser
feliz: a felicidade  desejo de repetio.
  Sim,  verdade, a felicidade  desejo de repetio, pensa Tereza.
  Quando o presidente da cooperativa levava Mefistfeles a dar
uma volta depois do trabalho e encontrava Tereza, nunca se esquecia de dizer: 
??Senhora Dona Tereza! Se eu ao menos o tivesse
conhecido h mais tempo! Tnhamos andado os dois atrs das

mulheres! No h mulher que resista a dois porcos juntos!?? Ao ouvir estas 
palavras, o porquito soltava um grunhido, porque tinha sido
amestrado para isso. Tereza ria-se, embora j soubesse h mais de
um minuto aquilo que o presidente da cooperativa lhe ia dizer. A
repetio no tirava encanto nenhum  brincadeira. Pelo contrrio.
No contexto do idlio, o prprio humor obedece  doce lei da repetio.

5

  O co, que quando comparado com o homem no tem privilgios nenhuns, tem, no 
entanto, um que no  para desprezar: no seu
caso, a eutansia no  proibida por lei e o animal tem direito a
uma morte misericordiosa. Karenine s podia andar com trs patas e
passava cada vez mais tempo deitado a um canto. Gemia muito.
Tereza e Tomas estavam perfeitamente de acordo sobre uma coisa:
no tinham qualquer direito de deix-lo sofrer inutilmente. Mas este
acordo de princpio no poupava nenhum deles a uma incerteza angustiante. Como 
saber em que momento  que o sofrimento se
torna intil? Como determinar o momento em que estar vivo deixa
de valer a pena?
  Se ao menos Tomas no fosse mdico, ainda poderiam proteger-se com uma 
terceira pessoa. Ainda poderiam ir ter com o veterinrio e pedir-lhe para dar 
uma injeco ao co.
   to difcil assumirmos ns prprios o papel da morte! Tomas
rejeitara energicamente durante mui?o tempo a ideia de ser ele a
dar-lhe a injeco, dizendo que chamariam um veterinrio. Mas acabou por 
perceber?que, pelo menos, lhe poderia conceder um privilgio que nenhum ser 
humano pode ter: a morte disfarar-se-ia sob a
mscara daqueles que amava.
  Karenine passara a noite inteira a gemer. De manh, depois de
auscult-lo, Tomas disse a Tereza: <?No se deve esperar mais tempo.??
  Estavam ambos para ir trabalhar. Tereza foi buscar Karenine ao
quarto. At a, ele mantivera-se deitado na mais perfeita indiferena
(h pouco, nem sequer dera por Tomas enquanto este estava
a examin-lo), mas agora, ao ouvir o barulho da porta, levantou
a cabea e olhou para Tereza.

i Esta no pde suportar aquele olhar e quase teve medo dele.

; Nunca olhava para ningum dessa maneira, nem mesmo para Thomas. S para ela  
que olhava assim. Mas nunca com a intensidade
' com que o fazia hoje. No, no era um olhar desesperado ou triste.
  Era um olhar de uma arrepiante, de uma insustentvel credulidade.
  Aquele olhar era uma pergunta vida. Durante toda a vida, Karenine esperara 
que Tereza lhe respondesse e o que lhe dava agora a
  conhecer (ainda muito mais insistentemente do que dantes) era que
  continuava  espera de saber a verdade por seu intermdio (porque,
  para ele, o que lhe chega por intermdio de Tereza  sempre a
  verdade: os seus ??sentado!?? ou ??deitado!?? so verdades a que adere
  por inteiro e que do sentido  sua vida).
  Aquele olhar de uma arrepiante credulidade foi extremamente
  breve. O co voltou logo a poisar a cabea em cima das patas. Tereza
  tinha conscincia de que nunca mais ningum olharia para ela assim.
  Nunca lhe davam guloseimas, mas Tereza, h alguns dias, tinha
j ido comprar tablettes de chocolate. Tirou-lhes a prata, partiu-as em
j bocadinhos muito pequenos e p-los  volta dele. Ps tambm uma
  tijela com gua para que, durante as horas em que ia ficar sozinho
  em casa, no lhe faltasse nada. Mas ele parecia ter ficado extenuado
  com o olhar que poisara nela. Embora estivesse rodeado de bocados
  de chocolate, no voltou a levantar a cabea.
  Deitou-se no cho ao p dele e abraou-o. O co farejou-a mui  to devagar e 
lambeu-a uma ou duas vezes com um grande cansao.
  Recebeu a carcia de olhos fechados, --.?mo se quisesse ficar com ela
  gravada para sempre na memria. Virou a cara para ele lha lamber
  do outro lado.
  Depois. teve de ir tratar das vitelas. S voltou a casa a seguir ao
  almoo. Tomas ainda no tinha chegado. Karenine continuava deitado,
  todo rodeado de pedacinhos de chocolate, e j nem sequer levantou
  a cabea ao ouvir os passos de Tereza. Tinha a perna doente inchada
  e o tumor rebentara noutro stio. No meio dos plos, havia uma gota
  de um vermelho claro, que no parecia uma gota de sangue.
  Como ainda h pouco, deitou-se no cho encostada a ele. Passou-lhe um brao em 
torno do corpo e fechou os olhos. Depois,
  algum bateu com os dedos na porta. ??Senhor doutor, senhor doutor! Aqui tem 
o porco e o seu presidente!?? Sentia-se incapaz de
  falar fosse com quem fosse. No se mexeu e continuou de olhos
  fechados. Ainda se ouviu outra vez: ??Senhor doutor, os porcos vieram 
fazer-lhe uma visita!??, e depois tudo voltou a ficar silencioso.
  Tomas chegou meia hora mais tarde. Sem dizer palavra, foi  cozinha preparar a 
injeco. Quando voltou ao quarto, Tereza j
  estava de p e Karenine fez um esforo para se levantar. Quando
  viu Tomas, abanou levemente o rabo.
  ??Olha!, disse Tereza, ele ainda sorri!??
  Disse-o num tom de voz suplicante, como se estivesse a pedir
  um pequeno adiamento, mas no voltou a insistir nisso.
  Muito devagar, estendeu um lenol em cima da cama. Era um
  lenol banco, semeado de florzinhas cor de violeta. Alis, ela j
  tinha tudo preparado, j tinha pensado em tudo, como se tivesse
  andado a imaginar com vrios dias de antecedncia a morte de Karenine. (Ah! 
Que horror! Imaginamos com antecedncia a morte daqueles que amamos!)
  O co j no tinha foras para saltar para cima da cama.
  Pegaram-no ambos ao colo e levantaram-no. Tereza deitou-o de la  do e Tomas 
examinou-lhe a pata. Procurava um stio em que a veia
  fosse saliente e se visse com nitidez. Cortou os plos desse stio com
  a tesoura.
  Tereza estava ajoelhada aos ps da cama e segurava com as
  mos a cabea de Karenine,  qual tinha a cara encostada.

  Tomas pediu-lhe para apertar com toda a fora a pata de trs
  logo acima da veia, porque esta era fininha e a agulha custava a
  entrar. Segurou na pata de Karenine, mas no afastou a cara da
  cabea dele. No parava de lhe falar com uma voz muito doce e ele
  no pensava em mais nada seno nela. O co no estava com medo.
  Lambeu-lhe mais duas ou trs vezes a cara. E Tereza segredava-lhe:
??No tenhas medo, no tenhas medo, l j no te di nada, l vais
sonhar com esquilos e com lebres, e Mefistfeles tambm h-de l
estar, no tenhas medo...??
  Tomas enfiou a agulha na veia e pressionou o mbolo. A pata
de Karenine foi percorrida por um leve estremecimento, a respirao 
acelerou-se-lhe e depois parou de repente. Tereza continuava
ajoelhada no cho aos ps da cama, com o rosto apertado de encontro  sua 
cabea.
  Tiveram ambos de voltar para o trabalho e o co ficou deitado
em cima da cama, em cima do lenol branco com flores cor de violeta.
  Voltaram ao fim da tarde. Tomas foi ao jardim. Encontrou, entre duas 
macieiras, os quatro riscos do rectngulo que Tereza tinha
desenhado com o salto alguns dias antes. Ps-se a cavar. Observou
rigorosamente as dimenses indicadas. Queria que tudo se passasse
como Tereza desejava.

322

  Esta ficara em casa com Karenine. Tinha medo que o co ainda
  estivesse vivo quando fossem enterr-lo. Encostou-lhe o ouvido ao
  focinho e teve a impresso de sentir um leve sopro. Afastou-se dele
  e constatou que o peito ainda se mexia um bocadinho.
  (No, ela no ouviu seno a sua prpria respirao. Esta imprime um movimento 
imperceptvel ao seu prprio corpo, mas a ela
  parece-lhe que  o peito do co que est a mexer-se!)
  Achou um espelho na carteira e encostou-o ao nariz do co.
O espelho estava to sujo que lhe pareceu que tinha l ficado uma marca.
  ??Tomas, ele ainda est vivo!??, gritou, quando Tomas voltou do
jardim com os sapatos cheios de lama.
  O marido baixou-se e fez que no com a cabea.
  Um de cada lado, agarraram no lenol sobre o qual repousava
Karenine. Tereza, do lado das patas, Tomas, do lado da cabea.
Levantaram-no e levaram-no para o jardim.
  Tereza sentiu o lenol molhado nas mos. Quando veio, trouxe-nos um laguinho, 
agora que se vai, deixa-nos outro, pensou ela.
Estava contente por sentir debaixo dos dedos aquela humidade, o
ltimo adeus do seu co.
  Levaram-no para o p das macieiras e depuseram-no no fundo
da cova. Tereza debruou-se para arranjar o lenol de forma a tap-lo todo. No 
podia pensar que a terra que lhe iam deitar por cima
lhe casse em cima do corpo nu.
  Depois, foi a casa buscar a coleira, a trela e uma mo-cheia de
bocadinhos de chocolate, que desde a manh tinham ficado no cho,
intactos. Deitou tudo para dentro da cova.
  Ao lado, estava um monte de terra fresca. Tereza pegou na p.
  Tereza lembrava-se do sonho que tivera e no qual Karenine dava  luz dois 
croissants e uma abelha. Suttamente, estas palavras
pareciam-lhe um epitfio. Ps-se a imaginar um jazigo entre as macieiras, com a 
seguinte inscrio: ??Aqui jaz Karenine. Deu  luz
dois croissants e uma abelha.??
  No jardim, a penumbra ia-se adensando, de forma que j no
era dia e ainda no era noite; havia uma luz plida no cu, como

um candeeiro que tivesse ficado esquecido no quarto dos mortos.
  Tinham ambos os sapatos cheios de terra e tornaram a pr a p
e a enxada no alpendre, ao p dos restantes utenslios: ancinhos,
picaretas e sachos.

6

  Estava sentado  mesa do quarto, que era onde costumava
instalar-se para ler. Quando Tereza vinha ter com ele, aproximava-se por detrs, 
debruava-se e apertava os seus dois rostos um contra o outro. Ao faz-lo, nesse 
dia, viu que Tomas no estava a ler
um livro. Tinha uma carta diante de si. Embora s l houvesse umas
cinco linhas dactilografadas, se tanto, Tomas olhava fixamente para
ela e nem desviou o olhar quando se apercebeu da presena de Tereza.
  ??O que ???, perguntou ela, angustiada.
  Sem se voltar, Tomas pegou na carta e deu-lha. Dizia que, nesse
mesmo dia, tinha de ir ter ao aerdromo da cidade mais prxima.
  Quando acabou finalmente por voltar-se para Tereza, esta leu-lhe nos olhos o 
mesmo pavor que tambm ela acabara de sentir.
  ?? Vou contigo??, disse ela.
  Tomas fez que no com a cabea: ??S me mandam ir a mim.??
  Tereza voltou a repetir: ??No, eu tambm vou contigo.?? Subiram para o 
camio e, alguns momentos depois, chegavam ao campo
de aviao. Havia nevoeiro. As silhuetas dos avies mal se divisavam. 
Percorreram-nos todos, mas as portas de todos aqueles avies
estavam fechadas, no havia maneira de l entrar. Acabaram por
encontrar um com a porta da frente aberta e uma escada encostada.
Subiram dois ou trs degraus e,  porta, apareceu um steward que
lhes fez sinal para continuarem. Era um avio pequeno, de uns trinta lugares, 
completamente vazio. Sempre agarrados um ao outro,
avanaram pelo corredor, sem prestarem grande ateno ao que se
passava  sua volta. Sentaram-se um ao lado do outro e Tereza
encostou a cabea ao ombro de Tomas. O horror inicial dissipava-se
e transformava-se em tristeza.

  O horror  um choque, um instante de absoluta cegueira.
O horror  totalmente desprovido de beleza. No se v seno a luz
violenta do acontecimento desconhecido que se espera. A tristeza,
pelo contrrio, implica que se saiba. Tomas e Tereza sabiam o que
os esperava. O claro do horror tinha-se encoberto e o mundo agora aparecia a 
uma luz azulada e suave, que tornava as coisas mais
belas do que antes.
  No momento em que lera a carta, Tereza no sentira amor por
Tomas. S pensara que no devia deix-lo, um s segundo que
fosse: o horror abafa todos os outros sentimentos, todas as outras
sensaes. Agora, abraada a ele (o avio voava por entre as nuvens), o pavor 
passara e j podia sentir o amor que lhe tinha e
sabia que aquele era um amor sem limites e sem medida.
  O avio acabou finalmente por aterrar. Levantaram-se e dirigiram-se para a 
porta que o steward abrira. Sempre enlaados pela
cintura, encontravam-se no alto da escada. Em baixo, estavam trs
homens com carapuos na cabea e espingardas na mo. Era perfeitamente intil 
hesitar porque no havia escapatria possvel. Desceram muito devagar e, quando 
puseram o p na pista, um dos homens levantou a espingarda e fez pontaria. No 
se ouviu nenhuma
detonao, mas Tereza sentiu que Tomas, que um segundo antes se
encostava a ela e lhe enlaava a cintura, j no se aguentava nas
pernas.

  Quis mant-lo encostado a si, mas no conseguiu. Tomas caiu
em plena pista de cimento. Baixou-se. Queria deitar-se por cima
dele, cobri-lo com o seu prprio corpo, mas algo de muito estranho
aconteceu ento: o corpo de Tomas comeou a encolher a toda a
velocidade debaixo dos seus olhos. Era um espectculo to incrvel
que ficou como que petrificada no mesmo stio. O corpo de Tomas
cada vez encolhia mais, no se parecia j nada com Tomas, s restava uma 
coisinha minscula, e essa coisinha nfima comeou a mexer-se e depois a correr 
e a fugir pelo campo de aviao fora.
  O homem que tinha disparado tirou a mscara e sorriu para Tereza com um ar 
afvel. Depois, virou-se e lanou-se em perseguio
daquela coisinha minscula que corria para ali e para acol como se
quisesse evitar algum e procurasse desesperadamente um abrigo.
Andaram assim atrs um do outro durante alguns instantes, depois o
homem atirou-se bruscamente ao cho e a perseguio acabou.
  O homem levantou-se e veio ter com Tereza. Trazia-lhe a coisinha nas mos. A 
coisinha tremia de medo. Era uma lebre. Deu-a a
Tereza. Ento, o pavor e a tristeza desapareceram e ela ficou
contente por ter aquele animalzinho ao colo, aquele animalzinho
que era dela e que ela pedia apertar contra o corpo. Desfez-se em
lgrimas de felicidade. Chorava, no conseguia parar de chorar, as
lgrimas no a deixavam ver nada, e levava a lebre para casa
pensando que j estava quase mesmo no fim, que estava onde queria estar, no 
stio de onde j no se pode escapar.
  Seguiu caminho pelas ruas de Praga e deu facilmente com a sua
casa. Vivera l com os pais quando era pequena. Nem o pai nem a
me j l viviam. Foi recebida por dois velhotes que nunca tinha
visto, mas ela sabia que eram o seu bisav e a sua bisav. Ambos
tinham a cara enrugada como a casca de uma rvore e Tereza
sentia-se contente por viver com eles. Mas, por agora, queria estar
sozinha com o seu animalzinho. Achou sem dificuldade o quarto onde dormira a 
partir dos cinco anos de idade, quando os pais tinham
decidido que ela merecia ter um quarto s para ela.
  O quarto estava mobilado com um div, uma mesinha e uma
cadeira. Havia um candeeiro aceso em cima da mesa,  sua espera
h todo aquele tempo. E em cima do candeeiro estava poisada uma
borboleta de asas abertas e enfeitadas com dois grandes olhos pintados. Tereza 
sabia que estava a chegar ao fim. Deitou-se no div e
apertou a lebre contra o rosto.

7


  Estava sentado  mesa onde se instalava sempre para ler. Tinha
diante de si um sobrescrito aberto e uma carta. Disse para Tereza:
??De tempos a tempos, tenha recebido umas cartas de que no tencionava 
falar-te. So do meu filho. Sempre fiz tudo para evitar qualquer contacto entre 
a vida dele e a minha. E olha como o destino
se vingou de mim. H uns anos, expulsaram-no da faculdade. Agora
 motorista de tractor numa aldeia. A verdade  que, embora no
haja qualquer contacto entre as nossas vidas, elas vo as duas lado a
lado na mesma direco como rectas paralelas.
  ?"E por que  que no tencionavas falar-me dessas cartas?
perguntou Tereza, profundamente aliviada.
  - No sei. No me apetecia.
  - Ele escreve-te muitas vezes?
  - De tempos a tempos.
  - E para te falar de qu?

  - Dele.
  - E diz coisas interessantes?
  - Diz. Como tu sabes, a me era uma comunista feroz. Deixou
de dar-se com ela h muito tempo. Ligou-se a pessoas que tinham
uma situao igual  nossa e que tentavam exercer uma actividade
poltica. Alguns foram presos. Mas tambm se pegou com eles. Distanciou-se. 
Trata-os de `eternos revolucionrios.
  - Espero bem que no se tenha reconciliado com o regime...
  - No, nem pensar nisso. Agora acredita em Deus e pensa que
isso  a soluo para todos os problemas. Segundo ele, devemos  ir
vivendo a vida de todos os dias conforme manda a religio e no
ligar ao regime. Devemos ignor-lo. Segundo ele, se acreditarmos em Deus, somos 
capazes de instaurar atravs da nossa conduta,
e seja l bem onde for, aquilo a que ele chama o `reino de Deus
sobre a Terra'. Diz-me que a Igreja  a nica associao voluntria que h no 
nosso pas, e tambm a nica que escapa ao controlo do Estado. O que eu gostava 
de saber  se ele  religioso
s para resistir ao regime ou se, de facto, acredita mesmo em
Deus.
  - Ento porque  que no lhe perguntas???
  Tomas prosseguiu: ??Sempre admirei as pessoas que acreditam
em Deus. Achava que tinham o dom estranho de uma percepo
para-sensorial que a mim me  negada. Um pouco como os videntes. Mas agora, com 
o exemplo do meu filho, percebo que no 
difcil acreditar. Quando se viu em dificuldades, os catlicos tomaram conta 
dele e assim, de um momento para o outro, descobriu a
f em Deus. Talvez tenha sido a gratido que o levou a decidir-se.
As decises humanas so assustadoramente fceis de tomar.
  - Nunca lhe respondeste?
  - No tenho a direco dele. Ele no ma mandou.??
  Depois acrescentou: ??Claro que o carimbo do correio tem o nome da terra. 
Bastava mandar a carta para a cooperativa.??
  Tereza sentia-se envergonhada das suspeitas que tivera e queria
reparar o erro com uma sbita demonstrao de generosidade para
com o filho dele. ??Ento porque  que tu no lhe escreves? Porque
 que no lhe dizes para vir visitar-nos?
  -  que ele  muito parecido comigo. A falar, faz exactamente
o mesmo que eu com o lbio de cima. Acho um bocado esquisito
ver a minha prpria boca a falar do reino de Deus...??
  Tereza desatou a rir.
  Tomas tambm..
  Tereza exclamou: ?"Tomas, no sejas criana!  uma histria to
antiga! Essa tua histria com a tua primeira mulher... O que  que
ele tem a ver com isso? L por teres mau gosto quando eras novo,
ainda  preciso que haja algum a sofrer com isso?
  - Para dizer a verdade, s de pensar no encontro, fico logo
nervoso.  sobretudo por causa disso que no me apetece v-lo.
No consigo perceber porque  que fui to teimoso. Um belo dia,
sem saber muito bem como, toma-se uma deciso, e depois essa
deciso ganha a sua inrcia prpria. Cada ano que passa  um bocadinho mais 
difcil mud-la.
  - Diz-lhe para vir fazer-nos uma visita!??, disse ela.
   tarde, ao voltar do estbulo, ainda vinha na estrada e j ouvia

  vozes. Quando chegou ao p de casa. viu o camio. Tomas estava a
  mudar uma roda, todo debruado para a frente.  sua v?lta,
  formara-se um pequeno grupo de gente a ver,  espera que Tomas
  acabasse a reparao.

  Tereza ficou parada, sem conseguir tirar os olhos dele. Parecia  -lhe velho. 
Tinha os cabelos grisalhos e a dificuldade com que se
  desembaraava do caso no era aquela falta de jeito desculpvel
  num mdico convertido em motorista de camio, mas a que  pr  paria de algum 
que j no  novo.
  Lembrava-se de uma conversa que tivera h pouco tempo com o
  presidente. Este dissera-lhe que o camio de Tomas estava num estado 
miservel. No estava de forma nenhuma a queixar-se. Dissera  -o em jeito de 
brincadeira, mas, mesmo assim, andava preocupado
  com aquilo. ??Tomas conhece melhor o corpo humano do que as
  peas do motor??, disse ele. Depois, contou-lhe em segredo que j
  tentara vrias vezes convencer a administrao a deix-lo exercer
  medicina na regio. Tinham-lhe respondido que a polcia nunca autorizaria tal 
coisa.
  Escondeu-se atrs de uma rvore para os outros homens no darem por ela, mas 
no tirava os olhos dele. Estava cheia de remorsos. Por sua causa  que ele 
deixara Zurique e voltara para Praga.
  Por sua causa  que ele deixara Praga. E, mesmo ali, ainda continuava a 
atorment-lo, mesmo com Karenine a morrer, ainda fora
  capaz de tortur-lo com as suas suspeitas inconfessveis.
  Sempre censurara Tomas em pensamento por no gostar suficientemente dela. O 
seu amor, esse sim, estava acima de toda e
  qualquer suspeita, mas o dele nunca passara de uma simples condescendncia.
  Apercebia-se agora de como tinha sido injusta: se realmente lhe
  tivesse um grande amor, teria ficado com ele no estrangeiro! L, ele
  era feliz e tinha uma vida nova diante de si! Mas ela, ela deixara-o,
  ela viera-se embora!  claro que se convencera que estava a praticar um acto 
de generosidade, que s se vinha embora por no querer ser um peso para ele! Mas 
seria essa sua generosidade mais do
' que um subterfgio? Na realidade, ela bem sabia que ele havia de
  voltar, que havia de vir ter com ela! Chamara por ele, arrastara-o
  consigo cada vez mais para baixo, como as fadas atraem os camponeses para as 
turfeiras e l os deixam morrer afogados. Aproveitara
  um momento em que o apanhara com dores de estmago para
  arrancar-lhe a promessa de que iriam viver para o campo! Como
  fora manhosa! Fora-o sempre atraindo atrs de si, sempre para p-lo  prova, 
sempre para se assegurar do seu amor, e fora-o atraindo sempre at ali, at ao 
estado em que o v agora: grisalho e
cansado, com os dedos meio mutilados, dedos que nunca mais podero pegar num 
bisturi.
  Tinham os dois chegado ao fim. Para onde poderiam agora ir-se
embora? Para o estrangeiro? Nunca lhes dariam autorizao. Para
Praga? Ningum lhes daria emprego. Para outra aldeia qualquer?
Mas a que propsito?
  Santo Deus! Tinha sido mesmo necessrio chegarem ali para ter
a certeza de que ele a amava!
  Tomas acabou finalmente por conseguir montar a roda. Os homens saltaram para a 
parte de trs do camio e o motor comeou a
roncar.
  Entrou em casa e foi tomar banho. Estava deitada na gua a
escaldar e pensava que toda a vida se servira da sua prpria fraqueza contra 
Tomas. Todos temos tendncia para culpar a fora e ver
na fraqueza uma vtima inocente. Mas, Tereza dava-se agora bem
conta disso, no caso deles era precisamente o contrrio! At os seus
prprios sonhos, como se adivinhassem qual era a nica fraqueza
daquele homem forte, lhe ofereciam o espectculo do sofrimento de
Tereza para for-lo a recuar! A fraqueza de Tereza era uma fraqueza agressiva 
perante a qual ele fora sempre obrigado a capitular,

sempre at ao momento em que deixara de ser forte e se metamorfoseara ao seu 
colo uma lebre. Passava o tempo a pensar nesse
sonho.
  Saiu da banheira e foi buscar um vestido de toilette. Queria
vestir o seu fato mais bonito para lhe agradar, para lhe dar prazer.
  Acabara de abotoar o ltimo boto quando Tomas irrompeu ruidosamente pela casa 
dentro, seguido pelo presidente da cooperativa
e por um campons novo, visivelmente plido.
  ??Depressa!, gritou Tomas. Traz aguardente, traz qualquer coisa
bem forte!??
  A correr, Tereza foi buscar uma garrafa de aguardente de ameixa. Encheu um 
copo e o rapaz esvaziou-o de um trago.
  Entretanto, explicaram-lhe o que tinha acontecido: o rapaz estava a trabalhar 
e deslocara o ombro. Uivava de dor. Ningum sabia
o que fazer. Tinham chamado Tomas que, com um simples gesto,
lhe tinha voltado a pr o brao no stio certo.
  O rapaz engoliu o segundo copo e disse para Tomas:
  ??A tua mulher est bestialmente bonita hoje!

I -  meu grande idiota, exclamou o presidente, a D. Tereza 
  sempre bonita!
  - Eu bem sei que ela  bonita, disse o rapaz, mas hoje ainda
  est mais bonita do que o costume. Ps, um vestido todo elegante.
  A gente nunca a tinha visto com ele. Vo fazer alguma visita?
  - No. Vesti-me assim s por causa do Tomas.
  - Tu s mesmo um homem de sorte,  doutor!, exclamou o presidente. Havia de 
ser a minha patroa que havia de se pr toda fina
  s para me agradar!...
  - Por isso  que quem tu trazes  rua  o porco e no a tua
  mulher, disse o rapaz, que riu durante um bom bocado.
  - Por onde  que andar o Mefistfeles?, perguntou Tomas. J
  no lhe ponho a vista em cima pelo menos h... (e fingiu que estava
  a pensar) uma boa hora!
  - Est farto de me aturar, respondeu o presidente.
  - Com esse vestido to bonito, s me est a dar vontade de ir
  danar contigo, disse o rapaz para Tereza.  doutor, tu deixa-la
  danar comigo?
  - Vamos todos danar, disse Tereza.
  - Tambm vem?, perguntou-lhe o rapaz.
  - Mas onde  que havemos de ir??>, perguntou Tomas.
  O rapaz disse que numa terra das redondezas havia um bar e
  uma pista de baile num hotel.
  ??Tu tambm vens connosco??, disse o rapaz para o presidente,
  num tom que no admitia qualquer rplica, e como j ia no terceiro
  copo de aguardente, acrescentou: ??E se o Mefistfeles ficar chateado, tambm 
vem connosco!  a maneira de levarmos dois porcos!
I As midas vo todas cair para o lado quando virem chegar dois
  porcos! ?? E voltou a rir s gargalhadas.
  <<Se o Mefistfeles no vos incomodar, eu tambm vou com vo  cs??, disse o 
presidente, e subiram todos para o camio de Tomas.
  Tomas sentou-se ao volante, Tereza a seu lado e os outros dois
' homens saltaram para a parte de trs, com meia garrafa de aguar  dente. J 
estavam fora da aldeia quando o presidente reparou que
  tinham esquecido Mefistfeles em casa. Deu um berro a Tomas para
  este dar meia volta.
  ??No vale a pena, um porco basta??, disse o rapaz, e o presidente 
acalmou-se.
  O dia declinava. A estrada subia em ziguezague.

  Chegaram  cidade e estacionaram  frente do hotel. Tereza e
  Tomas nunca l tinham ido. Descia-se por uma escada para a cave, onde havia um 
balco, uma pista e algumas mesas. Um sexagenrio
tocava num piano vertical e uma senhora da mesma idade tocava
violino. Tocavam msicas de h quarenta anos. Havia quatro ou
cinco pares a danar.
  O rapaz percorreu a sala toda com o olhar. c?No h uma nica
boa para mim!??, exclamou, e convidou imediatamente Tereza para
danar.
  O presidente sentou-se com Tomas numa das mesas livres e
mandou vir uma garrafa de vinho.
  ?"Eu no posso beber. Vou a guiar!, protestou Tomas.
  - E depois?, perguntou o presidente. Vamos passar c a noite.
Vou mandar guardar dois quartos.??
  Quando Tereza voltou mais o rapaz, foi a vez do presidente ir
danar com ela; s depois  que, finalmente, foi danar com Tomas.
  Enquanto danavam, disse-lhe: ??Eu  que fui culpada de todo o
mal que te aconteceu na vida, Tomas. Foi por minha causa que
vieste para aqui. Fui eu que te fiz descer to baixo que j no h
stio para onde irmos.
  - Deixa-te de disparates, replicou Tomas. Em primeiro lugar, o
que  que isso quer dizer, to baixo?
  - Se tivssemos ficado em Zurique, podias continuar a operar
os teus doentes.
  - E tu, tu podias continuar a fazer fotografia.
  - No h comparao possvel!, exclamou Tereza. Para ti, o teu
trabalho era a coisa mais importante do mundo. A mim, a mim
tanto se me d fazer isto como aquilo. Eu no perdi nada. Tu  que
perdeste tudo.
  - Tereza, disse Tomas, mas tu ainda no reparaste que eu sou
feliz aqui`."
  - Mas operar era a tua verdadeira misso!
  - Misso, qual mi?so? Misso  uma palavra parva. Eu no
tenho misso nenhuma. Ningum tem misso nenhuma. E  um alvio enorme uma 
pessoa perceber que  livre, que no tem misso
nenhuma.??
  A maneira como o dizia no deixava pairar qualquer dvida
sobre a sua sinceridade. Tereza voltou a rever a cena de ainda h
pouco: ele a arranjar o camio e ela a ach-lo velho. Tinha chegado
onde queria chegar. Sempre desejara que ele fosse velho. Pensou
mais uma vez na lebre que estreitava contra a cara no seu quarto de
criana.
  O que significa algum transformar-se em lebre? Significa que se

esquece a fora que se tem. Significa que, da em diante, teriam to
pouca fora um como o outro.
  De c para l, iam desenhando os passos da dana ao som do
violino e do piano; Tereza tinha a cabea poisada no seu ombro.
Como no avio que os levava aos dois atravs da bruma. Sentia a
mesma estranha felicidade, a mesma estranha tristeza. A tristeza
queria dizer: estamos na ltima paragem. A felicidade queria dizer:
estamos os dois juntos. A tristeza era a forma, e a felicidade era o
contedo. A felicidade preenchia o espao da tristeza.
  Voltaram para a mesa. Ela ainda danou duas ou trs vezes com
o presidente e uma vez com o rapaz, j to bbado que tropeou e
caiu por cima dela.
  Depois subiram os quatro para os quartos.
  Tomas fez girar a chave na fechadura e acendeu o lustre. Tereza

viu duas camas encostadas uma  outra e, ao lado de uma delas,
uma mesinha-de-cabeceira com um candeeiro. Assustada com a luz,
uma enorme borboleta nocturna levantou voo do abar jour e comeou a rodopiar 
pelo quarto. De baixo, vinha o som abafado do violino e do piano.

  Milan Kundera nasceu em 1929, em Brno. na Checoslovquia. A sua
juventude , pois, atravessada pela guerra e pelo corolrio histrico
imediato que, para o seu pais. constituiu a instalao do regime comunista. 
Enquanto jovem estudante  expulso da Universidade e torna-se. sucessivamente, 
operrio e pianista de um grupo musical. Comea
entretanto a escrever e, em 1962, conclui o seu primeiro romance intitulado La 
Plaisanterie, que. editado em 1967. conhece um imediato
sucesso na Checoslovquia, onde ter ainda a oportunidade de dar 
estampa outro livro, Risibles Amours. A invaso militar do seu pais
em 1968 vir, contudo. alterar radicalmente o seu destino pessoal: demitido do 
Instituto de Altos Estudos Cinematogrficos de Praga, impedido de continuar a 
publicar, v ainda os seus livros retirados das
bibliotecas e o seu prprio nome eliminado da lista telefnica. Tendo,
entretanto, comeado a ser traduzido,  publicado em Frana La Vie
est Ailleurs, pais onde, em 1973. vem receber o Prmio Medicis e
onde se instalar definitivamente em 1975. A partir 'de ento, a primeira verso 
publicada dos seus livros ser sempre em lngua francesa. Em 1978, a Itlia 
atribui-lhe o Prmio Modelo para o livro
La Valse aux Adieux. Aquando da publicao de Le Livre du
Rire et de l'Oubli, ao qual ser concedido, em 1981, o prmio
norte-americano Common Weolth Award. -lhe retirada a nacionalidade checa. Em 
1981, juntamente com o escritor Julio Cortazar, -lhe
concedida pelo Presidente Franois Mitterrand a nacionalidade francesa. Em 1982, 
recebe, pelo conjunto da sua obra, o Prmio Europa-Literatura e, no ano 
seguinte, a Universidade de Michigan f-lo
doutor honoris causa. Em 1984 publica L'Insoutenable Lgret de
l'tre.

  Como todas as biografias. esta corre o risco do kitsch. Em primeiro
lugar, e se estas forem as palavras que restarem sobre Kundera, estamos
melancolicamente a subscrever o final da sexta parte desta Insustentvel
Leveza do Ser, a obrigar o Autor  paragem imprescindvel na ? estao
de correspondncia entre o ser e o esquecimento. Mas, graas a Deus,
como os nomes das restantes estaes ou apeadeiros aqui semeados so
ttulos de outros livros, sempre podemos confiar na possibilidade de no
nos limitarmos a escrever aqui um epitfio e convidarmos o leitor a embarcar 
noutros comboios...
  De qualquer forma, sob este ponto de vista, o kitsch kunderiano 
perfeitamente semelhante a todo aquele que pode ser fabricado em torno
de qualquer outro escritor. O que, porm, nem todos partilham  o risco
de um segundo tipo de kitsch: o da desgraa politica, o da perca da
ptria. o do exlio em terra alheia - e todos sabemos perfeitamente que
a mola para o sucesso de muita obra mediocre reside, de facto, no prazer que 
catadupas de multides vo saboreando ao verterem aquela segunda lgrima que diz 
-que coisa bonita, comovermo-nos como toda a
humanidade se deveria comover com o talento deste exilado politico (ou
pretinho, ou ceguinho, ou estropiado da guerra)!H. Como se o condimento do 
exlio (ou da desgraa, ou da moda, ou da nossa prpria ignorncia), como se o 
que  intrinsecamente alheio e distinto da literatura
tornassem o talento mais saboroso.? Kundera corre, alis, este risco num
momento particularmente propicio. Ou no fosse a Frana o pais onde
mais se tem desenvolvido e, portanto, de onde irradia com mais fora o
discurso antitotalitrio de esquerda, com todo o seu impressionante cortejo

de incertezas e verdades simplistas, acessveis ao maior nmero de pessoas
possvel e capazes de provocar uma boa secreo lacrimal colectiva"...
  UtiliZando, como utilizei at aqui. conceitos e definies extradas do
livro que o leitor tem entre as mos, gostaria de chamar a sua ateno
para um aspecto peculiar da obra de Kundera:  que analisando, equacionando, 
compreendendo os mecanismos que fazem funcionar a vida politica tanto no Leste 
como no Ocidente, o Autor rria, romo se a melhor
defesa fosse o ataque e o segredo estivesse no poder de antecipao, um
espao de liberdade para si e para o leitor enquanto indivduos.  assim
que, num estado j bem adiantado do romance, o leitor pode perceber
que as armadilhas em que julgou ter visto Kundera cair se revelaram
realmente as armadilhas que este armou e em que, finalmente. o prprio
leitor caiu. Esta no , com toda a certeza, a nica ocasio em que o
presente livro nos faz lembrar um dilogo platnico - s que o interlocutor de 
Scrates , neste caso, qaem !.
Assim, a tentativa de Kundera ser a de nos dizer que. para l das

aparncias, para l de todo o kitsch politico que o leitor pode pela
milsima vez ler nos jornais de hoje mesmo, o seu verdadeiro terreno  o
da literatura, o seu pais  o romance, o seu continente literrio  toda a
Europa. E, talvez isso sim, o estatuto europeu deste romance seja uma
das chaves do seu enorme sucesso - exlio, se o h,  o de um europeu
dentro do corao da prpria Europa.


  Um dos encantos maiores deste romance , com toda a certeza, a
facilidade e a amabilidade com que, abundantemente, o prprio texto nos
fornece as chaves para a sua leitura, como se,  primeira vista, a atitude do 
narrador fosse a de nos dizer: ?Cartas na mesa, o jogo est todo
 mostra, estas so as regras. u Se o leitor, porm, subitamente iluminado pela 
posse de uma dessas pistas, comear a segui-la, tentando rebater
a espessura do conjunto na linearidade de um caminho, cedo deparar
com a impossibilidade da sua tarefa pela resistncia que o todo lhe oferece: ou 
seja, h sempre qualquer coisa que sobra, qualquer coisa que
no encaixa no nosso belo edifcio monocromtico. Desta forma,  como
se o fio de Ariana no servisse seno para desdobrar outra vez o labirinto, como 
se a porta abrisse invariavelmente sobre outra porta, como se,
em frente do espelho, houvesse sempre outro espelho, como se para jogar este 
jogo fosse necessrio saber intuitivamente um nmero infinito de
regras. S nos resta, pois, ter sempre presente que, ao contrrio do que
 possvel em geometria, ao contrrio daquilo que se faz em lgica ou
em cincia, este volume no se deixa rebater numa superfcie, este
pensamento no  redutvel ao desenvolvimento duma axiomtica ou s
equaes de uma teoria. Jogando com a imaginao, a afectividade, o
sentido de humor, a percepo da beleza. a memria e, claro est, a
inteligncia, este livro diz-nos que s uma ateno global e uma atitude
de expectativa ao mesmo tempo mltipla e progressivamente integrante
(ou seja, o sentido quer do instante, quer do destino humano) sero
adequadas  forma de conhecimento de que aqui se trata. Assim, em
finais do sculo XX, numa Europa que h vrios decnios tenta auscultar
no sangue novo das Amricas do Norte e do Sul a esperana na continuidade de um 
gnero literrio com o qual se vem debatendo em vo no
enredo das complicaes formais e filosficas, eis um livro que, descaradamente, 
se vem reclamar de uma forma de conhecimento especifica.
  Mas esta descoberta que aqui se d da irredutibilidade do, se podemos assim 
chamar-lhe, conhecimento romanesco ao conhecimento cientifico ou filosfico no 
 sentida como um defeito, como imperfeio ou

como falta. Ao afirmar-se, como que se constitui num gesto que simultaneamente 
institui e proclama uma tradio e um futuro. A demarcao, por dentro, dos 
limites do romanesco aparece assim como condio de
ultrapassagem da crise de contaminao do romance pela disciplina, seja
ela cientifica, filosfica, lingustica ou moral.


  Como falar ento deste romance seno tentando, ao faz-lo. ser capaZ de um 
exerccio de multiplicidade que s traia a sua multiplicidade
intrnseca na medida em que  uma multiplicao?
  Tentando talvez desfolhar-lhe as histrias. Eis a primeira, a da sua
~aventura?: por volta de 1962, Tomas, um neurocirurgio checo no casa dos 
trinta, divorciado, com um filho de cerca de dez anos que renunciou a ver, 
encontra Tereza, muito prxima dos vinte, e apaixona-se por
ela. A descoberta e o compromisso do amor perturbam-lhe o sistema de
vida: homem s, com mltiplas ligaes erticas (entre as quais se conta
Sabina, uma pintora ligeiramente mais nova do que ele), sente pela primeira veZ. 
no obstante ser pai, o que  ser-se companhia de algum.
Percebendo como igualmente essenciais para a manuteno do seu equilbrio vital 
a sua poligamia e a monogamia de Tereza, casa-se com ela,
mas conserva o seu antigo sistema de vida. Para Tereza, filha no querida... 
etc., etc., etc. O resto sabe o leitor. Gostaria apenas de convid-lo
a que tentasse apurar a que ponto foi incitado, quase como que provocado a 
reconstruir intelectualmente um ,fo cronolgico, a imaginar rostos,
corpos, cidades, quadros, sonhos e noites, a sentir o amor e o dio, a
guerra e a paZ, a vida e a morte. Ou seja, quase sozinho, com uma
pequena ajuda de Kundera, a construir um romance .?tradicional". 
que. de facto, com uma extrema economia de meios pictricos e descritivos, o 
autor deposita uma enorme confiana na inteligncia, na afectividade, na 
imaginao e, sobretudo, no sentido de humor de quem o l.
  De qualquer forma, fomos lendo, fomos vibrando como adolescentes
(e depois? e depois?) e s chegados ao fim demos uma ordem ao destino
de cada uma das personagens. Pasollinni dizia que a montagem estava
para um filme como a morte estava para uma vida. A possibilidade do
romanesco: apaixonarmo-nos por ele, por essas criaturas imaginrias
com a mesma paixo com que vivemos o fio do tempo (ao contrrio do
que acontece no mundo fsico, aqui a paixo no  a do previsvel mas a
do imprevisvel). E, ao mesmo tempo. partilhamos a sorte de Deus
(conhecemos os variadissimos sentidos de um destino e amamo-lo em cada instante) 
e o azar dos homens (damos um nica sentido a um destino
e camos na tentao de escrever epitfios).
  Mas  tempo de passar a outra histria, cruzada com a primeira.
Tomas e Tereza, Sabina e Franz so os nomes de dois pares amorosos,
nomes de dois enganos emblemticos para uma questo: o que so um

para o outro? O que  a sua relao? Uma sucesso de mal-entendidos
que se pode desfolhar sucintamente como um dicionrio ou, mais vagarosamente, 
como um desencontro de dirios intimos? A este nvel, a ambiguidade cresce e 
podemos at pensar que. da primeira  ltima pgina,
se trata de um trocar de posies: Tereza descobre, no fim, o que Tomas
j sabe desde o principio, ou seja, que o amor s ganha o aspecto da
necessidade e da evidncia na estrita medida da sua contingncia. gratuitidade e 
futilidade. Mas ser que Tomas o sabe? Assim, talvez no haja
na sucesso das pginas, captulos, partes deste livro outro progresso
que no seja o de uma busca do complexo, do mltiplo, do diverso.
  E quem so as verdadeiras personagens do romance? Sabina, Franz,
Tereza, Tomas, ou o encontro de Teresa com Tomas (umas vezes necessidade, outras 
acaso), o mito de dipo (umas vezes criana na cesta e
amor, outras vezes homem na cidade, outras vezes o filho que conhece o

pai mas que este no reconhece como filho), o chapu de coco do av
de Sabina, Beethoven e outros que tais? Umas vezes uns, umas vezes
outros: tambm aqui a descoberta  a da complexificao de sentido. Ta!
como um cesto, tal como um pano, este livro  entretecido em diversas
direces e, por isso, pode funcionar como uma daquelas figuras igualmente 
pregnantes, ora perj! de pessoo, ora taa. E, em ltima anlise,
os fios da malha no sero ora de Kundera. ora do leitor? E, em ltima
anlise, o perf l que se recorta no ser ora o nosso, ora o de Kundera?
  Uma outra histria: a Histria. Todo o enredo pode ser visto em
torno (sete anos antes, sete anos depois) de um acontecimento: a invaso
da Checoslovquia em I %8. Os seus protagonistas chamam-se S., T. ou
K., podem ser checos, portugueses, franceses ou russos, podem viver em
Praga, em Lisboa, em Paris ou em Moscovo. A condio indispensve! 
viverem no sculo Xx numa Europa ameaada por dentro naquilo que ela
sempre teve de melhor: precisamente S., T. ou K., o nome prprio, o
individuo, o diverso. No que a histria da Europa no seja uma sucesso de 
horrores e de regimes politicos criminosos, no que cada um de
ns no traga em si a vontade de uniformizar os outros com a mscara
do nosso prprio rosto. S que nunca como hoje essa vontade pde ser
erguida to efirazmente a principio regulador de um pais, de um continente, de 
um mundo, esse monstruoso campo de concentrao de que
aqui se fala. Por isso, a histria deste livro  precisamente a histria de
um exilio, to neressrio aqui como no Leste - mesmo yue o albergue
seja um tempo que nunca existiu mas que se foi constituindo e cuja imensa 
capacidade de abrigo e resistncia resida na forma como cada um
cumpre a sua diversidade. Deste ponto de vista, Kundera exila-se tanto
como Tomas ou como cada um de ns na resistncia  massificao.

  Outra histria ainda: um belo dia, o narrador descobre que a melhor
forma de no abofar em mesmidade  dar asas  sua caparidade de
multiplicao. Desdobra-se, duplica-se, triplira-se, multiplica-se por sete
e a cada m destes heternimos d um nome: Tomas. Tereza. Sabino,
Franz, Simo, Marie-Claude e Morie-Anne. Cada um deles  uma espcie de emblema 
para o evoluir das diversas configuraes possiveis de
uma consteloo de problemas: necessidade e contingncia, fidelidade e
traio, realidade e sonho, corpo e alma, peso e leveza, uno e mltiplo,
fora e fraqueza. Cada um deles viver o tempo da tenso entre vrios
plos: Tomas, o tempo de chegar a essa necessidade de contingncia que
se chama liberdade, Tereza  fora da sua fraqueza,  suprema fidelidade infiel 
a si prpria que se rhama amor ou demncia. Sabina ao peso
insuportve! da leveza do nada, Franz  grandeza da pequenez da sua
Grande Marcha.
  Mas este narrador tambm  um jogador: por exemplo, quando diz:
~O amor pode nascer de uma nica metforau, sabe que, se a partir
desse momento, Tereza seduziu Tomas, ele, por sua vez, seduziu o seu
leitor.  um brinralho: Sabina no ser Tomas e Tereza no ser
Franz? O filho de Tomas no ser Tereza e no Simo que tambm
Sabina no pode amar como flho, ta! como no pde amar Franz? Ou
seja. Simo-Franz-Terezo no desempenharo fundamentalmente o terceiro papel 
perante um par de pais, Sabina e Tomas?
  Depois,  matreiro romo Tereza: por um lado descobre que, afinal, o
que parecia  sempre outra coisa (ento o livro ecoaria indefinidamente),
foz-nos ao mesmo tempo acreditar que as suas personagens so meros
artificios para, pginas adiante, se pr a adivinh-las, a sond-las. a
duvidar se as percebe inteiramente.
  Finalmente, tambm  ele que vai fornecendo as pistas para uma
teoria: a deste romance. Por ele ficamos a saber que a vida  composta
como uma partitura musical; este livro , de facto, escrito como uma

partitura musical, com as suas melodias, os seus ritmos, as suas harmonias, 
temas, desenvolvimentos de temas, recuperao de temas /o prprio
indice  uma forma ABCBACB; tem sete partes como as sete notas de
msica; os temas so interpretados por diversos instrumentos, sujeitos a
diversas transposies). S que se tivssemos de a filiar nalguma poca
da histria da msica, esta sinfonia seria decididamente contempornea,
obederendo aos principios de uma espcie de esttica da assimetria (Tomas e a 
mulher-cegonha): os nmeros primos das panes, os seus diversos estilos, entre os 
quais se contam no poucas reminiscncias doutros
estilos (desde o conto de fadas da vida da me de Tereza  metamorfose
de Kafka e ao melanclico ltimo capitulo de Tereza em grande plano),

a inquietao. Porque aquela felicidade da repetio de Tereza, hoje,
tem forosamente como tendncia e pano de fundo uma esttica do
kitsch;  preciso no esquecer que, hoje, a msica no pode j recortar-se sobre 
o silncio, porque o ruido se infiltrou mesmo em toda a parte.
Ou seja,  uma sinfonia s vezes bela por engano.
  Se, minuciosamente, fssemos recolhendo os diversos indicios. penso
que, da aplicao de principios estticos bebidos na poesia (como se, ta!
como na msica ou na matemtica, a harmonia dos astros comeasse na
estrutura dos tomos), no teatro, na pintura. no tcnica cinematogrfica,
e. alis, na prpria histria do romance, poderiamos dizer que este
narrador, de facto, nos prope o romance como Grande Arte, como Arte
Total ou, fazendo-lhe assim o gosto ao dedo, Stima Ane.
  Daqui podemos, ponanto. voltar ao principio: a essa tal forma de
conhecimento que nos mobiliza na totalidade.


  E evidente que este meu texto faz ainda parte deste romance.  evidente que o 
romance que cada um faz deste romance  ainda parte dele,
ou antes,  evidente que este romance se multiplicar tantas vezes quantos os 
leitores que tiver, tantas vezes quantos os ~rios semnticosH a que
se juntar. Mas no no sentido autobiogrfico (para isso, h outros enredos mais 
propicios, h outras tradies igualmente odmissiveis e honradasJ, porque este 
livro parece radicar-se muito longe na histria literria, precisamente ai onde 
um dilogo fisosfico se podia ainda ler como
um romance. Ta! como os dilogos platnicos, este livro  autognstico:
de um leitor, de um autor, de um sujeito constituido de certa forma,
inclusivamente em certa intersubjectividade.
  Comecei por falar de Plato e a ele volto agora: no com rigor, no
com tcnicas de interpretao, mas porque me lembro da sua teoria do
homem como misto, nem pura forma nem puro caos, nem puro Um nem
puro Mltiplo. Diverso. Mas com saudades de ambos (e dai a vertigem
do kitsch e tambm a insuportabilidade da condio do filho de Estaline). E, 
mais para trs, Empdocles e os seus quatro elementos misturados. Mas, a 
propsito de Tereza, no nos diz precisamente o narrador
que ns as perguntas mais ingnuas so realmente perguntas importantes?.? A 
pergunta de Empdocles, ~o que  um Um? o que  o Mltiplo?u, no ser uma 
delas, no ser uma daquelas ?para as quois no
h resposta, que marcam os limites das possibilidades humanas e traam
as fronteiras da nossa existnciay?
  , pois, neste ?meioy, entre o Um e o Mltiplo, que se trato de
pensar o compfexo, de o dizer sob a fonna de uma humana criatura.
Uma das nostalgias deste livro, uma das nostalgias de Tereza  a do ser
no perturbado pela complexidade: a no duafidade entre corpo e alma,
a no dualidade entre si e o mundo, a eterna repetio do Mesmo (os
animais, Ado antes do pecado origina!). S que esse  tambm o reino
do silncio : inarticulado. A instaurao da palavra ,  partida, e desde

logo, a da possibilidade do simples e do complexo, do um e do mltiplo,
do mesmo e do diverso, numa espcie de movimento perptuo entre o
silncio informe e a pura forma de um silncio absoluto, como se, surgida de um 
continuo indivisivel, a palavra se recortasse efemeramente em
unidades disrretas em direco a um ponto sem dimenses.
  O que ai se joga n a condio humana, nessa insustentvel leveza
do ser, nesse terreno propicio entre todos para dizer de um Ado que,
tendo acordado entre o Paraiso e a Terra Prometida. fala, fala e sempre
se interroga. Com uma assimetria terrivel em relao  Grcia pr-socrtica. Se 
nesta a indefinio de estilos correspondia  pujana de um
ser nascente, a grandiosa sinfonia de estilos que  este livro talvez no.

FIM DO LIVRO.
